Scenarium Livros Artesanais

Andarilha

Ph: Lauren Treece

O meu corpo
É um mapa
Com muitas rotas…
(im)possíveis

Alguém se perdeu de mim
Ficou pelo caminho!

É tudo tão vasto
nessa Estrada
Que liga o meu
estado de espírito
a lugar nenhum!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Andarilha
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

(De)serto

Ph; Adam Taylor

Sendo o meu corpo
A tua pauta musical


…dedilha-me!

E faz escorrer da minha boca
um beijo que se deforma

— Miragem!

Onda que vai e vem e põe no meu corpo
palpitações de oceano!

Mariana Gouveia
Poesia publicada no Coletivo de Poesias Eróticas Lilases
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Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Espelho, espelho meu

Depois que o meu espelho quebrou
desmistificou-se o mito
nem se pergunta mais o que é bonito,
por que tudo lindo ficou
e a sorte que ia e vinha de vez em quando
entrou e ficou pendurada no canto
e pela casa toda se espalhou.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quando escrever era apenas uma maneira de dialogar comigo mesma

Muito antes dos blogs virarem tendências eu usava os cadernos. Eu os consumia com tanta vontade que o moço da papelaria já me conhecia pelo nome. Além dos cadernos, eu escrevia/escrevo muitas cartas. Hoje, há aqui no blog um espaço dedicado à elas. Mas, houve um tempo em que eu queria apenas dialogar comigo mesma e para isso o caderno de capa dura feito de diário era a maneira mais fácil.

Ali, eu podia dizer o que queria e evitar de certa forma, as piadinhas dos meus irmãos. Era onde eu falava da melancolia e de sentimentos diversos que eu vivia durante o dia. O diário passou a ser o meu “amigo” visível. Aceitava todas as palavras sem reclamar e mesmo quando errava alguma letra ou palavra não reagia ao uso da borracha.

Nas linhas cabiam minhas inseguranças, medos e a fuga da realidade. Eu me diluía nas tintas das canetas. Era onde eu me despia… e descobri que se os deixasse em cima da mesinha da cabeceira exposto nenhum dos meus irmãos leria… mas quando comprei um dos cadernos que possuía um cadeado eles não sossegavam até encontrar a chave.

Os cadernos possuíam meus voos e meus pousos… as loucuras e a lucidez de quem tinha tanto no peito gritar. Quando saí da fazenda, e da pequena cidade onde nasci, a cidade grande me engoliu e eu escrevia em todo tipo de papel… há pouco tempo encontrei alguns guardanapos antigos com poemas que foram dores esparramadas em forma de letras.

Vieram os blogs e os livros – que se transformaram em uma maneira mais direta de falar comigo e com o outro que me lê – e em alguns textos uso a personagem para falar por mim. Empresto à ela o meu sentimento-angústia-saudade-medo-coragem… e assim, consigo falar de mim com a palavra de outros. Ah, e eu ainda continuo a escrever em diários.

Mariana Gouveia
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Scenarium Livros Artesanais

De que cor é esse coração alado?

Eu sempre fui a menina das nuvens… quando minha mãe me chamava e eu não respondia, ela logo dizia: está com cabeça nas nuvens?

Lembro-me da primeira vez que vi um desenho fora das nuances que as nuvens fazem-trazem ao pôr do sol ou ao nascer.

Era um cachorro que corria atrás de um coração.

O coração nuvem ia pulando entre outras nuvens fofas e o cão não alcançava.
Parecia o livro que eu desenhava. Mas o vento lá em cima dissipou as nuvens e eu fiquei apenas com a sensação de um pelo fofo na mão.

Quando não tinha mais nada para fazer, deitava-me na grama, para além do curral e ficava a espiar o céu.

Quando cresci, passei a quarar nuvens como meu pai dizia. Os lençóis brancos, de linho, no jirau de madeira pareciam nuvens bailando com o vento.

Bastava amanhecer e meus olhos buscavam o céu. Era flecha, em alguns momentos, um anjo, um cupido, um jacaré e cães… ora, buldogue, ora poodle.

Sempre fui uma especialista em ver corações nas nuvens. Alados, correndo com o vento… Em viagens, em tardes quase noites, em amanheceres… o pote de algodão se abria e meus olhos buscavam a formação.

Às vezes, tão sutil… em outras, tão escancaradas que parecia que alguém, lá de cima, mexia o dedo e o coração se formava.

Tempos depois, quando ouvi Jota Quest cantando sobre: ‘Posso brincar de descobrir desenho em nuvens, posso contar meus pesadelos e até minhas coisas fúteis…’ descobri que eu não era única.

Às vezes, os desenhos formam letras como se fossem mensagens cifradas. Em outras, palavras inteiras que me lembram cartas. Já vi pássaros em voos rasantes e potes de ouro entre arco-íris.

Certa vez, em uma das viagens pelo  interior do estado paramos em uma estrada no meio do nada.

Achei que estivesse no céu… as nuvens pairavam sobre a estradinha e um coração me seguia, quase ao alcance das mãos.

A impressão é que eu estava dentro de um pote de algodão. Minha mão tocava as nuvens quase a um palmo do chão.

Senti como se estivesse ganhando um abraço do céu.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Nas nuvens
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Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Barquinho de Papel

Lembro-me do barulho dos meus pés pisando a areia fina que contornava o rio logo a poucos passos da casa e durante a noite.

Quando tudo se aquietava eu ficava ouvindo o barulho da água dançando com as margens. Era a hora que eu sonhava com o barco que me levaria até o mar.

Em minha cabeça de menina uma pergunta martelava: será que se eu seguir esse rio, percorrendo as curvas eu chegaria até o mar?

Parecendo adivinhar meus pensamentos, minha mãe me mandou sentar ao redor da mesa grande debaixo do pé de sete copas… revistas velhas, tesoura e foi dobrando uma folha de revista.

A ponta de cima até o centro do papel.
A ponta de baixo levantada.
Suas mãos foram dobrando aqui, forçando a dobra ali e no centro da mesa um barquinho pousou…

A companhia dos meus irmãos encheu a mesa… e eu quis colocar meu barco no rio, para testar, colocando nele a esperança e a fantasia de sair vida afora até conhecer o mar.

Mas, assim que o barquinho foi colocado no rio, a correnteza o carregou e poucos metros abaixo se desfez lentamente.

Um outro, foi um pouco mais longe e sumiu debaixo da água.  Mas um, feito com outro tipo de papel – mais duro – seguiu a curva e sumiu levado pela correnteza. Do alto de uma pedra consegui avistá-lo até onde meus olhos conseguiram ver.

Minha mãe, vendo as nossas expectativas ali, com alguns barquinhos ainda em mãos, disse que os sonhos eram iguais aos barquinhos.

Uns, eram muito frágeis e no primeiro obstáculo se desmanchavam. Outros, duravam algum tempo, mas diante de algumas dificuldades eram desfeitos – talvez, para dar lugar a outros sonhos – e só o sonho buscado em um sentimento forte, seria realizado.

Não importa o tempo, nem as dificuldades… de uma forma ou de outra, o barco sempre encontra o porto seguro onde atracar.

Eu ainda não conheci o mar. E meu barco de papel que estava guardado, se perdeu nas mudanças da vida…

Um dia, quando meu filho completou 11 anos… o ensinei a dobrar o papel para confeccionar o seu barquinho de papel.

Repeti as mesmas frases que minha mãe me disse. Falei dos sonhos, da importância de tê-los e das dificuldades que poderiam surgir quando buscamos esse sonho.

O tempo passou, e um dia, seguindo seu sonho, meu filho me ligou à beira do mar.

Ouvi o barulho das ondas, o som do vento e o eco dos passos dele na areia… sua voz sendo parte do mar que toda vida sonhei ouvir:

– Mãe, o barquinho enfrentou a onda e está lá, no meio do mar. Os sonhos se realizam, mãe.

Não era eu ali, mas eu compreendi o que minha mãe quis dizer: muitas vezes, os nossos sonhos se realizam nos nossos filhos.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Barquinhos de Papel
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Do lado de fora

Ph: Nicoletta Tomas Caravia

Há dias em que é impossível respirar!
Por causa da saudade…
– minha mãe dizia que essa
tal de saudade era como uma faca
– de lâmina bem afiada –
a cortar o peito pelo lado de fora

Mas é o lado de dentro – que sangra!

Mariana Gouveia
Estradas para domingo
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Divã

Dos dias de saudade

Dos dias de saudade

 
 

Morri nas gavetas sangrentas da memória.
Havia ali uma faca cortando minha pele e a respiração para e a vontade extrema de gritar seu nome. O quintal é pouco para a loucura que antecede milimetricamente dentro de mim.
Rabisco seus nomes – todos aqueles que eu te chamava – nos muros.
Desenho corações tortos e o céu cai em uma canção que entoa sem parar.
Não é o dia, não é o dia – eu repito – e as crianças riem de mim.
Alguém desavisado de minha loucura pede ajuda. E meu olho segue o pássaro sem asa. Sou levada e não canso de falar.
Todos os dias eu aconteço nas memórias dela. Todos os dias ela me mata na memória dela.
Toda manhã eu recomeço a rotina de reviver dentro do que eu lembro.
Há um corredor extenso e a moça vestida de azul me aplica algo que aplaca a fúria da alma.
Ela diz isso rindo e dou meu braço para o líquido que alivia a dor física. E a alma apenas quer o riso amoroso que um dia ela me dedicou.
Perguntam-me o nome. Tão vago, tão distante, por pura burocracia já que todo mundo me conhece e sabe de minhas loucuras plenas.
– Me chamo flor – eu falo – o que atrai o riso na moça vestida de azul e que repete comigo o nome pelo qual me chamam.
Não, seu nome é esse. Flor é a que mora dentro do seu coração.
E canção repete:

“Pode ter meu número
Pode tirar meu nome
Mas você nunca terá meu coração”…

e eu repito: porque meu coração é dela. Morro outra vez nas gavetas vazias das lembranças dela.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega
*art: Christian Schloe

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Ao Sul de nenhum Norte

Ph; Pinterest

Não fosse eu esse rio,
que deságua em meu peito
Morreria todo dia
feito flor no deserto
e com a solidão dos quintais.

não fosse eu esse céu,
as asas… 
sem o dom de voar

enquanto espero o ônibus da linha 508
as ruas ganham o vento de companhia
e na calçada  
o cacto de tantos anos que floresce… 

não fosse eu a cor…
desbotada, sem realces e tons

o sabor da invenção das palavras na boca
tal qual um beijo que nunca veio.
Solidão.

Não fosse eu,
seria o perfil de uma casa que
não lembro mais o nome.

Mariana Gouveia
Poema publicado no Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
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Das palavras das cartas

Parabéns, Cuiabá! 304 anos.

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.
Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 304 anos, Cuiabá, meu amor!


Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.