Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Encanto

Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte. E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

” eu uso os poemas para saber…”

A neblina esconde as flores que nascem.

Da esquina, se vê apenas a solidão. Um gato no muro, um pássaro na árvore que ainda não amanheceu…

O vento faz com que o frio pareça mais do que está.

O homem da reciclagem com seu gorro de sempre – faça frio ou calor – com o emblema do time preferido, a empurrar a carroça cheia de garrafas pet e a melodia de todo dia a ecoar nas ruas do meu lugar.

Ele cantava a vontade de voar e de quanto as ruas o enchia de paz…

” eu uso os poemas para saber…”

e a folha que caiu tudo no dia seguinte era galho seco hoje…

A garoa dançava na luz difusa do poste e a lua era apenas um risco no céu. Enquanto todo mundo prevenia a liberdade de ontem e acreditava na injustiça de amanhã, eu apenas caminhava contra o vento e o frio.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Há dias…

em que acontecem milagres – aquele mesmo que o homem de ontem buscava e ria do destino brusco de ser leve – e que aparecia escrito no envelope pardo nas mãos.

E que depois disso contava histórias de imensidão de rios onde se perdiam nas ribanceiras onde nas margens os pássaros cantavam rotinas de florestas de histórias de ler… e as cachoeiras cantavam o chuá, chuá e as aves eram parte do cenário que ficou guardado…

Há dias em que alguém chora de dor e conjuga os verbos no passado, só para respirar o ar que falta e as canções gravam na mente o instante simplificado no refrão.
(chuá… chuá…)

Há dias em que sonhos se realizam e as testemunhas registram momentos que a memória desenhará para o resto dos dias e será contados em cada reunião que mais de um se lembrará e confirmará presença e a pergunta ecoará: você se lembra?

As gaiolas se abrirão e o que era preso voou… e as cartas eram escritas no modo antigo, e os envelopes decorados com cores que celebrava a amizade.

Os corações, nesses dias, se encherão de esperança e os corredores ganharão as cores da cura e a ave verá na poça da chuva um rio fácil de atravessar.

Haverá dias assim. Houve.

Hoje.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Conheci uma menina que andava descalça,

Ph: Howard Schatz

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Dia do Livro.

Hoje – dizem – é o dia mundial do livro. Para mim, o livro vai além dos dias. Estou lendo pela quarta vez Vermelho por dentro, de Lunna Guedes.

É um livro que tira seu fôlego e te embriaga já nas primeiras linhas. Depois, você vai sorvendo aos poucos a escrita de Lunna.

Quando eu comecei a escrever eu só queria ser lida, contar histórias… O livro nos leva para onde a gente quiser.

Viva o livro! Viva Vermelho por dentro!

Se tiver interesse, clica aqui e se delicie com os livros da Scenarium Livros Artesanais.

ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem, diz em seu ouvido – ‘passa o resto da sua vida comigo?’
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos dias de chuva.

Revolve a terra com as mãos… Sente a energia vibrante da vida. Havia acabado a chuva e os pingos ainda caiam das folhas.

No ar o aroma do mato verde… e o escuro da noite a apontar distante. Na esquina, um homem cobra ausência dos filhos… e canta um hino de espera.

Relâmpagos cortam o céu, onde um rasgo de sol rompe a nuvem escura que anuncia chuva para logo mais…

O quintal ampara minha solidão, acolhe as dores que rompem as horas prolongadas no escuro. E a vontade de grito rasga o silêncio…

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O fio é tênue e imprevisível. 

O encantamento começa com a magia da manhã. Vasculho os instantes no quintal e a memória busca o tempo que acabou. Nada dura para sempre e nem o encantamento permanece o mesmo diante das coisas.

Havia o tempo certo para o pouso da asa e a mania de querer pousar. Toda passagem tem o exato momento para acontecer.

O fio é tênue e imprevisível e rompe quando o sentimento muda de lugar.

Cantei canções de outros tempos, podei as plantas e preservei a morada dos que moram na árvore do canto. Refiz os espaços do jardim…Refiz os espaços dentro de mim. Hora de recomeçar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dia de silêncio.

Quando rasguei o nome no peito…Tirei do ventre a palavra voo e chorei pelos números de nomes que voaram entrelaçados dentro da ausência vivida. Nem era dia especial e o silêncio se fez de vento no varal e as esperas aconteciam e a gente sabia que não ia chegar. Algumas partidas acontecem como voos de pássaros ou como pouso em um dia de silêncio.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Cotidiano

O cotidiano aquece o lilás das flores. Converso com o silêncio da casa. O quadro na parede, o retrato do filho. Ria e vem-me a memória a promessa do sorvete pelo riso dado.

O cheiro de hortelã do chá da tarde invade a cozinha e no jardim, a borboleta voa entre as flores. Limita seu espaço entre uma pequena aranha que se retrai e foge da invasora.

Mergulho as mãos na maciez das horas. E na leveza do dia, eu planejo caminhos entre as ervas daninhas que atrai os insetos.

Gosto da flor que balança ao beijo, do voo rasante de um pássaro que nem consegui ver qual era. Crianças gritam na rua, entre um correr e ficar e o cachorro late.

A vida acontece diante dos meus olhos. O cotidiano aquece o lilás das flores e abro a janela enfeitada com as cortinas feitas de retalhos coloridos.

Aleluia! O sábado feito para momentos bons se esvai. O sol se põe e o dourado do dia tinge meu quintal. Entrou em casa para ser poema dela. Amanhã é outro dia no cotidiano que aquece as flores.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dia grande.

Depois da chuva a vida dança ligeira no quintal. Tem vento que balança as cortinas e leva as folhas para lá e para cá.

Tem o pássaro de todo dia, jeitinho de ave e bico molhado de chuva. Tem abril caindo direto na estação e trovão a cantar nome dentro da tarde.

Depois da chuva o vento que mora na árvore corre arteiro pelo quintal e esparrama a cores do outono aqui e ali… eu ouço canções de outros tempos e relembro a data que se repete na memória do tempo.

O dia era o dia proibido e a palavra da infância era o não.

Às vezes, a história do homem crucificado era exposta em fatos e dados reais. Meu pai tinha o poder de conduzir os “causos” e nos envolver dentro dos exemplos que ele nos queria passar e passou.

Alguns rituais eu sigo até hoje… Outros, ganharam minha própria interpretação.

A fé exposta nas palavras de amor… igual ao vento, depois da chuva… Igual ao pássaro de todo dia, com jeitinho de ave, bico molhado de chuva…

Mariana Gouveia