Afetos

Negativo

Ph: Gaspar Jade

Depois que seu corpo aqueceu o meu… o nunca passou a rondar meu vocabulário…
Nunca esqueci…
Nunca mais senti nada igual…
Nunca mais chamei por outro nome como chamei pelo seu.

Ainda te vejo refletida nas paredes, em noites escuras e nos livros que leio, nos filmes que assisto e nas canções que ouço…

E se alguém me perguntar: o que é saudade?

Não revelarei que é com ela que convivo todos os dias, desde que você se foi.
Para mim, seu silêncio ecoará nesse quarto escuro de agora e atravesso a noite até que amanheça e sua imagem borrada na parede desapareça.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de saudades e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no Projeto Coletivo Mosaicum
fotografia: Emanuelle Brisson

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

O segredo do bolo de fitas

Seria a primeira vez que um homem entraria na casa de Iolanda, com a sua autorização, desde que Darci morrera. Estranhou o pedido feito através de um bilhete que o filho mais novo entregou com curiosidade.

– O padeiro pediu que lhe entregasse, mãe.
Sentiu qualquer coisa a incomodá-la ao desdobrar o papel para ler a mensagem:

         Prezada Iolanda,
Solicito uma consulta no dia e hora
em que for inconveniente.
Assunto do seu interesse.

Que assunto teria com o padeiro? Como era mesmo o nome dele? Inácio – disse o filho disse adivinhando o pensamento da mãe.

Lembrou-se das poucas vezes que havia entrado na padaria de Inácio, às pressas, em busca de farinha e ovos. E de vê-lo de longe… nas poucas vezes que varria as folhas da calçada pela manhã. Trocavam discretos cumprimentos – que acenavam a sua vaidade de Mulher.
Mas não conseguia pensar em qualquer assunto em comum para com aquele senhor.

Iolanda sabia que era bem-apanhado e considerado um bom partido pelas moças da cidade que, segundo Filomena, o disputavam entre si.

Inácio havia mandado um garoto entregar uma cesta de pães de doces, que ela retribuiu após recuperar-se de uma forte gripe. Preparou o seu famoso bolo de fitas e mandou entregar com um bilhete.

Toda vez que o seu caçula passava por lá, o padeiro lhe oferecia um lanche. No mais, nunca se falaram, nem mesmo no tempo em que frequentava a missa do Ambrósio.
Lembrou-se que ambos eram confeiteiros.

E, considerou que o padeiro pudesse ser apenas mais um interessado em descobrir a receita de seu famoso bolo de fitas. Tentativas não faltaram…

Marcou uma data no calendário fixado atrás da porta da cozinha e pronto:

vamos ver qual será a sua lábia, seu Inácio.

Considerou que seria o suficiente para por um ponto final ao mistério, trazendo sossego ao seu coração, que palpitava toda vez que pensava no padeiro.

Mas, durante as suas tarefas rotineiras, se surpreendia pensando nele. Ordenava que parasse, e tentava – sem sucesso – voltar a se concentrar em suas atividades. Até bilhete trocado mandou entregar, por estar com os pensamentos ocupados com o padeiro. E não foi a única confusão. Salgou um doce e adocicou o feijão.

Na quinta-feira – data marcada no bilhete entregue pelo filho – começou a aflição. Um pouco antes da hora se viu diante do espelho, arrumando os cabelos, retocando a maquiagem e renovando as gotas de perfume no pescoço. Escolheu um vestido vermelho – o seu favorito – por realçar suas curvas-retas e se arrependeu de não ter comprado os sapatos destacados na vitrine da única loja de calçados da cidade.

Estranhou a agitação que seu coração fazia… E ficou feliz com o elogio feito pelo primogênito. Sorriu suas vaidades e saiu desfilando pelo corredor até a cozinha – toda faceira. Retirou o bolo do forno e colocou a chaleira no fogo para o chá de cidreira.

Inácio bateu na porta na hora marcada. Trouxe uma farta cesta com pães e biscoitos e outra caixa embrulhada em papel de presente.

Iolanda reparou na elegância do padeiro, que havia cortado os cabelos, feito a barba e comprado um belo par de sapatos.

Tentando não demonstrar empolgação e aquietar o coração, puxou o baralho e começou a embaralhar as cartas.

– Eu não vim para uma consulta, Iolanda. Gostaria apenas de lhe entregar isso. – disse Inácio, colocando o embrulho, com algum cuidado, em cima da mesa.

Iolanda abriu a caixa e lá estava, diante de seus olhos, o par de sapatos desejados. Pensou em recusar, mas Inácio se antecipou:

– Eu reparei no seu olhar e fiquei feliz em poder atender a um desejo seu. Há anos tento descobrir com o seu menino mais novo, uma maneira de lhe presentear. Minha intenção era ver novamente aquele olhar.

Iolanda lembrou-se que era uma viúva e não deveria aceitar presentes. Mas o que mais poderiam dizer a seu respeito na cidade?

– Por favor, não considere um atrevimento da minha parte. Sou um homem solteiro e sei que passei da idade das escolhas. Mas, a verdade é que a única moça que me interessou, foi escolhida por outro de mais sorte que eu.

Inácio narrou toda a vida de Iolanda durante os anos de viuvez. Apontou as muitas vezes em que a defendeu da maledicência da cidade. E, finalmente, do momento em que tomou coragem para uma visita, encorajado pelo filho mais velho que fez questão de anunciar sua preocupação com a mãe.

– Vou estudar na Capital, e estou preocupado em deixar minha mãe sozinha, nessa cidade.

Inácio sentiu que o rapaz estava lhe dando o aval para a aproximação. E num gesto cortês, tomou as mãos de Iolanda junto as suas, pedindo para que buscasse nas cartas uma resposta.

– Não precisa ser agora. Eu prefiro que pense com carinho a respeito e me responda quando estiver pronta. Envie outro bilhete através de seu caçula, que virei correndo.

Iolanda sentiu o coração renascer. E ao calçar os sapatos naquela noite, em seu quarto, sorriu suas certezas. Entregaria tudo ao Inácio … o seu coração. E sua pele de mulher…

Menos o segredo do seu famoso bolo de fitas.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de leituras e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no coletivo Scenarium Casa de Vidro
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente

Beda – do meu pai ao pai do meu filho

Pai,

Como se corre contra o tempo? Se eu fosse contar os dias me perderia no calendário nos agostos todos em que me vi sua filha… quantas sementes você colocou em minhas mãos para que eu semeasse muito mais do que palavras.

Meu olho de filha segue os caminhos que você traçou para mim, muito mais do que os ensinamentos básicos, eu aprendi sobre a natureza das coisas. Sobre reconhecer os sinais do céu… de como a lua influencia nas marés e de como a colheita tem de ser feitas em madrugadas amenas – antes que chovesse no dia seguinte – para a perda não ser maior.

Acho que uso a data – meramente capitalista – para aprofundar meu amor nas cartas que te escrevo… e lembro-me das vezes em que me falava sobre escolhas. De como eu escolheria alguém para seguir comigo no caminho que eu trilhasse. E eu soube escolher bem, pai…

Um dia, o meu olho cruzou o dele em uma avenida e eu já sabia que se havia alguém que pudesse ser o pai do meu filho seria ele. Até hoje, não sei porque e a amiga que me acompanhava ouviu que eu disse: é ele. Se existe alguém nesse mundo que pudesse ser o pai de um filho meu, seria ele. E foi!

Li em alguns textos e comentários sobre o marido ser parecido com o pai. Durante anos, acreditei nisso… Depois, pensando melhor sobre os pais de nossa família, entendi que o olho da filha sobre o pai é que designa essa teoria. Talvez, a forma em que vejo meu pai tenha trazido para mim o melhor pai para meu filho. Não é cientifico e nem posso provar. Mas posso dizer que minha escolha – ou a do destino – foi certa.

O que posso dizer é que não poderia ter pai melhor… dias atrás, entre suas palavras, afetadas pelo avc meu pai ria com o olhar. Reconheceu tão antes de mim, o homem que me acompanha vida afora na palavra amor.

E assim, dias atrás, o pai do meu filho me guiou com as mãos como se ele fosse o sortudo de ter sido escolhido por mim.

O Universo me presenteia com os melhores. Sempre. Os que riem comigo nos momentos engraçados e os que riem comigo, mesmo em momentos doloridos. Os que silenciam comigo nas coisas absurdas que se apresentam na vida e os que falam comigo sobre bobagens… Os que se tornaram pais por mim-comigo. O meu pai e o pai do meu filho.

Já vi tantos modelos de pais. Já vi tantas mães que são pais também e em tantos momentos que vivi como filha e mãe sou a pessoa mais sortuda. Sou pura gratidão.

Poderia ter escrito duas cartas, mas dentro de mim, um complementa o outro. O pai que me guiou até eu entender os caminhos da estrada e o pai que me ajudou a ensinar ao meu filho como se descobre os caminhos.

Amo vocês!
Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos pais e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – Das cartas que recebi

Mari,
Escrevo para responder as palavras que me mandaram – suas e as de seu pai – estava no metrô quando sua carta chegou. Sorte estar sentada, daí pude ler com calma. Sabe, Mari, há coisas nessa vida que é preciso estar em paz para se aproveitar como se deve: comer é uma. Tem que ser sentada e sem frio e sem vontade de fazer xixi. Outra, é ler. Por muito tempo meu tempo de ler era no banco do ônibus (e como chacoalham os circulares!). Às vezes penso que, em parte, enxergar tão pouco é devido esse gasto de leitura em ônibus ou nos trens de subúrbio. Bem, estou respondendo hoje. Agosto passado, te respondi do pátio da escola… Era um lugar que adorava! Vestia uma bata xadrez e tinha uma cigarra pousada na mão. Do pátio se via a cidadezinha iluminada embaixo de uma lona esburacada de estrelas. Fazia calor, apesar de agosto à noite. Hoje faz frio e não estou no pátio. Muitas coisas aconteceram de lá para cá, inclusive a passagem do Teté. Sinto falta dele e ler os conselhos de seu pai me deram alento. É preciso falar do que se sofre ou se alegra, por isso escrever e fazer terapia é tão bom. Falo com você na minha cabeça e tenho fotografias que querem dizer isso ou aquilo. Sei de cada imagem que fotografo e para quem são… É minha comunicação secreta.
Fazer bolo é também dizer que amo muito. Se chego a fazer um bolo para alguém, é sinal de amor. Há lugares também que consagro aos que amo. A biblioteca Mário de Andrade é sua, faço vênia antes de entrar, assim como faço nos teatros e nas agências dos correios.
Fui a São Paulo te conhecer de verdade, porque para mim era coisa de livro. Contei isso pro chauffeur depois. Era um moço japonês de nome Sérgio, que me deixou perto da Sé, na despedida disse que queria ter amigas como nós.
Subi as escadas do prédio antigo que abrigava um partido e fiquei olhando a cidade, é um ritual meu. É preciso ter rituais quando se tem uma janela em cima de uma cidade para se pensar na sorte que se tem e a bendita da paz para aproveitar os instantes que nos dão.
Naquela noite, antes de todo mundo chegar, agradeci por ter te conhecido de verdade.
Amo vocês.


Luciane Recieri
Agosto é o mês de receber cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Fotografia de Luciane Recieri

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Uma casa cheia

As lembranças me levam para minha infância.
A algazarra dos meus irmãos em suas brincadeiras de meninos. Uma irmã, na janela – seu lugar favorito – e a outra me desafiando a recitar poesia pegando as palavras que ela dizia.

Naquele tempo a casa era cheia.  Os sete filhos de seu Laurindo e Dona Ercina mal cabiam no banco comprido que contornava a mesa.

Cada um tinha seu lugar preferido naquela casa, mas acabávamos sempre disputando o lugar mais perto da mãe. O caldeirão da sopa no centro da mesa e os pães ao lado.
Até hoje, o cheiro daqueles momentos se faz presente.

A mais velha casou-se primeiro. Foi a primeira vez que minha mãe sentiu a sensação do ninho vazio. Um lugar no banco ficou vago. Mas, em cada refeição era como se ela estivesse ali. Com o prato estendido, sendo servida primeiro por ser a mais velha. Nos primeiros dias a poesia se calou em mim. Quando a outra se casou o vazio ampliou-se nos quartos. O meu irmão foi trabalhar fora e a gente ficou parecendo um colar que perdeu as contas. Os suspiros eram ouvidos diariamente entre as falas de minha mãe.

Minhas irmãs vinham em datas especiais. Natal, Páscoa e aniversários da mãe e do pai – mas já não era a mesma coisa.
 
Tudo ficou ainda mais estranho quando minha mãe foi morar com minha irmã mais velha para tratar de um problema de saúde.

O vácuo ficou ainda maior… a casa cheia e barulhenta ficou silenciosa. Nem o rádio de pilha no programa favorito mudava a sensação de orfandade que sentir. Eu, meu pai e os meus três irmãos mais novos nos fortalecíamos nas lembranças e nas brincadeiras em que sempre faltava um.

O tempo tratou de levar a gente para longe um do outro. E com a morte de minha mãe ficou muito difícil reunir todos.

Mesmo nas datas especiais a rotina de cada um interferia no encontro. Mas, os nossos corações estão ligados e quando acontece algum encontro – mesmo que falte um ou dois -, a memória de tudo que vivemos é refletida nas histórias que replicamos… e o riso ecoa de novo.

Os cheiros, a comida, a sensação da casa cheia regressam e atingem em cheio o coração e a alma.

Ao me sentar aqui para escrever… rememoro tudo. A sensação de aconchego eco na pele e eu me sinto cheia, o corpo convertido naquela casa. As histórias percorrem cada canto do meu corpo-memória e eu ouço a voz do pai e vejo os ingredientes da receita favorita do domingo da mãe sendo misturados. Tudo isso me faz uma casa habitada de saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de casa cheia e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no Projeto Coletivo Casa Cheia
Scenarium Livros Artesanais

Divã

Era, às vezes, nada.

Vestiu a incoerência das coisas. O telefone nunca mais tocou.
Tropeçou no chinelo que alguém deixou no caminho.
Um choro de criança ao longe. Um rádio toca uma canção. A hora dura nesse instante. Revisitou memórias e chorou de saudade. Fez faxina. O dia começa na lembrança dela. Rotinas fora do lugar.
Uma borboleta, um avião…
Diferentes estações de asas.
E era, às vezes, nada. Melhor ir realizar a perícia.
Veredito: sem lucidez.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

 

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

 

Das rotinas · Divã

Beda – Eu era a curadora da história.

Benzi três vezes em nome da flor.
A saudade é essa faca incrustada na garganta.
Os cravos rebrotaram em um inverno cruel.
A primavera anuncia seus dias no jardim sem chuvas e a canção do vento é a sinfonia nas janelas fechadas.
Montei as folhas em origamis de luxo.
A saudade tem que ser recebida em festa como quem se despede da vida.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sintomas de saudades e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Fabrizia Milia

Corredores, Codinome Locura

Eu era peixe.

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar. Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

 

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês marítimo e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*imagem: Khaterina Plotnikova

 

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – carta para as bobagens dos abraços.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Luci,

Mais uma vez te escrevo uma carta. Sabia que te escrevo infinitas cartas na mente? Basta ver uma coisa que minha alma defina como poesia, escrevo para você mentalmente e cada vez que vejo a sua frase acima – que acho pura poesia – fico imaginando se você seria uma música de Belchior ou de quem seria…

Vi que no meio do seu caminho tinha uma borboleta, e minhas borboletas vagueiam no céu do meu lugar e pousam em tudo que é flor… e que para você, as segundas-feiras são lindas. Já eu, gosto das quartas e não gosto muito dos domingos. Quando é para marcar algo especial, marco as quartas-feiras e foi numa quarta que vi meu pai de novo, Luci. Te contei que eu ia lá ver ele? Eu fui, Luci! E meu pai estava como se fosse fruta da época – com o riso tímido de sempre, como se quisesse fazer uma confissão e não fez.

O olho dele, Luci… ah, o olho dele… cada vez que volto do meu pai a minha alma fica pelo caminho… e o olho dele vem junto. Ele falou tantas coisas e eu fui me perdendo nas palavras dele. Contou histórias que eu nunca tinha ouvido – ou não lembrava que ele contou – e parece que pai sabe sempre o que vai no coração dos filhos, Luci. Acho que dessa vez, o olho dele me contou coisas que não consigo confessar nem para mim mesma. Essa coisa de saudade que a gente sente e você sabe de noite quem seu coração chama.

Eu nem queria falar de despedida com ele… mas, ele sabia que eu tinha de vir embora e num abraço, beijei o cabelo dele, Luci. Parecia flocos de algodão. Lembrei-me dos rolos de algodão da fazenda e ele cheirava a algodão recém colhido. Depois, na volta, parei para além da cerca e via o campo todo branco, como se tivesse se vestindo de noiva… era alguma cerimônia e eu não estava preparada para isso. Me lembrei de tanta coisa que chorei. Fiquei a olhar os trieiros que separavam os pés de algodão. Na minha infância, isso era feito por ele, num equipamento chamado matraca… hoje, as máquinas gigantes fazem isso. Mas, o cheiro é igual de quando eu era menina.

A gente viu passarinho juntos… acho que ele ainda tem esse dom – que deve ter sido repassado para mim – sabia que os passarinhos vêm na mesa onde ele almoça e divide com ele os restos? Era tanta divindade que recusei registrar em fotos. Apenas orei, Luci… e mostrei você para ele. Falei do seu pai e do estuque verde. Li algumas cartas que trocamos e vi que ele chorou. Falei também para ele que você, Luci, para mim, é quase uma personagem de conto de fadas e de quanto você viajou só para ir me dar um abraço em São Paulo. Já fazem 6 anos isso e parece que foi ontem… ah, esse tempo doido, Luci! Parecem apontamentos dos dias que voam.

Contei que você se encanta pelas delicadezas das coisas e que sou muito sortuda. Ele disse que eu sou igualzinha a tu… Os iguais se atraem – meu pai disse isso em outras palavras e com a dificuldade de quem voa com a mente, mas se prende pelas sequelas do avc. Tem pai, Luci, que é essa ilusão de outro tempo. Fica registrado como se fosse um retrato 3×4 na carteira. Meu pai e o seu são assim.

Falei que a gente chora por qualquer coisa mesmo e que amamos cachorros… até os de rua e que aprendi com ele isso. Sabe, Luci, meu pai fez 91 anos e ele me falou de curas. As dores de quem perde um animal demora mais para curar – ele disse – porque a gente fica buscando presença em qualquer canto e cachorro é quase igual anjo. Mas ele me disse que tem dias que cheira a frio, mesmo nos meus quase 40º aqui. hoje é um deles e quis te escrever, só para nossos abraços se encontrarem nesse universo pleno de contato. porque a gente é assim, gosta de resolver bobagens e de abraçar, às vezes.

Contei para ele, Luci, que você tem a doença da saudade do Tetê e ouvi que essas doenças são cicatrizes que mesmo curadas, ainda ficam a marca. Faz parte – repetiu – e é sinal de que amou, assim como eu, que possuo a doença dos espaços imensuráveis dentro de mim… não tem cura, Luci… mas alivia sempre quando te escrevo… mesmo que sejam cartas que não te envio.

Grata por estar comigo sempre, mesmo longe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de escrever cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins  Roseli Pedroso