Scenarium Livros Artesanais

De que cor é esse coração alado?

Eu sempre fui a menina das nuvens… quando minha mãe me chamava e eu não respondia, ela logo dizia: está com cabeça nas nuvens?

Lembro-me da primeira vez que vi um desenho fora das nuances que as nuvens fazem-trazem ao pôr do sol ou ao nascer.

Era um cachorro que corria atrás de um coração.

O coração nuvem ia pulando entre outras nuvens fofas e o cão não alcançava.
Parecia o livro que eu desenhava. Mas o vento lá em cima dissipou as nuvens e eu fiquei apenas com a sensação de um pelo fofo na mão.

Quando não tinha mais nada para fazer, deitava-me na grama, para além do curral e ficava a espiar o céu.

Quando cresci, passei a quarar nuvens como meu pai dizia. Os lençóis brancos, de linho, no jirau de madeira pareciam nuvens bailando com o vento.

Bastava amanhecer e meus olhos buscavam o céu. Era flecha, em alguns momentos, um anjo, um cupido, um jacaré e cães… ora, buldogue, ora poodle.

Sempre fui uma especialista em ver corações nas nuvens. Alados, correndo com o vento… Em viagens, em tardes quase noites, em amanheceres… o pote de algodão se abria e meus olhos buscavam a formação.

Às vezes, tão sutil… em outras, tão escancaradas que parecia que alguém, lá de cima, mexia o dedo e o coração se formava.

Tempos depois, quando ouvi Jota Quest cantando sobre: ‘Posso brincar de descobrir desenho em nuvens, posso contar meus pesadelos e até minhas coisas fúteis…’ descobri que eu não era única.

Às vezes, os desenhos formam letras como se fossem mensagens cifradas. Em outras, palavras inteiras que me lembram cartas. Já vi pássaros em voos rasantes e potes de ouro entre arco-íris.

Certa vez, em uma das viagens pelo  interior do estado paramos em uma estrada no meio do nada.

Achei que estivesse no céu… as nuvens pairavam sobre a estradinha e um coração me seguia, quase ao alcance das mãos.

A impressão é que eu estava dentro de um pote de algodão. Minha mão tocava as nuvens quase a um palmo do chão.

Senti como se estivesse ganhando um abraço do céu.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Nas nuvens
Scenarium Livros Artesanais
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