das coisas breves

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.
– passiflora – eu falei
e detalhei as cores na leveza do dia.

Não enxergo o movimento das cores…
– ela disse –
Enxerga com a alma as tonalidades da paixão de viver.

Eu peguei as mãos dela e desenhei estrelas.
Guiei-a nas linhas finas lilases, que como tentáculos, saem em círculos em volta da flor e a brancura esconde o perfume que suavemente exala.
Eu, dou riso aqui, pela simplicidade dela entender a paleta que desenho.
Ela, ri lá… por captar a essência que a paixão causa na alma

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas · infinitamente

Dos dias breves

Eudes,

A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje?
Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem.
Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas.
Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.

Te amo muito, até além.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

dos rituais da lua

Olhava com adoração o céu. Vênus namorava a Lua indo lentamente a Oeste. Respirava dentro dos desejos todos. Declamou mil poemas de amor. Era o astral interferindo no crepúsculo. Descalça, pisou a grama, a terra. Rodopiou dizendo as palavras de fé. Sabia que a magia ia acontecer ao toque. Lembrou-se de cada ensinamento. Aprendeu a conhecer o destino olhando as mãos. Enquanto o muro permitiu ficou ali, apenas repetindo o mantra do agradecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.
Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.
Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…
Apenas ela sabia que era para se manter viva.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A primeira vez em que o amarelo gerou a noite

O amarelo desbota na tarde quente. A árvore antecipa seu dourado antes do tempo. Cabia dimensões de estrelas na palma da mão. Ela quer falar sobre asas. Repete perguntas do ano passado. Distrai-se olhando pela janela. Eu falo do tempo lá fora.

Reconto as mesmas historias e ela acha graça – não se lembra do que contei – da borboleta e das rotas delas no meu quintal. O crepúsculo é logo ali e me perco no silêncio…

Aprendi a desenhar as fugas e respiro diante da tarde que se vai.
O relógio antecipa a partida e o vento carrega o amarelo para a noite.

Quem sabe, eu volte amanhã.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Alguém aí tem café?

Acordei com o cheiro de pão invadindo tudo. Não havia fome de outro dia. Nem padaria aberta vendendo sonhos. A manhã anunciava decisões vendidas em caixa.

Mando entregar em qualquer canto do universo. Frete grátis.

E cheiro a invadir as manhãs e o cão da vizinha a latir. Sono perdido onde não se teve. Sem a opção do pão comi poesias do paraíso. Desceu matando fome de dor. Era quase um grito. Duas colherezinhas de mel para a garganta que ecoa seu nome sem parar. É outra vez, dia na imensidão do nada. Água fervendo. Esqueci a receita da moça de azul para o chá. Alguém aí tem café?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Momento Polaroid

Bambina mia,

Já é dezembro e tirando a gente nem se tocou… e enquanto eu buscava pormenores no meu quintal alguns instantes se transformavam em eternidade, como se fosse a fotografia antiga, sacudida entre sopros. Devo confessar que eu poderia escrever-descrever tantos momentos que foram captados no piscar do olho. Lembra-se quando eu te disse: Chiquinho abre as asas bem na minha frente? Pois bem, eu consegui registrar. Foi instantâneo e não houve chance para segunda foto.

O sanhaço – pássaro que temos um quê de história – vive roubando água adocicada de Chiquinho e em nossas conversas entre o sanhaço daí e o sanhaço daqui mostrou curiosidade como se pudesse ver o que você descrevia e ele ouvia no viva-voz. Parecia que a vida inteira passou naquele instante e em um suspiro meu ele olhou e voou.

Alguns momentos desse ano, bambina, sumiram da memória. Acho que os que deviam mesmo ser esquecidos. Outros, se transformaram em lembranças guardadas, como se estivessem em uma caixa de fotografias. As imagens, contando história. O papagaio de peito amarelo se coçando no meu varal de roupas é um desses que fica. Quase um poema, na doce ternura em que se apresenta.

Sabe, bambina, a geografia do meu quintal se desenha em mapas feitos de asas… seja de borboletas, libélulas, joaninhas e pássaros. De vez em quando ou quase sempre, falamos de pássaros e suas nuances e acho que hoje, vou conseguir emoldurar em instantes nossas conversas: os cambacicas brigam no bebedouro e o instante se mostra aos meus olhos e agora aos seus.

Quase nos vejo frente a frente enquanto te explico o nome do pássaro que se choca no espelho da porta e espera no varal que eu saia da varanda para tentar de novo. – É suiriri – repito o nome para entre risos entender que você não entende dos nomes de aves, só das maritacas que em alguns dias invadem sua árvore de estimação e do sanhaço azul que fez o ninho em seu vaso de orquídea..

Bambina mia, sabe que para cada mês desse semestre que se encerra, uma asa se interpôs em nossa conversa e são esses instantes de ternura que a emoção nos liga nos instantâneos que uma descreve para outra. Chiquinho faz fita com a flor do pé e assim, o meu quintal nunca se faz solitário, porque mesmo sem nunca ter pisado por aqui sua presença está sempre marcante nesses instantes mágicos.

Grazie Mille!
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi e Silvana

Corredores, Codinome Locura

Dos dias de chuva

A fuga das dores reflete no equilíbrio das palavras. Alguém diz sobre a sorte de um amor tranquilo e a canção decifra a solidão que invade o dia.

Que era assim que tinha sonhado e que passaria a vida inteira a ser ponte para asa e pouso. Havia quem dizia que era doido – o homem – e que o sonho era tão maluco quanto ele… Eu, apenas imaginava que não importava o que falassem dele… que dentro dos olhos dele o céu criava jeito de espaço e morada para pássaros sem árvores. E que das mãos dele, já com instinto de cansaço ainda continuavam espalhando sementes em dias de chuvas. Em cada dia ele repetia a história… Cada dia com uma ave diferente, cada dia com uma árvore nova e seu quintal se juntava ao meu e em oração pelas aves sem árvores ele criava dentro de sua história motivo para viver. 

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas

Então, é dezembro

a eternidade pode durar um ano
ou um instante

Mestre,

Hoje, caminhando rumo ao trabalho senti o cheiro de dezembro. Era como se as mangas maduras do quintal do vizinho quisessem me chamar. Senti o cheiro das damas da noites plantadas para além dos muros… Depois, ouvi canto dos pássaros – ou foi antes? – na escada que alcança as nuvens do céu o camabacica se fazer de dono do bebedouro do Chiquinho. Ali, Espreita atento, antes do voo.

Dezembro chegou antes que a gente percebesse. Antes que as músicas de Natal tocassem nas propagandas que ainda falam de Black Friday… antes que as bolinhas coloridas ficassem penduradas nas janelas, num pisca-pisca fusco. Então, é dezembro nessa estação improvisada de calor intenso.

Choveu – na tarde que se insinuou para os que reclamavam do calor absurdo dos últimos dias. Antes disso tudo, um sábio se foi. Não sei como se denomina o pai do mestre. Só sei que senti das tantas vezes que podia ter aprendido mais e só o vi para além da grade de ferro, com olho de gigante e alma de criança. O jeito inquieto de sabedoria interna… um dia, ele me convidou para entrar… eu recusei, na pressa do dia a dia. Hoje, daria tudo para voltar àquele dia. O convite para o café ficou para uma dimensão desconhecida.

Teria pego em suas mãos e apreciado seu sorriso e sorvido as histórias que ele trazia no olhar. Mas era um mês desses que nem lembro qual e hoje, fiquei pensando no olho no relógio, as horas marcando limites entre abraços e a digital no relógio do ponto.

Hoje, um sábio se foi… E quando esses sábios se vão ficam rastros, seguidores ou cópia exclusiva de quem vai seguir a rotina. De quem conhece as histórias e faz parte delas. O olho miúdo no quadrante do céu. A irmã de abraço que mais acolhe do que é acolhida. O afago da sua alma gêmea que é mais cuidadora do que é cuidada. Eu agradeço a sorte de fazer parte disso. Mesmo distante.

Hoje, mestre, eu sou apenas sopro em seu ouvido para que os ventos das serras nobrenses ecoem para você o som do agradecimento do tanto de aprendizado que você viveu através do seu sábio. E eu aprendo com você. Dia a dia.

Estou com vocês.
abraço meu,
Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

30 – meu kairós em transcendência vida e morte…

Luci,

hoje, nas primeiras horas do amanhecer, depois de raios e trovões ecoar no céu, uma lua quase – ou ainda – cheia se apresentou em sua rota quase clandestina perante aos passantes apressados em sua rotina. Acho que só eu vi. Cheguei até a murmurar: Yeppuda! – que é bonita em coreano – língua que estou aprendendo – e todos olharam para onde meu dedo apontava. Mas, logo se voltaram para o celular na mão.

Sabe, Luci, acho que estava ainda encantada com o nascimento da borboleta da couve que nasceu no meu quintal, que fui quase saltitando para o trabalho como se fosse criança e vendo nascimento em todas as coisas. Quase vi ela saindo do casulo lembrei-me da frase que encerra esse novembro sobre kairós e sua transcendência. Pensei na vida e morte das coisas e no momento certo para o qual a frase me leva.

Qual seria o momento certo para você diante da vida? Pensei em Tetê e Celestine e pensei nas asas da borboleta que ainda sangrava. Depois, Luci, pensei no nascimento das estrelas e das protoestrelas que nasceram e alguém fotografou.

Uma anciã da aldeia me disse hoje que a beleza da vida está em morrer e fiquei pensando nas vidas recentes que vi aqui, entre as vidas de gente, de bichos e de estrelas… afinal, de contas, o tempo é esse nascer constante entre vida e morte.

beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega