Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Carregar um coração vazio no peito

8, junho,

Depois de te ler analisei os vazios do meu coração e dos amores ou ternuras que passaram por aqui. Não foram tantos, mas alguns que fizeram parte de minha história desde a infância-adolescência até aqui. Havia um vácuo sempre que eu pensava em andar de mãos dadas, conversar sobre amenidades, rir de bobagens e a medida que eu crescia o príncipe foi se desenhando em camadas que borrava tudo no final.

Houve um tempo em que eu queria só conversar com a Ana, que trazia Marte no nome e guardar poemas soltos, feitos em folhas de cadernos. Não queria preocupar-me se meus irmãos e eu teríamos qualquer coisa para comer amanhã… a cidade grande cobrava a “generosidade” de me deixar morar ali – já sem minha mãe que já havia morrido, sem meu pai de volta de onde mudamos – com três irmãos mais novos que eu. O amor que eu amava mais do que a mim era o programa de rádio do qual eu fazia parte e apesar de ainda nem ter saído da adolescência de vez.

Mas entre alguns dos amores que fizeram meu coração bater e emocionar havia a Ana que era de Marte mesmo e me levava para cavalgar nas nuvens só com um sorriso. Os olhos dela me trazia o alvoroço, a mão estendida me sacudia e o abraço causava um redemoinho no coração. E ele, Ita, que chegou como um sopro de brisa em dias turbulentos, com a certeza de que tudo ficaria bem. Com gestos que nem precisava de palavras e com as poucas palavras que me traziam equilíbrio e esperança.

São 40 anos juntos onde passamos por tanta coisa que daria um livro. Ele me ensinou a me amar mais do que qualquer outra pessoa. Me mostrou que confiança quando quebrada não tem conserto e que a paz a gente planta feito sementes de pé de ipê no quintal. Me ensinou também que amor deve ser regado, cuidado e colhido. Assim, ele se transformou em meu jardineiro e o amor que acalenta meu coração.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – a rotina do meu dia

Bambina mia,

Os dias atravessaram os meses e já é dia 6 de junho. Confesso que nem vi o tempo passar ou vi e nem me dei conta da sonoridade dos dias ou até me dei, mas não liguei tanto como em outros tempos. A vida da gente nos servem as horas como rotinas e cá estou eu a falar das minhas ou seriam nossas, porque a maior parte da minha – pelo menos nas manhãs – tem você e nossos diálogos aleatórios.

Logo pela manhã, antes de mais nada, a xícara de café e uma leitura de um livro – o que estiver ao alcance de minhas mãos. Acho que é quando acordo completamente e sorvo o líquido que salva meu dia. E isso, a gente repete ao longo da manhã ou revezamos por uma xícara de chá ou um chocolate quente. Depende de como o tempo nos abraça, né?

Depois, é tempo de dar pouso para as borboletas que nascem pela manhã até que elas estejam aptas para o voo… e claro que você sabe que entre um dia e outro a rotina só muda o tipo de inseto ou bicho… ou ave…

Energia abastecida, pés no chão e andanças no quintal, é hora de buscar a caixa de trabalho, para a preparação do material. É linha? Tecido? Agulhas? Tudo isso junto da companhia – ou seria soneca? – mais do que rotineira do Yoshi, que só muda o lugar de deitar, dependendo do lugar da casa que estou ou vou ficar.

No meio da manhã, entre nossos diálogos e café, trabalho feito, faltando apenas os arremates ou a conclusão de onde costurar, pausa para os afazeres da casa e do almoço.

À tarde, a rotina continua… ligo o notbook e me preparo para os textos, edições de fotografias e cuidados com outros trabalhos. Cada dia diferente, mas rotineiro e vivido no mesmo espaço: meu lugar, meu quintal e o seu, em falas onde nossos diálogos se misturam entre risos e canções…

Para finalizar, vou ali olhar o céu e independente da fase da lua grito seu nome, mas já foram as seis fotos e a lua – que está espetacular – vai via mensagem mesmo.

Amo tu!
Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Logo vai embranquecer diante da janela

5, junho

As manhãs de junho começaram frias nesse ano, apesar de que logo que o sol surge, com ele vem o calor costumeiro. Coloco a água no fogo e vou buscar as folhas de menta para o chá. Ainda não chega a ser manhã nem madrugada. É aquele entreposto de crepúsculo antes do dia ser anunciado.

Com o mel na xícara espero que a fervura atinja os 5 minutos enquanto repito a música que toca no rádio, sob o olhar pidão do Yoshi… o queijo derrete na frigideira e o pão recebe o ovo e o queijo derretido. Lembro do meu amigo que brinca de ser chef de que queijo é bom com tudo… devo concordar que sim, é. Pelo menos com os “tudo” que experimentei.

Fiquei pensando em seu quintal molhado de chuva e mentalmente ri ao me lembrar das invejas coloridas nossas, de tempos atrás. Acho que fiquei com uma invejazinha cor de chuva de você. Aqui está realmente seco e já fico preocupada com o Pantanal.

Brinquei com a mangueira aqui também, mas não molhei a janela e sim as plantas que, apesar de terem sido molhadas ontem a noite, parecem suplicar por água. O céu clareia e nenhuma nuvem para contar história. Será um dos dias mais quente aqui – a moça do tempo falou agora a pouco.

Abro a janela e inspiro os aromas do meu quintal. Afago o cão, coloco mais um pouco de chá na xícara e vou ao meu passeio matinal viver a vida.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dentro da noite, além dos limites da solidão

4, junho

Hoje o quintal ficou quieto, como se qualquer folha que caísse pudesse causar um impacto no mundo. É aniversário do moço daqui e é estranho ver junho se desenhando entre nós nesse outono quase primaveril. Foi feriado – o dia já se rompe a cortina da noite – e o dia comprido parecia não acabar mais.

Sempre que você me fala de Susan vejo uma mulher à frente do seu tempo, à frente das convenções. Pouco sei dela, e o que sei foi lendo através de sua escrita. Não posso deixar de admirar a mulher e escritora que se apresentou aos meus olhos sob seu olhar.

Fico imaginando o quão difícil foi ser mãe, mulher, escritora com uma inteligência brilhante e penso que se escrevo hoje, talvez ela tenha sido um instrumento para que as mulheres pudessem se revelar e rebelar. Mas hoje, ao pensar nela penso apenas em fotografias e a realidade exposta em seus trabalhos. Não tenho nenhum livro dela, só os seus, que ocasionalmente me lembram ela.

Recalculo as rotas do quintal, vistorio os pequenos insetos nos galhos da erva cidreira porque um vento que começou silencioso se agitou por aqui. Já falamos sobre feriados e de como esses dias se prolongam e invadem a noite… o pássaro noturno canta e vou ali fazer um chá. Aceita?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A noite se cala contra mim

3, junho,

Eu já te contei que a noite ronda meu lugar… não essa noite comum, de quando a tarde se avizinha do crepúsculo e abre as cortinas do céu – essa me dá colo logo que escurece e o sono me chama. Eu falo da noite que espreita as pessoas noturnas depois de meia noite.

É quando eu vagueio no meu quintal, já insone mais uma vez e os vagalumes buscam os desvios do meu quintal e as três marias entremeiam-se nas nuvens. A noite dos poetas e dos amantes. Essa, que me traz monstros articulados em troncos secos no quadrante dos muros e os cães latem para os gatos e a parede da casa da vizinha faz amor com as nuvens.

Às vezes, coloco um lençol no chão e deito-me à espreita de ver as estrelas enquanto o sono não acontece e faço silêncio para não acordar os que dormem e quando falo com as aves noturnas e o latido do cão soa quase como um cochicho. É regra não incomodar os que conseguem dormir.

De vez em quando ouço uma canção ao longe, o som do plim plim em uma tv vizinha e uma criança chorar pedindo colo de mãe. O vento, quase em uníssono com a ave que senta no telhado da vizinha balança os galhos do coqueiro. Tateio as paredes no escuro para não fazer barulho em busca do chá. Ninguém acorda e consigo sentir o sabor enquanto danço uma música imaginária.

Volto para a cama pouco antes do despertador acordar o moço madrugador daqui de casa que se apronta para o trabalho… a aurora começa a romper as cortinas do dia e um galo canta nos arredores e me pergunto onde foi parar o garnisé que cantava na vizinha da esquina. Nunca mais o ouvi cantar.

O dia amanhece enquanto escancaro as portas e faço o café. Converso com as plantas e os pássaros do dia que já surgem por aqui. Vamos ali viver o dia?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Os adultos que durmam um sono tolo assim…

Junho, 2,

É engraçado como nossos diálogos sempre me levam para minha infância ou parte dela. Quando você cita as meninas e suas brincadeiras de roda um filme quase surge em minha frente. Eu, minhas três irmãs e três irmãos fazíamos isso com frequência.

Ciranda , cirandinha,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.

Claro que volta e meia um largava a mão para catar a batata assada na fogueira ou um outro pedia para trocar de brincadeira. Uma noite dessas ouvi aqui na minha rua as vozes das crianças da vizinhança entre risos e canções. Estranhei um pouco e fui espiar no portão. Minha calçada havia se transformado em um grande palco para elas cirandarem. Ainda tenho a sensação da alegria – quando as memórias chegam – nos olhos dos meus irmãos ao rever o suor nos rostos desses meninos e meninas daqui.

No meu bairro, ou mais precisamente na minha rua, sempre vejo uma turma de crianças com as bolinhas de gude. Dei à elas algumas que ainda tenho aqui e ensinei alguns truques que aprendi com meus irmãos. É engraçado ver as crianças inventando as brincadeiras de antigamente, com novas roupagens e fora das telas dos celulares.

Quase sempre os meninos saem em debandada e atravessam as ruas olhando para o céu em busca de uma pipa que rodopia depois de ter sido cortada. Me encantei ao ver os cabelinhos cacheados do Breno sacudindo com o vento e o “troféu” na mão enquanto o riso ia de orelha a orelha.

À noite, a brincadeira é o pic esconde… há sempre um menorzinho – que não sei o nome – querendo se esconder atrás de mim, enquanto alimento o gato da rua. O nome que mais ouço é Helena, uma menina de olhos de jabuticaba e cabelos encaracolados, que fica sempre aos cuidados dos irmãos mais velhos e dos primos – que são meus vizinhos -e se tornou a minha preferida para ganhar, porque o riso dela alegra minha rua inteira e quando fecho o portão e a noite me chama para o sono vou respirando memórias outras de um antigamente que me transformou no que sou hoje.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Eu preciso vigiar a aurora

Junho, 1

Bambina mia,

junho é uma imensidão de lembranças em mim e sei que para você também… e o calendário me traz datas que acendem as memórias. Para mim, as manhãs não aconteciam em azuis e sim em verde e amarelo dos milhos e tinha a fragrância doce dos quitutes feitos para as festas de santo que meu pai tanto amava.

Foi em um 1° de junho que te descobri e também descobri o tuo menino. Saber-te através das missivas que você fez para ele para comemorar o dia dele me uniu à mesma data de meu pai. Depois disso, acredito que o próprio destino foi cruzando nossas linhas, quintais e histórias.

A pamonha que meu pai falava sempre acontecia nos junhos de minha vida. Curau, polenta, canjiquinha e um tanto de infinidades de pratos deram sabor à minha infância. Algumas datas ficam dentro da gente e mesmo tendo marcado um x em dias outros especiais para a gente no calendário o dia fica ativo na memória.

Posso dizer que poucas pessoas tiveram o privilégio que a gente teve. Eu conheci dois homens maravilhosos e um deles foi meu pai nessa vida e o outro foi o homem mais gentil que atravessou meu caminho. Quis o universo de os dois terem nascidos em um primeiro de junho.

Poderia dizer que o privilégio se estendeu porque essa data me trouxe você, então, o dia tem a ternura de abraços e agradecer ao universo por tanto.

Grazie,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – um cantinho e um livro

Bambina mia,

Dia desses eu vi em um recorte do Instagram onde aonde o moço influencer reclamava dos filhos que largava os livros soltos, segundo ele, por aí e lá ia ele pegando um livro no sofá, outro na mesa da cozinha e em poucos segundos seis livros estavam em suas mãos. Não cheguei até o fim do vídeo porque me incomodou um pai reclamando do filho, aparentemente, por deixar “largado” os livros nos diversos cantos da casa. Ela não iria gostar do meu lugar.

Costumo carregá-los por onde ando e se algo de maior interesse interrompe minha leitura, deixo-o ali, entre as sementes a panelas.. à minha espera.

E quando folgo retomo a leitura ali mesmo, naquele cantinho onde ele ficou me esperando. Em cada cantinho há um livro, ou em cada livro, um cantinho o acolhendo como se também quisesse fazer parte da leitura.

Claro que a maioria se deita na mesa da cozinha e entre os afazeres e outros, um recomeço ao folhear o livro a fome atravessa a vontade de guloseimas…

e me atrevo a saborear os textos e as doçuras.

Mas, no dia da faxina, recolho todos para o cantinho principal deles. Porém, isso não dura muito, porque no mesmo dia, ao alcance das mãos, um livro ganha contornos de leitura pela casa.

Sei que você também esparrama os seus livros pelos cantos de seu lugar… me diz: há algum preferido?


Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.


Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Katia Chausheva

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

A solidão na astrologia das coisas.

Ph: Julija Jankelaityte

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Scenarium Livros Artesanais
Eclipse – pág. 51