Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Enchia a boca para falar a verdade.

A idade, os defeitos.
Tinha a palavra na ponta da língua. Era comum em seu alfabeto.
– Eu não minto – dizia, conservadora entre seu ritual de acreditar na verdade, quando tocou a pele dela, entre os olhos fechados e a boca.
Calou-se diante da verdade. Nunca havia sentido esse toque.
Mas mentiu quando disse que não tinha medo de se perder dentro dessa textura.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Plural Editora
*imagem: Pinterest

Divã · O lado de dentro

Exato

Exato
De fato,
o corpo briga,
a vontade chega.

Retrato,
de 3×4
na semana inteira.

Me cato,
restos de pratos na minha cabeceira.

Passei a noite deliciando sonhos…
Exato.

Meu pensamento te trouxe até aqui,
barato,
amor e vinho, uma música em mim.

Extrato
de essência pura,
de uma flor madura,
diria, se não fosse indizível,
eu diria sim…

Saberia
o gosto doce que provoca em mim.

Recato,
olhos pra mãos e penso em tato.
Chego a sentir o amor no ato
e fim

Mariana Gouveia –
Poema do livro O Lado de Dentro – Scenarium Plural Editora
*fotografia: Manel García

Corredores, Codinome Locura

grafite

já não sei começar ansiosa
o voo inacabado do sonho
já não sei escrever o teu nome
nas esquinas impacientes da espera
já não sei afirmar o desejo
em frases pelos muros
(pichei os meus, os da vizinhança toda, do bairro, da cidade)
fui pega com a lata de tinta da mão.
grafitei
grafitei sonhos de esperas e momentos em que minha timidez
me deixa sem palavras
passou o tempo
do tempo parado
num poema cansado de te esperar
eu queria qualquer reação,
o menor movimento
que me desse o leve toque de que o teu nome escrito simplesmente
passa a ser poema.
a ser o que era. Meu
e assim, seguir em frente
escrevendo nos muros
a mesma canção
Grafitei a palavra saudade
e ela se chama você.


Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

como se o voo do pássaro pousasse

 

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos
e tu abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse
como se achasse a ilha, meu ninho

seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse
sobre os sonhos de tua cabeça
e suas asas delirantes
fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim
na tua mão, eu, semente florindo desejos

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu
da tua boca. 

 

Mariana Gouveia

* imagem: Cheong-ah Hwang

das coisas breves

Contradições


e se dizia chão
a ave voava
ganhava céu
.

e se dizia nuvens
o sol surgia
despontava queimante pros lados do leste
.

e se dizia sol
ah, atrevimento da chuva
caia em gotas e escorria peito abaixo
descobria onde desaguar
.

Tão cheia de contradições
já não é mais
.

quando devia ser

Mariana Gouveia
*imagem: Zhana Topchieva

das coisas breves

Acreditava nas coisas miúdas que transitavam em seu mundo.

Não sabia como pronunciar a palavra fé, apenas vivia-a na plenitude do ser.
Às vezes, acontecia coisas gigantes dentro em seu lugar e a isto chamava de milagre.
Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes.

O anel – por medo de perdê-lo – embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio cabe no dedo dentro das vontades…
Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos.
Deixava por último a reza da sorte.

Mariana Gouveia
*Imagem: Tumblr

Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.


Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Katia Chausheva

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

A solidão na astrologia das coisas.

Ph: Julija Jankelaityte

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Scenarium Livros Artesanais
Eclipse – pág. 51

Divã

Inquietação pelas borboletas

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Mira Nedyalkova

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

No Cais Outra Vez

 

O barco de papel ancorado no canto
da mesa da cozinha.
Um envelope a espera da resposta.
A tarde deixando o dia e levando o sol
para navegar outros mares.

Saudades.
A alma ultrapassa a porta
e vai em busca do oceano…
A nado

Sete luas
Mariana Gouveia – No cais outra vez
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Freepic