Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Beda – no cais

Ph: Pinterest

Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros.
Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser.
Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu.
Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Pai,

sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.

Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.

Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.

Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.

Feliz Dia dos Pais!

Te amo infinitamente!
Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase fado

Ph: Pinterest

Havia um riso estranho no homem da esquina.
…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros artesanais

Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Aqui dentro você é caminho.

Ph: Tumblr

Fiquei pensando em quantas vezes …
… errei seu nome nas palavras cruzadas,
aparecia sempre a palavra Solidão…


… ficava no vácuo sua lembrança
Na porta azul da rua de cima…

Sou criatura de hábitos e continuo a pendurar ervas
na parede branca para meus chás.
E continuo a bordar monogramas
como nômade dentro do seu nome…

rabisquei em vários idiomas
a sua mão na porta…  
aqui dentro você é caminho
… que nunca acaba: princípio e fim
No coração que sente
Na alma que procura

Mariana Gouveia
Estrada para os domingos
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Geral

Beda –  Sou peixe, a água é meu lugar.

Ph: Kurt Arrigo

“Um espírito livre não cabe nas gaiolas de um corpo domesticado”.

Às vezes a gente volta pra gaiola. Pra padrões antigos porque parecem seguros e são conhecidos. Às  vezes o medo da vida, de soltar a ilusão do controle fala mais alto. Mas a volta nunca é no mesmo lugar e, talvez por isso, lá no nosso íntimo, se permitirmos a abertura do coração, a gente reconhece e faz o movimento para o novo salto.
Tenho re-conhecido minhas águas e permitido que elas corram livre. E tem sido ali, com as mulheres  de maior idade que eu, que tenho recebido o sábio acolhimento delas pra fluir esse mar de emoções que também sou. E tem sido lá com as mulheres de menos idade do que eu que tenho remado por águas novas. Permitindo e brincando com minha autenticidade, luz e sombra, camadas e mais camadas. E sim, minhas águas compõem esse oceano infinito por onde tenho remado. Tem sido com o cuidado amoroso da Ana que me permito transitar em ser água e barco, onde me lanço e onde me acolho e me dou borda. Onde cultivo o movimento de minhas águas, da mais límpida à mais densa. O barco não navega na terra. A terra é de onde ele sai e onde ele atraca, pelo tempo que decide. É o porto seguro. O mar é a aventura. É lá onde se experimentam tempestades, remansos, ondas diversas, movimento contínuo. E é lindo e potente compor uma tripulação que vai dia a dia aprendendo a remar junto, cada uma a sua maneira e com o objetivo comum de atravessar, seja lá o que for. Não quero temer minhas águas. Quero cada dia mais aprender a fluir com elas. ” Sou peixe, a água é meu lugar”.

Luana Souza
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Estrada para domingos.

Ph: Pinterest

Por muitas vezes, eu vi o sangue derramando

nas estradas que cruzei e nos atalhos que tive que tomei para não enlouquecer!
 – era bem mais fácil se fingir de louca nas noites sem Lua!

Por muito tempo, eu quis morar na rua de cima, ao lado da casa laranja e do vô que entendia de sementes.

Mariana Gouveia
Estrada para domingos
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – As ruas têm a cor das pétalas que douram o chão.

Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar. Amanheceu com vento… e o frio pousou na árvore. Escrevi uma carta mentalmente, um rascunho por dentro que talvez vá para o papel… ,amanhã — se eu me lembrar das palavras.

Às vezes, essas rotinas de escrever são apenas lembranças de um tempo que se foi. Penso no bordado que desenhei no tecido e abandonei sobre o criado mudo. Entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade — ou tempo — no bastidor.

Sinto uma tristeza amena, curta. Como se a sombra saísse do anonimato e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita.

Enquanto isso as Pétalas voam na rua…


Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase além da maresia…

ph: vmestresantana

Quando abri a janela, ouvi poemas nos teus olhos… Era quase além da maresia, enquanto o dia trazia rumores estranhos para a alma. Eu também queria… queria essa estrada e logo atrás da curva teu riso de toda manhã desenhando meu banho. Queria essa umidade toda retratada em versos das lembranças que guarda em tua memória. – Enquanto você responde alguém que o caminho é o coração. Sou quase essa inundação de oceano. Sou marítima de ave que você vê e nega pouso. Tem dias que tenho mil perguntas que você não respondeu nas minhas noites. Tenho regras que você cumpriu, enquanto o que me movia era as regras quebradas. Tenho lanternas chinesas a iluminar um quintal que antecipa a estação. Tenho essa vontade estampada na ponta do dedo e fico doida em noite sem lua. Os corredores têm a dimensão de infinito quando você tem o veredito final.  Ditam que em um ano você já não será, enquanto em um dia tudo muda. Você ri, esbraveja, chora e mais uma vez usa o corretor para mudar a palavra no ” eu te amo” e o infinito se perde dentro dos séculos quando você em silêncio, apenas murmura o nome. Do amor.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Dos bilhetes nas horas cheias.

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde.  Coloco no modo repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo no céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vai se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria, eu já sei que é hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais
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Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – No silêncio da noite as aves não voam.

Ilustração: Ofra Amit

Ria na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar, falta. A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte. No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques. Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque… [então, não vivo] às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas. Às vezes, o destino certo é o pouso…, mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.