Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao Futuro

Ph: Pinterest

Querido Futuro,

Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram.
Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.

Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.

E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.

A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.

Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.

Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!

Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!

Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.

Até lá!
Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Feliz Ano Velho
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para falar de saudades

Eudes,

vim te trazer flores e falar de saudades. Antes mesmo de levantar refiz os rituais que eu fazia nesse dia, antes de ir ao seu encontro. Ouvi mis uma vez Kiss The Rain e outras canções que você gostava.

Na minha imaginação, eu fui até seu encontro e te falei da saudade que você deixou aqui. Já conversei com você infinitas vezes durante o dia e resolvi te escrever mais uma vez como nos outros anos no seu aniversário.

No fim da tarde choveu lá pelos lados de onde você morava. Lembrei-me das chuvas que tomamos juntas e do quanto rimos com as tintas do cabelo escorrendo. Já te contei que nunca mais consegui atravessar a ponte? Sempre invento uma desculpa quando por algum motivo me chamam para ir até sua cidade.

Sei que um dia isso irá acontecer, mas por enquanto, dentro desses três anos de sua partida, acredito ainda na leveza de nossa amizade e do nosso carinho. O amor ultrapassa esses limites que nós humanos traçamos e ainda reverbera sua voz aqui: o amor é essa forma de você vir me ver todos os sábados – você dizia… para mim, era apenas as delícias dos momentos que vivemos juntas.

Não sei se aí onde está se comemora aniversários, mas para mim, esse será sempre seu dia e como você sempre me cobrava o presente, te trago a flor do nira que desabrochou aqui e perfuma meu quintal.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Scenarium Livros Artesanais

O tempo de ser das coisas.

Acontecia o dia na hora das coisas e havia o tempo de o jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã atmosfera de espera, enquanto do céu chovia uma garoa fina. O vento derrubava as folhas secas a pedido da estação. A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.

da geografia das coisas
Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Marta Bevacqua

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É só chamar (11)99241-5985

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

das cartas que não enviei

Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.

Mariana Gouveia

das coisas breves

é inequívoca a data da saudade

Busquei o roteiro nas pequenas coisas e quando percebi o caminho já estava traçado. De um lado, para além dos muros os cães ladram.
Por outro, para além da paredes sem reboco a vida espreita na fragilidade do dia.
Soube histórias que ninguém me contou. Apenas ouvi, quase invasiva a fala de quem chora de saudade.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Migratória

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor. Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar. Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão. A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave. Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar. Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e dos búzios que leem minha sorte aqui… isso me leva para junto dela. Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui. A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram. Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

De volta ao aconchego

Costurava a certeza das coisas dentro da memória. O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância. Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos. O cão a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal. O riso manso a festejar estripulias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Hoje

[Os gritos vem de janelas fechadas]
Há alguns pássaros que não voam…
um, se isola na diferença da cor. Então, o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança – fala da história da menina muda que nunca canta mas que tem a música nos olhos.
Por enquanto, para mim ela é só silêncio.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É preciso esperar a próxima lua

Seu nome derrete em minha boca
e o pássaro chega arrastando a tarde.
A vida, é lá fora – alguém dizia – a vida é.
Rasguei todas as lembranças de outrora. Pintei o muro da cor azul.
Havia tanto céu no seu mar que quase naveguei.
A esperança mora em dias vazios e longos.
A asa atravessa o vento e a mesa das rotinas trazem o horóscopo de ontem.
É preciso esperar a próxima lua.
É justamente nessa fase lunar que as marés favorecem o amor.
Tivesse eu asas, hoje, voaria.

Mariana Gouveia 

Alice - Uma Voz nas Pedras · Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Viagem literária

Para Mariana
Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você…
Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha.

Lunna

Bambina mia,

Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.

Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.

Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.

Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.

Para mim, o presente é para sempre

Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.

entre aspas


E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.

fecha aspas

E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.

Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.

Grazie Mille!
Amo tu, tu, tu imenso.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes –Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana