Das palavras das cartas

Existe política além do voto.

Querida Maria,

Como vai? A leveza de sua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que percorre? Espero que sim… eu quero saber de você e também preciso entender como ignora a tarja exposta sobre meu país…

Se bem que hoje… eu prefiro não perguntar sobre o tempo… que é esse menino fujão a nos roubar a razão. O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias, onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que atravessou o dia em que meu país errou feio, perante o mundo — e eu, que simpatizava com astrologia —, me desencantei.

Eu vi no cartum do jornal do dia, bem no meio da página, a sua pergunta — “você votou em quem?” — e colhi o seu espanto diante de minha resposta, que foi cercada de outras perguntas.

Logo você, que possuía todas as probabilidades de ser afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente. Falei sobre o que acredito. Da liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos, que sofrem todos os dias na rua. Maldita indiferença, intolerância, desrespeito que marca muros e calçadas das cidades desse país, tão cheio de fronteiras e divisas.

Se eu te contar que minha posição é ideológica, será uma mentira. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava no meu jeans rasgado e no Karaokê: “ideologia, eu quero uma pra viver”. E você queria me ver ideológica aos 40?… depois aos 50? Impossível… tudo se quebrou diante dos mitos falsos… eu sei o nome de todos que surgirão ao longo dos anos desde o nascimento.

Não, Maria! A ideologia é apenas mais um cartaz exposto nas estações e nos muros pichados. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes — como eu fui nesse antigamente, que ninguém se lembra.

Não pude fazer grande coisa, o medo tornou-se real e a afronta diária.

Hoje, no entanto, o meu medo tornou-se aliado do existir e com isso (r)eeinvento uma cidadã, que achei e não pensei existir ainda. Sou a própria resistência e indecência… a própria (r)existência dentro de um Sistema… e é como estar a bordo de um trem, que me renova a cada parada ou obstáculo. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. É pelos que amo que saio de casa. É por estranhos que insisto.

A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias, me vejo boicotando-as. Pior, duvido de tudo que leio e me espanto no que ouço-vejo nas pessoas, essa fé cega, essa esperança de futuro.

Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, ao meu lado… logo mais adiante, em um bairro distante… noutra rua-casa. No meu país e talvez eu não seja afetada pelas manobras do governo atual. Talvez muitos não sejam. Mas sei que alguma pessoa, em algum lugar, será… e por isso cumpro meu estado de (r) Existir. Preciso ser forte e seguir adiante, com a minha luta diária, que é a mesma luta de muitos.
#ninguémsoltaamãodeninguém #elenão #Lulalá!

Beijo,
Mariana Gouveia

Das rotinas

Dessa vez, para sempre.

Esses vãos escondidos no branco dos olhos
criou de tanto olhar, saudade.
E a chuva não aguou os instantes
que seriam para a eternidade.

Ah, esses vãos subtraídos
dos instantes todos
recolhem vestígios de gozo
nos dedos
sabor agridoce na alma
e cheira a lua que todo mundo espia
e que reflete a vontade
e o silêncio que dura uma eternidade.

Ah, esses desavisos de agonia no peito.
É noite, onde pisei descalça
em homenagem ao sonho que fica e dura.
Essa ansiedade toda de que a lua faça
você abrir a janela, pensar em mim e voltar.
Dessa vez, para sempre.

Mariana Gouveia
Ph Philippe Deutsche

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

a invenção do vivível

I

Do lado de fora, a vida
em estado de holograma:
Mergulho impossível

II

Ainda assim,
crer no nado
fabular a margem

III

Do lado de fora, a foto
em tamanho irreal
dentro: a invenção do vivível

Anna Clara de Vitto
Estradas para os domingos
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – MISS you

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Leonor,

Muitas vezes eu quis mudar o calendário, ultrapassar as rotinas e te esquecer. Mas, todos os dias, nos rumores que a casa vazia faz – logo pela manhã – vem seu nome ecoando lembranças e saudades. Mentalmente, refaço os rituais e passos dos dias em que esteve aqui e dos dias em que se foi, deixando apenas a casa cheia de saudades.

Já te contei que mudei minha rota para não passar perto de onde seu olho se encantou pelas flores do ipê? E que mesmo não atravessando a alameda onde antes era um lixão, eu canto a canção que fala dessa saudade.

Devo confessar que já rasguei algumas cartas sem enviar e que rabisco seu nome em tudo que é lugar. E quando vejo as nuvens se enfeitando como se fossem bolas de algodão, eu recordo as manhãs que o céu do meu lugar te presenteou.

Para a gente, o olho buscava sempre a imagem que marcaria o momento – tão nosso – e se eu soubesse que você se afastaria de vez, não iria permitir tantas lembranças para memorizar agora. A gente sempre via coração em todo lugar e hoje, só vejo metade dele nas folhas, nas flores, no céu.

Como se até a natureza soubesse que sou essa metade insana dentro da saudade que sinto.

Acho que já me acostumei com sua ausência, Leonor… o que não me acostumei foi com essa saudade quando ouço as canções que falam de nós, dos poemas escritos como declarações de amor e com o vazio que ficou em mim.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Delírios Comunistas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Amanhã é outro dia.

“Nesta ausência que me excita,
tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita…
Distância, sejas bendita!
Bendita sejas, saudade!”
Gilka Machado

Caro vento,


Talvez abrir os braços e te acolher dentro de mim, incorporando roupas e cabelos, seja pouco… o que eu quero é redemoinho. Aquele lá da infância onde você surgia miúdo e ia ganhando os beirais dos currais e de repente estava lá, espalhando os lençóis nos varais e as pipas dos meus irmãos.
Você me lembra a liberdade… essa frase solta que calada não tem a força e que represada — igual minha mãe dizia — vai roubando instantes nos quintais vida afora. Você se tornando redemoinho fica igual menino furioso e o infinito se torna tão curto para além das cercas.
Tenho em mim os ideais de sua força… é como a força do mar, que ganha do rio as gotas e se transforma em gigante. Já imaginou se cada um de nós tivesse na mente a sabedoria de sua força?
O que me lembro de sua fúria, vem pelo olhar de minha mãe — eu, menina olho de poesia, e os arames farpados em nossa frente — e a cadeira preferida dela em seu centro e as folhas das palmeiras que circuncidavam nosso quintal viraram picadinhos enquanto seu furor rompia o monjolo, as telhas e além da cerca, a árvore de minha infância.
O medo, é esse bicho troncho, que nem avisa quando é de verdade e quando devemos realmente temer. Voltar é impossível na existência — minha mãe repetia — o olho deve ir além.
Amanhã é outro dia, ela repetia, tal qual a palavra do filme, que ela nunca viu, mas ouvia via na rádio: E o vento levou era mantra aqui.
Esse rompante que ultrapassa as barreiras e invade os varais me fascina — é verdade — e ao mesmo tempo me retrai e se eu disser que hoje consigo lidar com seus avanços, minto.
Você é essa lembrança imperiosa que a mente não consegue apagar e ao mesmo tempo é essa ânsia de vida que acolhe o peito e transforma tudo que toco em redemoinhos.
Sou tão pouca diante dos retratos preparados e sou tão frágil feito pena aos seus olhos. A vida tem a dimensão exata do que você é capaz. Uma onda que escapa do mar e causa rebuliço no campo e arranca as roupas dos varais, mas que não pode comigo quando me permito voar.

Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Delírios Comunistas,
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

Era o filme 3d…

Não fosse eu, nessa tarde insolente
e a essência das folhas a povoar o quintal.

Não fosse eu, seria o pássaro a descobrir a madrugada
no seu canto sobre a parabólica ainda envolta no breu.

Era o filme a desvendar nas mãos a analógica do dia.
O céu a despontar centímetros no avançar dos segundos,
a povoar de cores as nuvens no rompante do amanhecer.

A vida a acontecer minúscula no rumo das coisas.
Não fosse eu, era você.

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

As estações

Antecipei a primavera
dentro do verão.
Replantei as sementes todas
para quando o equinócio chegasse.
A alma vaga dentro da solidão
de uma estação inteira.

Prepara a xícara que sexta-feira (30/09) tem sarau de novo…
Um bate papo com as autoras do Coletivo As Estações… da alma, do cuore, da pele e da memória: @suzannamartinss – @marianagouveiacba e @flacortess
E na segunda meia hora @annaclaradevitto – @rozanagastaldi leem-se…

Sinta-se convidado…

das coisas breves

A tarde amena chega dentro da canção de procurar desenho em nuvens.

O gato no telhado arrisca entre os pulos dos cães. Ostentou a palavra solidão na amplitude da tarde.
O pássaro vagueia entre o roubo da fruta ou a água do beija-flor. Reencontro o poema perdido na gaveta das linhas. O céu anuncia uma tempestade junto com o vento e seus trovões que me lembra alguém. Descubro o desencanto na pergunta perdida. O quintal é esse portal aberto para o nada.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas

Devia ver as roupas secando no varal…

O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo.

Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

Mariana Gouveia
Entre uma estação e a primavera

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Estou sozinha. Entre dois mundos.

De quando em quando o tempo sai dos livros e inscreve-se nos corredores das casas nas prateleiras dos móveis e observa mudanças iguais neste presente passado.
Não compreende que como ontem,
hoje foi amanhã, e depois, é quase sempre agora.
Quando saio de mim só quero poder voltar para encontrar a prateleira, o corredor
e encontrar o tempo cá passado, mas bem arrumado, a dias, por meses.
Como sono para ficar no inconforto do vago, no corredor deste dia a dia, surdo.
Como sei das rotinas, das minhas, nunca me cansaram as dos outros.
Gonçalves de Sousa

Bambina mia,

Enquanto te escrevo penso na hora que você já viveu e que sempre invado com meu passado estranho. Já estranhei muito esses fusos – hoje, não mais – e agora até acho lindo ganhar uma hora quando vou te ver e perder uma quando volto do seu lugar. É como se estivéssemos em dois mundos diferentes, mas um dentro do mundo da outra.

Quando li seu texto meses atrás veio na memória o que vivi com você na Paulista. A minha passagem pela famosa avenida da Paulicéia desvairada não poderia ter sido mais emblemática para mim.

Você disse: eis a Paulista! E foi me guiando pelas calçadas para não esbarrar em ninguém. Esse cuidado sempre me comoveu durante nossos passeios pelas ruas do seu lugar. Lembro-me do moço vendendo cds… o outro, com camisetas nas mãos, a mulher com brincos grandes e roupas coloridas – você sendo minha guardiã para que não me barrassem – e uma figura tridimensional vindo em nossa frente.

“o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-total-mente?”

Essa sua frase me fez lembrar dele. Juro que por muito tempo fiquei com aquele ser na minha cabeça. Tão branco que parecia ser transparente e pensei que ele poderia ter vindo de outro planeta – falávamos da mesma pessoa, amore? – e sempre que me lembro da Paulista, ele vem em minha memória. Lembro-me que você falava sobre um edifício e explicava alguma coisa sobre o grafite estampado nele… mas, eu fiquei impactada com ele vindo em nossa direção.

Nossos olhos se encontraram… e eu vi gentileza dentro deles. Lembro-me da essência ou aroma que emanava dele… Cruzou por nós e se foi como se fosse um sonho. Com sua roupa branco metálica como se fosse de outro mundo e como se adivinhasse meus pensamentos você disse que a Paulista vagueia em universos paralelos. Nunca falamos sobre isso, mas é uma memória que me conduz ao meu primeiro dia com você.

Isso acontece muito entre a gente… as suas memórias sempre se intercalam nas minhas. E coisas que vivi atiçam as lembranças que tuo cuore carregam. Quantas vezes já me emocionei com o carrilhão do tuo nonno? Já te contei que eles me fazem lembrar do relógio Orient que meu pai por tantos anos carregou no braço direto?

E o dente de leão que a gente sopra espalhando os desejos ao vento? Em sua língua materna, se chama soffione… Achei tão lindo que repeti a palavra tantas vezes que fiquei em dúvida se tatuava a flor ou a palavra em mim. Foi como se eu tivesse ouvido a palavra dita por você em áudio em uma manhã de segunda.

É engraçado escrever no quarto. Geralmente, vou ao quintal para captar essências do que quero escrever. Mas, de repente, lembrei-me da última vez que nos vimos. Você costurava livros, a gérbera vibrava na janela do seu quarto e eu vagava nos mundos que nos ligou. Nunca fui tão grata ao universo como aquele dia.

Tocava Try na sua playlist e havia janelas abertas na quadra vizinha. A gente ria de coisas aleatórias… o café servido pelo Marco, a Jane dog aos seus pés e eu guardei essa imagem na memória para lembrar em dia como hoje até chegar à próxima vez para criarmos mais lembranças desses mundos nossos tão diferentes e tão iguais.

Bacio
Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins