Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino
ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Katia Chausheva 

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Natureza na urbe.

Quando ando pelas ruas da minha cidade, ou até mesmo dentro dos muros do meu quintal, percebo a diferença que já é tão notória por aqui. Cada vez mais percebo a natureza “invadindo” os espaços da cidade, já que nós roubamos o espaço dela.

O que aos meus olhos parecia tão rural, hoje atravessa as avenidas, invade os canteiros e se tornou tão presente nas ruas que é como se estivessem sempre ali.

Os ipês, de variadas cores, que antes eu só via no cerrado, hoje compete com edifícios e a urbanidade toda. E embora grande parte deles tenham sido retirados em nome de uma “revitalização” em nome da Copa de 2014 – Sim, AINDA temos obras paradas em nome da Copa que aconteceu aqui – alguns ainda encantam com suas floradas.

O jacarandá do cerrado enfeita a paisagem de uma grande avenida e além dele, várias outras espécies do cerrado e do Pantanal transforma a cidade. É a natureza buscando abrigo na cidade como forma de proteção? Ou é apenas o reflexo da mão do homem trazendo a natureza para mais perto dele? Não é a função desse post discutir o meio ambiente e suas relações com a ação do homem. Posso até fazer isso como um grito de alerta, já que hoje seria votada, pela Assembleia Estadual de Mato Grosso – foi adiada para a semana que vem – o Projeto de Lei 561, que abre brechas para obras de infraestrutura que podem impactar o bioma, sua biodiversidade e as comunidades que nele habitam. A tramitação acelerada do Projeto de Lei não respeitou as regras do regimento, havendo pouca transparência no processo, por exemplo, reuniões a portas fechadas e apenas, com o setor produtivo. Se aprovado, o impacto será devastador para o Pantanal.

Mas, confesso que já me assusto ao andar nas imediações de um parque público, dentro de um bairro de condomínios de luxo. Os animais que antes eu só observava na natureza, como capivaras, pássaros silvestres, jacarés e outros animais estão cada vez mais perto de nós… de nossas casas e longe da natureza, além de estarem correndo risco de vida. Ou de morte. Nunca me dei bem com essa frase.

Na semana passada me deparei com um barulho no poste de energia elétrica, bem em frente minha casa com esse pica-pau que tentava furar sem sucesso o ferro que segura a caixa do relógio. Lembrei-me do pica pau do desenho e o que foi mais estranho, é que para ele, parecia normal a humana aqui, com sua câmera a incomodá-lo, procurando uma pose melhor.

E hoje, descobri que tenho novos vizinhos, no mesmo poste em que o pica-pau estava dias atrás. Um casal de joão de barro construiu sua casinha, não lá no galho da paineira, como diz a canção antiga que meu pai ama e sim, logo ali, ao alcance dos olhos. Prefiro acreditar que vieram para perto de mim, ou que sou eu quem atraio essas coisas da natureza. Me assusta o domínio do homem sobre ela. Me assusta a utilização e a transformação dessa natureza. Enquanto o homem vive uma busca incessante de domínio sobre todos os espaços, a natureza luta diariamente para continuar tendo aquilo que lhe sobrou. Mesmo que seja dentro da urbanidade que lhe cabe.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Participam desse projeto:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoSuzana Martins

Divã

Na minha sala tem um canto de mar…


Hoje, acordei com ele invadindo a sala toda… já não era só o lado poente, dele.
Tomou conta do jardim. As pétalas salgadas cheirando a pele, sorriram.
E o mar cantou suas ondas bravias no interno de mim… e de maresia cobriu meu nome.
De improviso o oceano me cobriu inteira.
Às vezes, com as mãos em conchas o mar me banha…
Em alguns momentos – ele recua.
Mansamente recua e me deixa cheia de saudades, mas plena de viver.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Livros Artesanais
*Imagem: Mira Nedyalkova

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Meus tantos… eu…

Mariana, Mariana…

Te escrever é como abrir um mapa e encontrar suas rotas… já se deu conta de quantos caminhos você andou? E os atalhos? Já pensou nas escolhas feitas a partir de um ponto?

Você se fez menina e suas memórias se alimentam das coisas vividas entre o campo e a cidadezinha, da lavoura para a cidade grande, de ouvinte para dentro do rádio. A menina franzina que teve de crescer… a mulher transgressora, que teve de virar menina.

Já te contei que você cura, foi bênção e foi milagre? Já te falei que aquele sonho de escrever para as pessoas virou realidade aos olhos do mundo e que suas palavras são lidas mundo afora?

Sabe, Mariana… já vivemos um pouco de tudo. Já enfrentamos algumas batalhas e foi aí que descobri que as escolhas tem sempre dois lados – no mínimo – e que nem sempre fazemos as escolhas certas. Quebramos a cara algumas vezes – e vamos continuar quebrando – porque a vida não vem com um manual onde você segue as regras e pronto.

Mas, sabe o que descobri? Que ser feliz só depende de mim, mesmo quando algumas coisas não vão bem. Que eu não posso colocar sobre o outro o poder de decidir quando e como eu possa sentir e isso, só mesmo o tempo que ensina.

Outra coisa que aprendi é que o tempo é realmente um dos deuses mais lindos, como diz Caetano em uma canção. E que ele passa em um galope. Daqui a um ano estarei escrevendo para a mulher em mim ou a menina sonhadora do meu coração?

Sempre digo que sou protegida e abençoada pelo universo pelas pessoas que ele coloca em meu caminho. As minhas raízes são profundas e feitas com muito amor e a minha entrega pela vida tenho certeza de que aprendi com você.

Seremos sempre pouso para os bichos – sem dúvida nenhuma – e seremos sempre abraços e mãos estendidas para quem precisar. Isso é o que faz com que no fim do dia o coração entre em acalanto e sossego.

Sabemos que mesmo que o dia não esteja tão bom, o riso será nosso escudo, mesmo que entre lágrimas… e que a vida é mesmo bonita de se viver.

Viva os 57 anos que a ternura nos moldou. Continuo contado com você.

Abraço,

Mariana Gouveia
Para a Mariana tantas que existem em mim.

Divã

Vivi um século em um dia. 

Comi palavras doces e delirei amor.
Previ as cores dos girassóis de Van Gogh. Entre Matisse e Monet cantei Gadu.
Tenho na ponta dos dedos a percepção da pele. A dela.
E a magia do jardim onde a toco.
Visito mitos para abrir caminhos. Acendo estrelas para ela sorrir.
Um século em uma frase de amor.
A cor que ela deu ao meu dia.
Escrevo o nome dela em tudo que toco.
De um poema sem nome eu só sei sentir.
E assim, caminho na beleza onde ela planta todo dia encanto na lentíssima explicação do divino.
(O nosso amor).

Mariana Gouveia
* Imagem: Anna O Photografy

Das palavras das cartas · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Geral

Das cartas que recebi.

Mari,


Dessa vez não te contei para não te preocupar e também porque o pajé voou para o céu dos passarinhos… Quem iria rezar meu retrato para me pôr o buchinho no lugar e igualar minhas pernas? Meu pai adoeceu e eu também, tanto que ando precisando de terapia e achei a Clara Marina para cuidar de mim, ela vive na serra no Rio e eu no Vale em São Paulo. Clara me perguntou como era meu medo e eu disse que meu medo andava no sentido horário: meu medo era o tempo, porque eu não queria que chegasse quarta-feira para eu colocar a reciclagem no portão e nem a sexta-feira para eu voltar pra casa e nem o domingo… Nem o domingo! Tinha medo que o tempo passasse e chegasse o dia da cirurgia do meu pai que é bem velhinho e quanto mais velhinho, mais eu vou gostando dele e da minha mãe. Tenho medo de ficar sem eles, por isso não te contei. Faltei pra ficar com ele, foi uma alegria tão genuína… Voltei de cabeça baixa sem olhar janela em fora o céu lindo que fazia, então, para não desperdiçar céu, passei acordada vendo todas as variações que faz a rotação. Ontem, pareceu que tinha gastado tudo que restava de vida, por isso de cabeça baixa.
Mari, meu pai tem alta amanhã e domingo vou amanhecer no portão deles. Isso se chama sorte. Tenho sorte de poder falar tudo sem ordem nem sentido e você me entender.
Bom é ter amigo que conversa com beija-flor.


Te amo, Mari.

Luciane Recieri

Das rotinas · Divã

Lembro o branco sobre o branco…

Perto da janela desejou voltar no tempo,
costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia,
às vezes,
as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos.
Lembrou das chuvas.
Mexeu nas anotações da mesa.
Sentiu saudades.

A flor, quase sol em giro,
trazia à memória os poros.
Miúdas flores como se fosse pele.
Digitais


No canto do lugar
– o cheiro –
como um arqueólogo
vasculhou antiguidades dentro dela.

Revisitou estações noites inteiras.
Pele, toque, mão.
Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –
quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim.
Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço.
Em guerra e paz.

Da pele
– a palavra –
de um dia que se abria
e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

Mariana Gouveia
Ph: Els Vanopstal

Meus Livros

Toquei…

O botão da flor foi tocado. Em círculos para a profusão do instante.
Gritei liberdade nas mãos dela. Sussurro além do limite do extraordinário.
Às vezes, é preciso imitar as canções.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos
Scenarium Plural Editora
*Imagem: Antonie de La Roquelle

Das rotinas

Polaroid

Roubei os momentos instantâneos do dia em
que te encontrei e escrevi cartas sobre isso…
A voz rouca a suspirar vontades
A carta lida como se não tivesse sido entregue.
Na janela, a moldura escondida com o teu nome rabiscado.
Mais de mil vezes desenhei um coração e apaguei…
E o teu olhar ainda mora em mim e a estrofe do
poema morre de solidão em dias que nunca terminam…

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais