Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.
Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.
A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.
Mariana Gouveia Desvios para Atravessar os Quintais Scenarium Livros Artesanais
viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu
sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar
Tatuou a liberdade em asas
nas costas
viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas
e a vida se renovou em germinação.
a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.
Fiz o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno. O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam. Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão. Vi algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio ao chão. O cão late na folha seca que cai. Remexi nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve. Aprisiono desejos secretos. Rio sozinha dos pensamentos loucos. Refaço o roteiro do horóscopo. Alterno os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorei no poema que li. Havia coração em toda parte. Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Tropeço nas coisas que eu esqueci pela sala. O interruptor acende ao meu toque e a luz pálida ilumina lugares que prefiro não ver. As fotos estão dispostas em fila no móvel. Ao lado, a agenda esquecida pela manhã. Na geladeira, não há quase nada comível. Apenas um tomate que escapou da última salada, alguns biscoitos recheados e um iogurte com data de validade suspeita. A mente me leva para lugares onde eu gostaria de estar. A rua de cima e a casa com seus quintais floridos. Da janela, vejo vultos das folhas do hibiscus mutabilis que dançam a melodia noturna e brincam com a lua que desafia o equilíbrio da cortina. Não gosto desse espaço oco de solidão dentro de mim. Converso com os cachorros para evitar a sensação de vazio
que me atinge. Parecem tão solitários no sono de cada um que nem me ouvem. Abanam o rabo por instinto, sem despertar e continuam a sonhar com o mundo dos cães.
O chuveiro me chama para o banho.
A melodia da água caindo quase me acordou desse transe. Mas o silêncio dos cômodos e a ausência de sono nos meus olhos, tão abertos, esfregam na minha cara, o quanto essa casa estava cheia de vida, de gente, de presenças. Eu estou só — não sei se esquecida ou abandonada. Pela primeira vez, em não sei quantos anos, que a cama é só minha. Ao deitar ouço os sons dos meus ossos e das molas do colchão. Rangem em conjunto e depois se calam.
Tão angustiante. Pior é o som que vem lá de fora. Sirenes gritam à noite e eu sei que alguém se feriu na casa de cima.
As vozes se misturam em ofensas.
Conto carneiros, estrelas… agrido o travesseiro. Ouço o meu nome num tom sussurrante vindo lá de fora. Viro de lado. Canto canções de antigamente. Minha voz não é mais a mesma e se mistura a outras tantas. O sono não me pertence… É dos cachorros. Abro a janela e deixo a noite entrar, está tudo tão escuro. Ouço os pirilampos nos galhos, no quintal e lá longe, a lua se agiganta diante de mim.
Mariana Gouveia Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Cabia na verdade das coisas e era em qualquer dia o calendário das flores dentro de outra estação. Nas calçadas, o risco de giz levava a menina ao céu em seu pulo de amarelinha. Eu, que nunca mais havia ouvido os sinos da igreja dobrarem, refiz o gesto da oração. O médico redesenhou os calendários no quintal. O amor é esse gesto desenhado em corações ou pouso, quando a noite chega e a lua míngua no céu. O homem grande ratifica raridades nos caminhos dos guerreiros. A vida é esse rasgo na garganta enquanto a canção de Gadu entoa.
Mariana Gouveia Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros. Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser. Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu. Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.
Mariana Gouveia Sete Luas – Scenarium Plural Editora Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.
Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.
Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.
Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.
Feliz Dia dos Pais!
Te amo infinitamente! Mariana Gouveia Scenarium Livros Artesanais Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Havia um riso estranho no homem da esquina. …ele perguntou meu nome duas vezes E quis saber das horas. Recolhi as folhas que caíram do outono passado e molhei as flores na estação delas. Preparei o chá de frutas amargas para aliviar a tensão. Alguém na casa do lado… canta uma canção em alto e bom som. E a dor desafina em La Maior. Ouço uma voz entalada no grito enquanto eu recordo das promessas. …um corpo branco onde eu brincaria texturas e registraria minhas digitais. …uma boca em meus lábios para descer rio-pele adentro, Ser flor em mim.
…na febre teria o abraço como conforto Me amaria nas manhãs mornas e me traria a chuva. …uma praia de espuma onde só há rio – foi o que cantou nos versos de poemas – … e uma polaroid para fotos noturnas.
Me deu a lua todas as noites E o sol todos os dias. Depois os tomou de volta. Disse num-voz-sereno que traria de novo …quando a maresia acontecesse por lá.
Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar …derramado em conchas E quando não havia mais nada para prometer, …falou de amor nas palavras escritas de sempre. Entrelinhas, foi o que disse.
Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso …e não era eu atrás da polaroid – que não veio. O negativo em preto e branco derramou Flor.
Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela …me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros artesanais