“Correr para onde, se é dentro o labirinto?
[…] Talvez ela nem existisse
Talvez fosse mesmo o tempo que se avoluma inundando tudo, cobrindo, fechando
Logo mais teríamos notícias dos últimos acontecimentos
Os deuses exigem tanto e por isso decidi aquele mesmo dia, além de me amarrar ao mastro
Também cobriria de cera os ouvidos
As sereias e suas bocas pequenas abriam e fechavam
Ainda hoje não escuto nada e tudo é líquido e estrondoso
Todos os caminhos levam ao corpo.’”
Assionara Souza
O casarão abandonado da rua do Meio tinha essas cores pálidas de quem não vê tinta a muito tempo. As janelas largas e uma placa trazia os números 1772. Não dava para saber se era o ano das paredes feitas de adobo ou se era exatamente o que. Como fui arrastada por ela, suas mãos me guiaram por entre as trepadeiras lilases, a curiosidade se juntou ao fascínio.
– Nessa casa morou minha mãe, avó, bisavó e quem sabe algo que nunca sei se denomina trisavó.
– Tem magia esse lugar – respirei enquanto ela enfiava a mão em um buraco e com jeito de quem sabia o que fazer abria a porta, que rangeu.
Havia uma cadeira velha, uma estante com livros e pó. Um espirro meu a fez me empurrar para um quarto que surgiu em minha frente entre o riso – e as covinhas se fizeram – e o pedido de desculpas. Parecia um outro lugar dentro de um lugar. Um espaço grande com cama, cadeiras, armários, cômodas e um vaso de flores miúdas a enfeitar o canto da penteadeira onde uma vitrola vermelha tocava algum disco antigo.
– Não precisa disso – falei, com os olhos a invadir o espaço – é apenas um espirro. Isso aqui é lindo! Apontei para um velho baú e como se fizesse um passe de mágica no ar ela abriu o baú e ali dentro, relicários de uma vida inteira, livros, lenços bordados, alguns sapatos antigos e envelopes de cartas e outras quinquilharias.
Parecia uma menina diante de um brinquedo. Os olhos reviravam em cada espaço e Amy tocou no celular. Era uma chamada qualquer que ela desligou de repente.
Era mesmo magia o novo e o velho ali, na minha frente. O antigo e o moderno. A cama, ao lado da janela, que levava as cortinas para o quintal cheio de folhas como se nunca tivesse sido limpo, e imaginei como um casarão abandonado guardava em seu interior aquele espaço.
– Esse lugar é meu, mas depois da morte da minha família, fiquei sem condições de manter e estou tentando aos poucos reerguer. Já consegui ajeitar esse quarto e a cozinha. O resto, ainda leva tempo.
Aqui tem a história de cada um dos meus antepassados e me vejo em cada um deles. Encontrei livros de meu avô que fala de astrologia e em um rompante tirou a blusa branca e virou as costas onde um rastro de lua desenhava as fases de uma lua toda na pele…
– Era a capa do livro feito a mão pelo meu avo. É a minha melhor herança.
Ela desatou a discorrer sobre o que gostava e de como os efeitos das lembranças moravam dentro dela. A vida dera a ela mais do que queria e ali, era seu refúgio de alma.
Falamos de solidão, de poesia e do sistema solar. De arrepios na pele e de histórias de amor.
Não houve mais promessas de encontros melhores, mas ali, com a mão estendida para o abraço, as estações nos avisava de que a partir dali, todos os outros encontros seriam sempre melhores.
Mariana Gouveia
