Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Seu tempo partido em outras infâncias.

É apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

— Henri Michaux —

A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias. Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e da pena por trás dela.
As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades.
—— ontem fez frio — anteontem choveu hoje amanheceu nublado — sonhei com você — queria ser eu a estar em suas mãos. Ele descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caiam da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia. Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro.

Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas pressentia que era um sonho tentando ser realidade… O coração acelerado, e as mãos suadas — apesar do frio. Quando cheguei à janela — sorri as minhas certezas de menina apaixonada. Lá estava ele… vestindo o sorriso que eu tinha imaginado no dia anterior — iluminando todo o rosto dele. Os olhos tão lindos, como dois faróis a iluminar a neblina, pouco antes do dia nascer, com os campos orvalhados e eu a procurar por rendas prateadas na mata. Eu quis morar uma vida inteira naquele momento. Se possível, morrer dentro dele. Mas sabe como é a eternidade? Acaba nu- me estalar de dedos.

No diário eu relatei tudo. Uma história de amor, para um dia virar livro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante. A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e levada de encontro aos lábios era um beijo carinhoso-único. No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cocegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro.

Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… Muitas palavras depois, a pequena aldeia fez festa para comemorar o primeiro amor que aconteceu bem ali, Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore. O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… O destino de uma Carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o Carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para a casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa, aprendia corte e costura, pintura artística… O primeiro amor se foi — lamentava toda vez que passava por lá, sem envelope para entregar…

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

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