Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #11 – A mutação: O Ninho que a Gente Inventa.

O seu texto me fez olhar para as paredes ao meu redor com outros olhos. Há uma poesia nômade e muito bonita nessa sua vocação para ser adotada pelos lugares, em vez de possuí-los. Nem todo mundo tem a coragem de habitar o provisório com tanta entrega. As suas palavras me levam sempre para o lugar de voyeur.

Enquanto você percorre as rachaduras dos casarões antigos como quem lê um mapa de vidas passadas, eu fico a pensar no seu “corpo-pele”. Talvez o seu verdadeiro lar não seja feito de tijolos, ferro ou portões, mas sim das palavras que você escolhe para erguer os tetos das suas histórias. Você migra como os pássaros porque sua estrutura é feita de vento e de tramas. É como ser sabedora de que o espaço é seu. Basta senti-lo.

Fiquei curiosa com o seu desfecho. Se os seus personagens são mais exigentes com as próprias casas, deve ser porque eles sabem que dependem da sua arquitetura interna para ganhar vida. Alguns dos seus personagens rondam minha vida desde que os conheci através dos livros e das histórias que você conta. Eles moram em mim, em cômodos provisórios que inventei para acolhê-los. Alexandra, por sinal, tem lugar cativo aqui, em cada canto meu, seja da alma, da vida, ou do quintal. Até mesmo na cidadezinha provinciana onde cresci.

No fim das contas, talvez a escrita seja a única coisa capaz de nos dar um teto definitivo, mesmo quando insistimos em voar. Quanto as exigências dos seus personagens, acho que, no fundo, eles aprenderam com você a arte de ocupar espaços provisórios na alma da gente. E, assim como você, decidiram ficar para o café. Ou quem sabe, para morar.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #10 – A Mutação: O que dói deixar de ser?

Bambina mia,

Ao ler sua missiva em um desses dias em que o tempo parece insistir em olhar para trás, foi como ver um filme sobre minha infância. Assim como você roubava os biscoitos da nonna – e mais uma vez nossas histórias se cruzarem como se fossem cúmplices me fez sorrir – eu também ajudava meus irmãos a roubar os biscoitos, que ficavam em latas no lugar mais alto da prateleira e sabendo disso, minha mãe dividia vários biscoitos em latas para sempre termos biscoitos.

Também tive mesa cheia em agostos passados e os domingos eram uma algazarra para quem teve seis irmãos. Acho que nunca vou esquecer o sabor da macarronada com queijo de minha mãe, os causos do meu pai e os vizinhos que se juntavam a nós. Aqueles dias pareciam que iam durar para sempre. O melhor vestido, o caderno de poesia para declamar, o queijo derretido em cima do prato esmaltado e as conversas atropelando todo mundo num converseiro sem fim.

A história do seu primo que se tornou um especialista em passos me tocou de perto. Afinal, mudar de caminho exige a coragem exata de se desmanchar por dentro. Dói deixar de ser o que os outros esperam de nós — engenheiros, psicanalistas, ou qualquer molde rígido em que tentaram nos encaixar. Você trocou a psicanálise pelo universo ficcional e eu, agradeço o universo por isso. A gente nem sabia, mas essa sua escolha lá atrás foi o que nos levou a nos encontrarmos tempos depois e nossos passos se encaixarem nos caminhos. A gente nem imagina o quanto de nós fica nas rotas e o que o universo nos reserva durante esse caminhar.

Hoje, meus domingos são feitos de silêncios e canções. Em alguns, eu fico sozinha – e adoro isso – e confesso que a mesa ainda parece pequena, às vezes, para tantas memórias. Prefiro a quietude dos dias que são apenas meus, onde o único ruído em alguns dias é o farfalhar das folhas e o canto das aves pelo quintal.

Às vezes, a solidão escolhida também é uma forma de preservação. Às vezes, o que dói deixar de ser é apenas o cenário que já não nos cabe mais. Quando é assim, o melhor jeito é nos cuidarmos.

Cuidar de si, em silêncio, também é um banquete.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura

BEDA #8 – Casulo: O barulho que mora no silêncio

Não acontece muito o silêncio por aqui… Os pássaros ativaram o modo cantoria logo cedo. Vim caminhar no quintal e lembrei de minha mãe. Ela era silenciosa e muitas vezes só fazia o hum… Carregava o silêncio como herança; possuía uma quietude que descobri depois em alguns tios e tias. Isso a gente não escolhe, recebe dos que vieram antes de nós, como um código secreto impresso nos ossos. Tuo nonno, equilibrista de passos lentos no quintal, me lembra de como a vida exige que a gente aprenda a caminhar tateando os riscos do chão para não desabar. Ele era o mestre do silêncio. Você deve ter recebido isso como herança, imagino.

Eu cantarolo volta e meia, converso só ou com as coisas. Yoshi volta busca o ouvinte de minhas falas e abana o rabinho curto como quem não entendeu nada. Minhas coisas também são barulhentas. Ouvi um chiado peculiar de quando a borboleta sai do casulo enquanto eu cavoucava a terra para o plantio de sementes. Achei bonito tamanha suavidade e o milagre mais bonito do recolhimento. Eu também me reconheço nessas sombras que anoitecem pelos cantos do corpo, nesses dias em que a alma dobra de tamanho e a palavra precisa ser tateada no escuro da gaveta, longe dos olhos apressados.

Aqui, neste inverno cuiabano que não refresca a pele, as memórias também se misturam na fumaça seca de agosto. Não reclamo do calor. Não sou do frio, como você sabe. O que incomoda é a secura e a falta de umidade, típica desse tempo. O relógio deste lugar continua seu tique-taque indiferente, e eu guardo os meus apetrechos de jardim para seguir a rotina do dia. A farfalla – como você diz – está quase pronta para voar e viver sua semana de vida. O ciclo do casulo se encerra e a mutação nos aguarda.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #7 – Casulo: O tempo que mora nos livros

Ler seu texto foi como abrir, eu também, um baú de silêncios guardados. Enquanto a moça do tempo prevê o retorno do frio para os seus lados, por aqui o vento de agosto continua a levantar a poeira seca do quintal quando varro as folhas, exigindo essa paciência mansa que só a lentidão das estações nos ensina a ter. Há dias em que os pés se recusam a caminhar pelo mundo lá fora porque o verdadeiro movimento está acontecendo do lado de dentro, no avesso das horas.

Comovi-me com a sua lembrança de Ana Luísa Amaral. Você tem toda razão: poetas não morrem, eles apenas mudam de ilha. Deixam as páginas amarelecidas como portos seguros para os nossos próprios barcos de papel. Esse desencontro cronológico de que você fala — estar sempre adiantada ou atrasada para os compromissos — é, na verdade, a prova de que a sua escrita habita o tempo da delicadeza, e não o tique-taque rígido dos relógios comuns.

O Universo – ah, o universo – sabe o que faz ao cruzar os mapas dos iguais, dos que se acolhem-escolhem. Receber um livro sem dedicatórias, preenchido apenas com a música pura dos versos, é o excesso mais perfeito da generosidade. É o texto bastando a si mesmo. Também tenho os meus “ontens” guardados em páginas que folheio devagar, sentindo o peso do que foi e o eco do que permanece. É preciso recuar, fechar as frestas e silenciar para conseguir segurar um cuore nas mãos sem que ele se quebre. Mas devo confessar que as dedicatórias nos Lua de Papel, com sua caligrafia ainda me emociona.

Que a sua Lua de Papel continue a iluminar as noites deste inverno esquisito. Beba o seu café sem pressa. Eu sigo daqui, no meu canto, tateando minhas próprias sementes e sabendo que, na poesia, nunca estamos realmente sós ou atrasadas. Sempre nos encontramos no meio do caminho ou numa esquina qualquer.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA #6 | Projeto Fotográfico 6 on 6: Ponto de Vista – Pequenos nós impossíveis de desatar.

Bambina mia,

Olhar para o tema que você propôs para este Agosto me fez desacelerar o passo no meio do jardim. Há pequenos nós impossíveis de desatar que não nascem para ser amarras ou prisões, mas casulos onde a vida se enrola antes de ganhar asas. Olhar para essa curva perfeita do caule é ver o tempo se concentrando em si mesmo, esperando o momento exato em que até a delicadeza de uma borboleta decide pousar e testemunhar o que parece não ter fim. Há pontos de vista que já nasce poesia.

Sabe, bambina, sei que existem dias em que os nós não apenas barram o nosso caminho; eles nos envolvem e nos moldam por inteiro. Há qualquer coisa de muito visceral em perceber como ficamos, às vezes, encurraladas nas dobras que o tempo dá. Olhar para essa pequena joaninha guardada dentro da curva exata da gavinha é tatear o ponto de vista de quem aprendeu a habitar os próprios apertos, tentando decifrar se o laço nos protege ou nos aprisiona.

Nesses momentos de impasse, a engenharia da natureza nos desafia com sua gravidade e vertigem. Viver e escrever também é isso: ver a vida se enroscar de forma tão compacta quanto uma mola verde, nos deixando de ponta-cabeça diante do mundo. Resta-nos segurar firme na última curva e, feito esse pequeno besouro, encarar o abismo refletindo a luz com o nosso melhor brilho dourado.

Felizmente, há nós que, em vez de nos prender ao chão, nos suspendem contra o azul infinito. Quando tiramos os nossos impasses da sombra dos pensamentos e os deixamos dourar ao sol, a atmosfera muda de figura. O horizonte ao fundo se revela limpo, amplo e sem barreiras, mostrando que estar atada a uma linha não nos impede de encarar a imensidão do dia com as asas prontas para o voo.

No fim das contas, descobrimos que os nós mais difíceis de desatar são aqueles que escolhem o formato exato de um coração para habitar. São os nós que nascem do afeto, do cuidado e das nossas memórias. Eles seguram o peso do mundo em forma de uma gota transparente — uma lágrima suspensa no meio do jardim —, mas não paralisam; eles apenas abraçam e protegem o que está prestes a florescer.

Por isso, bambina, acho que os nós impossíveis são os ganchos exatos onde a nossa escrita e a nossa amizade se ancoram. Veja como esse aperto verde encontrou o seu espelho perfeito em duas asas que se abrem juntas, em uma simetria linda de cumplicidade. Que a gente continue assim, dividindo o mesmo pouso e os mesmos temas complexos, ocupando os espaços fechados sem pressa de desatar, transformando cada laço no nosso horizonte mais bonito.

Bacio,
Mariana.

Participam comigo nesse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Literatura · Lunna Guedes

BEDA #5 – Casulo: Onde deságuam as palavras

O céu amanhece estranho. As nuvens se aglomeram como se fosse chover, mas a moça do tempo me tirou a esperança. O tempo seco predomina em meu lugar. Fiquei pensando em como você entende e veste a poesia. Eu, uma escrevinhadora de linhas – como você mesma disse – não sei dizer como um verso surge. Mesmo porque o verso não nasce de uma fórmula; ele é o próprio desassossego que escorre pela ponta dos dedos quando a realidade lá fora se torna quente e seca demais para ser suportada em silêncio. Tecemos nossas próprias paredes com o que nos sobra dos dias: um fiapo de luz na cozinha, o cochilo do Yoshi, o eco de um trovão que passou sem chover e a teia que a aranha tecelã coseu na grama do quintal.

Como você traça a rota de alguns dos meus poemas já sabe que eles surgem como as borboletas por aqui, rompendo o invólucro de surpresa, sangrando as asas para conseguir voar antes que a tarde caia. Sou essa criatura comum ao dobrar a esquina, é verdade, mas os meus olhos traçam rotas no inverso de mim. Escrevo para desatar os nós que a vida-lida aperta na garganta, transformando o grito represado em fresta de vento. Isso, por si só, já é poesia. E às vezes, o verso cai no colo através de uma frase, de um personagem que atravessa as ruas de cima. Uma frase dita em tom de brincadeira nas mensagens que trocamos.

Se a poesia é para ser lida em pequenos goles, que o meu texto seja igual a xícara de chá que você oferece ao longo da manhã. O instante para mim, é poético e fico aspirando sabores e tocando as ervas daqui para combinar com seus sabores por aí.

Olho para Alejandra, Emily e Cecília e nelas também encontro o mapa imaginário desse nosso andar compartilhado. Não sei se somos divinas ou profanas, mas enquanto você toma o seu chá e busca fôlego no quintal, eu sigo daqui, misturando as linhas e separando as cores, tecendo desenho com agulha – e isso também não deixa de ser poesia – oferecendo a minha voz para que os teus silêncios encontrem abrigo.

Acredito que nem eu, Rozana e Anna Clara poderíamos cravar a certeza de como surge um verso. Cada uma traçaria uma linha diferente da outra. O verso, afinal, é só isso: o outro lado do espelho onde a gente finalmente se reconhece. Mas para entender tudo isso, você já tem o mapa.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura

BEDA #4 – Casulo: O silêncio que o fio não alcança

Sua implicância com os telefones me fez sorrir diante da tela desse smartphone que, por ironia, nos conecta enquanto enfrento os mais de trinta graus que o inverno de Cuiabá insiste em manter por aqui. Compreendo perfeitamente o nonno: há invenções que parecem rasgar o tempo sagrado das coisas. O som estridente daquela campainha antiga invadindo o casarão soa quase como uma profanação perto do bater solene do carrilhão, o verdadeiro cuore da casa. Uma casa precisa de batimentos, não de sobressaltos.

Eu demorei para ter um telefone e o primeiro, segundo meu filho, era da idade da pedra. O telefone da rádio para mim, na época era o mais legal. O que trazia pedidos de músicas e notícias mundo afora. O fio que trazia a notícia do mundo, era o mesmo que falava sobre as partidas de alguém que a gente amava, era também o que aprisionava a urgência. O tintilar da ficha caindo do outro lado quando o aparelho chegava aos ouvidos tinha o som de alguém que me ouvia pelas ondas do rádio. A vida antiga tinha outra velocidade; as dores e as alegrias viajavam devagar, no lombo dos cavalos, bicicleta ou no balanço dos vagões, carimbadas por selos e envelopes. Havia um tempo justo para digerir a saudade entre a escrita e a resposta. Hoje, a pressa nos rouba o direito ao recolhimento. E há os que se incomodam quando não respondemos na hora em que recebemos a mensagem.

Acho que também fujo dos diálogos longos. Quando a tagarelice alheia ameaça o meu silêncio, eu me recolho para dentro do casulo. Dou três voltas no quintal, ajeito uma planta, observo a lentidão do Yoshi, e seus passos cada vez mais curtos. O silêncio acontecendo e sendo interrompido apenas pelo toque da mensagem e por falar em mensagem, gosto de ouvir o som digitalizado do sapinho que você escolheu para as tuas. É como se eu estivesse perto. No meu, o som é Surrender, de Laura Pausini que amo.

Desativar o som é uma maneira de comandar a vida e esperar a hora certa para a resposta. É escolher a própria órbita. Enquanto o mundo corre lá fora atrás de notificações imediatas, eu sigo aqui, blindando o meu canto e preferindo a calmaria dos papéis que esperam pelo tempo certo de serem lidos. Meu pai já dizia que desligar o mundo é o primeiro passo para conseguir ouvir o próprio coração.

Que assim seja!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #3 – Casulo: Das sombras que nos abrigam

Bambina mia,

Sua missiva me encontrou em silêncio, tentando decifrar o mistério dessa escuridão que você chama de abrigo. Não há estranheza alguma em culpar Patti – olha só minha intimidades! Às vezes, os livros têm esse poder de nos desestabilizar e nos empurrar para dentro de cenários que preferíamos esquecer ou silenciar no fundo do casulo.

Suas trinta e seis exposições em preto e branco me fizeram pensar no que escolhemos registrar e no que deixamos esquecido em rolos de filme nunca revelados. Eu, que carrego os olhos atentos da fotografia, entendo o seu desconforto com os túmulos. São caixas de concreto feitas para reter o corpo, enquanto o casulo — esse sim — é feito para gestar a alma. A morte, essa senhora honesta que você evocou, talvez seja apenas a última metamorfose, o romper definitivo da crisálida. Acho que lido bem com ela também.

Mas são as suas bibliotecas empoeiradas e as livrarias esquecidas que me tocam de perto. Você sabe o quanto gosto delas. Desde as mais simples e isso me leva para minha infância, até as enormes, como a Mário de Andrade. Sabê-la sendo disputada por traças dói como ver um ninho abandonado no inverno. Foi nela que Cadeados Abertos se abriu para as pessoas. Foi o lugar onde pari o meu terceiro livro.

Por aqui, o dia avançou devagar. Olhei para o Yoshi dormindo encolhido no canto mais escuro da sala e entendi a frase: escuridão também é abrigo. Há dias em que a luz do sol é forte demais para quem está mudando por dentro. Precisamos da escuridão do casulo para aprender a enxergar com o olho do coração.

Acho que Patti vai guiar os seus passos por aí. Eu sigo daqui, no meu próprio recolhimento, limpando a poeira das minhas gavetas e esperando o eco das suas próximas linhas.

Bacio,

Mariana Gouveia

das coisas breves

BEDA #2 – Casulo: Antes de amanhã é quase hoje

Eu vi a Divindade com o olho do coração. Eu disse: “Quem é você?”
Ele disse: “Você”.
(Mansur Al-Hallaj )

Ei, Agosto,

Os dias chegam diante do espelho. A vida passa igual aos flashes dos cinemas. Isso era ontem. Outro mês e outro dia. E as coisas aconteciam antes de ontem…

A manhã surge radiante espantando a cor — o cinza oco dos tempos dos corredores frios — e a cidade vista da janela se apresenta dourada. Um suspiro e tudo muda no final do dia. Antes de amanhã é quase hoje, e um novo mês que se inicia rompe as nuvens.

Trovões ao longe. Para os lados do sul. Para lá, cada clarão contrasta com o dourado que invade as cortinas, as frestas, a janela. Como se o céu rugisse para dar boas-vindas ao novo mês. Bem-vindo, mês febril! O calor e a fumaça tomam conta do meu lugar. A moça do tempo mais uma vez avisou que não vai chover.

Mas os dias passam tão rápidos e logo estarei aqui dizendo que ele se foi. É quase um piscar de olhos e essa manhã se tornará tarde-noite-madrugada e novo dia. São as rotinas soprando os calendários que marcam o santo do dia, a fase da lua, a frase de efeito, os dias que faltam para o fim do ano… Ufa!

Tudo isso em um tempo vivido antes de mim… Assim como os casulos rompendo as cascas e a metamorfose acontecendo. Antes de mim, as rotinas eram lentas, rastejantes. O dia podia ser contemplado da janela e as flores anunciavam as estações em ritmo de sementes — hoje, tenho sementes, flores e frutos no mesmo pé — e havia o tempo de plantar e de colher.

Desta janela, a cidade ainda dorme — ou grande parte dela — aos meus pés. As horas já avançam em sintonia com o tique-taque do relógio deste lugar… Os corredores lotados de pessoas que buscam cura e esperança umas nos olhos das outras. Outros desviam o olhar para depois.

Depois!

Mariana Gouveia