Quando já não tinha espaço, pequena fui Onde a vida me cabia apertada Em um canto qualquer acomodei Minha dança, os meu traços de chuva…
Maria Gadu
Fui ao baú desenterrar poemas. Choveu a manhã toda e se estende para a tarde. Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia. Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai. Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos… O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão. Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim. Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias… passo da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia. Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria – em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz. A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.
Aqui, depois da chuva aquietou-se o vento. Nasceu uma vida na esquina. O homem que domina o trânsito cantou. Uma pessoa falou de muros e eu lembrei do grafite apagado na rua de cima. O pássaro de todo dia fez rasantes dentro da chuva. O jardim cercado perdeu as folhas por causa dos cães. Mais uma vez o mito é desmitificado. Nenhum herói dura para sempre. Nem te contei a história dos versos que eu declamei enquanto a vida nascia, ali, entre flashes curiosos de celulares gravando a vida que nascia. O dia mudou dentro das rotinas e as flores caíam em desatino no quintal. A chuva clareia a maresia nas calçadas. No lugar do coração, o mar e sua sede de estar, preenchendo o tempo de vida de quem nascia. As lanternas iluminaram o dia diante do susto. Ganhou o nome de flor como homenagem ao santo. Dediquei as palavras das cartas no caminho onde respirei quem nasceu sob meu olhar.
Mudei a porta de lugar várias vezes. Uma, para o vento entrasse; outra, para ele saísse. Descortinei as vidraças embaçadas. Vi azul e mudei a cor do quintal. O sol alaranjou o gris que morava ali.
Querida minha,
Escrevo-te para dizer que o pássaro que beija a flor perdeu penas em uma briga com outro. Sei que vai rir quando ler e ver a imagem. Temperamental, o menino. Apesar de perder as penas ele ganhou a luta e agora reina absoluto em seu bebedouro. Acho que há bebês de cães por perto. Passam a madrugada chorando. Está chovendo quase todo dia. As flores ficam mais vivas e o calor mais ameno. Mas também faz com que as ervas daninhas se alastrem mais rapidamente do que o normal. Tenho que limpar mais vezes o quintal. Adoro o cheiro do mato sendo arrancado. É como se a clorofila se infiltrasse em mim. As joaninhas aumentaram nesse verão. Não sei se a estação colabora para isso, mas o fato é que elas estão em maior número no pé de algodão. O hibiscus mutalibis encheu de flores e até o mamoeiro deu frutos, o que faz a alegria dos pássaros. Por falar em pássaros, o bem-te-vi teve filhotes na mangueira do vizinho do fundo. Já ensaiou os primeiros voos hoje. A vida vai seguindo igual, independente da estação, da previsão do tempo. Os dias parecem voar tal qual o pássaro que beija a flor e que perdeu as penas e o meu amor continua igual.
não uma e meia nem sete nem quatro, trinta e oito da madrugada, duzentas e onze da manhã, uma escuridão infinita António Lobo Antunes
Pai, aconteceu abril no meu quintal e ele não chega como antes. Embora, o céu já antecipa os dias de sol por aqui, com as folhas amareladas caindo, abril lembra títulos de livros e filmes. E é o que acontece, pai. Abril chega despedaçado e com a solidão e a dor instaladas em muitos corações. Parece que as noites são mais escuras e longas.
Dias desses lembrei-me de que estamos em plena quaresma e de como era nossas rotinas dentro desses dias “santos”. Confesso que ainda sigo alguns dos seus rituais. Talvez, mais pela forma de lembrar de você do que propriamente por medo de um castigo divino.
Nesses dias tão difíceis, busco nas memórias momentos bons para atravessar com mais tranquilidade tudo o que está acontecendo, pai. E me admira que seu olhar é o mesmo de quando eu era criança e sua fé também. Um dia, você disse: “a fé que move as montanhas é a mesma que te fará viva nos dias duros e é nos momentos difíceis que se cria a couraça para viver. A gente precisa criar uma couraça!”. Confesso, que naqueles tempos, apenas guardei na memória mais uma das frases ditas por você… só que hoje, ela faz todo sentido.
Busco o equilíbrio na mesma fé que você me ensinou e na serenidade que você transmite. Vai ficar tudo bem, pai… embora a gente tenha perdido tantas pessoas nossas. Embora, lá fora, um vírus maldito transmuta e esvazia famílias inteiras, a gente se arma dessa couraça e vivifica a fé. É o que nos deixa forte para seguir.
Como comecei o mês te escrevendo, finalizo agosto nesse diálogo contigo. Te encontrei na madrugada…. no lugar improvisado na mesa da cozinha. O café espresso na xícara onde pousa uma borboleta. Te contei da lua? Ela estava exuberante ontem. Hoje, ela é uma bola vermelha. Linda e triste. Enquanto te escrevo penso que te levei pela mão para te mostrar a rua de cima, na madrugada. A brisa suave me fez te invocar presença. Você não aguentaria o calor – mesmo em pensamento – que fez hoje, por aqui. Fui mostrando-te a rua de cima, a casa amarela, onde o sol vibra em qualquer tempo – lembra Adélia e seu poema Impressionista – e a árvore, que está ali, há anos, faz barulho quando passo. Parece dar um bom dia e eu assopro – como todo dia – em direção às folhas e elas vibram na intensidade da hora. Há sempre um gato preto – acho que nunca falei dele – à espreita e mia como se eu tivesse algo comestível na bolsa. Todo dia! Para desespero dos cães que odeiam gatos. Depois da lua de ontem, da madrugada morna, o dia foi insuportável. O céu e o cinza da fumaça a deixar a alma triste. Agosto foi muitos meses dentro de um mesmo mês e vibro com a chegada de setembro. Logo será primavera e com ela virá a chuva. Abraço-te ainda com sua voz a ecoar por aqui. Amo tu!
Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia. Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida. Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito. Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola. Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipe verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados. O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe. A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas. Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas. Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam. Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz. Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé. Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho. A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida. Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar. Ser sua irmã me torna melhor. Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter. Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso. Que tudo de bom te aconteça sempre!
Alguns gritos ecoaram na noite passada, pássaros noturnos rasgaram o céu do meu quintal. Se eu tivesse medo, diria que esses voos rasantes foram inspirados em uma noite de terror. Trovejou longe na tarde – achei que ia chover- e chamei teu nome… Mas, foi só uma nuvem passageira e o sol continuou em sua intensidade máxima enquanto as fragilidades secretas das palavras vagou entre o que é Plural e singular e eu lembrava das sementes que você gosta de estourar.
Enquanto te escrevo nessa manhã de sábado a vida acontece logo ali, na rua de cima. Ouço risos de crianças e resolvi dialogar com você através dos ecos que vem dali. Eles costumam brincar como antigamente. Jogam bolas de gude, amarelinha e empinam pipas. Às vezes, a rua de cima é invento meu… às vezes, não… Lá, na rua de verdade, vejo um menino que não ouve palavras comuns – e nem escuta o que eu digo – mas que entende o que mostro. Ou o que leio. Comecei a ler para ele nas sextas -feiras. Alguns silêncios só podemos ler em braile ou deciframos códigos que nem sabíamos saber.
Às vezes, é realidade bruta. As crianças empinam as pipas, que enroscam em fios de alta tensão e ali, se tornam esqueletos de pipas que ao menor vento fazem barulho enquanto o vô da casa amarela fica tão ranzinza que a rua fica quieta. E o menino que não fala, nem ouve fica espiando eles a correrem para lá e para cá, em busca da pipa perdida.
A minha rua é quieta como no dia em que o vô da rua de cima fica ranzinza – eu expliquei para ele a palavra preguiça dita por você e ele preferiu a ranzinza mesmo – com exceção dos passarinhos que se agitam e voam para a árvore do vizinho, depois que meu quintal ficou “pelado” de árvores.
Sobre a noite passada ainda, tem noite que a solidão é feita de asas e voa rua acima, noite adentro e eu só vejo as luzes azuis de tvs ligadas refletidas nas janelas com cortinas esvoaçantes na rua de cima. Isso me lembra o relâmpago que o céu reflete e penso no som do trovão e da vontade de chuva que tenho. Outro vulto de voo de pássaro me assustou… pensei em você e nas nossas conversas de pássaros.
Por acaso, você tem medo de pássaros?
Tem coisas suas que ainda não sei – ou até sei, quando suas histórias se misturam nas minhas – mas a vontade foi de mergulhar vermelho adentro quando um trovão ecoou longe, na noite passada e a lua estava magnífica em conjunção com Saturno e Júpiter. Dizem que hoje tem de novo… Vem ver comigo?
“Em algum momento uma árvore foi plantada e o Universo, tratou de regar o instante como único e o amor como incondicional”.
Eu sou a folha da árvore e você o galho de sustentação. A luz solar que me soprou para o chão – eu, sombra – e você, o pomar que dá frutos e me trouxe de volta para casa. Você, minha casa. Através de noites que fiquei sem dormir, você era o sono que eu acalentava. Eu poderia descrever cada momento único entre o riso e o choro; entre a vitória e a derrota e a mão estendida para ensinar o caminhar. Sempre o deixei livre, para escolher seu caminho dentro da liberdade que acredito. Fui uma história que te desenhou e indicou caminhos e te mostrei o céu e te fiz entender sua dimensão perante o Universo e nossa pequenez diante de tudo. Cantei canções para que você dormisse, para que acordasse, para que vivesse e entendesse que a vida é essa música incessante e que toca sem parar e por isso você cantou comigo e junto fizemos a trilha da nossa história. Falei de fatos de anos atrás e você quis descobrir a história e o mundo era pequeno demais para além dos seus desenhos, onde você desenhava a floresta e o rio e do rio, o mar… No meio do mar era uma ilha e na ilha, a caverna e te falei de deuses e de vilões… Dei-te herói… E você conheceu a retidão do homem que me ajuda a te amparar, e me equilibra nos momentos de ser mãe. Eu acreditava que ser sua mãe era a melhor fórmula criada. E acreditava que podia te proteger de tudo. Ao longo da estrada arborizada, virei folha da tua árvore e assim, fazia parte da sombra que te protegia. Você está crescido, já não acredita mais nos contos de fadas, mas diante de tudo que viu e ouviu já sei que nunca vai perder meu caminho e vai seguir o seu dentro do exemplo que aprendeu a conhecer. Mas eu ainda acredito em tudo que te contei… E ainda assim, daquela árvore, céu à noite, ou sol de dia, é o meu galho de sustentação. Das histórias que contei e dos contos que inventei você é o personagem principal de minha vida e a minha melhor poesia e eu o amo profundamente.
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Meninos, já são dois anos! E ainda continuo pensando em vocês como os meus meninos. Foram tantas histórias contadas e dias vividos que posso dizer hoje que, se há um ano atrás eu adorava vocês… agora, além do carinho, o meu orgulho é maior. Posso dizer que passei a fazer parte da vida de vocês e mais do que uma ouvinte, a palavra amiga ganha entonação viva e forte.
Nesses dois anos tanta coisa aconteceu. Nossos times perderam, ganharam e todo mundo teve que mudar os planos por causa de uma pandemia, que ainda nos assusta e afasta a gente dos abraços e encontros. E nesse meio tempo, se me perguntarem algo sobre vocês, digo que duas palavras define bem o que é o De Chapa: Coragem e Inovação. E aqui, eu exalto o nome do Diogo.
Os dias que se passaram entre o 29 de agosto de 2019 até hoje, e principalmente desde quando começou a pandemia, Diogo foi a invenção da reverência e da coragem de fazer com que o programa chegasse até nós. Não era só um programa de rádio que fala de esportes com resenhas e zueiras. É o De Chapa e da maneira mais legal de entreter, e fazer dos fins de tarde companhia para quem volta para casa e acompanha o programa no rádio do seu carro.
Mas, como falar de esportes se todos os esportes tiveram que parar? Quais seriam o tópico do programa feito de casa, onde nem todos os integrantes poderiam/puderam participar? Houve dias em que o programa durava 20 minutos, ou meia hora, e vocês falaram de BBB, de novela – que também parou – de fofocas, de cervejas, de comida e mais uma vez, inovaram usando o streaming e a zueira que já era do rádio e You Tube, passou a ser também do Facebook e Instagram.
Vieram os “estagiários” e o De Chapa ganhou vida, mais zueira, mais ouvintes e convidados, sem deixar de lado a irreverência, marca registrada de vocês. O bom/mau humor, as “brigas” e minha companhia no fim de tarde.
Dia 29 serão dois anos e para quem enfrentou a pandemia como vocês, o caminho até aos três anos será de vitórias e sucesso. Disso não tenho nenhuma dúvida. E vou estar sempre aqui, do outro lado torcendo, vibrando, por vocês.
Sei que se não fosse a pandemia, seria diferente e a gente estaria juntos para comemorarmos essa nova forma de fazer rádio. Usei essa carta no meu blog para chegar até vocês o meu abraço, minha gratidão e admiração. Quero dizer que faço parte da torcida De Chapa e a cada programa vibro como se fosse um gol.
Parabéns para vocês que não medem esforços para levar o melhor do esporte, da alegria e da bagunça para quem está do outro lado, literalmente.
Mariana Gouveia *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Eu procuro alguém pra fazer uma poesia, comigo tem que ser terno e triste é essencial que seja triste gestos de poeira, muita saudade e medo os olhos de até logo com jeitinho de adeus tem que ser distraído sorrir atoa sempre querer chorar e nunca conseguir e ter amado muito e ter sofrido e falar muito abandonadamente gestos de poeta que fala sozinho É preciso ter jeito de quem está querendo ser criança outra vez e as mãos de um jardineiro quando está chovendo que saiba muito, como começar a sorrir mas nunca saiba como começar a falar Mas a maior urgência que existe, o essencial, muito essencial, é ser imensamente triste
Maria Cecília Nachtergaele.
Querido Matheus, Bora, bora Caxangá!!!
Faz tempo que desenho essa carta como um abraço, um carinho e ou homenagem. Falamos poucas vezes entre comentários e emojis nas redes da vida, mas eu falo contigo há muito tempo, embora você não saiba, sempre tenho a resposta daquilo que te pergunto.
O meu quintal, hoje amanheceu, avisado de pássaros. Os sabiás dão um show – nunca sei se é mesmo chamando chuvas ou fazendo charme para a fêmea – e foi ali entre o pé de ipê e o de algodão que vi a madrugada quase se despedindo das estrelas que resolvi te escrever.
Endereçar uma carta para você é intimar o palco, então rabisco para ele essas palavras, por que eu vejo o sagrado em todos os lugares onde você foi tanto e quantos. Lembro-me de quando te vi a primeira vez na minissérie Hilda Furacão e eu comentei com quem assistia comigo sobre você ser um diamante pronto. Luxuoso, divino e completo. Com João Grilo, do Auto da Compadecida, eu me apaixonei. Era ali, o simples e tão mágico. O palco sendo apenas amplidão diante de sua arte e sua profissão.
Daí, então, ficou fácil te seguir na arte que te abraçava como quem conquista o que mais queria. Eu te via, assistia e em cada atuação era ali, meu ídolo. Feito de carne e poesia. Arte em cena, humano na vida. O amor pelos cães, a simplicidade com que a voz entoa a fala do que é bonito seja em personagens ou entrevista.
E veio o Processo de Conscerto do Desejo – cinco anos já! – e me vi hipnotizada pelas palavras de sua mãe que ganharam formas com você. A poesia retratada da maneira mais simples que se pode ser. Achei bonito gostar de você. A cada indagação sobre quem eu gostava na TV, Cinema e Teatro, seu nome era o primeiro e ainda é. Talvez essa carta tenha sido criada mentalmente, infinitas vezes, e como rascunhos que vão ficando no fundo da gaveta, ela foi criando vida como quem planta uma semente. Queria que te tocasse como quem vê uma flor que nasce. Mas, como te tocar se você não iria ler?
Um belo dia, te busquei no Facebook e para meu espanto e alegria você respondeu. Não sabia se era uma equipe, se era alguém respondendo por você, mas estava ali, um emoji de coração e a resposta à minha pergunta, que já nem lembro mais qual foi. Só vibrei e daí, passei a acompanhar seus momentos ali, como quem espia no espelho e descobri que por mais que eu te criasse humano, você é ainda maior do que eu acreditava. O outro é seu fundamento maior. Você se preocupa, se ocupa e pensa muito além da arte. Fica muito mais fácil admirar alguém assim, gostar de alguém assim.
Foram poucas conversas. Um comentário, você retribuía, uma pergunta, você respondia e naquele momento eu estava com você, quase tocando sua mão e dizendo: nossa, você é muito bom, cara! E foi isso que pensei em seu último trabalho. Piedade te mostrou tão generoso dentro das cenas que eu só consegui respirar afeto. Pelo cinema, pelo filme e por você.
Talvez, você nunca leia essa carta, talvez nem saiba do meu respeito, carinho e amor por você, pela arte e sua representatividade nesse Brasil com S, como você costuma dizer. Mas deixo registrado esse momento e fica escrita em papel de carta e envelope vermelho para te enviar um dia. Quem sabe.
Com carinho,
Mariana Gouveia *fotografia retirada da internet sem menção de autoria. *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.