Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

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Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.

Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Estrada para domingos.

Ph: Pinterest

Por muitas vezes, eu vi o sangue derramando

nas estradas que cruzei e nos atalhos que tive que tomei para não enlouquecer!
 – era bem mais fácil se fingir de louca nas noites sem Lua!

Por muito tempo, eu quis morar na rua de cima, ao lado da casa laranja e do vô que entendia de sementes.

Mariana Gouveia
Estrada para domingos
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – As ruas têm a cor das pétalas que douram o chão.

Alguém fez um grafite no muro da rua de cima e a ave sente a mudança da estação. Daqui a pouco será primavera e o tempo ainda insiste em não passar. Amanheceu com vento… e o frio pousou na árvore. Escrevi uma carta mentalmente, um rascunho por dentro que talvez vá para o papel… ,amanhã — se eu me lembrar das palavras.

Às vezes, essas rotinas de escrever são apenas lembranças de um tempo que se foi. Penso no bordado que desenhei no tecido e abandonei sobre o criado mudo. Entre as linhas coloridas que vão criar os matizes do voo do pássaro e as agulhas espetadas à espera de minha vontade — ou tempo — no bastidor.

Sinto uma tristeza amena, curta. Como se a sombra saísse do anonimato e se tornasse personagem principal de uma manhã insólita.

Enquanto isso as Pétalas voam na rua…


Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase além da maresia…

ph: vmestresantana

Quando abri a janela, ouvi poemas nos teus olhos… Era quase além da maresia, enquanto o dia trazia rumores estranhos para a alma. Eu também queria… queria essa estrada e logo atrás da curva teu riso de toda manhã desenhando meu banho. Queria essa umidade toda retratada em versos das lembranças que guarda em tua memória. – Enquanto você responde alguém que o caminho é o coração. Sou quase essa inundação de oceano. Sou marítima de ave que você vê e nega pouso. Tem dias que tenho mil perguntas que você não respondeu nas minhas noites. Tenho regras que você cumpriu, enquanto o que me movia era as regras quebradas. Tenho lanternas chinesas a iluminar um quintal que antecipa a estação. Tenho essa vontade estampada na ponta do dedo e fico doida em noite sem lua. Os corredores têm a dimensão de infinito quando você tem o veredito final.  Ditam que em um ano você já não será, enquanto em um dia tudo muda. Você ri, esbraveja, chora e mais uma vez usa o corretor para mudar a palavra no ” eu te amo” e o infinito se perde dentro dos séculos quando você em silêncio, apenas murmura o nome. Do amor.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Dos bilhetes nas horas cheias.

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde.  Coloco no modo repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo no céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vai se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria, eu já sei que é hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – No silêncio da noite as aves não voam.

Ilustração: Ofra Amit

Ria na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar, falta. A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte. No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques. Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque… [então, não vivo] às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas. Às vezes, o destino certo é o pouso…, mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Catarina voltou a escrever.

Querida Catarina,

lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta… logo eu, tão amante delas e mais ainda amante de seu lugar e claro que tinha que vir aqui hoje e brincar de festa…

11 anos traz muitas histórias contadas e emoções refletidas em textos que se eternizaram em forma de revistas. Se eu fosse colocar em termos técnicos você ainda é uma criança. 11 anos traz uma meninice doce, mas como sinto a maturidade nesses anos contados por aí.

Já te disse que amo seu lugar e que a cada visita me aconchego em suas palavras? E que cada texto em que você voltou a escrever me cabe na emoção das palavras. É quase um refúgio onde minha alma busca calma É onde você me leva pela mãos e nossas histórias e memórias se cruzam.

Auguri, Catarina!
Que venham mais 11, 12, 13, 14, 20…

Bacio,
Mariana Gouveia
Ps: quem quiser conhecer as palavras de Catarina o endereço é aqui.

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Chá de camomila, mel e canela…

Bambina mia,

hoje, pouco depois de falar com você fiz o chá, talvez movida pela sua missiva para Heloísa. O vento que esteve aí ontem, mudou-se para cá e arrastou as folhas todas pelo quintal. Um leve sorriso se formou aqui, por detrás do vidro da porta vendo a rebeldia de dezenas de folhas em redemoinho de vento.

Esfriou demais para o meu lugar e os 14º me deixa presa dentro de casa. O quintal sente o sopro do vento e a garoa. Onde já se viu garoar em Cuiabá? Pois bem! Já se tornou rotinas nesses dias de inverno. Sofro com a secura e a baixa umidade, mesmo com essa garoa que cai…

Sorvo mais um gole do chá que não seguiu a sua receita. Como não tenho chás de caixinhas, colho as ervas ao alcance das mãos aqui… Então, ao invés da baunilha, acrescentei a canela. Adoro esse aroma que se impõe sobre os aposentos. Há poucos biscoitos na lata e divido com os cães que se esparrama nos sofás, cabendo a mim, apenas um canto onde me encolho com a manta sobre os pés.

É tão estranho olhar no calendário e ver os dias empilhando uns nos outros e as estações são varridas uma sobre as outras também. Logo já estaremos ouvindo o “então, é Natal‘ nas propagandas e ruas. Como a gente conta esses dias feitos de faltas, memórias e saudades? Talvez, não precisamos contar… eles passarão como um sopro em um dia; em outros, parecerão anos e com isso a gente vai seguindo a rota que se desenha.

O chá serviu ao intento de aquecer o corpo e a alma e me preparo para a rotineira fisioterapia que se tornou íntima de mim. Preferia continuar te escrevendo, mas o relógio me acorda para a realidade do compromisso e sigo rua acima, enfrentando o frio que acontece por aqui. Na volta, preparo outro chá.
Aceita uma xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Degraus

Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus.

Lígia Fagundes Telles
Ciranda de Pedra

Bambina mia,

na rua de cima, quando me deparei com essa casa e seus degraus, lembrei-me de você. Não fosse só pelo projeto fotográfico, mas pelas casas que somem diariamente nas ruas de cima… essa casa, está abandonada há mais de 30 anos. Dizem que há uma briga por partilha de bens – essas coisas que os humanos adoram fazer – enquanto a casa que conheci logo que mudei para esse bairro, se desmancha aos meus olhos diariamente.

É até engraçado, bambina, enquanto alguns degraus vão se perdendo, outros são construídos. Esse, da foto acima, foi feito recentemente em uma ação de políticos. Liga a rua de cima com a avenida principal do meu bairro. Antes, ali, havia uma cerca de flores – o que eu preferia mil vezes – do que os degraus feitos de azulejos combinando e já causou várias quedas em dias de chuva. Não ganhou o efeito de ponto turístico que o tal político queria. É bonito, visto do outro lado da rua com as figuras dos cajus e viola de cocho, e só.

Por falar em ponto turístico, os degraus da igreja do Rosário ou São Benedito é o elo da fé dos cuiabanos e o santo. Hoje mesmo, tem a festa de encerramento da festa feita para o santo, mas não pude ir lá fotografar. A igreja é belíssima por dentro. Mas, como tem coisas que só acontecem aqui, a festa está acontecendo do lado de fora, por risco de desabamento. Ela faz parte do patrimônio histórico daqui, mas ninguém faz nada para mudar a situação.

Mas, sabe, bambina, consegui registrar a lavagem dos degraus dias atrás. É um culto à parte da festa de São Benedito, como preparação para os dias seguintes. Tem todo um simbolismo com a religiosidade e a limpeza não só da escadaria, mas também da cidade como um todo. Havia mais de mil pessoas entre cânticos, danças e ritos.

Eu ri tanto quando vi esses degraus, bambina, porque volta e meia a gente troca algumas canções francesas e eis que em cada degrau uma frase da canção de Piaf. Quase a ouvi cantando ali, num espaço “francês” para noivas. Não me deixaram chegar tão perto para fotografar melhor, mas lembrei de você e sorri.

E finalizo meus degraus com a flor quase a desabrochar… ela me leva à frase que iniciei essa missiva: Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus. Parece que a flor sabe sobre o que a Lígia Fagundes Telles quis dizer. E é isso que também faço em um abraço silencioso no tuo cuore, para não despertar os degraus por aí.

Bacio
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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6 on 6 – leituras de outono…

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado, 
como se fosse pelo lado de dentro? 

Manuel António Pina

Bambina mia,

nunca um poema cantou tanto em minha pele como esse acima… acho que me perdi dentro das estações nos últimos tempos e quando dei por mim, respirava a estação preferida no lado de dentro – no cuore – e suspirei… e confesso que o que me salva são as leituras – e aleluia, já posso pausar meus olhos nas linhas dos livros ainda por ler.

Nas manhãs amenas, logo depois de varrer s folhas secas do pé de jurubeba e do ipê me atrevo a ficar em silêncio folheando as páginas dos livros meus e dos autores que amo. Gosto do cheiro que as folhas secas deixam depois de serem empurradas pela vassoura quintal afora, até encontrarem a pá… o chiado delas parecem confidências que só uma poesia poderia descrever e contrastam com o cheiro das páginas do livros.

E quando encontro uma folha bonita, pauso o tempo e o livro e te envio, para logo, ouvir seu riso ao receber meu áudio e foto… tem dia que te mando um quintal inteiro de folhas só para te “ver” em risos do outro lado da tela.

Sabe, bambina, a estação está diferente por aqui… e como você sabe, minhas manhãs parecem tudo dentro de outras estações – menos outono – e a pele já antecede o sentimento de um inverno seco que se aproxima. Claro que aqui eu poderia comentar sobre as mudanças climáticas e de como o tempo faz a moça do tempo daqui errar sempre a previsão, mas prefiro suspirar e esperar pela tarde que brinca com as folhas – que nuca consigo catar todas – com o vento.

Eu repito livros e fotos e palavras – você sabe – e leio poemas inúmeras vezes e cato as emoções das autoras para juntar com as minhas. Isso tem se tornado rotineiro… abro o livro, pego a xícara de café e vou sorvendo as palavras como se elas se tornassem minhas. Busquei suas palavras no verso do livro Caderno de alegrias e tristezas:


O telefone vibrou – anunciando notícias que não me interessam. Queria me afogar num verso. Morrer numa página qualquer… Soluçar um parágrafo bem escrito. Lembro-me de pensar ao ler:

“deveria enviar à Isabel : um texto sobre o medo de ler o que escrevo

Gargalho aqui e murmuro sozinha coisas que vêm de repente à cabeça…

Bambina do céu! Nem reparei que a noite chegou e com ela uma lua linda dentro do quadrante do meu quintal e os grilos que irritam o Buu por aqui fazem a farra. Acho que eles devem ter uma banda musical. Só pode! O cri cri cri é uma sinfonia só!

Sei que ultrapasso o limite do projeto ao enviar uma missiva, mas é uma maneira que encontrei de falar com você para além do aplicativo de mensagens, em cada dia 6 dos meses. As mãos já estão quase boas e logo os textos e poemas serão mais frequentes – eu espero – dentro dessa estação que nos abraça e de outras que estão por vir.

Abraço carinhoso
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna GuedesClaudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes