enquanto procuro que artesanato começar eu me vejo pensando em você e na delicadeza de seus atos. Falei do Zep para um moço da aldeia – mostrei as fotos tuas nas delicadezas das coisas – e a vida, de fato, se mostrou encantada para quem cuida da natureza. A bicicleta laranja é a docilidade da minha infância e de repente, lembro-me do riso da tua Anna. Você tem a flor do campo em tua casa. Pintei três paredes enquanto desenhava suas histórias nos rabiscos da mente. Abri o armário para escolher as linhas e as agulhas bordaram contos de fadas para quem vai nascer. Luci, às vezes, a vida precisa disso – urgentemente – e lá fora, o silêncio é apenas o canto do grilo. Meu quintal está vazio de árvores e uma criança que sempre tem um dragão nas mãos plantou de novo a semente do amor. Brotou rapidinho e o riso ecoou rua afora. Colhi mil flores na rua de cima… uma hora te conto sobre a rua de cima e seus pés de ipês. Tem dia que o chão fica amarelinho feito ouro. Dá vontade de deitar como se fosse cama. O lindo é necessário em alguns dias e quando preciso reavivar a ternura, corro ao Zep… Poderia te contar da laranjeira do vizinho, que na última chuva teve alguns galhos quebrados e a flor serviu de morada para as joaninhas. A felicidade deve ser isso que a gente pode tocar… o vento na janela, a cortina a balançar mostrando uma fatia de lua que reflete na bacia de água no quintal e uma rua inteirinha de sol de flores a esparramar poesia no chão.
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Havia papéis embolados na mesa. Rascunhos desfeitos, refeitos, rasgados. Algumas figuras em tentativas vãs de fazer coração. E a necessidade de gritar silêncio.
Lá fora, um rádio toca canções vazias. E uma criança chora na casa vizinha. O sol, como sempre, ardente. Solar. Um para cada habitante do lugar, com todo exagero preciso de minha alma. O céu transmite um azul vibrante. Desses que se for destacados em nomes, seria azul-celeste, azul-azul. Em outras partes dele, azul-bebê. A ave gorjeia no pé de goiaba seca do vizinho. Que sei lá por que, fincou um prego no tronco para que secasse. Não queria ele ser fornecedor de comida de sabiá. Eu quis. Tratei logo de plantar um pé de goiaba novinho para eles. Para o ano, já deve frutificar. Enquanto isso, espalho sementes variadas e frutas, aqui e ali, para ele não migrar para outro quintal. Gosto do som dos cantos deles por aqui e justifico sempre para um amigo que tem pássaro preso em gaiola, que tenho a melhor sinfonia matinal sem prender pássaro algum, eu aliás, é que sou presa por eles. Fico horas aqui, na varanda, observando os pulos, os voos, os rasantes, os cantos que ganham as esquinas e meu quintal. A manhã passa ligeira e a hora me antecede o dia. Finalizo mais uma carta sem escrever. O meio-dia marca minha hora de ir.
Os papéis voltam para seu lugar.
Mariana Gouveia *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Eu já te contei das rotinas dos pássaros e de como eles repetem os gestos no meu quintal? Lembrei-me disso por causa dos seus gestos comigo… Do riso simples, da mão estendida e do olhar de acolhimento dentro dos dias. Poderia enumerar as vezes em que a gentileza do seu olho me abraçou dentro da minha solidão e como foi casa e acalanto nos dias difíceis. Sabe, muitas vezes, o seu silêncio companheiro foi presença enquanto eu brigava internamente com as coisas que não davam certo e você ali, feito olho do pássaro de todo dia como se dissesse: estou aqui – e estava – e bastava uma dúvida na sala ao lado e a presença era sentida e vivida. Às vezes, dentro da palavra repetida em saudade é preciso dizer do carinho para então manifestar o agradecer na alma pelo simples fato de ter sua mão para ser pouso.
Aproveitei a solidão da tarde de domingo para te escrever. As nuvens tomaram conta do céu em seu tom azulado escuro e o cheiro que a terra exalou me lembrou você.
Juro que pensei na singeleza dos seus passos sobre a areia branca da praia e do canto do seu mar, mas aqui, eu tenho além do voo do beija-flor, a chuva que começa a cair. O cheiro é a coisa mais surreal do mundo! Como pode a gente sentir vontade de repartir esse cheiro com alguém, Ana? Você pode responder?
Os cheiros fazem parte de mim… desde pequena, essa mania de sentir a presença de alguém, de reviver momentos são ritmados pelos cheiros.
O pão caseiro da vizinha e o cheiro a invadir os quintais é de suspirar e a vontade é atravessar o portão e ir lá ganhar um pedaço. A torta de banana da padaria da esquina é de enlouquecer, Ana! Não sou muito fã de torta de banana, mas o cheiro dela é emocionante. O cheiro da rapa do arroz de minha irmã é quase uma volta ao passado, lá na infância, quando minha mãe parecia alquimista na beira do fogão de lenha a assar os bolos para o chá.
O café, na madrugada a exalar seu cheiro enquanto me levanto. Chego a jurar que é na casa do senhor Wilson. Nunca bebi café lá, mas já sorvi todos os cheiros do café dele.
Agora, o que queria dividir com você é esse cheiro de grama molhada no quintal e a tarde mansa que descobre em mim a saudade.
Saudade tem cheiro, Ana? Ah, acredito que não, pois se tivesse teria o cheiro do seu perfume.
Beijo meu. Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Cecília entrou em minha vida quando eu ainda era criança, nos livros sem capas, doados por parentes que moravam na cidade grande e as caixas eram encaminhadas para a gente como presente e brinquedos. Confesso que os livros me encantavam mais do que as bonecas sem braços, ou as roupas que ficavam fora de tamanho e que minha mãe se esmerava em adaptar para quem servisse.
As caixas traziam livros variados e eu ficava horas a ler sob o olhar atento de minha mãe para não ler nada “proibido” para além da minha idade.
O poema acima era uma maneira do incentivo a escrever que minha mãe usava todas as vezes em que o caderno era oferecido para um texto – “que se pode escrever de tão claro?” – e dentro dessa certeza e da frase o que era escrito ganhava detalhes na voz dela. E assim, Cecília foi se entranhando em nossas vidas.
Antes de te escrever fui ali no quintal e colhi a erva cidreira e preparei o chá, já conversando com você, meu ritual em alguns dias – olha a lua! Trovoa, bolo, pão, café e chá – nas coisas que me lembram você.
Cantarolo Gadu, enquanto a água ferve e preparo papel e caneta. Já reparou como fica mais difícil escrever a mão? A tecnologia nos deu teclado e as letras parecem dançar na tela.
De chá pronto e com o cheiro invadindo o quintal começo as palavras da escritora e as palavras fluem. Acordo cedo, você sabe, bem cedo e me deito mais cedo ainda, independente dos dias que para mim parecem histórias contadas. Sei que lá fora está um caos. Talvez, aqui dentro dos muros que protegem meu quintal, eu esteja quase igual antes de todo o mundo se transformar. Não vejo a rua. Apenas ouço essa rua barulhenta e cheia de crianças com suas pipas, o casal de idoso que mora na casa em frente da minha, recebe tantas visitas que me assusta e na casa da esquina, um culto religioso com suas caixas de som estridentes me faz pensar que talvez tudo tenha passado e só eu fiquei presa nesse tempo de pandemia – me belisca… já pedi para o moço aqui de casa – enquanto um hino cantado pela vizinha sacode a janela.
Os pássaros de todo dia cantam e adoraram o comedouro que preparei para eles. Reparei que há mais pássaros e alguns de espécies diferentes que apareceram por aqui. O ipê floriu mês passado. Derramou suas flores amarelas pelo quintal e quase formou um tapete. Agosto chega ardente, ardendo. A fumaça rodeia o céu e fico à espera da nova estação que logo no mês que vem chegará, trazendo com ela a chuva e os lírios que plantei anteontem. O pé de jabuticaba pegou e cresce com meu zelo, embora os cães teimem em revolver a terra ao pé dela que tive de inventar uma proteção para ele.
Ah, o bolo de cenoura! Esse, não provei ainda, bambina…, mas os ingredientes já estão preparados para o bem-casado que farei assim que encerrar essa carta que te envio e nela meu abraço carinhoso.
Bacio Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Deixei a porta aberta para que entrasse tão logo chegasse, enquanto preparava meu corpo para o momento. Liguei o som onde Adele fazia o céu cair no meu quarto. Modo repeat. A cortina laranja esvoaçava com o vento do ventilador. Parecia dança e segui o ritmo. A calcinha vermelha era um desejo de tempos. Não pela marca, não pelo preço. Mas pela cor. A cor aguçara meu sentido mais ativo e deve ter mexido com todos os outros elementos do meu corpo, já que só pensava nela em meus momentos íntimos. Queria ver a reação dela ao ver o vermelho em meu corpo. Só isso já antecipava prazeres. Tirar da sacola da loja de marca. Vestir depois de um banho tomado já fazia o desejo estalar dentro de mim e a palavra escarlate pronunciada me deixava nua da cor. A cumplicidade absorvida, bebida, sugada. Havia desejos escapando pelos poros. A cadeira confortável na posição que permitia o toque. A mão solene começou passou pela calcinha e suas fitinhas de cetim. A aliança enrosca e é isso que quero. Mostrar a ela o elo que nos une. A prata reluz na meia-luz e um suspiro indicou presença. Os seios arfavam na intensidade que os toques aprofundavam. A umidade me pertencia. O dedo passeava por onde conhecia o prazer. A canção colocada no repeat me fazia seguir seu ritmo e segurar o gozo. Não deu. A voz e o nome dela pronunciado entre o êxtase. O respirar acelerado trouxe uma calmaria depois de tudo explodido. Uma penumbra não me permitia ver seus olhos. Mas comi seu prazer. O dedo na boca. Calcinha ajeitada. Ela continuava ali. Voyeur de minhas vontades e desejos e com o som de sua voz rouca que me dizia um poema de Flora Figueiredo, dormi:
“Desse momento escarlate quero a flor, o beijo, o chocolate… O riso, a criança e a retreta… O gozo, a lua, a borboleta… O caracol, o mi-bemol a alfazema… Pra quando o vermelho ficar esmaecido, eu poder conservar meu colorido nas reticências azuis de algum poema.”
Mariana Gouveia *imagem: Tumblr Texto publicado na Revista Plural Red – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”. In Alice no País das Maravilhas
Querida Alice,
É estranho falar com você assim, no meio do meu quintal, através de uma carta – se bem que você já deve ter vivido tantas coisas estranhas que isso seria só mais uma. O meu quintal tem um portão imaginário, que é onde atravesso agora e te escrevo. Tomara que eu não perca a saída quando tiver de ir. O risco é grande, já que é um mundo novo por onde caminho agora.
As borboletas vagueiam por aqui. Pousam em minha mão e buscam as flores da Maria-sem vergonha. Tiro o relógio, Alice, na ilusão das horas não passarem e caso você querer saber se será hora de ir, digo que ainda há tempo. Tempo é essa coisa doida que toma conta da vida e quando você percebe já é tarde demais.
Te conheci ainda criança… quase menina-moça. Ganhei o livro do padrinho que só aparecia em datas especiais, tipo Natal, dia das crianças, aniversários e essas coisas que o mundo mudou com o tempo. Tínhamos a festa da colheita e o pedido era para minha mãe fazer um vestido para mim igual ao seu que vi no livro. Hoje, recordando, lembro que o livro e o vestido se perderam no tempo. Mas, aquele dia em que vesti o “seu” vestido está vivo na memória e posso desenhá-lo a você.
Foram dias de costura… minha mãe se preocupava com cada detalhe e eu, em minha ansiedade de filha ao pé da máquina, a observar o trabalho sendo feito, com mil perguntas sobre os sonhos, enquanto ela ficava a responder quase em sussurros conversava com a máquina que respondia com seu pedal rangendo. Pregava as fitas, fazia o plissado da saia… olhava o livro. Pedia para eu ler e explicava para mim que a ansiedade era normal na minha idade. Eu achava estranho a ansiedade ser normal, mas ela dizia que quando a gente é criança a tendência é achar tudo estranho mesmo.
O azul do tecido parecia esse céu de agora. A maciez do pano me enternecia. E quando vesti, me senti a menina mais linda do mundo. Por alguns instantes, eu fui, Alice! Vestida de você eu fui a rainha da festa e me senti maravilhosa. Os olhos de minha mãe brilhavam e me seguiam a cada direção que eu fosse. Dias depois, ela se foi. Deve estar em algum país no infinito que ainda não sabemos o nome. Virou estrela nesse céu, da cor do seu vestido.
Eu cresci e o vestido se perdeu em algumas dessas mudanças que meu pai fazia. Só que continuei a sonhar com seu mundo e com toda a leveza que as palavras me traziam.
Hoje, vivo a magia da maravilha de viver. Também criei meu mundo de maravilhas no meu quintal, onde os animais têm hora e vez, as borboletas nascem aos montes sempre… e meu pé de hibiscus mutabilis faz a transformação das flores – pura magia. As flores nascem brancas pela manhã e ao meio-dia ganham o tom de rosa mais lindo que há.
O pé de algodão dá flores amarelas e, assim que murcham, preparam seu capucho tão branquinho, que parece as nuvens do céu.
O tempo anda a correr, Alice… tudo passa tão depressa agora, que contando isso para você, parece um século. O tempo voa! Até o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao menos tudo fica meio calmo nas manhãs pouco antes de eu entrar com minha senha do seu mundo para o mundo real. As manhãs é a melhor parte, porque é quando meu beija-flor vem… e pousa no meu colo enquanto converso com meu amor. Vou dizendo sobre o movimento das nuvens e até mostro o laranja a se desenhar no céu. O relógio, por vezes me assusta e, quando percebo, tenho de sair em desabalada carreira porque é hora, e ela não espera. Disso você entende muito bem. Mas quando a hora não antecede os instantes, Alice, é mesmo uma maravilha! O sol percorre o firmamento com seus raios, desenhando cores no amanhecer e muitas vezes ele se encontra com a lua numa explosão cósmica de amor. É a coisa mais linda.
Ah, esse tempo maluco, Alice. Às vezes, nem parece passar… veja você e seus magníficos 150 anos e a leveza de menina ainda.
Suas aventuras são lidas e há sempre uma menina a desejar ser você… e é essa a magia que seu nome traz. É essa a magia de se pertencer ao País das Maravilhas.
Preciso ir, Alice… o caminho se abre diante dos olhos e guardo você dentro do seu mundo enquanto o mundo real me chama. A vida é esse momento repetindo instantes. O resto, é conto de fadas. Então vamos lá vivê-la.
beijos,
Mariana Gouveia *imagem: Pinterest Carta publicada na Revista Plural 1900 – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
em um dia de sol e de melodias no vizinho. De pássaros no céu em bandos como se tivessem rindo enquanto me lembro do provérbio popular sobre as andorinhas. O verão se foi, com gosto e jeito de inverno. Chovia. Quase nem dava de ver o dia da janela do trabalho. Fiquei lá, por horas, a olhar a chuva e imaginar palavras de cartas.
Pensei que as cartas chegariam em pleno verão, com o sol batendo nas cortinas e roupas quarando no varal. Mas não…elas chegarão no outono e pode ser que até lá, as folhas da árvore da esquina ainda não tenham conhecido o chão. E acho que a mesma chuva de fim de verão ronde por aqui de novo. No outono, quando minhas manhãs ganham tons lilases quando o sol nasce, a minha espera tem sabor de herança. Daquelas que a vida trata de encaminhar. De servir de relicário a vida inteira. Quando as cartas chegarem, e as palavras de poesia encherem o ar do outono, as colocarei em molduras, banhadas nas cores da estação. Me escreva uma carta, meu amor.
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
“Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras”. Álvaro de Campos
Devo confessar que mudo sempre de lado quando viajo e nem sempre é permitido abrir as janelas. Entre as ruas, enquanto o coletivo se desloca, a paisagem muda completamente. Dos bosques do meu lugar – cada vez mais raros – aos modernos edifícios, as ruas e seus viadutos. As casas antigas e suas vielas.
Lá fora, tudo é barulho. O silêncio acontece internamente. Avisto o cão com seu humano a atravessar a rua. As pombas na praça à espera das migalhas que sobram da barraca de lanches.
É o caminho por onde levo vocês.
Nessa viagem que fiz com vocês, dentro de Coletivo diversificado eu abri cada janela e me deparei na docilidade do Medo de Aden. Perdi-me – perco-me sempre com ela – nos Caminhos de Adriana.
Respirei pelos poros de encanto com Pele de Caetano e juntei os Pedaços de Chris. Ingrid me deixou em Silêncio – mesmo – e de um fôlego só, nem suspirei. Cada palavra me abraçou e passou a fazer parte da minha bagagem.
A viagem é essa troca de perceber lugares, se descobrir no olho do outro e foi isso que aconteceu com Gestos de Marcelo. Já Maria Vitória, para mim é aquela pessoa que embarca, e você não para de olhar. Não cansa de olhar. Quer ouvir a voz, saber nome, endereço e seu lugar no mundo. As Memórias dessa menina se uniram às minhas. E quando essa pessoa desce, você quer descer junto e pedir o número do telefone, a cor preferida, e a viagem passa a ser mais sem graça sem ela.
Os lugares do caminho me deixaram sem voz e a minha Boca abre em espanto. A Tristeza de Obdulio me fez refletir sobre o outro que senta ao meu lado e em silêncio carrega sua dor-confusão-guerra interna e revi cada rosto que conheci nesses caminhos.
Virginia me fez movimentar sete vezes em seu Dilúvio de poesias. Quase pequei por desejar eu ter escrito as palavras dela.
Embarcamos em travessias diferentes, estações opostas, mas ligadas entre si e quando todo mundo se encontra o Coletivo ganha de fato, o sentido da palavra embarcar. A viagem se adere aos detalhes do caminho percorrido, atravessa por atalhos não programados e que acaba sendo a melhor parte da viagem. Passamos a fazer a cidade desperta, insone, comum, original, diferente, como nunca visto e em cada um o gesto novo e com o objetivo é alcançado.
Asfalto e poeira. Poema e poesia. Tempo dos grandes espaços urbanos, das casinhas pequenas nas vilas quase cobertas pelos prédios e pelas suas alturas. O desenho da palavra do lado de fora e dentro, cada um, em seu lugar, caminhantes, tantas vezes de solidão, com suas rotas próprias e o mapa feito da palavra sonhar.
Olho lá para fora e descubro o ponto de chegada – que é o continuar constante de outra viagem – entre o azul intenso do céu e a cidade cinzenta ganhando vida pela janela. A mesma janela que me traz um pequeno raio de sol e agradeço por fazer parte desse Coletivo cuja pretensão é levar até vocês o roteiro. A perceber que o Coletivo é o todo dentro do embarque e que quando chegamos no ponto final já se agigantava dentro da gente uma nova pessoa.
Grata pela companhia de cada um. Que venham as próximas viagens!
Mariana Gouveia Carta publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
O dia amanheceu amarelo. O sol, logo pela manhã, rompeu a barreira da névoa e veio radiante. Lembrei-me da moça do tempo com sua simpatia dizendo que os paulistanos viram o sol e citou até os minutos que o sol deu as caras aí. Confesso que achei engraçado e logo pensei em tu – tão cheia de sol – que nem precisa dele para se sentir plena. Mas, estávamos falando de amarelo. Dourou tudo aqui. Precisava ver! As gérberas do meu quintal anteciparam a primavera por aqui e quando chovi sobre elas, com meu regador, me trouxeram um frescor de alma. Na avenida principal, os ipês derramaram suas pétalas de ouro pela calçada. Cedi a tentação de me deitar sobre as flores. Em cada esquina lembrei-me de Van Gogh – dizem que adorava o amarelo – e de uma carta/poema que fiz para minha mãe, onde a vida dourava nossa existência dentro da cor.
Agosto sempre me traz ela com seu vestido amarelo de florzinhas miúdas. Ela irradiava cor. O chapéu feito – por ela – com capim dourado fazia com que ela parecesse um personagem desses de fotonovelas, que ela adorava. Enquanto anotava mentalmente essa missiva pensando em você, e já no fim do dia, a cor desenha a vitrine da esquina francesa por onde volto para casa. Uma escada toda com frases em francês – que julgo ser um poema – e que prometo fotografar, amarelava no meu fim de tarde. A vitrine onde a torre se ergue minúscula, mas imponente e os detalhes desde o manequim às garrafas coloridas me ofereciam a cor. Em casa, o amarelo rompe os aposentos com envelopes amarelos que chegaram do lado de lá do oceano. Trouxeram-me esperança de carinho sentido na pele e sob a luz amarela da luz difusa te abraço e agradeço a pluralidade que me oferece todos os dias. Amo mais!
Grazie!
Mariana Gouveia *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.