Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

No Cais Outra Vez

 

O barco de papel ancorado no canto
da mesa da cozinha.
Um envelope a espera da resposta.
A tarde deixando o dia e levando o sol
para navegar outros mares.

Saudades.
A alma ultrapassa a porta
e vai em busca do oceano…
A nado

Sete luas
Mariana Gouveia – No cais outra vez
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Freepic
Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

De que cor é a noite?

Dentro da noite só avistava o vazio das horas… a porcelana suja vigiando os instantes, a figura do elefante cor de ferrugem na estante – nunca reparara na cor – ao lado da bailarina, que parece dançar de verdade.

Nem ela mesma sabia a história daquelas peças, quase estátuas, fazendo companhia para a sua solidão. Lembra – se apenas que elas estiveram ali desde sempre. Uma coruja com olho estranho, um gato que lambia a pata, os três frades que bebiam vinho – todos enfileirados na estante.

Os objetos inanimados pareciam ter vida… por vezes, parecia ser ela, o bibelô no canto da sala, com os olhos fixos na janela a espreitar os movimentos da noite.

As toalhinhas de crochê feitas pela avó a ocupar os lugares na casa… a almofada de fuxico, como se estivesse sempre cansada.

Conhecia o barulho da rua… Os carros e seus movimentos. Vez ou outra, um mais afoito, cantava os pneus, na impaciência de virar a esquina. Um bêbado, e sua cantoria noite afora

Dali, do seu canto fixo em sua janela, conhecia as horas, pela cor do céu que surgia. Os olhos buscavam sempre as sombras… onde havia espaço para sua solidão.

Era dali que tinha a dimensão da noite, quando tudo, ou quase tudo se aquietava dentro da rua e a cidade dormia. Só os insones ficavam a espreitar janelas como ela.

Passava os olhos pelos objetos todos. O porta – retrato, que trazia pessoas conhecidas, mas de quem nem mais se lembrava. Sabia o sobrenome, que era o mesmo seu. Onde foram parar àqueles risos que lembram dezembros? Parecem meros estranhos, ao lado do elefante, cor de ferrugem, a vigiar todas as noites, onde apenas o aroma do café, seguia seguindo um ritual antigo, que o pai ensinara.

Se sentia uma alquimista. Relembrava de cada parte da receita, até ver ali, na xícara fumegante sua própria solidão.

Mariana Gouveia
* Texto escrito para a Revista literária Plural La Barca.
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Sete Luas – minhas impressões

Algumas fases permanecem para sempre…


Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas de Aden Leonardo. Antes começasse a amar o abandono era quase um convite para soprar a lua e delirar dentro do que não foi vivido. Aden é esse uivar em um mistério.

O contrário, de cabeça para baixo, era possível repetir a palavra encanto nas luas de Adriana Aneli. A lágrima, a lâmina… sendo corte e líquido nas fases soltas de Lua. À mercê do impossível caberia em uma história cantada pela menina que adora ópera.

Adriana Elisa é esse frescor  Nas antigas tardes em que não queria inventar coisa alguma e é cópia da mãe – Adriana Aneli – e única em sua doçura agridoce nas memórias de Lua e do amor.

Ingrid Moradiam é  aquela menina que me me leva pelas mãos em outras infâncias e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

Já eu!! Mariana Gouveia… Ah, No cais outra vez… conheço os ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Nic Cardeal
é esse ponto cardeal ao Sul… Em metades ou quase nada...
Mentira!
É tudo, essa menina! Inteira… quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases da lua que conhece?
Rebeca Navarro é esse grito na garganta que fica calado. E que quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Nos aposentos fechados para o dia é bem ali, detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora

 

 

 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – road trip urbano

Bambina mia,

E estamos cá para mais um 6 on 6 e ao pensar no tema, cruzando algumas avenidas do meu lugar, para além da rua de cima percebi que há várias nuances dentro desse road trip urbano. Poderia te mostrar os casarões da rua do meio, se decompondo aos poucos diante da passividade dos donos/justiça/poder público, etc… Poderia também mostrar as igrejas antigas – e igrejas não faltam aqui.

Mas, como Cuiabá tem essa fama de mato mesmo e grande parte do povo de fora pensa que aqui se encontra onça andando na rua e logo na avenida principal do meu bairro, me deparo com essa cena… resolvi te mostrar o lado animal das minhas ruas.

Não temos onça, mas temos jacaré e ele tem nome. Se chama Celso e atravessa na faixa. Pena que não consegui pegar essa parte. Ele mora em um parque dentro da cidade, que era só dele, mas resolveram criar no lugar um parque que se chama Parque das Águas, que era só dele e os humanos agora querem tirar ele de lá.

E sabe aquelas capivarinhas simpáticas de pelúcia? Tenho aqui, ao vivo, em pelo real, uma família todinha… uma não! Várias famílias, que também atravessam na faixa de pedestres, mas não consegui fotografar isso. Atravessam avenidas, param o trânsito e isso em uma área central e bairros luxuosos.

Bambina, bambina… eu me encantei com esse mocinho aí… foi se transformando aos meus olhos e até desci do carro para vê-lo de mais perto… e correu para dentro do bosque.

e dentro da normalidade para minha cidade, eis que os periquitos invadiram a cidade. Não vou falar aqui sobre como o homem invadiu o espaço deles tirando o meio de sobrevivência e os trouxeram para o espaço urbano.

E o que antes era só visto nas florestas, fazendas e meio do mato, agora se tornou comum nas cidades. Animais das mais variadas espécies fazem parte da rotina diária. O que aos meus olhos era comum no lugar onde nasci vejo aves e seus ninhos, famílias inteiras de animais silvestres. A gente já sabe de quem é a culpa e nem vou me ater ao convencional para esse passeio que te apresento. Espero que goste.

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Vertigem do meio dia emoldurada em vertigens.

Janeiro chegou ao seu final e me perguntei várias vezes se ele voou ou se foi como a maioria diz que o mês durou um ano… Mas, ele foi generoso comigo, até certo ponto. Te trouxe em notas diárias e a gente se deu as mãos nas manhãs mornas ou frias, secas ou chuvosas.

Estive com você nos passeios com o cão, nas ruas com nomes de flores e até mesmo na sua solidão. Você compreendeu minhas dores, minha surdez e até mesmo o meu silêncio. Muita gente acha que compartilhar momentos é estar juntos, ao toque das mãos. A gente fez isso de maneira diferente nesses 31 dias. Tomamos chás, cuidamos das plantas em uma situação muito de dona de casa… sei que você vai rir disso… e até andamos pelo quintal.

Eu falei de sol, você falou de chuva e vice e versa. Ouvi no mesmo repeat suas canções… coisas nossas que só a gente entende e isso basta.

Foi um passeio interessante, foi um janeiro carinhoso e agora trovoa aqui… Você disse sobre começo e fim… eu digo sobre continuação para além dos dias que não serão feitos de notas diárias, pelo menos desse lado aqui.

Grazie!

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim.

Já faz tempo que sei de sua paixão por casarios antigos e tenho um certo fascínio por eles também. O centro histórico de minha cidade está cheio deles, que contam histórias fascinantes, com seus personagens históricos, em sua maioria, com nome de rua.

A maioria está em situação de abandono e cada vez que passo por ali, fico como você, imaginando os mistérios que estão grudados em suas paredes – quase todas de adobo – e telhados antigos… Em suas fachadas, em algumas casas há iniciais que indicam os nomes dos proprietários e datas de construção.

Grande parte dos imóveis em estado de deterioração são privados e estão em inventário, outros sequer têm a documentação necessária. E, por fim, cabe aos donos a restauração, essa sim, seguindo os critérios de intervenção do Iphan.

Cada vez que passo por ali é uma casa a menos que vejo, seja porque choveu e a estrutura não resistiu ou um novo prédio – assim como aí – surge imponente em meio à história. Há casas construídas no século 18 e 19. Poucos foram restaurados e abrigam casas culturais e arte.

Conheço algumas histórias de pessoas que viveram ali e infelizmente, hoje são apenas pedaços da história cultural e social da cidade e os telhados vermelhos fazem parte apenas das fotografias.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todas as auroras raiam no mesmo lugar

Hoje ao amanhecer, durante o passeio com o cão fui ao descampado onde vejo o sol nascer antes de todo mundo. Há sempre uma árvore solitária à espera. Um avião passa, um galo canta ao longe e o cão puxa a guia pedindo para voltar.

A manhã acontece ligeira no meu quintal enquanto termino algumas encomendas. Ainda há resquícios da chuva de ontem aqui, apesar do sol já ultrapassar o quadrante do muro. Há flores e folhas com as gotas ainda dependuradas esperando um balanço de vento para se dissipar. Um dia, li num livro que o oceano começa por uma gota e esse pensamento me atravessa…

Quando li seu texto busquei nas memórias quais livros estiveram comigo nesse janeiro – que já mostra seu ocaso – e percebi que estive a bordo de três livros da Scenarium Livros Artesanais. Projetos coletivos com coletâneas de autoras que admiro demais. Plural Alice, que marca o ano 10 da Scenarium, Caderno de desaforos – um luxo de desaforos – e Linhas e rabiscos em borrões de azul. Esse último ainda não conclui. Dá licença que vou ali fazer isso.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Virou todos os dias todas as esquinas de todas as ruas.

Ph: Raquel Pellicano

Seu texto me fez lembrar de alguns ontens e mais uma vez me vejo repetitiva aqui quando nossas esquinas se cruzam. Na época em que eu trabalhava no rádio, durante dois anos, fui a responsável para editar coluna de astrologia tanto do rádio quanto do jornal. A astróloga fazia as previsões e eu editava e não se espante… era a maior audiência nas manhãs, em um tempo em que o mercúrio retrógrado não era tão falado, pelo menos não nas previsões dela.

Tarô, runas e até baralho cigano era com ela. Um dia, tive de ir até sua casa pegar as previsões e como toda aura de misticidade me encantava entrei na tenda. Mesmo sem ler nenhuma carta ou qualquer outra coisa, ela me disse que eu teria sete filhos. A previsão não se confirmou. Tive três filhos, dos quais dois faleceram no parto. E as outras coisas que ela reafirmou várias vezes ser um aviso nunca se concretizou. Eu seria mãe de sete filhas. Os meus eram meninos.

As pessoas a adoravam e a rádio recebia várias cartas endereçadas à ela. Mas, o rádio sofreu mudanças, e o programa acabou, assim como as edições para o jornal… Nunca mais havia visto ou ouvido falar dela, até que, na última ida ao centro da cidade para comprar materiais a vi… de princípio, não a conheci e acredito que ela também não se lembrou de mim, porque fez um psiu… e estendeu a mão para mim.

Vestida com roupas coloridas e saia longa parecia uma cigana. Lembrei-me das que eu conheci na minha infância… Recusei apressadamente. Foi quando nossos olhos se cruzaram. Houve um resquício de conhecimento, mas ela fingiu que não e eu não me atrevi a relembrar.

Segui rumo a rua do meio, para a loja dos aviamentos e senti o olhar dela algumas vezes. O futuro que ela viu para mim tornou-se obsoleto na memória… Prefiro meu presente com uma chuva deliciosa que cai nesse fim de tarde. O amanhã? Vamos aguardar.

Mariana Gouveia