Corredores, Codinome Locura

Em todas as ruas,

me perco…

A primeira rua que tracei sob meus olhos era na verdade uma estradinha, logo para além da floresta de bambus. Para mim, era a rua que dava para a prainha, aonde a gente colhia areia para arear os alumínios da cozinha.

Eu e meus irmãos seguiam minha mãe com os sacos de pano para trazer a areia, que dava para os quinze dias que ela mesmo definia. As margens do riozinho que circulava a floresta produzia uma areia tão branca e fina. A minha mãe tratava aquele lugar como se fosse o paraíso e parecia mesmo uma rua na beira do rio.

As panelas, mesmo depois de usadas no fogão a lenha ficavam brilhando na prateleira de madeira, com os forros bordados por ela. No dia da faxina, cada uma das filhas cuidava de uma tarefa predeterminada. A areia, tratada quase como um tesouro era colocada em um pote e as louças iam ganhando brilho.

Talvez seja um dos lugares que mais sinto falta. Era lindo passar pela floresta de bambu e dar de cara com o rio e sua areia branca estendida como se abraçasse a água.

Depois disso, outras ruas me abraçaram e em quase todas elas me perdi, de uma maneira ou de outra,

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Scenarium Livros Artesanais

Scenarium 8 | Coletivo Mosaicum

Um dos projetos mais lindos da Scenarium e 2023 vem com muito mais projetos.
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Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Te dou trovões como adereço

Bambina mia,

logo pela manhã eu vi as nuvens se formarem e a moça do tempo traçou todos os alertas para meu lugar. O sol era uma mistura entre a claridade de um dia que queria amanhecer e tentava atravessar as cortinas de chuva. Fotografei para te mostrar.

Logo depois, vieram os trovões como adereços de nossa conversa. Por pouco perdi o tempo deles, porque eu queria te mostrar o som oco que fazia o chão tremer a cada batida. Fiquei imaginando como as pessoas tem medo deles – a minha mãe tapava todos os espelhos da casa com lençóis brancos – enquanto desde pequena eu abria os braços para acolhê-los.

Então, a Mariana não sabe antecipar trovões?

Eu me apeguei primeiro no instante anterior da nossa conversa e só quando busquei a conexão com o cuore que consegui te mostrar os ecos deles no meu quintal. Foi quando para além dos muros a frase do tuo nonno reverberou aqui: sta arrivando! Fiquei tão íntima dele nesse momento, bambina! “Roubei” de tu o homem pelo qual já tenho carinho só de ler a palavra nonno. Eu o reverencio sempre para além das palavras, só pelos instantes que ele te deu. Isso me emociona.

Quando as nuvens engrossaram na palavra trovejar e o céu escureceu em plena manhã eu só consegui suspirar. Durante esses dias atrás eu perdi coisas de viver. Você sabe bem e juro que quase tomei banho na chuva, mas segui sua ordem de me cuidar e domei esse ato que me torna tão natureza. Gosto dos pingos batendo em meu corpo… dessa vez, foi só as mãos e as flores.

O pássaro de todo dia fazia festa no varal e o verde das folhas do ipê pareceram mais verdes ainda. O vento dançava enquanto eu ouvia os trovões e a canção que você me mostrou um dia – se minha mãe estivesse aqui, isso seria impossível – e esse pensamento traz um riso ao meu rosto.

Enquanto te escrevo e os estrondos ressoam em meu céu eu penso em você que nasceu tempestade e da única tempestade que vimos juntas da varanda do seu lugar. Aquele dia, bambina, eu guardei como adereço para minha alma e guardei também a frase que tu repetiu para mim ao som do vento: …trovões sonoros do lado de dentro! É o que escuto agora.

Amo tu imenso!
Grazie por tanto!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Ausência… seu nome é quando?

Ph: Tumblr

Era essa a maneira de nos encontrarmos.
A fluidez do líquido – e a água – nas histórias contadas.

A parte do humano quase real – os ossos, a pele – ardendo em febre e a solidez do dia.

A colheita sendo parte da história. A moça de branco na ligação que não atendi. O diagnóstico mudado no envelope.

Era o amanhecer um dia típico. como a selva nas palavras que li e o jardim transversal era uma coragem dentro do medo.

Na ponta da unha, a cor. O carmim a exalar essências quando o sangue é tudo rubro.

Ausência… seu nome é quando?
A tatuagem invisível entre a primavera e outra estação.

Meu medo estampado nos tecidos da cortina e a rua de cima feita de silêncios.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Dos verbos indefinidos

O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.

Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades.

Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo.

O porta-retrato guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo.

O verbo era quase um propósito de espera.

As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto.

O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.


Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Last Six Months

Confesso que foi difícil escolher apenas seis fotos representado os últimos seis meses. Foram tantos momentos registrados que dariam um livro, mas segue abaixo algumas que me marcaram. Espero que gostem!

Julho
É lua cheia! O calendário avisa que há dias em que é melhor ser apenas plateia. Hora de desvendar afetos. A rota lunar sempre é uma opção de fuga. De vez em quando eu atiro facas em mim mesma.  As tremuras das mãos são quase um ocaso para o bordado que não faz mais. Era lindo o abraço do silêncio. 

Agosto
A vida esconde o pólen da noite quando o vento é só essa música que a cortina acompanha. Lembrei-me das folhas escondidas em cadernos.
A rua de cima tem garoa enquanto as folhas secas protegem a vida miúda.
Conta o calendário que é inverno ainda e meu diário se perde na contagem das estações.
Tem noites em que todas as estações mudam de rumo em equinócios não relatados.

Setembro
Houve uma noite em que o dia brilhou. Das sementes que plantei, nasceram sete. Cavei cada buraco a procura do sol para girar. Nem sempre o dia tem essa precisão noturna.
O dia da dor parece parafuso repetindo ciclos.
Ensaiei a despedida vinte vezes, contadas no cronômetro do celular.
Rabisquei no caderno os rascunhos das cartas… Queria deixar um testamento sobre as relíquias que nunca cataloguei…
– “Deixo para você as palavras escritas nos rascunhos do email” – depois, fui lá e apaguei porque senti a sua dor de viver sem mim.
Será que eu deveria falar das flores?

Outubro
Quando chegou a hora do descanso,
eu já era pouso e fui colo.
Quando chegou a hora do aconchego,
eu já era carinho e fui amor.
Quando já era hora de voar, eu fui céu e minha mão, nuvem

Novembro
Nas manhãs regadas a asas
o céu vestiu-se do azul mais bonito.
Às nuvens brincavam de pinturas – das mais variadas formas – e a borboleta veio ser encanto enquanto eu falava de cerejeiras para alguém.
O quintal guarda sua magia para o dia continuar sendo no sopro de asas dentro de mim.

Dezembro
Entendi a densidade da chuva. As micros flores parecem diamantes expostos.
A cortina dança ao som do vento e a vida tece significado das coisas.
O pássaro de todo dia busca abrigo na minha mão.
As manhãs de sábados improvisam instantes de ternura.
O ninho foi preenchido com vida outra vez.
Faço orações nas gotas da chuva para agradecer.


Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Vácuo

Depois das perdas o corpo ganhou ares de memória. Seu nome apareceu nas lembranças e repeti o ritual de todo dia… Café, oração, café, busca, café, jardim, café, asas e só daí sigo o caminho rumo à rua de cima.

Enquanto atravesso a madrugada-quase manhã tento lembrar onde te perdi. Em que vácuo da vida você escapou?

Respiro enquanto corro para alcançar o ônibus e as lembranças ficam nas asas do quintal e na singeleza da rua de cima.

Depois das perdas, as lembranças se tornam apenas lembranças… Afinal, o dia é feito para viver.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Era uma vez, assim

Tem a flor estampada no vestido, o mês e seus dias de chuva atrapalham a visão da Lua. A rua de cima tem uma canção no repeat. Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos. A rua de cima tem dias de vazios nas árvores — cabia a brancura em qualquer canto — e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu. Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

*a fabricar tempestades particulares 

Ph: Ziqian Liu

Choveu em uma tarde banhada de sol enquanto eu lia meu diário. Rabisquei algumas palavras mudando o sentido das coisas. Depois reguei as flores que não receberam as gotas da chuva.

Depois de dois convites para sair – que recusei apenas com resmungos – fui andar descalça no quintal enquanto Ed Sheeran tocava no repeat. Às vezes, minha solidão precisa da companhia de canções. Desfiz o naperon de crochê – errei na cor da linha – e recomecei do zero. Já reparou que, às vezes, o zero, é um começo?

Marte em sua melhor presença segue a lua em seu quarto crescente ou seria ao contrário? Fico pensando se é ela que ronda as estrelas em busca de companhia. Aprendi o nome de uma planta que nasceu no quintal sem que eu tivesse as sementes. As sombras invadem as janelas abertas enquanto minha mão fabrica chuvas nos vasos que ficam dentro da varanda.

Guardo as fotografias em preto e branco dentro do diário em uma data preferida. No coração, trovoa. Enquanto penso em coisas que eu gostaria que acontecesse começa a tempestade no interno de mim. Alerta vermelho de explosões vulcânicas na alma.

Mariana Gouveia
*frase do poema de Egito Gonçalves

infinitamente

*Ikigai

Ikigai é um termo japonês criado para dizer a razão de existir.
Os japoneses acreditam que todo mundo nasce com um dom.
Uma coisa que você sabe fazer. Seu potencial.
Você descobre que você sabe fazer aquilo. E que você gosta de fazer.
Isso se transforma em uma paixão.
E se você se dedica muito à sua paixão e você desenvolve uma forma
de ganhar dinheiro. Isso se torna uma profissão.
Mas, você tem que encontrar uma forma de fazer com que o mundo precise do que você faz, ou pelo menos, uma grande parte dele.
Essa é sua missão.
Quando você descobre a sua missão você descobre a sua razão de existir.

Ken Mogi



1992.
Você encontra o Botafogo. Não é clichê. Você não escolheu.

1999.
A todo custo você tenta escrever. Mas, é impossível, talvez devesse fazer outra coisa. Com 11 anos você descobre que fracassou pra isso.

2003.
15 anos. Você sonha com o Rio de Janeiro. Quer sair, desbravar o mundo. Tá no colégio, as coisas na ponta do lápis. Um sonho, de criança né? Como eu vou parar no Rio de Janeiro? Talvez de férias. Talvez indo de ônibus. Nunca vou pisar em um avião

2008.
20 anos. Você num ônibus e sai da casa dos pais. Deixa pra trás a família, o conforto, a paz. Você não sabe o que vai rolar. Todos esperam que você falhe.

2009.
Você faz do poker teu sustento, decide suas horas, aprende a desafiar os outros, você contra os outros. Você contra você.

2009.
Sala fechada. Entrevista. Você descobre que seu próximo salário é de R$ 465,00. Vai trabalhar debaixo do sol, dia todo. Cidade nova, Rio de Janeiro. Seu aluguel é R$ 250,00. E você vai. E chega em casa sem conseguir respirar, o cansaço te leva tudo.

2012 – 2016.
Você não entra no avião uma vez, mas várias. Infinitas vezes. Aprende a voar. Não, esquece, é figura de linguagem, não pula de canto algum não. você realmente sai do chão e conhece lugares, Curitiba, São Paulo, Porto Seguro, Brasília, você só descobre que tem o mundo. Pessoas.

2016.
4 anos em Cuiabá, após um retorno inesperado. demitido. Um erro, mas será que cometi ele?

2018.
De volta ao Rio. 6 anos longe. Mas tua alma não sai daqui. Teu coração se encanta com o ritmo, o caos, a bagunça, o trem lotado. (Mas você não precisa andar de trem lotado todo dia).

2021.
Sozinho. De frente pra igreja, no frio, na doença, na luta, você e você mesmo. As tatuagens surgem, o brinco, você percebe que ainda não confia em você mesmo.

2022.
Não consegue enxergar de onde veio. Da luta. De quanto errou, achando que podia ser perfeccionista, mas só aprendeu quando errou. Você não percebe que o sonho de voar, que usar o baralho pra você, que se mudar, que morar sozinho, eram teus objetivos mais impossíveis. E ainda acha que não pode dar o próximo passo.

30/11/2022.
Você percebe que tá só começando e vai fazer muito mais.

Lauro Gouveia
Rio de Janeiro