Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta para Al Berto

Fala-me tu do Amor…
e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o
ardor das línguas e a asfixia dos corpos.
Fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes
desaparecem numa doçura e amargura.

Conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. Porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.
Al Berto

Caro Al berto,

Aqui trovoa e Cássia Eller canta e recanta ECT no celular… eu poderia endereçar essa carta para além-mar e dizer que era ali, diante das telas, que suas poesias reverberam em minha pele. Onde você era voz quando eu queria gritar de amor? Onde quando você era escrita e eu arrepios? Quando os poemas que você escreveu há tanto tempo poderia causar o caos em meu interior e assim fazer minha alma flutuar nas memórias de amor?

Aqui chove e eu penso que o infinito devia ser feito de tardes de chuvas. O cheiro da terra a invadir os quartos e as cortinas dançam ao som do vento. Você adoraria conhecer o vento que mora no meu quintal e é bem ali, na curva do muro que o ipê solta o dourado de suas folhas. Daria bem um poema seu, meu caro…

Queria compreender todos os oceanos e dizer-te que em minha casa as aves nascem nos vasos onde brotam as orquídeas e que há dias em que a solidão é mais cruel e você sabe do que falo.

Sabe, Al Berto… escrever-te é como acelerar o tempo do mundo e você é poesia dentro desse tempo… A louça por lavar e a chuva a invadir a sala com sua atemporalidade e eu a imaginar esse diálogo único… Já suspirei lendo o que escreveu há tempos atrás e é tão atual em mim. Já respirei na porta da cozinha enquanto o cheiro das ervas do meu quintal chama meu nome através da essência bruta de viver… é bem ali que quero morrer dentro de sua overdose de beleza.

Os homens que você citou em seus poemas são os que matam hoje em nome do amor e por isso, tantas vezes perdi o rumo de casa e fui ser alento em algumas esquinas levando o verbo para quem perdeu a fé e meu silêncio servia de moradia dentro da dor. Cheguei a declamar um poema seu para uma alma que apenas sentia a dor… e logo depois ela se acolheu em meu abraço como se eu fosse o próprio poema. Era você ali, sendo voz em mim para ajudar quem não acreditava mais em poesias.

A vida é esse vazio cheio no meio de tantas coisas que não têm a ver conosco e são tantos os olhos a nos  espreitar e descobrimos que isso é o viver na sociedade, mas sempre existe um olhar que sendo de outro é o seu…

Li dias desses que é a poesia que vai nos preparar para as lutas… então, que seja isso.
O mundo de hoje é feito dessas poesias que nos toca a alma como as suas.

Grata por ter deixado essa válvula de escape para que a gente pudesse enfrentar o mundo atual.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural 8 – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

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