Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao George

Meu caro George,

Quando resolvi te escrever, imediatamente pensei na Revolução dos Bichos – que li lá na minha infância. Aqui no meu quintal, a revolução acontece de forma, às vezes, pacífica entre os “moradores” do meu lugar. Todo mundo tem o seu lugar.

Embora, tenha aqui dois caninos – Lolla e Yoshi – que quase mandam na casa. Assumem os sofás, camas e cadeiras e aceleram na correria quando veem bichos que voam. Mas, quem manda aqui é Chiquinho – meu beija – flor – que se acha quase humano, acredite. Ele ataca qualquer intruso que ousa chegar perto de seu bebedouro ou de mim… apesar de que, os cambacicas – os intrusinhos, nome que dei – rompem essa guarda e conseguem saborear o néctar preparado para ele. Até mesmo nas flores de hibiscos e lantanas ele faz revoar as borboletas e implica com o Louva – Deus que mora logo ali, no pé de boldo. O poder aqui, é dele.

Aqui, tenho a leveza das joaninhas – de várias espécies e cores – e que travam guerra com os pulgões, que insistem em querer comer as folhas do pé de jurubeba e as do algodão. Com ela, minha guerra é com os tamanhos. São tão pequenas, que preciso vistoriar o lugar onde me sento, piso, ando. Até a horta… cercada para que os cães não estraguem viram espaços para elas ou outros insetos oportunistas.

Meu caro George, é dentro desse muro onde resguardo meu lugar que preservo minha lucidez. O sonho de poder aqui dentro é de tranquilidade. Lá fora, a persuasão e manipulação continua tão atuante ou até mais de quando seu livro foi escrito.

“Todos os animais são iguais.
Mas alguns são mais animais do que os outros.”

– George Orwell in,
A revolução dos bichos

A verdade, é que, mesmo com tantos erros não aprendemos e continuamos a errar nas escolhas. Os tempos só mudaram nos dias. Seu livro é tão atual que parece que foi escrito agora.

O fato é que ainda vivemos a indefinição e talvez, isso seja o ponto principal de seu livro:

“Fechai os ouvidos quando vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira.”

Aqui, no meu quintal, o interesse será sempre deles.

Abraço,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural (F.451) – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao avesso de minha cidade

“Não aguento mais ser chamado de pau rodado
Já tomo licor de pequi, já danço o Siriri
Como bagre ensopado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado
Sou devoto de São Benedito
Até já danço o rasqueado


Adoro banho de rio, vou direto pra Chapada
Na noite cuiabana tomo todas bem gelada
Sou viciado no bozó, pescaria e cururu
Tomo pinga com amargo
Como cabeça de pau

Eá, Eá, Eá, só não nasci em Cuiabá
Mas no que eu cresci
Meu bom Jesus mandou buscar”.
(Pescuma e Pineto)

Não nasci aqui, mas de fato talvez tenha nascido. Ou nasci lá…
O nascer verdadeiro foi em outro Estado, e talvez possa ter inventado – eu explico – essa miragem do lugar da minha infância. Mas, quando cheguei aqui e me deparei com ruas circundadas pelas palmeiras já centenárias e ipês floridos… duvidei do que via – e passei a “inventar” minha cidade de morar.
O cheiro do quintal e suas mangueiras a cantar frutos para o vento… Os pés de cajus a servir de comida para os pássaros pareciam desenhados na minha memória. O pomar era no fundo da casa da vizinha… no meu próprio quintal e calçada afora, dentro do espaço por onde passava.
O linguajar do povo em sua melodiosa prece… as igrejas a desejar a fé nos infinitos terços nos dias da semana. O rio que dá o nome à cidade… a abraça até avançar rumo ao Pantanal. Circunda os bairros e dá alimento aos moradores.
As ruas antigas contrastam com o moderno. Ali, onde cato poesia, descubro o avesso desse lugar que amo… Adoro essa rotina radiante de dia de sol e seu calor abundante que colore meu quintal… minha rua – meu lugar.
Mas, amar essa cidade gera conflito… porque ela mudou tanto, e ainda assim, continua igual.
Antigamente, era tranquilo descrever meu amor por ela… na calçada onde as famílias sentavam para contar seus velhos causos. Meus olhos avistavam a vida na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira, que me traziam sombra e aconchego.
Eu não entendo mais esse lugar como antes…e, talvez, você perceba que é isso o que me encanta. Já não há mais cadeiras nas calçadas e nem a criançada a brincar de pipa, bolinha de gude e pique-esconde. Tudo se tornou tão distante das vilas, e os prédios multiplicaram aos meus olhos.
Sinto falta dos lugares feitos para mim… onde me encontrava em poesia e rabiscava nos muros os meus primeiros poemas de amor… falava da cor que diversificava em vários tons da cidade verde… do fruto doce – que como presente nasce no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia… e de que eu, insatisfeita, sempre reclamava.
Eu sempre amei esse pedaço de chão e, ao mesmo tempo, tive raiva… quando as ruas se abriram para mim, me envolvendo com as folhagens das palmeiras que ladeava os caminhos por onde eu passava. E eu, menina, corria solta pela vida… sonhando com a cidade sendo notícia no mundo – senhora de si – com suas cores redesenhando o amor que eu sentia.
Vestia de chita, enchia de poesias as vielas. Serenava nas madrugadas frias… umedecia nas tardes de calor.
Reclamava, reclamava e, mesmo assim, longe daqui, queria existir nela…porque
sempre amei desbravar rotas novas, desvendar os lugares secretos. Comer e beber da fonte do rio… na essência pura de alma cuiabana que tenho.
Eu sei que tudo isso está aqui ainda, mas aquela menina… que aprendeu a desvendar o amor que sentia pela sua cidade, cresceu. E o amor…  infinito, cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que abrasa – e torna especial e único –  meu lugar.
Com o tempo, me transformei em arrogante, pelo simples fato de poder possuir as ruas, e dançar sob os ipês coloridos dos parques, porque queria o melhor lugar para viver. Mostrar ao mundo a beleza que cada canto continha.
Eu andei por aí e, nos becos, descobri que a força da cidade não é mais a ingenuidade de menina. A cidade cresceu também e tomou proporção de gigante. Seu tamanho é efêmero, porque guarda a singeleza do seu linguajar. Ela se tornou maior do que podia aguentar e, ainda assim, permanece intacta na simplicidade.
Já fui para outros lugares, outros amores…  sempre voltei, por vezes insatisfeita, mas com a sensação de que só aqui poderia chamar de lar… Porto seguro.
Ali, entre a ponte que dividia lugares… que guarda meus desejos mais secretos e que, para ninguém descobrir, o vento levou. Aqui, debaixo das árvores que cede a sombra fresca durante o calor… e nas calçadas onde cresci, sentindo o aroma doce do cerrado…
Busco justificativas para tudo o que eu sinto… Ainda me encanta a diversidade… os mil jeitos. A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a falta de regras, a desigualdade, a falta de respeito, de solidariedade que existe.
Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto… onde as escadarias me leva aos lugares de fé, ao acreditar ser possível que esse lugar continue o mesmo… e mude. Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no céu cinzento, e pense que ainda é a menina simples que me encantou.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Avesso – Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta ao Vento

“Nesta ausência que me excita, tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita…
Distância, sejas bendita! Bendita sejas, saudade!”
Gilka Machado

Caro vento,

Talvez abrir os braços e te acolher dentro de mim, incorporando roupas e cabelos seja pouco… o que eu quero é redemoinho. Aquele lá da infância onde você surgia miúdo e ia ganhando os beirais dos currais e de repente estava lá, espalhando os lençóis nos varais e as pipas dos meus irmãos.
Você me lembra a liberdade… essa frase solta que calada não tem a força e que represada – igual minha mãe dizia – vai roubando instantes nos quintais vida afora. Você se tornando redemoinho fica igual menino furioso e o infinito se torna tão curto para além das cercas.
Tenho em mim os ideais de sua força… é como a força do mar que ganha do rio as gotas e se transforma em gigante. Já imaginou se cada um de nós tivesse na mente a sabedoria de sua força?
O que me lembro de sua fúria vem pelo olhar de minha mãe – eu, menina olho de poesia e os arames farpados em nossa frente – e a cadeira preferida dela em seu centro e as folhas das palmeiras que circuncidavam nosso quintal viraram picadinhos enquanto seu furor rompia o monjolo, as telhas e além da cerca, a árvore de minha infância.
O medo, é esse bicho troncho, que nem avisa quando é de verdade e quando devemos realmente temer. Voltar é impossível na existência – minha mãe repetia – o olho deve ir além. 
Amanhã é outro dia, ela repetia tal qual a palavra do filme que ela nunca viu, mas ouvia via rádio E o vento levou era mantra aqui.
Esse rompante que ultrapassa as barreiras e invade os varais me fascina – é verdade – e ao mesmo tempo me retrai e se eu disser que hoje consigo lidar com seus avanços, minto.
Você é essa lembrança imperiosa que a mente não consegue apagar e ao mesmo tempo é essa ânsia de vida que acolhe o peito e transforma tudo que toco em redemoinhos.
Sou tão pouca diante dos retratos preparados e sou tão frágil feito pena aos seus olhos. A vida tem a dimensão exata do que você é capaz. Uma onda que escapa do mar e causa rebuliço no campo e arranca as roupas dos varais, mas que não pode comigo quando me permito voar.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Redemoinho – Scenarium Plural Editora
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Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Recolhimento

As paredes tinham vultos estranhos. Desenhos sem nexo, letras garrafais e traços levando a rotas que sempre terminavam na porta. Eu vi logo assim que cheguei.
Trouxe as flores que ela gostava. As cortinas balançavam com o vento. Ela olhou além da janela com grades e perguntou sobre todos os nomes que eu lembrava. E até de quem eu nem lembrava mais. Perguntou também das Marias. Havia uma infinidade de Marias em nossa rua!
– Tinha aquela que brincava comigo além da cerca – riu, ao se lembrar.
Essa tinha se mudado no ano passado – pensei em dizer… mas já não fazia sentido.
– Tinha a Mariazinha, que me roubou a boneca que sua mãe fez – a lembrança vaga da boneca preta Maricota inundou nossos pensamentos.
Minha mãe prometeu fazer outra igual, no meio de toda a confusão… mas não deu tempo. Ela morreu antes. Só ficou a promessa… no vazio. E, depois, ela veio parar aqui, nesse lugar de recolhimento, e nunca mais falamos na tal boneca.
Ela olhou as flores com riso no olhar. Cheirou cada uma… Pegou um caderno. Os desenhos saltavam das folhas brancas. O balanço na árvore da infância, o riso quase ecoando no papel. O vento nos cabelos e eu a empurrar dizendo ser a comandante… Braços soltos no ar. Riso largo. Ver o riso desenhado trouxe uma leve ternura… meu retrato parecia voar. Eu, sem palavras. Ela, num gesto mínimo-seu…rasgou a folha e me deu.
Comeu um dos doces que eu trouxe… fechou os olhos e disse que era sonho de toda noite esse sabor.
Eu a abracei, enquanto nossos corações batiam ritmados. Cantei baixinho a canção que ela gostava e a embalei… ela falava sobre abandonos. Alguém abandonara a moça do quarto ao lado. Tinha o nome de Letícia, a pobre. Ninguém a visitava. De vez em quando, repartia os doces que eu trazia com ela, como um meio de adoçar a solidão da moça. Também, no dia dedicado ao jardim, contou-me que fez uma trança em Letícia, que ria… mas permanecia com o abandono no olhar.
Nas paredes, reparei que os poemas se misturavam a nomes e datas. Meu aniversário ali, desenhado dentro do coração, e as mãos dadas entre um pacote com laços vermelhos, “da cor do seu cabelo”, ela disse…
A moça de jaleco branco veio dizer o fim a hora da visita. O abraço longo, enquanto eu ajeitava os cabelos dela… o beijo na testa e a promessa da volta.
Os olhos a encarar o teto. O riso de louca a cada expressão…
– Acho que toquei as estrelas… – ela disse. Eu tinha a certeza de que sim.
Lá fora, uma chuva fina caia.
Lá dentro, na janela, ela escondia a lágrima e ria.
Eu já tinha um poema para escrever e iria desenhá-la na chuva, com os cabelos vermelhos de sempre.
O lugar, visto de fora, parece o paraíso.
De dentro, recolhia a alma das pessoas que ousavam atentar contra a normalidade.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural 1900 – Casa dos Contos
Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta a menina que fui na ciranda da vida.

“Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar”

Cantiga Popular

Da minha janela, enquanto uma chuva fina cai, ouço na rua de cima as crianças da casa laranja brincarem. Imagino a roda se formando e os risos me leva até à minha infância. É nesse portal – dentro da minha imaginação – que te escrevo. Escrevo para você – a menina que fui – e que corre atrás dos irmãos e ri diante da roda que se forma. Perdi o anel de vidro em alguma história. Ganhei o verso bonito antes de ir embora para além da estradinha que serpenteava seguindo o contorno da floresta.

Misturo os momentos nessa ciranda insana – palavras da minha bambina –  em que a vida me jogou. O rio secou lá para os lados onde nasci. Dizem que fizeram uma represa para instalar um monjolo – ou uma usina no Norte – e nos campos onde corri, a plantação de soja ganhou rumo afora, até onde o horizonte se mistura com o céu. Arriscam de vez em quando, entre uma safra e outra, o brilho dos girassóis e eles brincam de ciranda em torno do sol.

As mãos da minha irmã caçula a segurar com força enquanto rodopia no ritmo do vento. A palavra ciranda a ganhar contornos de união nos abraços trocados… tudo se transforma dentro da palavra mágica da saudade. Parece que além da janela, ecoa na rua de cima, o vento lá da menina que adorava cirandar e que dentro do tempo corrido, ciranda nas lembranças de lá.

Enquanto cubro a menina com o lençol de flanela para os dias de frio desenho o retrato na parede. A mãe e o pai de olho grudado em nós e o laço de fita a soltar da trança e a xícara a fumegar o chá de erva – doce.

Como as lembranças se chamariam se pudessem falar? Como seria se os álbuns de fotografias pudessem dançar com as cortinas?

As palavras cirandam no suspiro… e em frente da minha janela mora uma ciranda na praça que as crianças brincam. O relógio da matriz canta de hora em hora e de repente, eu cresci… Os balanços rodando, rodando. E o mundo acontecendo lá fora. Uma pessoa levanta, outra senta. As sombras parecem pessoas perdidas no lugar. Uma moça passa correndo. O celular ilumina o rosto de alguém na noite em que a chuva fina lembra a frase da mãe, que mandava a gente correr para dentro – enquanto a chuva de molhar bobo molhava a gente – ninguém queria ser bobo na voz da mãe… A noite é esse brinquedo que risca o chão. E a ciranda do tempo, essa senhora que fica muito tempo sem fazer movimento e depois ganha velocidade da menina que um dia eu fui.

Em frente da minha janela moram palavras que viram cartas que é uma multidão. Acho chique nomear a dança de ciranda e endereçar cartas que talvez nunca envie. Que talvez leia em voz alta andando em voltas no quintal e quem sabe descobrir o nome do futuro dentro dos olhos de quem já foi criança comigo. Eu não sei, mas em dias de chuva essa menina parece apenas um vulto. Em dias normais é apenas o gesto do meu pai que cantava baixinho a cantiga popular enquanto seguia estradinha afora rumo ao horizonte.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Ciranda – Scenarium Plural Editora
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BEDA – Carta ao riso de Vera

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista!

Cora Coralina

Ah, Vera! Escrever cartas é uma das coisas que mais gosto de fazer. Começo memorizando momentos e daí, as palavras vem fáceis. Mas, falar de você é como escrever para o riso. Eu a conheci assim, entre risos e lutas. Dentro de uma coragem imensa, que nunca imaginei ver em alguém.

Durante muito tempo, antes de eu viver fotografando as coisas, havia uma parede com seu nome estampado de frente para o portão da minha casa, na casa do Silvino. As letras vermelhas, o número 13 sempre a lembrar das lutas, mas também das conquistas e vitórias, levava sua profissão antes: Professora Verinha e muitas vezes acompanhei suas falas no microfone. Foram inúmeras, mas seu sorriso era sentido mesmo que eu não tivesse olhando. Com o tempo, o muro foi pintado, mas cada vez que olho para aquela casa, vejo seu nome ali, me lembrando da força que você tem.

A sua garra, se eu pudesse, fotografava… e registrava para ficar eterna – embora seja, penso eu – e a coragem que para mim deveria ser seu nome do meio. Não me lembro de você que não seja levantando bandeiras, ou braços para abraçar alguém. Junto com o riso no rosto e no olhar. A voz ecoando nos microfones se fazendo ser ouvida em sua luta pela igualdade, pelo bem do próximo e pela educação.

Então, diante de tudo isso, é para seu riso que escrevo hoje, porque eu já vi esse sorriso entre lágrimas, entre abraços, entre gritos e como se fosse voz ele ecoou e ecoa quando falo de você. Mas do que falar do riso de mãe, da educadora, da lutadora eu falo do riso da mulher que ama a natureza, que acolhe pessoas e que leva a esperança para aqueles que precisam.

E com carinho te agradeço e te abraço…sei que a luta ainda faz parte de você e sua voz se expande em nome de tantas mulheres. Que essa coragem seja sempre sua companhia.

Com amor,

Mariana Gouveia
Fotografia ‘roubada’ dos arquivos pessoais.

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BEDA – Carta de mim para mim

Sabe, falar com você às vezes é como falar com uma estranha… tão íntima que, preciso mergulhar na vida, para te contar.
Eu estou aqui atrás do espelho. Quase rio, quase água, a ondular lembranças de nós duas. Resolvi escrever dentro dessa saudade, do cheiro da floresta, do chá que ainda fumega por aqui e descubro que olhando através da opacidade das lembranças, você é ainda aquela menina que não cresceu dentro de mim. O cheiro do bolo de laranja invade sua cozinha, enquanto abre a geladeira e seus pensamentos se voltam para cá. Um tempo a permanecer vivo em sua memória enquanto o beija-flor visita o varal de roupas e você o chama pelo nome que escolheu.
O gosto do capim dourado, ainda verdinho corre na saliva e traz a mágica que faltava. Acho que é esse gosto que te prepara para os dias reais. Esses em que você acorda descabelada e percebe, aí, do outro lado do espelho que a tinta precisa ser retocada, a sobrancelha feita e o batom já está no fim do tubo. É preciso ligar para a revendedora – pensa – enquanto aqui, o que tinge minha boca é o picolé de uva que era dividido entre os seis irmãos. Um mais afoito dava a mordida para a bronca da mãe logo vir.
Ainda estou com as tranças amarradas com a fita laranja de veludo e que não paro de tocar, por causa da maciez que sinto nos dias vividos, quase conto de fadas, feitos de histórias, onde eu era você e pronto.  E você, além da maciez se encantava pela cor. Tudo que tocava era vivificado pela cor laranja.
Era assim a rotina dos dias, enquanto te vejo na correria entre a cozinha e o banheiro. O quarto e a sala. A comida do cão, o café solúvel – que pela falta de tempo não usa o coador de pano que a mãe mesma costurava – a esfriar dentro da xícara e eu saboreio o crepitar do fogão a lenha e o aroma a invadir os quartos e deles sair os irmãos a pedir o bolo de fubá da mãe.
Era qualquer dia do fim de maio e a estação antecipada nas manhãs tingia de branco os campos e o pai coçava a cabeça a pensar na geada a repetir que nem era inverno ainda enquanto você ai se abana na manhã quente. Pensa no ônibus, na lista de compras e eu, a espreitar a água límpida dentro do barquinho na beira do rio onde os peixinhos lambaris mordiscam os meus dedos. O caminhar até a floresta para a casa de dona Fulô era feito na singeleza dos pulos. O seu caminhar até o ponto de ônibus ganha ares de abraços das meninas do clube – nessa hora, somos quase a mesma – perdida dentro dos abraços que nos energizam.
Eu, no colo da avó postiça, com jeito de bruxa, cara de fada e amor de flor;
você, dentro da voz encantada de a pouco e a manhã transcorria dentro dos nossos nadas.
Eu, a menina do tapete, encantada pelos campos de girassóis, pela moita do capim dourado, e pelo tear que desenhava tecidos nas mãos da mãe. Você, a mulher das palavras, dos naufrágios todos, dos mergulhos oceânicos. A que precisa decidir o que fazer no almoço e a pauta da reunião na empresa; você, a menina de junho, das festas dos santos, das rotas desbravadas em meio as teias de aranha que seu irmão morria de medo. Eu, a menina da geografia espalhada debaixo dos meus pés, sem medo dos formigueiros e suas donas engraçadas a destruir o pé de rosa preferido da mãe. Eu, que nunca conseguia dar respostas às tuas perguntas – do que são feitas as nuvens? E essa grama tão verde, quem pintou? Como chegar nas estrelas? Como avião voa? – e viriam depois dessas mais infinitas questões e eu me perdia em respostas que não te alcançava, para fazer outras que você não cabia.
Eu que sempre soube dos seus imensos temporais internos, dos abalos sísmicos do coração. Você, a louca que sempre clamava a pele, toque, abraço, mãos. Seja em uma árvore onde desenhava corações, ou na estradinha onde escrevia poemas com o nome do menino da fazenda vizinha. A impetuosidade a gritar dentro e a calma com as águas que te fazia descendente delas. Era como se você sempre fosse esse encontro a outro mundo, Fosse sempre esse estado da matéria. Eu, quase lunática, quase volátil e você tão palpável, tão terrestre. Uma precisando da outra pra viver.

E a gente que era riso e choro. Éramos sem fronteiras, dentro dos nossos gestos. Uma a chuva, enquanto a outra, o sol.
Você o silêncio habituado nas noites serenas. Eu, os lugares desconhecidos onde os pássaros acordavam a madrugada que você acolhe tão bem. Eu diurna, à espera, desse lado do espelho. A espiar janelas abertas que você sempre esquecia de fechar. Você noturna, conhecedora das estrelas e sabia descrever a previsão do tempo por elas. Você a conhecer a flores e o jeito de florescer de cada espécie, só porque a fada te contou e aprendeu.
Enquanto eu sonhava com o rio e o barco a atravessar um oceano e você a dizer na segunda pessoa o: tu não sabes que barco de rio nunca cruza oceano?
Eu que conhecia a assimetria da areia a desenhar a prainha onde a mãe buscava a matéria de arear as panelas de alumínio tão brilhantes que pareciam espelhos. Você que conhecia o rio tão bem que o descrevia em palavras que parecia poema de amor e que era espelho onde você penteava os cabelos molhados…O mesmo rio furioso que comia as margens na pororoca que invadia nosso quintal. Éramos as duas, uma que salvava a porquinha que tinha o coração em uma pinta nas costas. A outra, que mergulhava na correnteza exuberante diante dos olhares assustados dos pais.

Hoje, de vez em quando, abre o portal e começa a desenhar trovões na noite onde o céu mostra seu negrume. Enquanto sou apenas respostas nas cartas que escreve.
Não quero que se perca nas manchetes de jornais, nas palavras escritas e nem nas ondas que navega em teimosia ao amor.
Quero que me encontre quando de noite, na solidão das horas de insônia e descubra que apesar de tanto tempo nos separar, somos sempre uma só.

Beijos,

Eu, você,
Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural La Barca

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Afetos · Das palavras das cartas

BEDA – Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

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Sabe, pai, amanhã é seu dia. Embora eu não ligue muito para esse negócio de dia, escrever-te virou rotina no segundo domingo de agosto. Faz com que esse laço se reforce ainda mais. Enquanto te escrevo, eu ouço o rádio e isso me lembra que foi você quem me fez apaixonar pelo rádio.

Logo cedo, acordávamos ao som de Zé Bétio chamando todo mundo para levantar. E ali, diante daquele aparelho, cresci ouvindo músicas da melhor qualidade. Ouvindo histórias que emocionavam. Ouvindo e aprendendo a torcer pelo Brasil. Naquele tempo, o rádio era o único contato com o mundo externo e veja você, que a gente sabia até o que acontecia no exterior. Continuo ouvindo rádio e hoje, faço parte dele.

A gente fala de antigamente e tudo parece que foi ontem e o seu riso continua igual quando eu era menina. Os seus cabelos branquearam com o tempo e você parece um personagem das histórias que eu lia nos livros. Sabe, pai, tudo que eu sou tem sua mão – minha fé, minha conduta e meu jeito diante do mundo – tem parte daquilo que me ensinou.

Você sempre carrega no olho a esperança e é essa mesma esperança que criou semente em mim. E alguém pode até perguntar: esperança em que? E eu digo que é a esperança na vida. De que tudo pode e deve ser para o bem e pelo bem. Dias atrás, quando te vi, reparei que essa mesma esperança ainda mora li, no seu olho. Fiquei sentada algumas horas em silêncio, perto de você e ali, passou-se toda nossa vida, pai. Até sua mania de não querer tirar fotos continua igual.

E seu jeito de elevar o olho pro céu quando fala em Deus. A maneira de olhar para a gente como se ainda fôssemos crianças e como se estivesse sempre nos benzendo. Queria tocar em tanto assunto, mas o medo de você emocionar me podou. E foi em silêncio que a gente mais falou. Não precisava dizer nada.

Aprendi a benzer com você, pai e quando me perguntou sobre isso, vi que esperava que eu dissesse que continuava seu ofício. E continuo, pai…eu benzo as pessoas que cruzo na rua. As crianças que me tocam com o olhar, nos ônibus. Você riu diante da modernidade das bênçãos de hoje. Te explicar que hoje em dia, já não se cuida mais de arca caída como antigamente, nem de quebrante, é o mais difícil. Porque você no seu mundo limitado pela cadeira de rodas, acredita que tudo continua igual e que o rádio ainda tem os mesmos programas e que apesar de já ser mãe, ainda sou sua criança.

Sabe, pai, o dia dos pais pela simbologia do dia é para presentear e agora, descubro o quão abençoada sou. Você me deu uma riqueza de presente. Gosto do que vejo em mim. Gosto desse reflexo que me tornei de você. E gosto imensamente de ser sua filha.

Não vou poder te abraçar amanhã, fisicamente. Mas, te abraço todos os dias em pensamento e quando me preparo para a oração, minha referência é você e diante de minha fé eu renovo a tua. Apesar de sua limitação, descobrimos que a gente pode voar e agora, pai, estou em pleno voo na exata direção do seu colo.
Benção, pai!

Beijo
Mariana Gouveia
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BEDA – Carta para Al Berto

Fala-me tu do Amor…
e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o
ardor das línguas e a asfixia dos corpos.
Fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes
desaparecem numa doçura e amargura.

Conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. Porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.
Al Berto

Caro Al berto,

Aqui trovoa e Cássia Eller canta e recanta ECT no celular… eu poderia endereçar essa carta para além-mar e dizer que era ali, diante das telas, que suas poesias reverberam em minha pele. Onde você era voz quando eu queria gritar de amor? Onde quando você era escrita e eu arrepios? Quando os poemas que você escreveu há tanto tempo poderia causar o caos em meu interior e assim fazer minha alma flutuar nas memórias de amor?

Aqui chove e eu penso que o infinito devia ser feito de tardes de chuvas. O cheiro da terra a invadir os quartos e as cortinas dançam ao som do vento. Você adoraria conhecer o vento que mora no meu quintal e é bem ali, na curva do muro que o ipê solta o dourado de suas folhas. Daria bem um poema seu, meu caro…

Queria compreender todos os oceanos e dizer-te que em minha casa as aves nascem nos vasos onde brotam as orquídeas e que há dias em que a solidão é mais cruel e você sabe do que falo.

Sabe, Al Berto… escrever-te é como acelerar o tempo do mundo e você é poesia dentro desse tempo… A louça por lavar e a chuva a invadir a sala com sua atemporalidade e eu a imaginar esse diálogo único… Já suspirei lendo o que escreveu há tempos atrás e é tão atual em mim. Já respirei na porta da cozinha enquanto o cheiro das ervas do meu quintal chama meu nome através da essência bruta de viver… é bem ali que quero morrer dentro de sua overdose de beleza.

Os homens que você citou em seus poemas são os que matam hoje em nome do amor e por isso, tantas vezes perdi o rumo de casa e fui ser alento em algumas esquinas levando o verbo para quem perdeu a fé e meu silêncio servia de moradia dentro da dor. Cheguei a declamar um poema seu para uma alma que apenas sentia a dor… e logo depois ela se acolheu em meu abraço como se eu fosse o próprio poema. Era você ali, sendo voz em mim para ajudar quem não acreditava mais em poesias.

A vida é esse vazio cheio no meio de tantas coisas que não têm a ver conosco e são tantos os olhos a nos  espreitar e descobrimos que isso é o viver na sociedade, mas sempre existe um olhar que sendo de outro é o seu…

Li dias desses que é a poesia que vai nos preparar para as lutas… então, que seja isso.
O mundo de hoje é feito dessas poesias que nos toca a alma como as suas.

Grata por ter deixado essa válvula de escape para que a gente pudesse enfrentar o mundo atual.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural 8 – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

BEDA — Projeto Fotográfico 6 on 6 | a …gosto.

mãe,

A vida é esse desenho de escolhas que fazemos nos dias… “é esse gosto de viver” – você diria – e de repente, diante das palavras me pego pensando no que eu gosto. Não vou falar sobre os bichos, nem sobre as pessoas… Vou falar sobre a magia que você em tão pouco tempo introduziu em minha vida e carrego comigo através de coisas que gosto.

O rádio…
é mais do que gosto. Uma paixão que você fez nascer em mim. Tudo sobre o “mundo lá fora” nos chegava através do rádio, lembra? Aquele aparelho, colocado em um suporte, como se fosse um trono, os programas, as novelas, os jornais, e as cartas… foi ali, que desejei ser radialista. A semente plantada, cuidada e realizada anos depois. Aquele aparelho mágico que te encantava e passou a ser parte do meu mundo.

A máquina de costura… a suavidade da linha sobre o tecido é algo que gosto… e em cada corte, cerzido ou ziguezague impulsiona em mim o que você ensinou.
Ainda hoje o som dos pedais me trazem você na memória. As lembranças me levam pela mão e vejo as misturas do tecidos se transformando em arte. Isso, você me deixou como herança, porque a poesia dos dias plantados dentro de mim, na infância, é o que me faz ser hoje o que sou. Você conseguiu, mãe, dar os pontos, ligar as linhas e acho que você se orgulharia de mim.

O rio… aquele que banhou minha infância me dá a liberdade de pisar descalça e absorver a leveza da vida. Lembra-se, mãe, de que à beira do rio, na lavagem das roupas, você dizia que todos os rios se encontram quando viram mar? Assim, em cada rio que molho meus pés, eu reverencio aquele rio que vou reencontrar um dia quando chegar perto do mar.

As cartas… sabe, mãe… as cartas que a gente escrevia uma para a outra, dentro da distância que o tempo nos roubou ainda as tenho. Mas, depois disso, as cartas se transformaram em uma espécie de diálogo que traço com os que amo. Os envelopes de hoje são coloridos – eu prefiro os vermelho, você sabe – e os papéis de carta já não são como os nossos com os desenhos feitos por você…Recebo cada lindeza em forma de quarto que dá vontade de emoldurar.

Meus livros, mãe… lembra-se de quando você dizia que um dia, alguém iria ler minhas histórias em um livro… e hoje, muita gente em todo mundo lê as minhas histórias. Com isso, além de realizar meu sonho, trago o seu junto impresso nesse trabalho lindo que minha editora faz. É a arte que você gostava misturada com a poesia que você me guiou.

Os ipês… ah, os ipês que tão bem desenham agosto dentro de mim, nas canções da minha infância, nas cores que parecem feitas a mão… Hoje, eu os tenho no meu quintal e cada flor que brota eu reverencio você, nesse mês tão louco, mas tão dentro de nossa história. Os buquês se formam e os tapetes se misturam em meu quintal tão variado de vida.
A vida, é esse instante vago, mãe e a gente, às vezes, nem percebe que na singeleza das coisas o Universo é essa magia de um bem maior e essa carta foi uma maneira de chegar mais perto de você.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.