Lunna Guedes

Alçar voo sobre as respostas guardadas

Gosto de novembro sendo seu… Acho que te esperava há tempos, para esse novembro seu. Assim como gosto do pássaro azul ser nosso. Sanhaço é o nome dele. Quando ele passou a fazer parte de nossas conversas, passei a chamá-lo de: azulzinho.

Acredita que ele fez um ninho em meu vaso? Nasceram três lindos pássaros azuizinhos. A mamãe passou a dominar a varanda. Tivemos de mudar a rota de sair da sala por causa dela. As manhãs foram barulhentas em um cri-cri até que o som deixou de ecoar no ninho-vaso e o quintal ganhou mais três aves serelepes a voar por aqui.

O calendário parece mais apressado nesse penúltimo mês do ano. As canções natalinas começaram a tocar nas rádios e as lojas espalham em vitrines o vermelho e branco. Confesso que não gosto mais desse alvoroço. E nem sei dizer se gostei algum dia.

O calor abafado mais uma vez faz com que eu abra os braços para o vento, que derruba as folhas no chão, enquanto os pássaros voam por aqui.

Mariana Gouveia

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6 on 6 – Nossa casa.

Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
– apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

Bambina mia,

Já é dia 6 de novo e agora, de outubro. A primavera que plantei na parte lateral da casa floriu. Não sei se ela resisti os 40º que acontece aqui. Nesse mês, tenho que te falar sobre nossa casa. Minha-sua-nossa porque é assim que sinto meu lugar para além dos muros, da rua de cima e o seu quintal aí, parte nosso…

Lembra-se do “nosso” azulzinho? Pois bem! Ele veio fazer do meu vaso de trevos a casa dele. Aí, com você aconteceu isso também – lembro-me bem. Mudei até a rota de meu caminhar pela varanda, até que ele esteja pronto e suas crias também para mudarem de lugar, já que o quintal tem espaço mais do que suficiente para eles.

E não é que ele serviu de exemplo para o sabiá laranjeira – que tem até uma “piscina” no meu quintal, agora tem também um ninho no telhado da varanda. Quase não percebi, a não ser pelo vai e vem dele aqui dentro. Não é que minha casa se transformou em nossa casa mesmo?

Acho que esse é um dos meus lugares daqui de casa. No fim do dia, minha casa mesmo é o quintal e a varanda é a porta para ele.

É nesse canto que posso ver o céu e suas nuances de fim do dia. E parece que o céu pegou fogo mesmo, tamanho o calor que faz aqui. Tive poucas casas na vida. Uma de pau a pique, quando eu ainda era criança e o quintal era uma fazenda inteira. Depois, quando mudamos para a cidade, uma casa de calçada alta, de onde eu via a TV pela janela da vizinha. Outras, foram apenas morada. Um lugar de paragem, porque havia outro lugar para ir.

Nessa casa – que te ofereço como sua também me possui há mais de três décadas. Cada canto desse lugar conhece minhas alegrias, meus pensamentos, minhas dores e meus tormentos. Em tantos momentos, o quintal me abraça. Em outros, o quarto me acalanta… A varanda me liberta nas tardes de café feito na hora e o pão de queijo assado. É um lugar de ninho, de nascimentos, de jardins, voos e pousos. E de portas abertas sempre. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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6 on 6 – Fui por ai (viagens)

Da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé

Isabel Mendes Ferreira

Bambina mia,

Fui por aí, bem logo depois que o vento faz a curva rever meu povo e meu lugar. Ainda é inverno nesse calor que transformou tudo por aqui em uma única palavra: insuportável. Fui intimada a comparecer aos instantes de felicidade de minha sobrinha e confesso que depois que desci do ônibus, pouco antes da porteira, as memórias me levaram tempo adentro. O campo de canola, antes de mostrar a beleza amarela, que me lembra as tardes de agosto no lado direito após a cerca me atrai pelo cheiro. O amarelo me lembrou a baba do cachorro doido atrás da cerca…

Do outro lado, bambina… o manto branco – em rolos embalados para entregas – se impõe. Houve um tempo em que a gente colhia tudo na mão. O balaio que mal conseguíamos carregar ia se enchendo de plumas… parece que ainda ouço a voz do irmão que já não está mais aqui a orientar as fileiras. Para mim, parecia que a terra estava de noiva, tal qual Juliana ficará mais tarde.

À primeira vista, após abrir a porteira o olho alcança o gado sendo aboiado. Sabia que meu pai aboiava o gado entre um pasto e outro com os olhos de quem domava aquele mundo? A falta dele é perceptível em cada canto desse lugar. O engraçado é que ele sempre achava que tudo pararia se ele não estivesse ali, em cima do Azuleiro – seu cavalo de estimação – com seu berrante e o êêê boi – e não parou, bambina. A engenhoca continua igual… tudo roda como se ele estivesse ali, dando ordens e indicando direções.

Ele é quase uma sombra entre os peões e os gestos deles são os mesmos que ele fazia… quase o vi ali, entre a poeira e o gado indo para o curral. Acho que é isso que chamam de saudade, amore… o que sinto agora vendo de tão perto, com os sentidos aguçados nos cheiros da terra pisada e nas lembranças que invadem meus pensamentos dentro da minha história. Ainda em um ontem, eu era a menina na garupa do alazão a aboiar junto ao peito dele.

Sem falar no Chuim – o boder collie que nasceu logo depois da cerca, ao lado do curral – que parece sentir minha chegada e me espera no triiero, como se eu nunca tivesse partido. Como se os dezessete anos dele não fizessem a menor diferença desde quando o peguei no colo pela primeira vez. Sempre perto a me acompanhar nos campos, atento a qualquer barulho. E a cada volta minha age como se eu nuca tivesse ido, como se ele soubesse que eu faço parte do lugar, assim como ele, que já deixa seus filhotes tão iguais a ele.

Não fosse por tudo dito antes, o cheiro da cozinha me carrega ao colo de mãe… dos quitutes feitos ali, pela senhora sorridente de sempre, que me viu crescer naquelas paragens… que acompanhava meus movimentos à beira de um fogão de lenha… A viagem era para o casamento da minha sobrinha e o meu lugar voltou no tempo, nos arranjos debaixo da velha árvore que nos viu crescer. Porém, eu viajei nas lembranças. Na falta dos que não estão mais aqui. Das coisas miúdas que mesmo se colocasse mil fotos não traduziria o sentimento que senti.
Fui ali, bambina, para abraçar os meus, em uma viagem feita dentro da minha saudade.

Volto em breve.
Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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Conversas aleatórias com o sol.

Último dia.

Eu era o seu lado obscuro do sol e em
noites frias cantava o vento na janela
chamando seu nome.
Criava seus instantes de favor… na tarde
em que a solidão batia na sua porta.
Por muitos anos desenhei as estações
em seus diários. Mas, um dia, a saudade
foi se tornando memória esquecida
no baú e nunca mais chamei seu nome de amor.

Mariana Gouveia
Publicado no Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 5.

Classificado


Vendo pedaços de sol no quintal.
Para além do dourado, o aroma de mel
exala em cada micro botão.

Aceito (apenas) poesia
Como pagamento

Não insista em parcelamentos,
Apenas pagamento à vista!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 4

O olho de brincar com miudezas
descobriu o sol em uma noite escura.
Escrevi cartas que nunca irei enviar.
Quando a solidão insiste em um
nome – o dela – deixo – a ir…

A vida me espia no tempo de agora.

Trago cargas pesadas demais nas mãos.
(ela precisa de leveza no ar) Leio a sorte
nas asas para desafiar o destino. Em
alguma estação o coração fica quieto
com medo de parar.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 3.

Pareço vestida de sol… me lembra as
nuvens flamejantes e em meu diálogo
com você, fazendo tão solar minhas
flores, e o pássaro de todo dia me espiam
com olhos estranhos… se pudesse falar,
diria que a menina que vive em mim
carrega nas mãos uma xícara de chá de alecrim
e com isso, a magia acontecesse
dentro do raio de sol na beira do muro.
Os pássaros buscam os frutos da jurubeba e jogam no chão, enquanto as
hortênsias azuis me lembram o mar…
– que nunca vi. Há momentos em que o meu coração é um Sol – dentro
do peito – e como arde.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 1.

Antes mesmo que você apareça dentro do quadrante do meu quintal, já sinto sua presença – como um abraço quente e silencioso.
Você chega com uma calma
incandescente, atravessando as folhas,
desenhando sombras e revelando segredos que só a luz pode contar.

Seus raios dourados dançam sobre a
grama e enquanto sigo com meus
pensamentos, você brinca de aquecer
a pele, como quem diz que o hoje é
precioso… não há tempo a perder.

Enquanto você caminha lentamente para
o horizonte… deixo um último pensamento: “Até amanhã.

Sinto que você responde, num sussurro de luz: “Sempre.”

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol Todo Dia
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – Tantas

Ph: Kenp

Quis ser livre e foi…
Criou a estratégia
                de fazer nuvens
                       em dias ensolarados.


Sabia o sabor da boca
              e o verbo exagerado
em qualquer pretérito
        que quisesse conjugar

Os dedos livres
                         para sentidos
antes proibidos.

Entregou-se
sem se dar por completa –
porque sabia
que carregava um pouco
das trevas     

                          das Outras

Mas ainda assim
quis ser múltipla.

Tantas

Podia escorrer-se
como se a nuvem

                      estivesse cheia
                  … e desaguou.

Podia tocar-se
e como se fosse nuvem
feita de algodão…
sentiu a plenitude
da leveza.


Foi ser mulher plena,
entregue
e única.

Dentro de si.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Mulher de Nuvem e Projeto 365
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – O mapa a desenhar as partes dos atlas.

Ph: Pinterest

Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 13
Scenarium Livros Artesanais