Afetos · Scenarium Livros Artesanais

As memórias são quase uma casa difícil de habitar.


Toda a vida tive esta sensação:

quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão

 e se ocupasse de mim.

Etty Hillesum

– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimenta. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.

Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.

–  Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.

–  Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.

– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar. Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.

– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.

Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.
– Mariana conta um, um conta Mariana…

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

Tears Dry On Their Own tocava quando entrei na parte principal do casarão e ela nem me viu – o som ecoava entre as paredes levantadas em outros tempos.

Fiquei em silêncio vendo os olhos dela fechados e o ritmo da música ecoando pelos poros. De repente, ela abriu os olhos e suspirou… era a leveza da voz nas paredes e as coisas a brincar de pique esconde com ela:

– Onde deixei o aspirador? Cadê o paninho, cadê? – minha mão estendida oferecia o pedaço de pano largado em cima de uma cadeira – e a surpresa do olho se desmanchando no riso.

– Achei as fotografias – uma pausa longa e o tcharam!! – e entre a voz de Amy ecoou a dela – E – OS – DI – Á – R- I- OS!!

– Diários? Não era só um?

As mãos dela abriram a mala estilo retrô – ou vintage, ela diria – e eis que surgem livros-cadernos-brochuras – onde apenas as capas os diferenciavam em cores.

– Teodora, Isolda, Bernarda, Teresa, Leonor e enfim, minha doce e adorada Madalena! – os exemplares pareciam cadernos comuns e eu poderia passar a noite toda ali a folhear cada um deles com cheiro de passado – e a atenção dela me pedia calma e despistou oferecendo para fazer o chá.

Reclamou do cansaço do últimos dias – e olha que devia ser férias, viu? – F – É – R – I – A – s!!
– Bom, devo lembrar que foi você quem quis vasculhar o sótão e eu nem sabia que havia um sótão aqui…

– Há muitas controvérsias em tudo isso! – e riu – O tempo surge dentro dos baús e ecoa em nomes e lembranças.
É tempo de se curar das rotinas, tirar do rádio as canções de rádio novelas e jogar no fundo do baú as velhas cartas de amor. Só as cartas. Ah, e Amy!! Você viu que amo Amy, né? Amy é amor em voz – e o celular repete o refrão…
Esse amor que você guarda em algum espaço restrito da lembrança, que é pra quando sentir falta, servir com chá – e por falar em chá, olha só o apito da chaleira a nos chamar – quer biscoitos?
Nem respondi… a xícara repousou em minhas mãos e meus olhos devoravam as palavras de Leonor:

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia.

A leitura me fez voltar em um tempo que não vivi. As palavras e letras desenhadas dentro da sabedoria das horas me fazia querer esse tempo que não vivi e nem chegou até a mim, exceto pelas cartas que leio e abraço com a delicadeza de quem nina uma criança que ainda pode crescer.

O tempo chegou e não ficou nem para uma xícara de chá quente. E o hoje já era ontem.

Com um sorriso feito de retalhos – daqueles que a avó bordava e fazia colchas – ela não esperava mais cerrar os olhos para sonhar de novo. Agora, já sonhava de olhos abertos, que era para se realizar logo.

Parecia ontem. Tudo ainda era caixote e as paredes redesenhadas e os baús com cheiro de memórias e um sorriso desesperado estampando a inocência de uma beleza curiosa. E ela a repetir no corpo a canção de Amy…
Prometeu ao vento ser forte e aguardar o dia de amanhã, se a rotina permitisse e ela ria. O tempo continuou correndo, com ou sem pilhas nos ponteiros. Simples assim.

Entre uma estação e outra, enquanto o portão se fechava e ela fechava a caixa de fotografias de mulheres que fizeram de tudo para ela ser ela, apenas e só tentou deixar o bonito, ainda mais lindo, jogando fora as regras de sobrevivência. Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Seu tempo partido em outras infâncias.

É apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

— Henri Michaux —

A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias. Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e da pena por trás dela.
As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades.
—— ontem fez frio — anteontem choveu hoje amanheceu nublado — sonhei com você — queria ser eu a estar em suas mãos. Ele descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caiam da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia. Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro.

Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas pressentia que era um sonho tentando ser realidade… O coração acelerado, e as mãos suadas — apesar do frio. Quando cheguei à janela — sorri as minhas certezas de menina apaixonada. Lá estava ele… vestindo o sorriso que eu tinha imaginado no dia anterior — iluminando todo o rosto dele. Os olhos tão lindos, como dois faróis a iluminar a neblina, pouco antes do dia nascer, com os campos orvalhados e eu a procurar por rendas prateadas na mata. Eu quis morar uma vida inteira naquele momento. Se possível, morrer dentro dele. Mas sabe como é a eternidade? Acaba nu- me estalar de dedos.

No diário eu relatei tudo. Uma história de amor, para um dia virar livro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante. A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e levada de encontro aos lábios era um beijo carinhoso-único. No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cocegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro.

Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… Muitas palavras depois, a pequena aldeia fez festa para comemorar o primeiro amor que aconteceu bem ali, Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore. O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… O destino de uma Carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o Carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para a casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa, aprendia corte e costura, pintura artística… O primeiro amor se foi — lamentava toda vez que passava por lá, sem envelope para entregar…

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sob o som de Amy

Ph: Laura Makabresku

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo. Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Templos


Em Cuiabá tem mil museus
E tanta igreja
Que por mais que a gente veja
Sobra uma pra espiar

Henrique e Claudinho

Bambina mia,

Daqui a dois dias minha cidade completa seus 307 anos… acho até que já te apresentei ela em fotos e textos várias vezes e também já te contei sobre os templos que temos aqui e os da região. Confesso que tive dificuldade em escolher qual foto usar para esse projeto. Há tantos templos que juro que pensei em mudar o rumo dessa carta. Poderia usar meu templo maior que é o meu quintal, o Pantanal, Chapada dos Guimarães e sua magia dos paredões que lembram de fato, grandes templos… mas as igrejas ganharam destaque em meu coração. Cuiabá tem tantas igrejas que sempre falta alguma para se ver. A impressão que tenho é que, mesmo morando aqui há 44 anos ainda não vi todas.


A Igreja de N.S. do Bom Despacho fica no alto de um morro no centro da cidade e já de longe é possível admirar sua bela arquitetura inspirada na Catedral de Notre Dame francesa, faz parte do lindo conjunto de igrejas históricas de Cuiabá. A lenda é que debaixo do morro que a acolhe fica uma jazida enorme de ouro. Fato nunca confirmado.

Não longe dali, no centro histórico a minha queridinha… A Igreja de São Benedito e do Rosário. Sua construção teve início em meados do século XVIII, por volta de 1730, sendo erguida por mãos negras escravizadas que, mesmo diante da opressão, encontraram no templo um espaço de esperança, devoção e preservação de suas tradições religiosas. A igreja foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, e a São Benedito, o santo negro símbolo de humildade e serviço. No dia do santo as ruas laterais se transformam em um salão de festa e devoção. Seu altar todo talhado em ouro encanta ainda mais os turistas e fiéis.

A igreja de Nossa Senhora Auxiliadora sempre me chamou a atenção por sua escadaria e sua cores noturnas. Durante muito tempo minha sala de trabalho ficava em um andar de um edifício voltado para ela e eu adorava quando o dia se encerrava e as luzes iam sendo ligadas e o sino me avisava a hora de ir embora. Era encantador ver as noivas se ajeitarem para entrar na igreja. Criada pelos salesianos tem ligação com um colégio que funciona ao lado.

Para além das ruas e igrejas de Cuiabá, precisamente na estrada para Chapada dos Guimarães, em uma das minhas viagens ao Parque Nacional da Chapada, me deparei com esse templo protestante erguido em 1958, dentro de uma fazenda, hoje patrimônio histórico tombado, se tornou uma Fundação Educacional que é jurisdicionada pelas Igrejas Presbiterianas de Cuiabá-MT, e pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Localizada dentro de uma fazenda – que pela Fundação se transformou em internato – fica majestosa ao lado dos paredões.

No coração do Pantanal mato-grossense, a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Poconé é um oásis de história e fé. Construída em 1781 com técnicas tradicionais usando óleo de babaçu na argamassa, esta joia do barroco brasileiro resistiu ao tempo e às cheias do rio Cuiabá. O interior é um espetáculo de cores: o altar-mor em estilo rococó contrasta com as paredes em azul colonial e os santos vestidos com roupas típicas pantaneiras. Durante a Festa do Rosário em outubro, a igreja vira palco da dança dos mascarados, tradição única que mistura fé e folclore. A visita combina perfeitamente com um passeio pelo centro histórico de Poconé, porta de entrada do Pantanal. Ao entardecer, quando os ipês ao redor florescem, o cenário fica ainda mais mágico. Nesse dia em que fotografei a igreja, só havia essa árvore que se chama Pingo de Ouro e seus cachos amarelos dourando a paisagem.

E as margens do Rio Cuiabá, no Distrito de Passagem da Conceição – em Várzea Grande, em um lugar bucólico que parece cena de novela está a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Confesso que só descobri esse lugar recentemente. Construída com adobe, a Capela apresenta características do final do século 19 com um estilo Colonial e molduras simples. Em 2001 foi considerada Patrimônio Histórico de Várzea Grande.

Sabe, bambina, vários templos ficaram de fora e penso que além da parte turística que envolve a natureza como Chapada dos Guimarães e o Pantanal Mato-grossense, também as igrejas em suas formas variadas e históricas também fazem parte de todo conjunto turístico de Mato Grosso. Estou te esperando aqui para te mostrar. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Antes começasse a amar o abandono

Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras

— Isabel Mendes Ferreira —

Ph: Pinterest

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias após a morte da minha mãe. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela pela casa, nas coisas. Mas a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo tinha o seu jeito, a maneira dela. E o jardim, no fundo da casa, parecia que ela havia passado por lá e plantado cada uma das flores e ervas.

Não éramos as únicas novidades da rua.

Duas casas depois da nossa Ana e Cristina se mudaram um dia depois de nós e pelo mesmo motivo. Gostei de Ana — foi amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida.

Ela era uma aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela. A casa delas era um sobrado e tinha um quarto que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, nos obrigou a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis — que um dia retratarei com mais detalhes — havia um baú enorme que também foi aberto por nós. Entre roupas, pequenos bibelôs e livros… encontramos um diário, que as meninas interessadas em tesouro não deram atenção. Dividiram os objetos encontrados entre elas.

Um sapato de verniz roxo que Ana calçou como se fosse uma princesa… E o diário foi colocado em minhas mãos pelas duas — como um presente. Foi naquele momento — com um tesouro em mãos — que desejei ser escritora para contar a história de amor que eu via acontecer bem à minha frente.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

De que cor é a noite?

Dentro da noite só avistava o vazio das horas… a porcelana suja vigiando os instantes, a figura do elefante cor de ferrugem na estante – nunca reparara na cor – ao lado da bailarina, que parece dançar de verdade.

Nem ela mesma sabia a história daquelas peças, quase estátuas, fazendo companhia para a sua solidão. Lembra – se apenas que elas estiveram ali desde sempre. Uma coruja com olho estranho, um gato que lambia a pata, os três frades que bebiam vinho – todos enfileirados na estante.

Os objetos inanimados pareciam ter vida… por vezes, parecia ser ela, o bibelô no canto da sala, com os olhos fixos na janela a espreitar os movimentos da noite.

As toalhinhas de crochê feitas pela avó a ocupar os lugares na casa… a almofada de fuxico, como se estivesse sempre cansada.

Conhecia o barulho da rua… Os carros e seus movimentos. Vez ou outra, um mais afoito, cantava os pneus, na impaciência de virar a esquina. Um bêbado, e sua cantoria noite afora

Dali, do seu canto fixo em sua janela, conhecia as horas, pela cor do céu que surgia. Os olhos buscavam sempre as sombras… onde havia espaço para sua solidão.

Era dali que tinha a dimensão da noite, quando tudo, ou quase tudo se aquietava dentro da rua e a cidade dormia. Só os insones ficavam a espreitar janelas como ela.

Passava os olhos pelos objetos todos. O porta – retrato, que trazia pessoas conhecidas, mas de quem nem mais se lembrava. Sabia o sobrenome, que era o mesmo seu. Onde foram parar àqueles risos que lembram dezembros? Parecem meros estranhos, ao lado do elefante, cor de ferrugem, a vigiar todas as noites, onde apenas o aroma do café, seguia seguindo um ritual antigo, que o pai ensinara.

Se sentia uma alquimista. Relembrava de cada parte da receita, até ver ali, na xícara fumegante sua própria solidão.

Mariana Gouveia
* Texto escrito para a Revista literária Plural La Barca.
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Sete Luas – minhas impressões

Algumas fases permanecem para sempre…


Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas de Aden Leonardo. Antes começasse a amar o abandono era quase um convite para soprar a lua e delirar dentro do que não foi vivido. Aden é esse uivar em um mistério.

O contrário, de cabeça para baixo, era possível repetir a palavra encanto nas luas de Adriana Aneli. A lágrima, a lâmina… sendo corte e líquido nas fases soltas de Lua. À mercê do impossível caberia em uma história cantada pela menina que adora ópera.

Adriana Elisa é esse frescor  Nas antigas tardes em que não queria inventar coisa alguma e é cópia da mãe – Adriana Aneli – e única em sua doçura agridoce nas memórias de Lua e do amor.

Ingrid Moradiam é  aquela menina que me me leva pelas mãos em outras infâncias e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

Já eu!! Mariana Gouveia… Ah, No cais outra vez… conheço os ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Nic Cardeal
é esse ponto cardeal ao Sul… Em metades ou quase nada...
Mentira!
É tudo, essa menina! Inteira… quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases da lua que conhece?
Rebeca Navarro é esse grito na garganta que fica calado. E que quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Nos aposentos fechados para o dia é bem ali, detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora

 

 

 

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Os meus cadernos

Eu sempre adorei cadernos. Mas só fui ter acesso a eles depois dos meus doze anos. Os primeiros eram feitos de papel de pão ou de qualquer outro tipo de papel que chegava na fazenda e costurados na velha máquina Singer pela minha mãe.

Na primeira vez em que entrei em uma papelaria foi como se tivesse entrado em um mundo encantado. A papelaria/livraria/mercearia — a única na cidade — tinha uma prateleira destinada aos livros de faroeste, lápis, canetas e para os cadernos.

As capas traziam fotos de carros ou escudo de times de futebol. Meu pai tinha que comprar sete — o número dos filhos — e os escolhidos eram os mais simples.

O meu tinha na capa uma moça em uma faixa de pedestre que deixava o material escolar cair, um guarda a ajudava enquanto o carro freava. Ao fundo, uma cidade desconhecida com prédios modernos. Mas eu estava tão encantada com as folhas em branco, pronta para serem escritas que a capa era apenas um detalhe. Cada página tinha um valor estimado.

Naquela noite, o caderno-novo foi aconchego debaixo do travesseiro e nos dias seguintes os primeiros poemas – escritos nos cadernos improvisados — foram transportados para ele.

Cada vez que o meu pai ia para a cidade, gerava uma expectativa de qual seria o outro caderno que ele traria. Meus irmãos sempre pediam doces, ou outras coisas. E eu pedia outro caderno novo.

Gostava mais dos de capa dura, encapados com restos de tecidos que sobravam das costuras de minha mãe. Gostava de colar as figurinhas do Amar é… que o seu Tonico, o dono da papelaria, mandava para mim. Foi em um caderno de capa dura que iniciei meu primeiro diário… Mas isso, é uma outra história.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega