Scenarium Livros Artesanais

Beda – Aqui dentro você é caminho.

Ph: Tumblr

Fiquei pensando em quantas vezes …
… errei seu nome nas palavras cruzadas,
aparecia sempre a palavra Solidão…


… ficava no vácuo sua lembrança
Na porta azul da rua de cima…

Sou criatura de hábitos e continuo a pendurar ervas
na parede branca para meus chás.
E continuo a bordar monogramas
como nômade dentro do seu nome…

rabisquei em vários idiomas
a sua mão na porta…  
aqui dentro você é caminho
… que nunca acaba: princípio e fim
No coração que sente
Na alma que procura

Mariana Gouveia
Estrada para os domingos
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Geral

Beda –  Sou peixe, a água é meu lugar.

Ph: Kurt Arrigo

“Um espírito livre não cabe nas gaiolas de um corpo domesticado”.

Às vezes a gente volta pra gaiola. Pra padrões antigos porque parecem seguros e são conhecidos. Às  vezes o medo da vida, de soltar a ilusão do controle fala mais alto. Mas a volta nunca é no mesmo lugar e, talvez por isso, lá no nosso íntimo, se permitirmos a abertura do coração, a gente reconhece e faz o movimento para o novo salto.
Tenho re-conhecido minhas águas e permitido que elas corram livre. E tem sido ali, com as mulheres  de maior idade que eu, que tenho recebido o sábio acolhimento delas pra fluir esse mar de emoções que também sou. E tem sido lá com as mulheres de menos idade do que eu que tenho remado por águas novas. Permitindo e brincando com minha autenticidade, luz e sombra, camadas e mais camadas. E sim, minhas águas compõem esse oceano infinito por onde tenho remado. Tem sido com o cuidado amoroso da Ana que me permito transitar em ser água e barco, onde me lanço e onde me acolho e me dou borda. Onde cultivo o movimento de minhas águas, da mais límpida à mais densa. O barco não navega na terra. A terra é de onde ele sai e onde ele atraca, pelo tempo que decide. É o porto seguro. O mar é a aventura. É lá onde se experimentam tempestades, remansos, ondas diversas, movimento contínuo. E é lindo e potente compor uma tripulação que vai dia a dia aprendendo a remar junto, cada uma a sua maneira e com o objetivo comum de atravessar, seja lá o que for. Não quero temer minhas águas. Quero cada dia mais aprender a fluir com elas. ” Sou peixe, a água é meu lugar”.

Luana Souza
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Estrada para domingos.

Ph: Pinterest

Por muitas vezes, eu vi o sangue derramando

nas estradas que cruzei e nos atalhos que tive que tomei para não enlouquecer!
 – era bem mais fácil se fingir de louca nas noites sem Lua!

Por muito tempo, eu quis morar na rua de cima, ao lado da casa laranja e do vô que entendia de sementes.

Mariana Gouveia
Estrada para domingos
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – As ruas têm a cor das pétalas que douram o chão.

Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar. Amanheceu com vento… e o frio pousou na árvore. Escrevi uma carta mentalmente, um rascunho por dentro que talvez vá para o papel… ,amanhã — se eu me lembrar das palavras.

Às vezes, essas rotinas de escrever são apenas lembranças de um tempo que se foi. Penso no bordado que desenhei no tecido e abandonei sobre o criado mudo. Entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade — ou tempo — no bastidor.

Sinto uma tristeza amena, curta. Como se a sombra saísse do anonimato e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita.

Enquanto isso as Pétalas voam na rua…


Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase além da maresia…

ph: vmestresantana

Quando abri a janela, ouvi poemas nos teus olhos… Era quase além da maresia, enquanto o dia trazia rumores estranhos para a alma. Eu também queria… queria essa estrada e logo atrás da curva teu riso de toda manhã desenhando meu banho. Queria essa umidade toda retratada em versos das lembranças que guarda em tua memória. – Enquanto você responde alguém que o caminho é o coração. Sou quase essa inundação de oceano. Sou marítima de ave que você vê e nega pouso. Tem dias que tenho mil perguntas que você não respondeu nas minhas noites. Tenho regras que você cumpriu, enquanto o que me movia era as regras quebradas. Tenho lanternas chinesas a iluminar um quintal que antecipa a estação. Tenho essa vontade estampada na ponta do dedo e fico doida em noite sem lua. Os corredores têm a dimensão de infinito quando você tem o veredito final.  Ditam que em um ano você já não será, enquanto em um dia tudo muda. Você ri, esbraveja, chora e mais uma vez usa o corretor para mudar a palavra no ” eu te amo” e o infinito se perde dentro dos séculos quando você em silêncio, apenas murmura o nome. Do amor.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Dos bilhetes nas horas cheias.

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde.  Coloco no modo repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo no céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vai se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria, eu já sei que é hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – No silêncio da noite as aves não voam.

Ilustração: Ofra Amit

Ria na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar, falta. A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte. No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques. Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque… [então, não vivo] às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas. Às vezes, o destino certo é o pouso…, mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta no seu espaço lunar e a vida ganhou pouso nas mãos. A metamorfose aconteceu diante dos olhos e a asa desdobrou ganhando a palavra liberdade.

O dia provoca lembranças de datas que queria esquecer. O calor não deixa espaço seguro.

Atravessa as horas dentro do limite do tempo. Ainda era ontem outro dia e o dia outra estação.

Releu as cartas escritas, desenhou com linhas o projeto solidário e ajeitou as rosas no jardim. Podou as folhas extras que pendiam para o quintal do vizinho, transportou sementes germinadas para seus lugares definitivos e foi ali, viver a vida.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Doida de lua

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses, efeitos solares
em sua melhor noite

inverteram o céu
tão lunar ela era
apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia