Das palavras das cartas

BEDA – Que se pode escrever de tão claro?

Casas brancas
Nuvem branca
Pombos brancos
Jasmins.
Tomo nas mãos a primeira folha de papel
Que se pode escrever de tão claro?
Cecília Meireles

Bambina mia,

Cecília entrou em minha vida quando eu ainda era criança, nos livros sem capas, doados por parentes que moravam na cidade grande e as caixas eram encaminhadas para a gente como presente e brinquedos. Confesso que os livros me encantavam mais do que as bonecas sem braços, ou as roupas que ficavam fora de tamanho e que minha mãe se esmerava em adaptar para quem servisse.

As caixas traziam livros variados e eu ficava horas a ler sob o olhar atento de minha mãe para não ler nada “proibido” para além da minha idade.

O poema acima era uma maneira do incentivo a escrever que minha mãe usava todas as vezes em que o caderno era oferecido para um texto – “que se pode escrever de tão claro?” – e dentro dessa certeza e da frase o que era escrito ganhava detalhes na voz dela. E assim, Cecília foi se entranhando em nossas vidas.

Antes de te escrever fui ali no quintal e colhi a erva cidreira e preparei o chá, já conversando com você, meu ritual em alguns dias – olha a lua! Trovoa, bolo, pão, café e chá – nas coisas que me lembram você.

Cantarolo Gadu, enquanto a água ferve e preparo papel e caneta. Já reparou como fica mais difícil escrever a mão? A tecnologia nos deu teclado e as letras parecem dançar na tela.

De chá pronto e com o cheiro invadindo o quintal começo as palavras da escritora e as palavras fluem. Acordo cedo, você sabe, bem cedo e me deito mais cedo ainda, independente dos dias que para mim parecem histórias contadas. Sei que lá fora está um caos. Talvez, aqui dentro dos muros que protegem meu quintal, eu esteja quase igual antes de todo o mundo se transformar. Não vejo a rua. Apenas ouço essa rua barulhenta e cheia de crianças com suas pipas, o casal de idoso que mora na casa em frente da minha, recebe tantas visitas que me assusta e na casa da esquina, um culto religioso com suas caixas de som estridentes me faz pensar que talvez tudo tenha passado e só eu fiquei presa nesse tempo de pandemia – me belisca… já pedi para o moço aqui de casa – enquanto um hino cantado pela vizinha sacode a janela.

Os pássaros de todo dia cantam e adoraram o comedouro que preparei para eles. Reparei que há mais pássaros e alguns de espécies diferentes que apareceram por aqui. O ipê floriu mês passado. Derramou suas flores amarelas pelo quintal e quase formou um tapete. Agosto chega ardente, ardendo. A fumaça rodeia o céu e fico à espera da nova estação que logo no mês que vem chegará, trazendo com ela a chuva e os lírios que plantei anteontem. O pé de jabuticaba pegou e cresce com meu zelo, embora os cães teimem em revolver a terra ao pé dela que tive de inventar uma proteção para ele.

Ah, o bolo de cenoura! Esse, não provei ainda, bambina…, mas os ingredientes já estão preparados para o bem-casado que farei assim que encerrar essa carta que te envio e nela meu abraço carinhoso.

Bacio
Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

5 comentários em “BEDA – Que se pode escrever de tão claro?

  1. Que delícia de texto, Mariana! Me envolveu, do começo ao fim. Sentada aqui, café nas mãos__ e tuas palavras ressoando à minha frente.
    Grata pela poesia em prosa, pelo chá da minha manhã, e por Cecília abraçada.
    Beijo daqui.

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