Scenarium Livros Artesanais

Uma noite,

Ph: Aleah Michele

quando o mundo já era triste
vi um ninho vazio no meu peito, e no seu
já havia filhotes.
Ouvi dor que nem era minha, como se fosse
um dardo
na pena vaga na asa do pássaro.

Se eu te disser que agora
a árvore ficou vazia de cantos,
nem o vento move suas densas folhas.
E eu estava lá, parada
de ninho vazio
em uma mão

e o fio do seu cabelo na outra.
Às vezes, podamos coisas invisíveis

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna GuedesSuzana Martins Roseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

Scenarium Livros Artesanais

A rua de cima

era a rua que eu queria morar

Quando me mudei para o meu lugar não havia a rua de cima. Ela era apenas um amontoado de lixos onde alguns dos moradores de outras ruas jogavam seu lixos – coisas típicas dos humanos que não cuidam do lugar onde habitam. Ela era ao fim de uma viela.

O primeiro a mudar para a então viela, logo depois do aterro foi o moço da reciclagem e seu cachorro Pirata e vocês já devem saber o porque do nome. Ele tinha uma mancha preta que contornava o olho esquerdo. Da minha casa dava de ouvir os gritos logo de manhã: venha, Pirata! – e logo dava de ouvir o ranger da carrocinha percorrendo o início da rua em busca de coisas para reciclar e os grunhidos de Pirata implicando com os cachorros da vizinhança. E lá ia Pirata e o moço da reciclagem cumprir a missão de “limpar” a área.

Foi ele quem plantou o pé de ipê, logo após o portãozinho de madeira. Depois, plantou flores do campo que atraíam as borboletas. Foi ele quem me deu algumas sementes também. Nessa rotina de sair ainda de madrugada e chegar pela noite em casa eu só via os vultos de esqueletos de casas se formando número após número na rua de cima. Um dia, desses dias comuns meu olho alcançou os cachos rosas do ipê, a casa laranja do vô, o jardim de Eva e o salão das meninas que coloriam as unhas e os cabelos.

Foi um respiro para a alma. Sentei-me debaixo do ipê e ali, comecei minha história com a rua de cima… com as crianças que brincam com as mesmas brincadeiras de minha infância, com o moço da reciclagem – algumas pessoas mudam o lugar onde vive… sempre falo isso para ele – e com o pé de ipê rosa que volta e meia floresce para além do tempo certo que determinamos.

A rua de cima se tornou meu refúgio e é para lá que vou quando as coisas me sufocam. Conheço as pessoas de lá mais do que as da minha rua. As calçadas conhecem minha insônia e o pé de ipê, minhas confidências.

Mariana Gouveia

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Scenarium Livros Artesanais

A minha relação com a noite: inimiga/amante/amiga…

Houve um tempo que era de medo. Bastava o céu fechar as cortinas e o escuro invadir o meu quintal que esse sentimento anestesiante reinava absoluto no meu corpo, por causa da dor. Eu tirava os chinelos e pisava no chão, para que a terra me fizesse firme ao caos que se estabelecia em mim. A dor é um bicho estranho e noturno. Mesmo quando eu estava entre os corredores, amparada por agulhas e fios… o medo surgia, como um fantasma. A dor era feito a noite sem lua-estrela… E não havia como não associá-la ao que a dor fazia comigo… Um vácuo, tipo guerra em que a explosão é apenas o medo de doer. E doía tanto. Havia noites em que doía tudo.

Mas, eu já fui amante da noite. Quando caminhei pelas ruas escuras. Não me lembro de me sentir tão segura quanto naquele tempo. O moço que cuidava do cemitério me levava pelas mãos, nas madrugadas mornas e era o meu guia. Passo a passo do meu lado… Voz de amparo e de cuidado. De um lado, o rádio onde eu expunha meus sonhos e do outro, o cemitério. Eu era a amante da noite que era o lugar das sombras do muro que me acolhiam sob os olhos atentos do moço que cuidava do repouso… a última morada de muitos.

Mesmo lembrando que antes da dor, o que me acalentava a alma era a rua estreita, que me levava mata adentro e no descampado, onde eu via as estrelas, a via láctea e suas constelações. Foi ali que a noite se tornou minha amiga. Eu era a menina que deitava no tapete debaixo das estrelas e sabia de cor todas as constelações. Conhecia os atalhos e era guiada pelos vagalumes.


Mariana Gouveia
Texto publicado no blog da Scenarium Livros Artesanais
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Anne

Querida Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.

Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.

Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.

Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:


Tudo em mim é um pássaro.

Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.

Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.

Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.

Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito.
Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Sylvia aos cuidados do poema

Ph: Mariana Gouveia

Sylvia,

Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar…  mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei…  mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.

Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.

Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.

Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.

Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo.  Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.

Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher. 

Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna GuedesSuzana Martins Roseli Pedroso Obdúlio Nunes Ortega

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Preciso sobreviver ao encanto…

que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas.
Dou-te os sentidos plenos no toque das palavras,
invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia|
In: Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações – Scenarium Plural – Livros Artesanais, p. 93 |
*Imagem: Laura Makabresku

infinitamente

Ao ocaso de uma noite que amarelou a dor.

O ponto de partida foi transformar tudo num quadrado redondo e dali escapar,
pelo tecto.
Talvez um dia, o estado das coisas revele outras formas, sem fronteiras ou equívocos, cumprida na distinta fragilidade de viver.

acp

Francisca,

Eu nunca imaginei que você me pediria uma carta. Uma carta diferente das tantas outras sob encomenda que fiz para você. Nem como presenciaria a fragilidade da vida em seus olhos. Mas, antes de escrever qualquer outra palavra eu sou puro agradecer.

Não te escrevi ontem porque foi uma noite de vento entrando pelas frestas da janela e dentro de mim as memórias tem sido constantes. É quase como se um filme passasse na cabeça. Então, fiquei repetindo: amanhã eu escrevo-te e seu olho pedindo urgência… E só hoje resolvi te falar da palavras cheias de inteirezas – frase tua – e de como a gente quer que os dias durem como se fossem domingos. Desses que não passam nunca e a gente fica pedindo só mais uns minutos para que as palavras ganhem a ordem de viver para dentro.

Com você, eu pude viver tantas coisas que parecem cena de filmes… Frases que trocávamos e que eu escrevia em cartas para sua mãe. E acho que foi assim que te conheci. Quando mudei para sua rua, alguém havia dito que eu escrevia cartas… e ouvi seu sotaque a me chamar no meu portão: mulher, quero que tu escrevas uma carta para mainha. A carta era sempre escrita no último dia de cada mês. Mainha – a tua – morava no Crateus e era em um lugar chamado Saudade que ela recebia suas palavras escritas com minhas letras. E hoje, o último dia de agosto, cá estou eu a te escrever… misturando erros que só a gente sabe o que significa.

Posso dizer que me apaixonei primeiro pelo seu sotaque… depois, pela agilidade do abraço. Seus braços eram como se fossem garras que nos prendiam e protegiam. Já estive muitas vezes segura dentro deles.

Depois, nossos filhos se tornaram amigos, cresceram juntos e foram tantas cartas tuas para alguém que tu amava e eu me sentia a Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil… Depois vieram as miçangas, o crochê… as tardes regadas com suas risadas em meu quintal.

Tu lembra das tempestades que assistimos juntas, na varanda da tua casa? Do bolo de mandioca no lanche da tarde? Dos desenhos que pintamos no muro do seu quintal? E de repente, tu muda de bairro e as coisas diárias se tornam semanais, depois, mensais… Mas as cartas para tua mainha ainda eram escritas, onde você retratava sua rotina e as dos seus filhos… e de como a palavra saudade era repetida diversas vezes… A minha letra escrevia seu amor de filha e os rasgos na memória de quem lembrava do sertão onde viveu… até o dia em que sua mainha se foi…

Depois disso, apenas as memórias na bagagem como quem carrega sua dor e as dores de outras pessoas. E quando você volta, é como se nunca tivesse partido. Habituamos instantaneamente com as mesmas rotinas de antes, os mesmos risos e os olhares cúmplices. A casa 37 da rua de cima era meu refúgio. O lugar onde eu podia chorar livremente ou rir até doer a barriga.

Hoje, seu endereço nem cabe na minha alma. As cortinas que bordei balançando em sua janela ainda borrada da última pintura, que prometemos consertar e nunca tivemos tempo para isso, as flores do quiabo na pequena horta lembrando que ainda falta fazer a receita preferida e o amarelo desbotando quando chega o fim do dia, fazendo nascer um pequeno fruto… Cada vez que me despeço de ti é essa carta continuada que prometo ler amanhã… o som da música que tu gosta vem comigo rua afora… o chão sendo testemunha de nossa história contada nas pedrinhas que piso.

Ainda faltam algumas coisas para fazermos juntas enquanto seu filho não chega. Ainda não te contei o final do livro que escrevi e nem de como vai terminar a história do que estou escrevendo. As coisas nunca mais serão as mesmas depois que você se for, e amanhã, prometo te levar meu melhor sorriso e te dizer alguma frase antiga que surtia efeito… como é que era? Aquela que se multiplicava quase sempre no mesmo diálogo e te arrancava gargalhadas e tu dizia: eita, mulher… só tu mesmo!
Amanhã, leio essa carta para ler em seus olhos a sorte que tenho de estar assim com você, nesse fio de esperança de que a sua partida seja feita de levezas e inteirezas.

Te amo muito,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Beda e se encerra hoje.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Afetos · infinitamente

Beda – Para além dos dias de afeto

Filha,

será que consigo te escrever? Será que as palavras que tanto amo saberão descrever o que sinto por você?

Eu te gestei no coração… e os nove meses de espera para ver seu rosto me fizeram sua ‘outra’ mãe. Eu te vi bem antes dela. Cantei seu nome ainda no berçário e te peguei nos braços tão franzina que o medo de te machucar me fez te devolver para a enfermeira em seguida. Ensaiei seu nome várias vezes. Mas, para mim, só aparecia a palavra filha. A menina que não nasceu de mim, mas que eu amo como se tivesse te dado a vida. A menina de sorriso largo e que enchia meu coração de amor.

Depois, fui seguindo seus dias. Seus primeiros passos, e o tiiia – quase sua primeira palavra – me fez chorar. Depois chorei com os nascimentos de seus filhos e acho que tenho feito isso a vida toda. A cada dor, eu sofro junto… a cada alegria, rio junto.

Por sua causa, agosto é todo ano para mim. Seu dia me chama no calendário como se nesse dia eu ganhasse um presente todo ano. Não se nasce atoa em agosto… em agosto nascem os guerreiros. Os que vencem qualquer batalha. Os fortes – mesmo quando se sentem fracos – e os escolhidos.

Sabia que quando falo de você meus olhos sorriem junto das palavras? E quando falo de sua família, mas do que genética, meu coração se enche de orgulho do quanto você costurou seus dias dentro da doçura do amor.

Em letras enormes eu digo que você ADOÇA a vida das pessoas ao seu redor e que te envolvo no meu amor por você.

Te amo para além de aniversários e vida afora e te desejo que a vida seja sempre adocicada.

Beijo,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês dela e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das rotinas · infinitamente

eu era um quase… uma parte

Foi no dia que te bordei
que a arte fez-se em mim

os pontos – quase toque – cerzidos com a linha de cetim

sua pele – tão alva – ponto cheio

tecendo flores em cada respiro
voos de borboletas
– feito asas –
a linha se desgrudou da agulha e uniu-se a mim

um nó feito
– na véspera do voo –
eu era pouso em ti.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da arte e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
arte: José de La Barra 

Divã · Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Maria sem vergonha

Beijava todas
como se fosse…
única!

Beijava a mão
como se fosse..
à boca!

Beijava a flor
como se fosse…
ela!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Agosto é o mês do poemas e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso