das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – sou folha

Ph: Rosie Hardy

Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.

Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 07
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Abro a porta para um mundo imaginário.

A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

A palavra certa era inevitável.

Ph: Steve Gindler

Fiz o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno. O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam. Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão. Vi algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio ao chão. O cão late na folha seca que cai. Remexi nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve. Aprisiono desejos secretos. Rio sozinha dos pensamentos loucos. Refaço o roteiro do horóscopo. Alterno os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorei no poema que li. Havia coração em toda parte. Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Nos aposentos fechados para os dias

Tropeço nas coisas que eu esqueci pela
sala. O interruptor acende ao meu toque
e a luz pálida ilumina lugares que prefiro
não ver. As fotos estão dispostas em fila
no móvel. Ao lado, a agenda esquecida
pela manhã. Na geladeira, não há quase
nada comível. Apenas um tomate que
escapou da última salada, alguns biscoitos
recheados e um iogurte com data de
validade suspeita.
A mente me leva para lugares onde eu
gostaria de estar. A rua de cima e a casa
com seus quintais floridos. Da janela,
vejo vultos das folhas do
hibiscus mutabilis que dançam
a melodia noturna e brincam com a lua
que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço oco de solidão
dentro de mim. Converso com os
cachorros para evitar a sensação de vazio

que me atinge. Parecem tão solitários
no sono de cada um que nem me ouvem.
Abanam o rabo por instinto,
sem despertar e continuam a sonhar
com o mundo dos cães.

O chuveiro me chama para o banho.

A melodia da água caindo quase me
acordou desse transe. Mas o silêncio dos
cômodos e a ausência de sono nos meus
olhos, tão abertos, esfregam na minha
cara, o quanto essa casa estava cheia de
vida, de gente, de presenças.
Eu estou só — não sei se esquecida ou
abandonada. Pela primeira vez,
em não sei quantos anos, que a cama
é só minha. Ao deitar ouço os sons dos
meus ossos e das molas do colchão.
Rangem em conjunto e depois se calam.

Tão angustiante. Pior é o som que vem lá
de fora. Sirenes gritam à noite
e eu sei que alguém se feriu na casa
de cima.

As vozes se misturam em ofensas.

Conto carneiros, estrelas… agrido
o travesseiro. Ouço o meu nome num
tom sussurrante vindo lá de fora.
Viro de lado. Canto canções
de antigamente. Minha voz não é mais
a mesma e se mistura a outras tantas.
O sono não me pertence…
É dos cachorros. Abro a janela e deixo a
noite entrar, está tudo tão escuro.
Ouço os pirilampos nos galhos,
no quintal e lá longe, a lua se agiganta
diante de mim.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito
do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – o risco de giz levava a menina ao céu.

Ph:; Pinterest

Cabia na verdade das coisas e era em qualquer dia o calendário das flores dentro de outra estação. Nas calçadas, o risco de giz levava a menina ao céu em seu pulo de amarelinha.
Eu, que nunca mais havia ouvido os sinos da igreja dobrarem, refiz o gesto da oração. O médico redesenhou os calendários no quintal. O amor é esse gesto desenhado em corações ou pouso, quando a noite chega e a lua míngua no céu.
O homem grande ratifica raridades nos caminhos dos guerreiros. A vida é esse rasgo na garganta enquanto a canção de Gadu entoa.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Beda – no cais

Ph: Pinterest

Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros.
Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser.
Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu.
Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Pai,

sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.

Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.

Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.

Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.

Feliz Dia dos Pais!

Te amo infinitamente!
Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase fado

Ph: Pinterest

Havia um riso estranho no homem da esquina.
…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros artesanais

Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

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Beda – Aqui dentro você é caminho.

Ph: Tumblr

Fiquei pensando em quantas vezes …
… errei seu nome nas palavras cruzadas,
aparecia sempre a palavra Solidão…


… ficava no vácuo sua lembrança
Na porta azul da rua de cima…

Sou criatura de hábitos e continuo a pendurar ervas
na parede branca para meus chás.
E continuo a bordar monogramas
como nômade dentro do seu nome…

rabisquei em vários idiomas
a sua mão na porta…  
aqui dentro você é caminho
… que nunca acaba: princípio e fim
No coração que sente
Na alma que procura

Mariana Gouveia
Estrada para os domingos
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.