Das palavras das cartas

BEDA – Carta à minha irmã

Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia. Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida.
Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito. Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola.
Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipe verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados. O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe.
A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas. Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas.
Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam. Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz. Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé.
Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho.
A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida. Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar.
Ser sua irmã me torna melhor.
Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter.
Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso.
Que tudo de bom te aconteça sempre!

Beijo

Te amo

Mariana Gouveia

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