Afetos · Das palavras das cartas

A Urgência das Flores e a Saudade nos Dias.

Rose,

Eu vi sua mensagem e fiquei dias pensando sobre essas coisas do tempo e a correria do dia a dia. É verdade: há uma pressa mansa nas coisas da terra que nenhuma engrenagem dos homens consegue imitar. As plantas não olham o relógio para saber a hora de romper o botão; elas simplesmente respondem a um chamado antigo, uma urgência oculta que transforma o galho seco em manifesto de cor em um piscar de olhos. Ouço os ensaios sobre a efemeridade do tempo e a necessidade de desabrochar antes que o vento da primavera mude o rumo das coisas, e imediatamente compreendo que a nossa vida é esse eterno ensaio de urgências guardadas.

O domingo passa por aqui desenhando sombras compridas nas paredes e lembrando que as horas são feitas de fumaça. Se o mundo corre para acumular certezas, a maturidade me ensina a saborear os minutos como quem bebe um café morno, sem a obrigação de dar respostas aos ruídos lá fora. A efemeridade não me assusta; ela me encanta. Saber que a beleza de uma pétala de ipê reside justamente no fato de que ela vai cair e virar tapete na terra é o que dá dignidade ao ciclo. O tempo passa rápido, sim, mas deixa os nossos ontens assentados com firmeza na memória.

A nossa caligrafia também carrega essa urgência bonita de florescer. Escrever é o jeito que encontramos de prender o instante fugaz na página impressa, transformando o sopro do vento em narrativa viva. O sabiá aqui amanheceu cantando. Costumo dizer que ele pede chuva com seu canto dolente. É quase poesia, Rose, e ela acontece no recolhimento manso, na curva de uma consoante que soube reter o impacto de um afeto ou no chilreio do pássaro que anuncia que o dia cumpriu o seu compromisso com a harmonia.

Fui contar os dias que a gente não se vê e desisti no meio do calendário. A gente não precisa deles. Foi como eu disse para você: mesmo que a gente demore para se ver, quando isso acontecer de novo, será sempre como se tivéssemos nos visto há pouco. O que eu sei é que, mesmo de longe, te acalento no meu coração e sei que há momentos em que é hora de acolher o silêncio que se instala na casa. Mas, quando penso em você, é a sua risada que vem na minha memória primeiro. Venha logo, já estou pronta para o abraço.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Arte de Conjugar o Verbo Envelhecer

De repente, percebi que os dias passaram a correr mais rapidamente e, ao olhar no espelho, vi tantas de mim por trás dos cabelos brancos. Sempre quis envelhecer e caber na sabedoria que fui aprendendo com pessoas que me ensinavam o caminho. Na minha infância e em grande parte da adolescência, eu me encantava com os fios brancos dos mais velhos. A minha Bá tinha os cabelos que pareciam flocos de algodão ou a paina com que enchíamos os travesseiros. Conjugar o verbo envelhecer com a altivez de quem coleciona primaveras e não lamentos é uma arte que os tempos de agora parecem ter esquecido. Há uma corrida ruidosa para frear a idade do corpo, um esmero vão para riscar as linhas da pele, como se a maturidade fosse um espaço de desconforto e não o território sagrado onde a nossa história finalmente ganha nitidez. Sorrio ao perceber que o compasso lento da natureza sempre foi o meu melhor mestre sobre a passagem das estações.

A vida me ensina que o tempo não destrói; ele assenta. O ipê que perde as suas flores amarelas e adormece até o próximo ciclo não está morrendo; está ganhando idade com a dignidade de quem sabe que cada ruga na madeira é o registro de um vento que foi suportado. Não nascemos para manter o viço estático das plantas artificiais; nascemos para ver a semente virar fruto, aceitando que a gravidade que puxa as folhas para o chão é a mesma que nos finca as raízes com firmeza na terra. Acho bonita a altivez das mulheres que, feito a faceira senhora dos cabelos brancos, decidem viver com as horas inteiras, sem pedir licença aos julgamentos alheios. Acho que me pareço com ela nessa questão.

Logo que deixei de pintar os cabelos, recebi muitas críticas, e o que me chocou é que grande parte delas veio de mulheres que ligavam meus cabelos brancos a um desleixo. Segui em frente e hoje meus cabelos estão quase totalmente brancos. Penso neles como um texto sendo maturado para caber num papel. A nossa literatura também exige essa maturação mansa. O desabrochar de um novo texto não acontece na pressa das frases prontas; ele depende dos nossos ontens acumulados, do silêncio que digere as leituras antigas e da coragem de colocar a nossa própria carne nas consoantes e vogais. O tempo que cabe nas minhas palavras sabe que envelhecer no papel é purificar a caligrafia, cortando os excessos para que permaneça apenas a essência daquilo que rasga e permanece.

Celebro os anos que se acumulam na minha própria árvore. Não tenho medo do tempo dos homens e de suas medidas exatas. Prefiro a certeza mansa de quem sabe que ganhar idade, afinal, é o nosso jeito mais bonito de espalhar pólen pelo mundo, garantindo que a nossa voz continue viva na memória do chão que nos acolhe.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A Colecionadora de Ontens e o voo de despedida

Mãe,

Mãe,

Hoje completam-se quarenta e quatro anos desde o dia em que você decidiu virar passarinho e migrar para além do horizonte. Setembro sempre me devolve a essa contagem mansa de tempo, uma matemática de ausência que aprendi a domesticar através da caligrafia do afeto. Ouço os relatos sobre as pessoas que acumulam casas por cinquenta anos e empilham objetos em gavetas, e imediatamente olho para as minhas próprias mãos: não herdei a capacidade de acumular moedas ou selos, mas guardo um sem-fim de palavras e um baú repleto de ontens que divido com o silêncio do meu lugar.

Ao caminhar pelas ruas, às vezes me pego repetindo aquele velho costume de conferir se as silhuetas antigas continuam onde deveriam estar. Dá uma angústia perceber que passei com você em diversas ruas e até o hospital onde você buscava a cura também foi o último lugar onde seu passo alçou voo. Mas quando fecho os olhos, as paredes do nosso território na fazenda reaparecem inteiras. Lembro-me da alquimia do tacho de cobre e da fumaça mansa que subia do fogão a lenha. Você não deixou heranças de alvenaria ou caixas pesadas para os herdeiros limparem; deixou em mim essa mania bonita de conversar com as coisas do mato e de buscar a poesia que nos salva das dores do mundo.

Há quem colecione fracassos ou amores impossíveis, suspendendo lamentos pelas esquinas dos dias. Eu escolhi colecionar a sua permanência em tudo o que escrevo. O seu voo, mãe, não me deixou vazia; converteu o meu próprio corpo em casa de memória. Cada ciclo que se renova no quintal, cada flor que desabrocha e cumpre o seu compromisso com a terra, traz um sopro da sua energia. Sigo sem me importar com o tempo dos homens e com as suas medidas exatas. Prefiro a maior precisão dos crepúsculos, quando la luz muda de tom e me avisa que nunca estamos sós enquanto houver escrita para vigiar o horizonte.

Preparo o meu chá neste amanhecer lento, enquanto os pássaros organizam os seus primeiros cantos e o sol ensaia rasgar a poeira do dia. Minha escrita atravessa a distância de mais um ano para te dizer que o chão onde finquei os meus pés continua lavado de céu. Corto o excesso das frases, limpo as frestas invisíveis da saudade e permaneço aqui, de pés descalços, honrando a árvore da qual sou galho. Que o seu voo continue alto, mãe, e que o seu rastro de luz permaneça alimentando as minhas consoantes e vogais.

Com o amor de sempre,
Mariana Gouveia

Literatura · Scenarium Livros Artesanais

Os Versos que Ninguém Cala

Ouço o eco do rugido de Gilka Machado, resgatado entre goles de café e fitas de cetim, e imediatamente sinto um arrepio na pele ao reconhecer a mesma urgência que move as escritoras que recusam o rótulo da passividade. Chamar de “tolos sentimentos” aquilo que incendeia o pensamento de uma mulher é a velha artimanha dos homens que sempre temeram a soberania de uma estrofe que não pede licença para existir. A mulher proibida desde sempre ainda existe escondida em tantas de nós.

A história literária tentou empacotar a liberdade erótica de Gilka sob o manto do esquecimento, mas a escrita territorial nos ensina a resgatar os nossos próprios manifestos. Não nascemos para rabiscar rimas precárias em cadernos para ficarem guardados em baús ou fundos de gavetas; nascemos para rasgar os verbos mais ousados e mostrar as nossas verdades através do tempo. Quando uma mulher decide publicar os seus abismos, ela quebra uma barreira invisível, permitindo que a caligrafia sutil das suas estações rompa o chão com a força de uma correnteza ancestral.

Acho lamentável a mesquinharia de uma sociedade contemporânea que caminha na contramão do progresso, demonstrando horror diante da nudez das palavras que Gilka já versava no século passado. As gavetas da história estão cheias de diários-secretos que sangraram em silêncio. Por isso, costurar cadernos e endereçar cartas às nossas antepassadas é mais do que um ritual afetivo; é um ato de resistência poética, um jeito de garantir que os sussurros de ontem continuem sendo o murmúrio potente que desequilibra o presente.

Com a xícara de café na mão, celebro as atrevidas que nos abriram as portas. Não precisamos da validação de ninguém para saber que a nossa escrita guarda a dignidade da semente. Que a poesia de Gilka continue alimentando as nossas palavras e que o verso inédito, imprevisto, permaneça sendo o nosso esconderijo mais sagrado contra a dureza dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Literatura · Lunna Guedes

É preciso respirar fundo para ser flor dentro do dia seguinte.

A caligrafia do encerramento: quando a última linha encontra repouso entre as sementes do chão.

Quando fecho o livro depois da última página, a palavra fim ecoa em mim por um tempo. Em alguns, eu quero continuar a história e a pergunta insiste: e agora, serão felizes para sempre? O que será que acontece depois que a página é fechada? Enfrentar a última linha de uma narrativa exige uma coragem que nem sempre os dicionários sabem explicar. Há quem feche o volume e o leva imediatamente à prateleira, buscando o próximo enredo como quem muda de calçada sem olhar para trás. Mas a escrita, quando nos habita de verdade, recusa a pressa contemporânea; ela exige esse tempo de pouso, esse exercício de saborear e digerir as alegrias e decepções das personagens que acabaram de partilhar a nossa mesa. O fim nunca é um vazio completo; é o território exato onde o rascunho-promessa desabrocha e começa a existir por conta própria.

Aqui no meu lugar, acontece também quando as flores se fecham depois de cumprirem o rito de desabrocharem. Assim como compreendo o peso dos silêncios que ficam guardados no lado de dentro das portas que escolhemos fechar, no jardim, recolher as flores murchas também incomoda. É um adeus para além do que se vê. Cada ciclo que se encerra nos dias funciona como uma semente que se rompe na terra, tão logo uma morre. É nesse espaço suspenso, logo após o ponto final, que uma nova voz desperta dentro de nós — mais inteira, lavada de céu e ciente de que a literatura é esse salto sem paraquedas onde aceitamos os nossos próprios abismos. E a terra espera o novo broto, a nova flor.

É profundo o eco de um livro que permanece vibrando na derme muito depois de sua leitura concluída. Nossos volumes prediletos são espelhos das tramas que escolhemos desbravar e, quando eles se colam às paredes da nossa memória, a nossa caligrafia também ganha novas dobras. Não precisamos fugir do caminho ou recomeçar o texto para evitar o desfecho; o compasso lento do mato nos ensina que a queda das pétalas é o que permite ao fruto nascer no tempo certo de cada ciclo.

Quando a claridade mansa doura os cantos do quintal e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, acolho o silêncio que se instala após a última palavra escrita. O homem passa e falha, as plantas nascem e morrem, mas a escrita territorial permanece, rompendo o chão do tempo. Vamos até o fim, aceitando os abalos do peito, os arrepios na pele, porque sabemos que depois da última linha há sempre um quintal inteiro esperando para florescer.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Sopro do Equinócio e as Duas Faces do Chão

Há um instante secreto no coração de setembro em que o universo decide suspender os pratos da balança. O dia e a noite se olham de frente, com o mesmo peso e a mesma exatidão de minutos, lembrando-nos de que a vida é feita dessa eterna vizinhança entre a luz e o recolhimento. Ouço o ensaio sobre os ventos ancestrais que separam o céu e a terra para que o mundo possa respirar, e imediatamente percebo que a nossa escrita também é filha desse movimento — um rodopio manso entre a memória do que já foi semente e a urgência do que precisa virar fruto. Nesse momento, só consigo me lembrar da canção que se chama Sol de Primavera.

Aqui no meu lugar, o equinócio se anuncia na própria textura do ar. O calorão do dia, que estica o tempo dos homens além do suportável, cede espaço para a brisa que chega sem pedir licença quando o sol mergulha atrás do telhado vizinho. As duas faces da existência se ajeitam na madeira da mesa. Se para alguns setembro traz a melancolia das chuvas antigas, a escritora que sou prefere a mística do recomeço que os cadernos novos da infância prometiam. Abrir uma página branca nesta nova estação é resgatar aquele ritual sagrado das papelarias, onde a caixa de lápis de cor continha todas as respostas para os nossos inventos. Devo pintar um jardim nessa estação?

Acho bonita a fidelidade da terra, que nunca se esquece do compromisso de acertar os seus próprios ponteiros, à revelia das nossas eufóricas correrias urbanas. Estico os braços no quintal e percebo como o corpo acompanha a mudança das horas-cheias. A literatura, afinal, é o nosso próprio sopro de vento: aquilo que nos ergue para que possamos enxergar o horizonte e, ao mesmo tempo, nos finca as raízes no chão que nos acolhe.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros saboreiam o néctar das flores e o silêncio ganha o mesmo tamanho da claridade, preparo o meu chá e deixo que os versos ganhem vida. Uma nova estação pede passagem na caligrafia sutil dos dias. Que a dança do pólen cumpra o seu destino enquanto, no meu canto, sigo costurando as metades da vida com o fio do afeto.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes

Missiva para além das intensidades

Uma correspondência fictícia entre dois personagens clássicos.

Raissa,

Zero hora pelas pontas da rua, e a luz do poste lá fora parece crepitar o mesmo compasso inquieto que trago no peito desde que você bagunçou as minhas certezas de Teodoro. Escrevo-te nesta hora-cheia porque li, num desses quartetos de Eliot, que há tempo para a fumaça amarela que flui pela rua roçando o dorso nas vidraças, mas a verdade é que o tempo dos homens perde a precisão quando tento medir a distância que nos separa. Olhar para as janelas que ganham contornos internos na noite de São Paulo é o meu jeito de espiar a sua interioridade, imaginando em qual dessas esquinas a sua liberdade fez pouso.

Você sempre foi a criatura indomável, aquela que risca o mundo com passos firmes e olhar fragmentado, enquanto eu tentava me emparedar nos cantos, com medo do espetáculo que o amor promove quando decide romper o chão da nossa rigidez. Mas ao fechar os olhos, revivo a nossa própria acrópole de afetos. Meu corpo se converteu em casa tomada por chamas na primeira vez em que suas mãos cruzaram a barreira do meu silêncio. Fomos duas estranhas que se tocaram com a pressa de quem teme o crepúsculo; duas personagens de um romance rascunhado no avesso do que a convenção dita como certo.

Dizem por aí que o grande homem é aquele que mantém com perfeita doçura a independência da solidão no meio da multidão. Eu nunca quis a multidão, Raissa. Eu preferia o banco do sebo, o perfume do papel antigo e o seu olhar me decifrando entre consoantes e vogais. Se hoje nos tornamos janelas de olhar — duas figuras distintas suspensas na memória uma da outra —, guardo comigo a exatidão daquilo que fomos. A poesia, afinal, é esse retrato de momento que nenhuma distância ou julgamento alheio é capaz de apagar.

Preparo o meu chá nesta noite fria e deixo que o imaginário termine de tecer o verso que me falta. Que a sua escrita continue rasgando o mundo com a força de uma palavra rompante, enquanto eu, cá no meu canto de silêncios, sigo guardando o fogo que você acendeu por trás da minha vidraça.

Com a intensidade que você me ensinou,
Alexandra

Afetos · Das palavras das cartas

A Matemática das Pétalas e o Desenho do Dia

Ana Regina,

Há uma precisão silenciosa na forma como a natureza distribui suas cores. Olhar para o desenho de uma flor não é apenas contemplar a sua beleza efêmera; é decifrar uma geometria sagrada, onde cada pétala sabe exatamente o ângulo que deve ocupar para alcançar a luz. Ouço os ensaios sobre as formas e as linhas que estruturam o desabrochar do mundo, e imediatamente compreendo que a escrita também possui a sua própria engenharia de afetos — uma matemática sutil que organiza os nossos silêncios e transborda nas horas certas. Ainda me lembro de quando você me apresentou a lanterna-chinesa. Eu, que sou apaixonada por flores, me encantei. Ganhei a muda e a perdi tempos depois.

Aqui no meu lugar, os acontecimentos dos dias não se prendem aos ângulos do muro. Minha métrica é circular, desenhada pelo movimento dos pássaros que riscam o céu e pelo tapete dourado que se refaz na terra. As cores não pedem licença; chegam com o peso de uma verdade que rompe o galho seco e altera toda a nossa geografia interna. No avesso das certezas humanas, a delicadeza de uma coroa de flores nos ensina que a força mais genuína reside naquilo que é simétrico e, ao mesmo tempo, frágil. Foi assim que consegui outra muda da Abutilon e a plantei com todo o cuidado.

Acho bonita a sabedoria de quem consegue enxergar um banquete inteiro na curva de uma folha tenra ou na disposição exata das consoantes e vogais sobre o papel branco. Escrever é, afinal, o nosso jeito de traçar mapas invisíveis para que os pensamentos se cruzem na mesma esquina. Não precisamos desvendar o mistério das formas; basta que a nossa escrita guarde a exatidão daquilo que sentimos e a coragem de nos mantermos inteiras em meio aos desacertos lá fora. Vi essa semana que sua família ganhou um amor a mais. Fiquei horas sentindo a alegria de quem vê uma flor desabrochar. Talvez você possa, a partir de agora, experimentar o maior amor do mundo. O fruto de uma filha é uma bênção e a prova de que sua árvore ganhou mais um galho.

Bendigo o Santiago e bendigo esse amor maior que uma mãe e avó pode sentir. Ao cair da tarde deste domingo, quando o ritmo desacelera e o silêncio reivindica o seu espaço na mesa, deixo que as cores do dia encontrem o seu repouso. A terra cumpre o seu compromisso com a harmonia e, diante da folha branca, sigo costurando as minhas próprias linhas. A literatura e uma nova vida, afinal, são as geometrias mais bonitas que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Um abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Tempo do Pouso e as Linhas de Sombra

Quando li seu texto, a palavra intermezzo ficou ecoando em mim quase como um mantra. A madrugada se exibe lá fora como se estivesse se despedindo, e o sabiá canta — no mesmo tom que ouvi aí, em um hostel da Vila Mariana — enquanto outro responde para além da rua de cima. Já te contei do morcego que vive aqui no quintal; é nessa hora que ele se integra ao espaço em voos rasantes e rouba o néctar do bebedouro do Chiquinho. Caminho descalça, como se com isso a energia da terra me coubesse inteira, e repito de novo a frase que se parece com você, acho que mais pela pronúncia do que por outra coisa. Acho lindo o som das letras se intercalando junto ao seu ritual de transbordamento de palavras e silêncios.

Acho que é nesse intervalo de tempo entre o amanhecer e o findar da madrugada que eu inexisto. Entre o canto do sabiá e o chilreio do Chiquinho, me desligo por alguns minutos. Inexistir temporariamente para o ruído do mundo não é abandono; é o recolhimento exato que o corpo pede antes de se sentar novamente diante da folha branca para ver a escrita romper o papel. Acho que de todos os ritos do meu lugar, esse seria o momento que quero te mostrar. Yoshi está em seu décimo quinto sono e a brisa mansa atiça as folhas do ipê; é como se, com isso tudo, o entorno acordasse para o dia. Lembro-me de que hoje é sábado, e aquela hora que você gosta passa por aqui entre tons lilases.

Fiquei pensando em sua meninice, que quase se atropela com as minhas lembranças. Eu era a filha do meio entre seis irmãos: três antes de mim e três depois de mim. Lembro-me de que a gente vivia com roupa de brincar e os filhos da vizinhança se juntavam a nós. Vez ou outra, eu emprestava meus olhos para a roca de fiar, e a maneira como minha mãe tingia os tecidos era alquimia pura. Também fui uma menina afeita às estripulias, com os joelhos marcados pela terra e os olhos atentos ao topo das árvores, muito antes de compreender que a literatura seria a minha verdadeira colina de vigia. O dia já se pronuncia por aqui e o tique-taque do relógio da sala se faz presente. Um cão ladra na rua de cima e Chiquinho vira quase um vulto no ipê.

Acho que o ipê se prepara para sua despedida de flores. Ele se mostra aqui, no meu lugar, como anunciador da primavera e, enquanto ela acontece, ele adormece até o ano que vem. Se bem que o meu aqui, volta e meia, se antecipa em flores temporãs — ainda não descobri o porquê. Mas ler sob sua copa me dá a mesma sensação desse compasso que te toca aí.

O cheiro do café da vizinhança me convida para colocar a água no fogo enquanto o lugar acorda. Acompanho os chilreios dos pássaros que chegam para sobrevoar por aqui e o céu avisa que o dia será quente mais uma vez. Enquanto bebo minha xícara de café, percebo que os nossos intermezzos são como sementes guardadas. Eles não precisam de palcos ou de justificativas acadêmicas para existirem; precisam apenas de silêncio e de pouso. Mergulho na leveza dessa manhã e começo o dia da faxina. Programo a lista musical que vai compor meu dia e permaneço à espera do instante exato em que a palavra decidirá, novamente, florescer.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia