10, junho,
Quando li seu texto e já suspirando com mil coisas na cabeça, desde a cozinha limpa com cheiro de ervas frescas, com a mesa posta e o queijo sendo ralado para o nhoque até a palavra doce me absorver e eu vagar pela senhora que sentiu prazer pela primeira vez, me lembrei da poesia de Caio Fernando Ribeiro: Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.
Viajei na mulher que fui me transformando e a que sempre cuidava de todo mundo e nunca de si. A que estava sempre pronta para socorrer a amiga no meio da noite após uma crise de pânico, a que ficava noites e noites com a sobrinha no hospital porque a irmã tinha compromissos, a que podia sempre ir aonde chamassem, carregando bagagem de outros e ouvindo a palavra p r e s t a t i v a, que usavam para se referir a mim… Já diziam que eu podia antes mesmo que pudesse dizer não, já me colocavam em grupos antes de perguntar se eu poderia ou queria participar, já me escalavam em afazeres – ou um trabalho inteiro – sem perguntar se eu queria ou podia ir… e não, eu nunca disse que poderia, mas ia… estava sempre lá a frente de qualquer coisa que me colocavam e na maioria das vezes, sendo o último lugar onde que queria estar. Não me lembro de quando comecei a dizer não. Mas lembro-me quando decidi dizer não.
Uma grave doença me afetou e com o diagnóstico em mãos corri para o colo de quem eu pensava que estaria ali comigo, de mãos estendidas, e mostrando que não estaria sozinha, para além do marido e filho e descobri que estava. A palavra você é forte, através de uma única mensagem e um telefonema e mais nada – e nunca mais, até obter a cura – vindo da pessoa que dizia sempre estar ali, caso eu precisasse, me fez enxergar através da cortinha cinza do hospital enquanto a máquina injetava o líquido em minha coluna que ninguém estaria lá fora para me aguardar. Eu é que tinha um adesivo escrito acompanhante no peito, porque estava sempre acompanhando alguém… a mãe de uma amiga, a irmã de outra, a família inteira, caso precisassem e não, eu não era e nunca fui a boa samaritana… eu era somente a que não sabia dizer não…
Quando eu disse que não podia a primeira vez, foi como se uma carga grande de culpa me atacasse… quase voltei atrás… a segunda foi menos penosa e as outras já não doem mais. Em algumas vezes, reluto e ainda vou, mas não como comissão de frente e sim como apoio e sabe de uma coisa? Fiquei mais leve, mas apta para me doar à quem eu quiser… Alguém me ensinou a me amar mais do que a qualquer outra coisa, outro ser, etc… e aprendi também que quem ama cuida de si e só assim pode ser pleno na tarefa de amar…
E voltando para a cozinha, o bolo de paçoquinha ficou pronto e mais claro que o seu, mas ainda assim, ficou delicioso… cortei uma fatia, peguei uma xícara de café e fui para a varanda aspirar e inspirar o doce gosto da vida… e repito a frase do poema de Caio: que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce.
Mariana Gouveia















