Divã

Dos dias de saudade

Dos dias de saudade

 
 

Morri nas gavetas sangrentas da memória.
Havia ali uma faca cortando minha pele e a respiração para e a vontade extrema de gritar seu nome. O quintal é pouco para a loucura que antecede milimetricamente dentro de mim.
Rabisco seus nomes – todos aqueles que eu te chamava – nos muros.
Desenho corações tortos e o céu cai em uma canção que entoa sem parar.
Não é o dia, não é o dia – eu repito – e as crianças riem de mim.
Alguém desavisado de minha loucura pede ajuda. E meu olho segue o pássaro sem asa. Sou levada e não canso de falar.
Todos os dias eu aconteço nas memórias dela. Todos os dias ela me mata na memória dela.
Toda manhã eu recomeço a rotina de reviver dentro do que eu lembro.
Há um corredor extenso e a moça vestida de azul me aplica algo que aplaca a fúria da alma.
Ela diz isso rindo e dou meu braço para o líquido que alivia a dor física. E a alma apenas quer o riso amoroso que um dia ela me dedicou.
Perguntam-me o nome. Tão vago, tão distante, por pura burocracia já que todo mundo me conhece e sabe de minhas loucuras plenas.
– Me chamo flor – eu falo – o que atrai o riso na moça vestida de azul e que repete comigo o nome pelo qual me chamam.
Não, seu nome é esse. Flor é a que mora dentro do seu coração.
E canção repete:

“Pode ter meu número
Pode tirar meu nome
Mas você nunca terá meu coração”…

e eu repito: porque meu coração é dela. Morro outra vez nas gavetas vazias das lembranças dela.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega
*art: Christian Schloe

15 comentários em “Dos dias de saudade

  1. O começo me deixou incomodada “gaveta sangrentas”. Sei lá, uma imagem estranha se formou aqui nos olhos, por dentro.
    Depois fui para um lugar do qual ainda não voltei. Outra gaveta, agora dessas que acumulam pessoas, paisagens, envelopes e a certeza de que nada disso me pertence. rs

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