Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Viver roçando as coisas de leve

Mordia o lábio para não revelar o segredo.
Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica…
Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.

Mariana Gouveia
Revista Plural Inéditos & Dispersos –
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Leve um guarda-chuva, caso chova

Ei, Teresa Maria,

O tempo muda por aqui e se eu te contasse quantas vezes a moça do tempo erra em sua previsão você ia dizer que é brincadeira. Está certo, que de vez em quando ela diz: pode chover a qualquer momento – e isso dito dessa forma me dá várias possibilidades. Mas, o fato é que, o tempo muda e um vento frio surge para os lados do Sul e eu te escrevo nesse fim de tarde, quase noite para te dizer que nada mudou. O medo ainda bate na porta, o meu pássaro de todo dia ainda vem para pousar na mão e os girassóis que plantei, devem dar flores em alguns dias.

O céu está estrelado e eu li no poema de uma moça que adoro que: ” numa noite cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira – sempre entreaberta – uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome”.

E eu não tenho nome para esse tempo de agora. Porque, às vezes, a vida mistura morte e vida, tristeza e encanto e cabe-nos gerir tudo dentro de nós… nem sempre a gente consegue, assim como a moça do tempo não consegue dizer com certeza sobre a mudança do tempo. Em caso de dúvida, leve um guarda-chuva.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tem noite que parece criada dentro de um livro de história.

Contei a história para menina de agora. O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas… falou de meteoros.
Um avião quase atravessou a lua.
O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens… uma ave, o voo e a nuvem formando desenhos que me lembram a infância…
A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre palavras e escolheu o substantivo feminino: força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente. Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Mas não é para qualquer um… apenas para quem é guerreira e tatua na pele o desejo de despertar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Era o tempo das intenções tolas

Vi as ranhuras na pele e o vento a debruçar nas janelas vizinhas fazendo as cortinas dançarem.
Era o tempo das intenções tolas quando percebi seu sumiço. Você era tão presença que mesmo na distância eu não sentia falta, porque no íntimo de mim vivia pleno.

Foi numa manhã de luto que busquei tua mão e não te senti. Ainda gritei seu nome pelo quintal. Havia apenas a leveza dos insetos sendo consolo em uma tarde que se perdia no tempo, fugindo da previsão que a moça na TV anunciava no jornal do meio dia.

E quando não te achei mais, ali, onde te guardava feito joia, decidi deixar você ir. Era melhor mantê-lo vivo na memória com as alegrias disfarçadas dentro do amor.

E com a vida embaçada de sol recuso o pedido, mesmo porque nada mudou para além das histórias e tudo continua igual ao que o destino preparou.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Agosto

Era um sol de agosto desenfeiando tudo e dando um ar de era possível (ainda).
Luciane Recieri

Luci,

hoje lembrei-me de você. Já era para ter te escrito antes, mas os dias se perderam uns dentro dos outros e quando dei por mim, já era agosto. Queria ter te contado sobre minha ida ao lugar do meu pai – ou seria meu? – e dizer que tudo parece tão igual, Luci… Parece que ele ainda está no salão de tijolos expostos, sentado em sua cadeira de rodas a esperar o sol se por.

Daquele canto, Luci, bem rente à porta, o sol se escondendo fica visível, por que o muro é baixo e o beiral, um pouco maior do que os outros muros da rua. Fiquei horas ali, Luci, compondo memórias para dias iguais. Lembrei-me do seu pai também… tinha um estuque verde na parede da casa vizinha à de minha irmã, que não teve como não me lembrar de que foi assim que começou nosso diálogo.

Sabe, Luci, em muitos momentos dessa viagem lembrei-me de você. Teve tantos momentos que apontei para você, como se estivesse ali, comigo. Um deles foi quando descobri um tatu e ele se transformou em um amigo… Você precisava ver a cena dele dando uns pulinhos quando eu tocava ele no casco.

Acho que essa viagem, Luci, serviu para a saudade explodir na pele. O lugar do meu pai, a casa do meu irmão e o sítio onde os vagalumes bailam a noite toda e dá para vê-los mesmo em noite de lua cheia. Acho que senti ali, a mesma solidão sua de criança… e isso, nos liga mesmo tão longe fisicamente.

Agosto chega ardente, Luci! E logo já será setembro… mas ainda é o primeiro dia desse agosto que já arde tanto. Acho que era isso que eu queria te falar.

beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – The book is on the table

Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.

Bambina mia,

fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.

O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.

Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…

De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…

Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.

Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado.
Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi Roseli Pedroso

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

as horas pálidas da vida

Quarava os lençóis bordados no sereno, geralmente, em noite de lua cheia com o cheiro de dicuada no ar.
A mãe que fazia o sabão, em seu tacho de ferro e moldava as bolas para o dia seguinte…
As ervas a ferver para a tintura dos lençóis de cambraia e que a mãe queria mudar de cor.
Os olhos, com ondas de mar vendo a correnteza a passar, levando a lua em cada maré.
O céu, ponto de apoio para a menina que desejava voar.

Mariana Gouveia
Coletivo Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que recebi

Querida Mariana Gouveia,

Extasiada pelos seus clics, fui colher poesia em voo triplo e encantado: farfalha, beija-flor, flor do algodão. Colheitas que prenunciam o inverno, as festas juninas, os aniversários nossos.

Gostaria de dar contas dos dias, um semestre se foi, mas você, sabiamente, alerta: é inútil procurar o calendário. O que que tenho para hoje? Julho.

1º de julho

Mulher alada de Cuiabá, parabéns!

Seu calor imenso chega até nós pela fofura e brancura do algodão no campo e no céu. É um conjunto poético que abraça nossos sentidos e festejam as linhas soltas  que  colhi nos cadeados abertos. Carícias que a palavra provoca. O dia que amanhece nas pétalas da flor de algodão anuncia a maciez da alma.

Flor de algodão no quintal de casa flagrada por mim

Durante o dia ainda é possível captar a presença da lua minguante. Uma fatia  ainda é visível antes do ciclo lunar virar e a lua nova  invisível reinar, marcando a lunação em Câncer.   O sul sopra clima instável. Sofre com as influências lunáticas assim como nós. Netuno retrógrado vem aí. Cadê coragem?  Sob o portal de introspecção, recolhimento e proteção, criaturas como você me alentam.  Energia que brota e fortalece laços afetivos,  criando ambientes acolhedores. Sou grata pela sua companhia divina e inspiradora.

Chorei ao ler a carta ao seu pai.  Sou menina que vim da roça, lembranças vivas da brancura árdua. E as saudades presentes daqueles que amamos. Em 3 de junho último minha mãe fez 80 anos, o primeiro aniversário dela em outro plano, faz oito meses em que a linha é direta com o universo nem preciso mais de dia especial, você registrou tão bem!

Lá longe o pai na lida, na roça de algodão,  maciez branca a perder de vista. Direto do blog https://gouveiamariana.wordpress.com/author/meggouveia/

E a Terra se alimenta dessas vibrações porque  em terra fértil em se plantando dá. O fruto espalha a vontade das sementes. O trevo floresce junto com os hibiscos.  Agradeço às mentes brilhantes que me cercam: sementes que brotam ao sol, cravei no meu livro ensolarado Mulheres que voam.  Um vínculo que a Scenarium Livros Artesanais nos proporciona ao espalhar nossos sonhos.

Assim fico-estou-sou encantada pela sua magia que nos move, obrigada! Você avermelha o mundo porque é parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pelo dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca. Comovente isso.  A pele com fios e letras soltas… já sinto que a prosa vai render para outra carta.

Abraço de três voltas pelo aniversário!!!

Rozana Gastaldi Cominal

Algodão celestial que nos protege apesar dos ventos indesejados. Imagem de Mariana Gouveia

P.S.
Repito que também sou abençoada porque meu quintal  aqui em Hortolândia, interior de São Paulo, vibra com o seu. Continue voando e espalhando liberdade, Mariana querida.

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

 O hoje é um tempo entre aspas

Anoto em uma carta as frases que diria: as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada.
Descobri casas abandonadas na minha rua… cada uma grita um nome quando a noite cai. Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor.
Alguém canta na redondeza.
Contam histórias de horóscopos e tarôs.
Vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.
As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. O mar afasta a possibilidade de escolha.
Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Sunsets

Devia espreitar a tarde onde o sol morre para nascer em algum lugar fora da minha visão.

Bambina mia,

já se tornou rotina te escrever no dia 6 e embora o foco do projeto seja as fotografias, não posso deixar de te levar pela mão e mostrar o céu do meu lugar, em sua forma mais bela que é quando as cores da tarde se juntam com as do crepúsculo em um caso de amor.

Já falamos muito sobre essas horas e também sei que são as suas horas favoritas – tanto as horas em que as manhãs chegam e te abraçam e as horas bruscas que acontecem do dia pegando a noite pela mão – e você sabe, bambina, que meu lugar é conhecido pelo calor e pelo sol abrasador, embora, nos últimos dias a tarde tenha se fechado com temperaturas mais suaves e a moça da previsão continua alertando para os perigos da baixa umidade por aqui… mas, é ali, quando a cortina vai se fechando que meu olho busca o céu.

Durante a caminhada no fim do dia é que me transformo em solar. Em cada direção que olho, o sol se reinventa tanto que busco nomes para esse instante e não encontro. Parece que sempre é verão, mesmo com o outono rondando ainda por aqui. E a natureza se enfeita com os raios solares como se estivessem se vestindo para uma festa.

E mesmo sendo outono, e ele se mostrando tão desenhado no meu quintal, eu viajo para outras estações e te mostro, com dedo apontado em riste: vês? olha o avião! Já te contei que eu percebi que mudaram a rota dos voos? Pois é! Agora eles passam em linha reta no meu lugar e cruza o quadrante do muro como se viesse trazer notícias suas. Alguns passam tão baixo que dá para ver a numeração da aeronave. E quando isso acontece canto Calcanhoto e sua versão linda da música Inverno:

No dia em que fui mais feliz,
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

Depois que a melodia acontece aqui, abro os braços, como já te contei tantas vezes e penso nos sons dos “seus” aviões que passam sob seus olhos…

Bambina, o sol daqui é um caso a parte… ele se transforma em personagem principal quase todos os dias. Você já sabe onde sento nas minhas tardes, pelas conversas que temos e sabe que meu quadrante dentro dos muros faz com que minha visão dessa hora seja limitada e atrevo-me a pegar a câmera e caminhar para além da rua de cima e ali, faço a despedida diária do astro maior que predomina aqui.

Sabe o que eu mais queria te mostrar quando viesse aqui? Esse céu de outono onde as nuvens se esparramam como se fosse me abraçar. As nuvens abraçadas pela luz parecem sorrir. É claro que tudo isso acontece sob meus olhos admirados e sabe, bambina mia, mesmo que eu veja isso todos os dias serão sempre com olhos de admiração e espanto que essas imagens farão esses efeitos em mim. Até mesmo quando não há uma única nuvem no céu, nessa hora, o espetáculo se apresentará único todos os dias. E era essas imagens que eu queria te mostrar hoje. Vens?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi