
Toda a vida tive esta sensação:
quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão
e se ocupasse de mim.
Etty Hillesum
– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimenta. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.
Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.
– Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.
– Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.
– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar. Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.
– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.
Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.
– Mariana conta um, um conta Mariana…
Mariana Gouveia
Ao ler-te, nesta tarde de segunda, em que o sol começa a se despedir do quintal, fiquei a imaginar duas meninas a cantarolar ontens em volta da mesa. Uma a escrever e outra a cozinhar… duas arteiras!
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Vim aqui rever esse ontem e o coração se encheu de saudade.
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