Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Anéis de Saturno e armaduras escuras

Desde menina eu ouço a Rita. Com suas músicas, ela fez a trilha sonora de tantos momentos importantes que vivi. Através de um velho Motor Rádio, entre o meio-dia e as dezesseis horas, eu acompanhava a programação da Rádio Globo lá pelo final dos anos setenta; ouvia-a fora da zona da música sertaneja de raiz que toda a minha família gostava.

Rita me colocava em um lugar de mundo fora daquela pequena fazenda. O rock vibrava no rádio — prêmio por eu ter sido boa o suficiente nas notas da escola. Eu era a diferente no meio de minhas irmãs: a que se rebelava, a que não aceitava as imposições de uma família conservadora. Cortava os cabelos curtíssimos e grande parte dos meus irmãos me comparava a um menino. Vestia macacão, andava pelo mato e, segundo toda gente, parecia com a Elis Regina — outra diva.

Mais tarde, já na maioridade, pude pintar o cabelo de vermelho, o que durante muito tempo foi minha marca registrada. Na chegada à cidade grande, já trabalhando em uma emissora de rádio, pude explorar na discoteca física da empresa todas as canções dela, já que o rádio antigo só me permitia sintonizar algumas.

Passei a amar ainda mais a artista. Suas letras questionadoras e seu jeito camaleônico me fascinavam. Eu também não fui amiga íntima dela, mas me permiti alguns diálogos desaforados em pensamento, ou me emocionei com as entrevistas que via na TV. Com certeza, ela roubaria os anéis de Saturno e faria uma tremenda bagunça onde quer que estivesse. Seria sempre ela: a Rita.

As canções dela ainda fazem parte de minha trilha sonora por aqui e, quando o meu pensamento combina com o seu, só consigo pensar nesta música aqui.

Junho chegou ao fim… amanhã inicia-se um novo ciclo. Grazie por essa caminhada deliciosa nos dias de junho. Amo tu imenso!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

O sol ergue-se contra mim.

Bambina mia,

Desde pequena sou eu quem arrumo as camas. Imagine uma manhã em alvoroço no meio de seis irmãos. As tarefas eram divididas entre nós: enquanto sobrava para mim esticar os lençóis e colocar por cima deles as colchas de retalhos, para as minhas irmãs restavam os outros afazeres.

Sempre fui mui organizada. Logo ao me levantar, ajeito os lençóis e a colcha que vem por cima, e aqui também tenho a mesma alegria sua. O Yoshi se enfia embaixo do tecido e fica à espera do carinho. Quando eu tinha a Lolla, era igual, até o dia em que ela não conseguiu mais subir na cama.

De uns tempos para cá, o Yoshi se assusta ao ouvir o mover do móvel para o encaixe da colcha e corre para a porta da cozinha. Assim que a coloco no lugar e digo: “pronto!”, ele vem numa alegria que preenche o quarto com seu pulo na cama. Ali, ele fica à espreita de onde estou nos afazeres da casa, até perceber que terminei tudo e vou para a varanda. Aí, é o quintal que ganha seus pulos e farejar.

E C. tinha razão. Arrumar a cama é nos encaixar dentro do dia, caber nas horas e nos carinhos de nossos cães.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Até que cada última estrela da galáxia morra.

Leonor,

Eu não cumpri a promessa de não te escrever mais. Eu estava limpando o jardim, tirando as ervas daninhas, e o vento fez o pé de menta espalhar seu aroma no quintal. Foi quando me lembrei de você – de novo – e quis te escrever. Até fiz um chá. Com ritual e tudo. Lembrei-me de que plantei esse pé de menta enquanto você fotografava meu riso despetalando a flor.

Mas eu deixei a carta em suspenso. Depois, li, reli e reli de novo. Quando percebi, o dia já tinha ido embora. A lua em seu estado suspenso já era vírgula no céu e Vênus – quase um piercing, de tão perto – no negrume da noite.

Foi aí que pensei, Leonor: vou te escrever aos domingos. Ou em dias de chuva – aqui, em alguns meses, não chove muito mesmo – ou até que cada última estrela da galáxia morra.

Isso pode durar séculos, Leonor.

Esses mesmos séculos que a gente já viveu antes, quando as estrelas ainda nem tinham nascido. Porque eu já te amava de muito antes. De todos os tempos, e acho que vou te amar sempre… Até o fim dos séculos e séculos, amém.

Por isso, eu vou continuar com as cartas, Leonor, mesmo que você não as leia. De alguma forma, o universo te contará.

Porque eu quero falar com você, ainda que esse seu silêncio nunca ultrapasse a barreira do som. Mesmo que você nunca leia nenhuma das cartas: as que enviei, as que embolei, as que nunca escrevi. Transformei-as em notas mentais, Leonor, junto com as que ainda vou escrever.

Falar com você é esse monólogo de saudades. Um roteiro às avessas, no qual me lembro da chuva em que você dançou. Da escada onde caí, das madrugadas contando as estrelas no telhado. Do cheiro de café sendo coado. Das mãos estendidas sobre a mesa da cozinha enquanto preparo o café da manhã.

Não é uma disputa de amor mais bonito, mas nenhuma pessoa – mesmo tendo formação profissional em psicologia ou sei lá o que – pode dizer que meu amor é mais feio que o seu. Isso eu vou deixar escrito em cartas, Leonor, para que fique registrado para todo o sempre.

Mariana Gouveia

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Em busca da manhã que se foi embora.

A manhã se foi faz tempo e, agora, uma tarde barulhenta acontece aqui fora. Trago comigo seu livro Vermelho por Dentro. Senti vontade de folhear e revisitar essa trama mais uma vez; quase a sei de cor, de tanto que a li.

Coloquei a canção para tocar e vivenciar esse momento é como ser levada pelas mãos para dentro das páginas e da cor. É como se Paris estivesse bem ali na esquina. Vou seguindo as personagens com a deliciosa sensação de um voyeur.

Gosto muito da trajetória de Eva e Deborah. Admiro a intensidade de Deborah, mas confesso que sou apaixonada por Anne. Talvez a paixão compartilhada pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida pelo enredo, com o frescor de quem lê tudo pela primeira vez.

[…]

Ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem,
sussurra em seu ouvido:
— Passa o resto da sua vida comigo?
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

[…]

Depois disso, não é a manhã que eu busco, mas sim a permanência dessa sensação de déjà vu.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Um bando de demônios maliciosos.

Não assisti a esse filme, mas meu coração se enterneceu quando você citou o cãozinho. Lembrei-me de tantas histórias onde um animal salva a vida de alguém. Também sei de casos em que as pessoas adotam animais e os abandonam logo depois, seja porque dão problemas ou por qualquer outro motivo.

Lembrei-me do homem da reciclagem que passava na minha rua catando garrafas PET e latinhas de cerveja. Logo que mudei-me para este bairro, eu o conheci; todos diziam que ele era ranzinza e mal-humorado. Meus cachorros sempre anunciavam quando ouviam o chiado das rodas da carroça que ele empurrava. Nosso primeiro encontro não foi bom. Ele não respondeu ao meu boa-noite e saiu resmungando alguma coisa que não entendi.

Dias depois, vi-o novamente e ofereci algumas latas que eu guardava para reciclagem. Ele esperou que eu as pegasse, fez um muxoxo e seguiu rua afora. Mas, um dia, ele apareceu na minha porta com um pequeno cão enrolado em uma coberta maltrapilha e pediu socorro. Ficou sabendo que eu apoiava um projeto de animais abandonados. O cão havia sido atropelado e ninguém ajudava. Alguém falou de mim e ele veio buscar auxílio. Acionei a equipe das meninas e o cão foi internado. Durante alguns dias ele aparecia para saber do animal, que se recuperava e ficou bom em pouco tempo.

Informei-o de que o cão precisava ser adotado e ele disse que o queria. Fizemos todos os procedimentos e o cãozinho ganhou um lar. Acompanhei de perto o crescimento do Pirata — nome dado pelo seu dono — e era lindo ver a transformação daquele homem rude em um senhor risonho, que agora passava pelas ruas cantando. O amor pelo animal mudou a maneira de ele enxergar o mundo. O cão tornou-se seu fiel companheiro e o seguia em suas rondas pelas ruas do bairro, em busca de materiais recicláveis.

Nos falamos esses dias sobre sua mudança e ele apenas riu. Tirou o chapéu e curvou-se, seguindo seu rumo com seu cão por vezes na sua frente, por vezes, atrás… e ele entoando sua costumeira cantoria rua afora. De certa forma, o mundo dele se tornou o melhor possível diante do animal que ele salvara, fazendo-me sempre perguntar quem salvou quem.

Mariana Gouveia

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Meu pensamento, ao acaso, vagando.

Minha mãe dizia que há algumas pessoas destinadas a nós. E que o universo sabe-as bem. Então, ele embaralha suas cartas, move as pedras e daí cruza as esquinas e faz com que as histórias se misturem. Dizem até que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentos mil... Conhecer alguém é uma em dois  milhões. Ficar próximo dessa pessoa, uma em vinte milhões… Chamá-la de amiga, uma em duzentos milhões

Chamá-la de sua, uma em dois bilhões e por último, encontrar sua alma gêmea é uma em seis bilhões…Nós duas quebramos algumas das probabilidades. Quebramos algumas barreiras e interligamos nossos quintais e lugares. A simbiose de uma ouvir uma música e a outra ouvir a mesma canção em outro ponto do mapa chama-se de sincronia.

Quando eu te encontrei através de uma missiva, vários fatos nos uniram e quando nos unimos num abraço os corpos souberam a magia de ter uma pessoa favorita sua num universo pleno de pessoas aleatórias. Rimos por bobagens e de coisas sérias, choramos em vídeos bobos e memórias trocadas, ficamos embriagadas pelo simples fato de um vagalume bater as asas aqui e muitas vezes, sem nem nos falarmos sabemos uma da outra. O silêncio muitas vezes, fala por nós. E nossos pássaros voam em desvios nos nossos quintais.

Eu a chamo de bambina mia, porque assim você o é. Você me chama de caríssima e isso soa tão caro em mim. É a minha lua em todas as fases e meu cuore batendo em outro corpo de uma maneira que só ternura e afeto podem descrever. E junto com as sementes e os pássaros do meu lugar. Você é meu passarim que vive na palma do meu coração.

Mariana Gouveia

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A beleza do corpo é um dom sublime.

Ph: Tumblr

Em alguns momentos,
quando o corpo tem planos,
a mente desenha os instantes automaticamente.
A pele apenas obedece aos instintos.
O detalhe é tão somente o desejo.
As linhas do corpo, traçadas na leveza das mãos,
quase como quem pede o toque.
Suspira.
Sussurra.

O eco da brisa lá fora
faz o silêncio se expandir em farfalhar de mãos e gestos.
O sabor que sacia o querer.
O corpo nu, a carícia,
e a pele que se mistura às delicadezas do sentir.
É como invadir lugares secretos,
nunca antes explorados.
A rota feita nas memórias dos dedos,
onde o prazer arde e suaviza os anseios.

As mãos sendo as guias
entre o cheiro e o tato.
Os olhos buscando lembranças das cerejeiras
que um dia banharam seu corpo de flor,
fazendo dele um itinerário de jardim.
A beleza das coisas,
os pormenores no gesto,
e a vontade se faz.

Os desejos nas pontas dos dedos
evocando o gesto puro do prazer…

Mariana Gouveia

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Dissolve a inquietação no azul.

Fiquei pensando no título que você me enviou e percebi que de azul mesmo por aqui, hoje, só teve mesmo o azul do vaso de hortênsias. Lembrei-me de você e da carta que escrevi para Baudelaire – desafio feito por você.

Foi em um abril qualquer no qual falei sobre como o poeta foi proibido para mim por algum tempo pela minha mãe que sempre o ligava ao mal.

O que passou depois que expliquei a tal “maldade” que ela recusava a saber-falar-pensar como se isso fosse trespassável pelas agruras que nos atingiam. Ela entendeu que nada do que falávamos tinha o poder de agir sobre nossas vidas, a menos que a gente deixasse, e pude então ler o poeta sem culpa.

Pensar que ele levou 27 anos para finalizar sua obra mais conhecida e respondendo sua pergunta: acho que não. Acho que os autores atuais são do tempo da urgência, do agora, dos likes, dos acessos. Achei incrível a disciplina dele em esperar esse tempo todo para ver o livro pronto. Na carta, eu o convidava para um café e contei a ele sobre amores, partidas e saudades. Talvez, hoje, eu mudaria a temática das linhas.

Aqui chove mansamente, o frio aumenta à medida que a noite avança. Confesso que já penso em cobertor e aconchego, mas antes, vou ali fazer uma sopa de carne com batatas. Aceita?

Mariana Gouveia

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Sou eu — esta mulher que anda comigo

Bambina mia,

o dia de hoje antecede o dia frio que se aproxima. Aqui, já não predomina o céu azul e as nuvens de chuva – disse a moça do tempo – cobrem o céu todo. Já é possível sentir o vento mais frio do que o normal. É o inverno vindo contar suas histórias e me fazer reclusa mais uma vez. O alerta se repete há dias a mesma frase: alerta de frio intenso. Abaixamento de temperatura… só isso já me assusta. Sou da cidade do sol, você sabe.

O outono me enganou lá em fevereiro… o meu quintal tem inventado estações sobre outras. O ipê desfolhou-se inteirinho em fevereiro e o cheiro das folhas secas pela manhã me carrega para dentro de sua estação favorita. Culpada! E onde foram parar os dias de outono mesmo? Se perderam no calendário da folhinha da cozinha.

Não te falei que as estações se fazem aqui? As flores da lanterna chinesa se abriram e vários botões estão a nascer. A flor é ensolarada. Me encanta a maneira que as cores se misturam e se oferecem em luzes aos olhos de quem passa por aqui. E a palavra flor nos embala sempre nas manhãs, bambina.

Mas agora chove… uma chuva sem muito alarde, apenas acompanhada de um vento frio, assim como a moça do tempo falou. Uma ternura imensa me abraça enquanto leio sua missiva. Há dias em que o clima lá fora nos obriga a abrir os baús de dentro. É onde um respiro de afeto para aquecer os dias pulsa no cuore… Ontem mesmo me dediquei um tempo ao baú, onde guardo os envelopes coloridos e me perdi nas datas e estações que atravessamos. Pelo calendário dos homens, como você costuma falar, já são tantos anos. Pelo nosso calendário, a poesia se desmancha em dias, risos, afetos, meu passado e seu futuro e não ouso ultrapassar isso.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Desenha o cotidiano como quem cria rotas.

Era um domingo inteiro e dia nenhum onde vasculhou a palavra saudade.
A solidão é um luxo para quem tem companhia. Guarda as linhas, a tesoura e agulhas. A estrela desafiou o tempo e hoje, a saudade criou asas. Ganha alento no vento da tarde e a liberdade tem olhos que espiam. Para onde eu for aqui dentro, tudo é traço. Resquícios de que quem saiu aos seus não degenera.
As rosas não moram no jardim do lado e o sopro é a voz que a solidão trouxe aqui.

Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.