Eu já te contei que a noite ronda meu lugar… não essa noite comum, de quando a tarde se avizinha do crepúsculo e abre as cortinas do céu – essa me dá colo logo que escurece e o sono me chama. Eu falo da noite que espreita as pessoas noturnas depois de meia noite.
É quando eu vagueio no meu quintal, já insone mais uma vez e os vagalumes buscam os desvios do meu quintal e as três marias entremeiam-se nas nuvens. A noite dos poetas e dos amantes. Essa, que me traz monstros articulados em troncos secos no quadrante dos muros e os cães latem para os gatos e a parede da casa da vizinha faz amor com as nuvens.
Às vezes, coloco um lençol no chão e deito-me à espreita de ver as estrelas enquanto o sono não acontece e faço silêncio para não acordar os que dormem e quando falo com as aves noturnas e o latido do cão soa quase como um cochicho. É regra não incomodar os que conseguem dormir.
De vez em quando ouço uma canção ao longe, o som do plim plim em uma tv vizinha e uma criança chorar pedindo colo de mãe. O vento, quase em uníssono com a ave que senta no telhado da vizinha balança os galhos do coqueiro. Tateio as paredes no escuro para não fazer barulho em busca do chá. Ninguém acorda e consigo sentir o sabor enquanto danço uma música imaginária.
Volto para a cama pouco antes do despertador acordar o moço madrugador daqui de casa que se apronta para o trabalho… a aurora começa a romper as cortinas do dia e um galo canta nos arredores e me pergunto onde foi parar o garnisé que cantava na vizinha da esquina. Nunca mais o ouvi cantar.
O dia amanhece enquanto escancaro as portas e faço o café. Converso com as plantas e os pássaros do dia que já surgem por aqui. Vamos ali viver o dia?
Mariana Gouveia
