Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Em tudo… a cor e a vontade de ver além das distâncias…

Quando li seu texto as cenas de sua cozinha movimentaram minha mente e mais uma vez misturei minha história na sua. Minha bá deixava o caldeirão preto na trempe do fogão de lenha e ia pescar, catar ervas, colher folhas e frutos. Minha mãe ia para a horta buscar os legumes, temperos e na despensa pegava alguns dos defumados que ela mesma fazia, enquanto as panelas iam aquecendo. Já meu pai ia para além da porteira e voltava com os tubérculos… batatas, mandiocas, abóboras e cinco espigas de milho. Enquanto isso, alguém fazia o queijo ou o doce. Os tachos de cobre ferviam no fogão do barracão e nós lavávamos o que ia ficando sujo. Ouvia-se os risos das mulheres por causa da piada de algum engraçadinho e os aromas antecipavam os sabores.

Eu estive algumas vezes na sua cozinha e pude caminhar em sua rotina dos preparos e da leveza que isso acontecia na casa. Era o desenho, dentro de cômodos pequenos de uma dimensão do que se viveu. Aconteci com você na sua feira e pude comparar as escolhas de ingredientes… claro que é diferente das colheitas de minha mãe, mas é um esbarra de esquinas onde em tempos diferentes se escolhe algo com amor. Mas, também, seu texto me levou para a herança de quem ficaria com esses rituais, como se cada família vivesse esse tempo, esse rito.

Eu escolhi ser mãe e fui… de três. Mas, somente um sobreviveu e confesso que não terá essa herança de temperos, comidas feitas porque ele resolveu voar pelo mundo logo que cresceu e com exceção da farofa de cenoura feita por mim e do “arroz sujo” feito pelo pai a sua história com alimentação foi nesses voos feitos mundo afora. Aprendeu a comer coisas que nem imaginaria se estivesse aqui e a criar pratos que, seríamos nós que teríamos essa herança dele.

Mas você já deixou rastro aqui, mesmo sem ter conhecido de perto o moço fantasma daqui ele busca algo que te lembra sempre por sua nacionalidade. Seja na almôndega feita do modo dele, do hino do tuo país que toca em alguma cerimônia oficial, do voo do tucano – que você ia gostar – da faixa com um poema que alguém pregou na rua de cima em dedicação ao amor… A sua presença aqui cabe nos risos que trocamos, na gargalhada que ele ouve quando falamos por mensagens e até nos trovões que lembra você… Então, bambina, independentemente de onde seja ou que venha a semente que você plantou em mim gerou frutos para além de minha ternura e afetos. Por pura e simplesmente escolha de gostar de você.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Cresci, elegi palavras – qualifiquei afetos.

Gosto quando nossas palavras se esbarram umas nas outras e decifram códigos entre os afetos de nossos quintais. Saio mais cedo para o passeio com o cão, antes do seu acordar. Depois, as palavras nos alcançam em diálogos aleatórios, juntamente com os castanhos das folhas que encontramos em nossas andanças.

É engraçado a minha palavra casar com a sua no pássaro que mia, no gato andarilho da rua que vem pedir comida ao meio dia e de como suas suculentas adoram a água ignorando todos os contrários. Da gata daí que rouba instantes no escadote que tuo menino fez… é esse instante que me calo e quando eu coloco as palavras cantadas para se fazerem vozes na canção que você escolheu. Seria isso um desvio para atravessar canções?

Quando a farfalla se metamorfoseia aí, a borboleta daqui alaranja para enumerar travessias nesses dias de junho. E quando o céu se fez voz em um trovão, mesmo tendo saltado os dias de maio, a tempestade também coube nas palavras dos deuses da natureza. Foi bem ali, no quadrante do meu lugar que gritei seu nome e gravei o instante enquanto você espiava o manacá com suas nuances de cores.

Alguém já te disse que as palavras atravessam espaços e ganham contornos de poesia? Do passeio com o cão ao som da tábua nos cortes de legumes. Da canção no repeat ao comentários bobos dos memes… a palavra nos atinge assim como as sementes que plantamos. Do espanto da germinação ao fato de uma planta que não resistiu. Assim somos esse linguajar em diferentes idiomas, mas que se entendem dentro do mesmo afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Distantes os hemisférios e as relíquias da memória.

Quando você fala sobre um dia frio, lembro-me da música do Djavan que seria um bom lugar para ler um livro em um dia frio – não necessariamente nessa ordem, claro! – e o pensamento lá em você depois da receita do caldo que você falou.

Fiquei a imaginar quais seriam as minhas comidas de frio, o que é raro morando em Cuiabá – se bem que já está quase se tornando comum os 16º que acontece agora, com uma garoa insistente – eu sempre penso em sopa, que talvez, seja diferente da sua. A minha sopa é a moda goiana… frango ou carne, depende do que se tem no dia, batata, cenoura, pimentão, berinjela, – eu nunca mais consegui perceber o sabor de berinjela da sopa que a minha mãe fazia – cebola, alho, e as especiarias como pimenta do reino, orégano, cominho – que eu não abro mão – e o macarrão tubinho.

Algumas vezes, ela fazia com espaguete, porque era o que tinha. Colocava-se para ferver e aos poucos o sabor ganhava a casa inteira… o cheiro da cebola, dos legumes e a gente ao redor da mesa aguardando o prato fundo cheio daquela iguaria. Eu tinha 12 anos quando comi pela última vez a sopa da minha mãe e depois, eu mesmo tive que fazer para os irmãos. Nos anos seguintes a doença da minha mãe não permitiu que ela ficasse com a gente por muito tempo e aquela sopa cheio de sabores e intensidade que unia nossa família aos poucos foi diminuindo na panela. era um ou dois dos irmãos nos dias frios e os outros ganharam o mundo e as irmãs mais velhas foram cuidar da sopa da própria família.

Aqui em casa sou só eu e meu marido, mas mesmo assim com todos os ingredientes eu não consigo resgatar aquele sabor do qual sinto tanta falta, assim como do paletó de flanela, porque acho que falta o principal: a atenção da minha mãe ao redor do fogão nos contando sobre a vida. Quanto à sua pergunta, confesso que não sei a resposta. O que sei é que temos de viver os dias como se fosse o último, porque não sabemos de como será o amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Não há silêncio bastante para o meu silêncio

Cresci no meio de seis irmãos e eles já faziam barulho o suficiente para dez irmãos e então, eu ficava apenas no murmúrio de alguma palavra ou outra, quando perguntada. Para minha mãe e a maioria das pessoas eu era apenas a menina tímida, o que mudava quando eu pegava uma escova e com seu cabo imitava um microfone e um programa de rádio.

Debaixo do pé de sete copas eu criava minha emissora, minha programação musical e até as mensagens dos ouvintes, que em muitos casos, usava de cobaias meus irmãos mais novos. Muitas vezes, a programação mudava e eu falava sobre futebol e minha paixão pelo Fluminense ou pela poesia. Tirando isso, meu silêncio nem era observado pelos demais. Só pela árvore que se emoldurava na neblina das manhãs de junho.

Em dias de visitas, meu pai me colocava para ler o que eu escrevia. Fosse para um tio ou vizinho. Alguém de fora que viesse comprar o milho, as hortaliças e o leite. O carteiro já conhecia meus poemas e as cartas e sempre batia palmas depois da leitura e os tios, na minha opinião achava tudo aquilo enfadonho, mas davam os parabéns me chamando de artista.

Eu gostava dos sons do campo, da colina que abrigava uns pássaros minúsculos que trinavam sem parar, para desespero do Manuel, meu irmão mais velho, que reclamava de tudo, inclusive do silêncio quando eu me aquietava. Às vezes, eu conversava sozinha e ele ficava com um olho quase fechando e me olhando com uma irritação aparente de quem estava ali obrigado pelo meu pai ou minha mãe, me protegendo da minha própria traquinagem. O capim no canto da boca… e algumas perguntas de vez em quando, sobre a natureza, sobre folhas, sobre um outro autor do último livro lido. Manoel era meu guardião e aonde quer que eu fosse, ele seguia atrás, em passos lentos, como se eu pudesse fugir a qualquer momento.

Na mesa de jantar, muitas vezes fui referência quando minha mãe dizia: porque não come quieto igual sua irmã? – no caso, eu – e todos riam usando o garfo para imitar meu microfone falso, do tal cabo de escova. Eu gostava do barulho das coisas e achava que por isso, eu apenas falaria quando pudesse reproduzir qualquer coisa com um microfone em mãos. Eles achavam que eu era faladeira demais por isso.

O chiado da água fervendo na chaleira, a crepitação da lenha no fogão, a cantiga da bá, o estalo da pipoca juntamente com a risada dos meninos esfregando as mãos. De tudo isso e muito mais eu me lembraria tempos depois, em noites de saudades daquele tempo em que o maior silêncio que eu sentia era o interno.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Estou só no mundo, como um peão a cair…

15, junho,

Bambina mia,

Quando criança nunca fui dada aos rodopios… ficava tonta atoa. Eu era bem magrinha e meu eixo não comportava a “violência” de um giro, imagine dois ou mais. Até na brincadeira da ciranda eu era barrada depois de umas voltas. Mas lembro-me bem de mãe nos prevenindo sobre os redemoinhos que eram frequentes em nosso lugar. O mais perigoso era o redemoinho de fogo, que surgia após alguém fazer uso de queimada para a roça de tocos.

Isso acontecia mais perto dos ventos de agosto onde o calor e a secura ocupava os campos e a roça… a pressa da colheita movimentava toda gente dos arredores em um mutirão de durava dias e volta e meia alguém relatava o redemoinho para os lados do sul. Meu pai dizia que o repicar do vento miúdo nas folhas trazia o recado antes do redemoinho acontecer. Doía em algum lugar nele e de chapéu na mão pedia para todos se prepararem…

Sabe, algumas histórias seriam lendas – imagino eu – e outras traziam relatos de pessoas que foram levadas pelo tal torvelinho que varreu a roça, acabando com grande parte das plantações. O vento começava de leve e ia ganhando força, principalmente depois da colheita onde o campo ficava em aberto sem nenhuma proteção de mato. Isso era assustador para a maioria dos meninos enquanto eu ficava encantada ouvindo as histórias e imaginando mil outras. Mas, quando acontecia tínhamos de seguir as regras da minha mãe ou nunca mais sairia de um castigo inimaginável.

Quando no meio da lavoura isso acontecia, deitávamos no chão, de barriga para baixo até a fúria do vento passar. De vento, eu não tinha medo. Mas minha mãe tinha e evocava Santa Bárbara e isso me lembrava a árvore de florzinhas miúdas perto da porteira que tinha o nome da santa… depois, pedia aos ancestrais em um ritual perto do oratório. Minha mãe tinha frente aberta com todos os deuses, santos e mistérios… eu pensava que ela sabia o quão mal um vento forte pode fazer, mas ainda assim, eu abria os braços e não girava – porque ficava tonta – mas dançava com o vento que rugia, até ouvir o grito dela chamando meu nome completo, o que era um terror, prenúncio de uma ladainha dos perigos que durava o resto do dia.

Dias desses, quando fui de férias ao meu lugar assisti de novo um redemoinho se formar para além da cerca e ir correndo sob a terra. As memórias todas voltaram e suspirei pensando se ela já havia superado esse medo de vento e se ela ainda assoviava para chamar o vento brando que ela mesma dizia ser o espírito santo. Algumas memórias ficam para sempre dentro da gente, e mesmo quando as revivemos, em alguns momentos parecem histórias que foram apenas contadas e só.

Bacio,
Mariana Gouveia

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E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto.

13, junho,

Desde que iniciamos esses diálogos aleatórios você me trouxe lembranças, reativou memórias lá da infância e agora me traz os sabores que ainda trago comigo. O cheiro de bolo de mandioca assado ainda exala por aqui. Fiz para a irmã mais nova matar a saudade ou vontade. E o chá de erva doce fez ela se emocionar. Nunca mais havia experimentado.

É engraçado como alguns cheiros nos levam para um outro tempo. Mas não é só os aromas que nos carregam para determinado tempo, alguns utensílios fazem parte também das lembranças. Eu ainda tenho a compoteira onde minha colocava o doce de mamão ralado ou de figo – e às vezes, durante alguma limpeza, o barulho do cristal me puxa pela mão em devaneios – e também a colher de pau. A panela preta de ferro com três pés hoje é apenas um enfeite na mesa da cozinha.

Uma bacia esmaltada onde o bolo era sovado até dar o ponto se perdeu em alguma das mudanças. E o bule de ágata verde clarinho faz o café ficar mais saboroso. Teve alguns cheiros e sabores que se perderam para mim também, mas outros, mesmo com tantos anos nesse entremeio ainda arranca lágrimas em mim. A pamonha de sal com queijo e linguiça apimentada, o curau com a canela em cima, o arroz doce caramelizado e os biscoitos de polvilho.

Dias desses em uma conversa com eu filho, falávamos sobre comida e ele disse que tinha muita saudade da farofa de cenoura que eu fazia e do arroz “sujo” do pai. Percebi que as marcas que a gente deixa nos nossos vai muito além de momentos perfeitos registrados em fotografias… o que fica é o amor misturados nos gestos e sabores. Vou ali, colocar no forno o bolo de mandioca e fazer um café.

Aceita uma xícara?
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Na rua cheia de sol, há casas paradas e gente que anda…

Sempre digo que nossas histórias se cruzam entre esquinas aleatórias, além de tempo e espaço. Adoro nossos diálogos dentro desse ritmo de que eu também passei por um instante assim e mesmo sabendo que foi em outro lugar, outro mundo, outro momento, a ligação existe e acaba por nos ligar ainda mais.

Sou apaixonada por fotografia – você sabe disso – e sempre levo comigo a câmera na bolsa e amo as janelas que se abrem ao desconhecido e me instiga a pensar em quem abriria as cortinas ao sol e o que estaria fazendo naquele momento.

Minha cidade tem janelas históricas, com datas de um século passado e a maioria traz em seus umbrais o ano ainda em algarismo romano e os azulejos a combinar com as cores da casa, da fachada e até mesmo da rua. Sempre que eu ia para a emissora de rádio onde eu trabalhava via o senhor na travessa da rua do meio que tem o nome de Voluntários da Pátria. Acompanhei em tantos momentos diálogos dele com um transeunte qualquer, com o moço que vendia picolé ou com algum vizinho.

A casa tinha um assoalho muito alto, e fica muito acima da rua, mas consegui fotografá-lo várias vezes, em outras, encontrei a janela apenas aberta com a cortina a balançar e mesmo quando passava de carro, acenava para ele saber que passei ali. Alguém me disse um dia que ele era de uma família tradicional da região e que seus pais haviam sido escravos. Dos acenos passamos para os sorrisos, e logo depois os bons dias dele chamava meu riso. E os cinco minutos preciosos diários para falar do tempo, da primavera que floresceu na esquina, do céu azul, ou do chuvisco em dias de junho.

Nunca perguntamos os nomes um do outro. Ele era meu amigo e eu a mocinha da rádio. E mesmo quando troquei de emissora e não passava mais ali, eu ainda o via de vez em quando minha rota atravessava a rua em que ele morava. Algum tempo atrás, ao passar em frente a casa encontrei a janela fechada. Ninguém soube explicar o que acontecera e eu fiquei apenas com as lembranças do linguajar cuiabano dele com seus bons dias, o tchá por Deus e uma leve saudade.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E os pensamentos em dominó, igual contra igual.

11, junho,

E, no meio dos sonhos de outra pessoa, entrou a Scenarium… você escreveu e eu suspirei. Foi como se eu tivesse de bagagem em mãos e pela primeira vez, nessa viagem o sonho se justificaria em realidade. A menina de nove anos, os dedos cheio de lápis, um caerno ou qualquer papel e as palavras que queria gritar para o mundo. A mulher de 61 com sete livros publicados e outras tantas participações em projetos coletivos dizendo ao mundo: eu escrevo… a partir da Scenarium que ousou sonhar em apresentar para as pessoas um projeto de artes através de escritas e de pessoas que sonharam ou sonham igual.

Sei que poderia descrever a outra pessoa e a multidão que a Scenarium se transformou em apenas realização. Dos meus sonhos, dos de outras tantas que fizeram parte do projeto. Mas, aquela parte que a gente fala de sonho realizado é em mim tão tangente que se não fosse por vocês dois os textos e poemas pueris iriam continuar sendo escritos num blog de poucos visitantes e a realidade seguiria vida afora.

A maioria dos escritores citam os livros como filhos que você despeja para o mundo e quando minha poesia ganhou vida em O lado de dentro as outras histórias foram ganhando força e seguindo o chamado da Scenarium. Ou seria desafio? O fato é que, independentemente de qual caminho você escolha seguir, a minha realidade com sonhos realizados estará sempre aqui, de mãos estendidas e braços abertos para o abraço. O fato é que você e o tuo menino me deram a chance de gerar sete filhos feitos de poesia, histórias, amores e afetos.

O sonho e o projeto Scenarium me deu muito mais do que sete livros publicados e como coparticipante de mais de 30 projetos coletivos… Minhas palavras e poemas viajaram para além do oceano e alcançaram um mundo que nem nos melhores sonhos eu alcançaria… E o projeto me trouxe seu colo e pessoas lindas que posso chamar de amigos.

Sei que tuo cuore achará o tempo certo para a decisão ou não… porque a gente é assim também. A vida, às vezes, é dolorida, mas também é encantadora e o universo, como eu costumo falar sabe o tempo exato das coisas acontecerem.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Fui, como ervas, e não me arrancaram

10, junho,

Quando li seu texto e já suspirando com mil coisas na cabeça, desde a cozinha limpa com cheiro de ervas frescas, com a mesa posta e o queijo sendo ralado para o nhoque até a palavra doce me absorver e eu vagar pela senhora que sentiu prazer pela primeira vez, me lembrei da poesia de Caio Fernando Ribeiro: Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.

Viajei na mulher que fui me transformando e a que sempre cuidava de todo mundo e nunca de si. A que estava sempre pronta para socorrer a amiga no meio da noite após uma crise de pânico, a que ficava noites e noites com a sobrinha no hospital porque a irmã tinha compromissos, a que podia sempre ir aonde chamassem, carregando bagagem de outros e ouvindo a palavra p r e s t a t i v a, que usavam para se referir a mim… Já diziam que eu podia antes mesmo que pudesse dizer não, já me colocavam em grupos antes de perguntar se eu poderia ou queria participar, já me escalavam em afazeres – ou um trabalho inteiro – sem perguntar se eu queria ou podia ir… e não, eu nunca disse que poderia, mas ia… estava sempre lá a frente de qualquer coisa que me colocavam e na maioria das vezes, sendo o último lugar onde que queria estar. Não me lembro de quando comecei a dizer não. Mas lembro-me quando decidi dizer não.

Uma grave doença me afetou e com o diagnóstico em mãos corri para o colo de quem eu pensava que estaria ali comigo, de mãos estendidas, e mostrando que não estaria sozinha, para além do marido e filho e descobri que estava. A palavra você é forte, através de uma única mensagem e um telefonema e mais nada – e nunca mais, até obter a cura – vindo da pessoa que dizia sempre estar ali, caso eu precisasse, me fez enxergar através da cortinha cinza do hospital enquanto a máquina injetava o líquido em minha coluna que ninguém estaria lá fora para me aguardar. Eu é que tinha um adesivo escrito acompanhante no peito, porque estava sempre acompanhando alguém… a mãe de uma amiga, a irmã de outra, a família inteira, caso precisassem e não, eu não era e nunca fui a boa samaritana… eu era somente a que não sabia dizer não…

Quando eu disse que não podia a primeira vez, foi como se uma carga grande de culpa me atacasse… quase voltei atrás… a segunda foi menos penosa e as outras já não doem mais. Em algumas vezes, reluto e ainda vou, mas não como comissão de frente e sim como apoio e sabe de uma coisa? Fiquei mais leve, mas apta para me doar à quem eu quiser… Alguém me ensinou a me amar mais do que a qualquer outra coisa, outro ser, etc… e aprendi também que quem ama cuida de si e só assim pode ser pleno na tarefa de amar…

E voltando para a cozinha, o bolo de paçoquinha ficou pronto e mais claro que o seu, mas ainda assim, ficou delicioso… cortei uma fatia, peguei uma xícara de café e fui para a varanda aspirar e inspirar o doce gosto da vida… e repito a frase do poema de Caio: que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Amanhã é dos loucos de hoje…

9, junho,

O sol amanheceu ofuscado por uma névoa e a manhã aconteceu fria. Fiquei pensando depois de ler seu texto sobre as bibliotecas e a pergunta que você ouviu por aí: Para que ainda existem bibliotecas? Não tive tantas bibliotecas em minha vida… e as poucas eram de uma simplicidade que eu confundia com as prateleiras da minha casa – que tinham mais livros do que pratos – de onde a maioria do livros havia saído da nossa casa, dos livros que ganhávamos. Eu já conhecia todos os exemplares e enquanto para os meninos da região as figuras eram mais importantes, incluindo meus irmãos, eu queria ler histórias. Na pequena cidade, na região que nasci-cresci-vivi até os 11 anos a escola tinha uma sala que comportava uma mesa, quatro cadeiras e algumas poucas prateleiras de livros tão antigos, que alguns se desmanchavam quando eram tocados. Quando eu cheguei em Cuiabá, a minha primeira procura por biblioteca foi na escola onde fui matriculada… Uma sala ampla, com prateleiras de alumínio, e muitos livros, numa desordem que talvez só a moça que cuidava da sala soubesse organizar… haviam vários livros empoeirados. Ela disse que quase ninguém entrava ali e a sala se tornou meu refúgio preferido. Passava horas lendo entre uma fileira de livros quando podia ou quando uma aula fosse cancelada por algum motivo. O mais engraçado é que a primeira biblioteca grande que fui me causou espanto porque os livros eram difíceis de pegar… não havia escadas e as prateleiras eram enormes. O senhor que cuidava daquela biblioteca tomava conta do acervo mais do que de qualquer outra coisa. Contava os anos que passava dentro daquela sala e que seus dias vividos ali dariam um livro. As fileiras iam quase até o teto e ele puxava um fio, onde descia exatamente o livro que a gente pedia. O casarão antigo parecia mais um palácio e assim era seu nome: Palácio da Instrução e suas prateleiras enormes, preenchidas de alto a baixo com os mais variados livros e meus olhos procuravam os títulos deles e me arrepiava quando via algum que queria ler. É estranho como a biblioteca lá da minha infância feita de caixotes de frutas, com suas prateleiras de tábuas mudou a pessoa, a leitora e a escritora que eu sou. A paixão pelos livros nunca mudou e já me peguei também várias vezes olhando as prateleiras por trás das reportagens de algum entrevistado na TV só para saber o nome ou a capa do livro atrás dele e dentro do ônibus meu olho procura ver a capa se algum pessoa estiver lendo, o que se tornou mais raro hoje em dia. O fato é que as bibliotecas são lugares de conhecimento e embora em sua grande maioria tenham mudado a forma de pesquisas e estudos ainda existem lugares como onde eu nasci levando aprendizados e sonhos, e algumas prateleiras ainda são feitas de tábuas e caixotes.

Mariana Gouveia