Das palavras das cartas

BEDA – Cheiro

Querida Ana!

Aproveitei a solidão da tarde de domingo para te escrever. As nuvens tomaram conta do céu em seu tom azulado escuro e o cheiro que a terra exalou me lembrou você.

Juro que pensei na singeleza dos seus passos sobre a areia branca da praia e do canto do seu mar, mas aqui, eu tenho além do voo do beija-flor, a chuva que começa a cair. O cheiro é a coisa mais surreal do mundo! Como pode a gente sentir vontade de repartir esse cheiro com alguém, Ana? Você pode responder?

Os cheiros fazem parte de mim… desde pequena, essa mania de sentir a presença de alguém, de reviver momentos são ritmados pelos cheiros.

O pão caseiro da vizinha e o cheiro a invadir os quintais é de suspirar e a vontade é atravessar o portão e ir lá ganhar um pedaço. A torta de banana da padaria da esquina é de enlouquecer, Ana! Não sou muito fã de torta de banana, mas o cheiro dela é emocionante. O cheiro da rapa do arroz de minha irmã é quase uma volta ao passado, lá na infância, quando minha mãe parecia alquimista na beira do fogão de lenha a assar os bolos para o chá.

O café, na madrugada a exalar seu cheiro enquanto me levanto. Chego a jurar que é na casa do senhor Wilson. Nunca bebi café lá, mas já sorvi todos os cheiros do café dele.

Agora, o que queria dividir com você é esse cheiro de grama molhada no quintal e a tarde mansa que descobre em mim a saudade.

Saudade tem cheiro, Ana? Ah, acredito que não, pois se tivesse teria o cheiro do seu perfume.

Beijo meu. 
Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

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