Afetos · Colcha de Retalhos · Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Caminhos literários.

Bambina mia,

Dizem que os livros são janelas para novas dimensões… e acho que essas novas dimensões nos levam para caminhos desconhecidos e pessoas que se aconchegam em nossas palavras… os meus livros seguiram caminhos feitos por tanta gente que resolvi te contar. Uns, voaram além mar e foram pousar em Portugal.

Ana Christelo, em Povoa de Varzim, Portugal.

Eu sempre desejei que minhas palavras ganhassem o mundo e que de alguma forma elas pudessem tocar os corações das pessoas. Daí, surgiu você e tuo menino em meus caminhos e deram vazão ao meu sonho. A cada mensagem que eu recebia de alguém que havia lido algo que eu escrevi era como se aquela menina que sempre quis ser contadora de histórias renascesse de novo dentro do mesmo sonho.

Foto feita pela Sandra Silva, em Porto, Portugal

Sabe, atravessar o oceano e caber nas mãos de alguém que a gente gosta e fazer com nossas palavras sintetizem o sentimento para além da poesia é algo magnífico. Devo colocar a culpa em você, que transformou as minhas palavras em livros? Que fez com que meus caminhos literários cruzassem o mundo?

Fotografia envida por Sandra Silva, de Paris

Estar ali, ao alcance das mãos, em uma estante mundo afora, junto com os outros livros preferidos de um leitor é tudo que alguém que escreve sonha. E a gente sabe, e já falamos muito sobre como é difícil enviar livros para fora do Brasil. Uma editora independente, então, fica inviável. Mas, quando de alguma forma isso se torna possível é lindo!

Fotografia enviada por Eduardo Moreira, Meda, Portugal.

Pena, bambina mia que sejam apenas seis fotos… e além de voarem para além dos oceanos, eles também couberam nas mãos e no coração de tanta gente aqui que nem cabem nas fotos. E claro que meus diversos caminhos e desvios atravessaram sentimentos dentro da poesia vivida e sentida.

Cinara Thaís, Cuiabá, MT

Falar sobre quem caminha com a gente através de um livro é como se a gente atravessasse a janela para a nova dimensão que citei lá no início dessa missiva. Algumas pessoas nos sabem tão bem que é como se já tivéssemos nos encontrado em algum canto de esquina, uma rua em um país distante, numa livraria… outras, passam a nos saber pela poesia, pelas cartas, pela história que contamos.

Suzana Martins, São Bernardo do Campo, SP.

Eu ficaria horas aqui, bambina, falando sobre livros, sobre pessoas que nos levam além de palavras e no cuore… Mas, ainda estou limitada às dores e o que me cabe aqui é agradecer… À você e ao tuo menino que voou para a imensidão, mas que deixou em mim um carinho do tamanho da saudade que sinto dele. Se meus livros ganharam vida além das folhas em papel e chegaram em tantas mãos mundo afora, as mãos dele e as tuas fizeram com arte o sonho se tornar realidade.

Grazie! Amo tu imenso!
Bacio

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta no seu espaço lunar e a vida ganhou pouso nas mãos. A metamorfose aconteceu diante dos olhos e a asa desdobrou ganhando a palavra liberdade.

O dia provoca lembranças de datas que queria esquecer. O calor não deixa espaço seguro.

Atravessa as horas dentro do limite do tempo. Ainda era ontem outro dia e o dia outra estação.

Releu as cartas escritas, desenhou com linhas o projeto solidário e ajeitou as rosas no jardim. Podou as folhas extras que pendiam para o quintal do vizinho, transportou sementes germinadas para seus lugares definitivos e foi ali, viver a vida.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Doida de lua

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses, efeitos solares
em sua melhor noite

inverteram o céu
tão lunar ela era
apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Encanto

Se sentiu a moça mais linda do planeta. Vestiu aquela alma que ganhou de presente.
Havia flores em tudo quanto é parte. E aqueles caminhos do país que sempre quis visitar, estava lá.
Foi levada pela mão e no coração. Conheceu cada cantinho… e ela era parte da paisagem como se sempre tivesse morado ali.
A paixão visitava o jardim em delírio de flor.
Havia cartazes de felicidade em todo tempo e os corações sorriam para fora do corpo.
A canção que falava de lua refletia na palavra amor.

E ela não sabia mais onde derramar tanto encanto.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

” eu uso os poemas para saber…”

A neblina esconde as flores que nascem.

Da esquina, se vê apenas a solidão. Um gato no muro, um pássaro na árvore que ainda não amanheceu…

O vento faz com que o frio pareça mais do que está.

O homem da reciclagem com seu gorro de sempre – faça frio ou calor – com o emblema do time preferido, a empurrar a carroça cheia de garrafas pet e a melodia de todo dia a ecoar nas ruas do meu lugar.

Ele cantava a vontade de voar e de quanto as ruas o enchia de paz…

” eu uso os poemas para saber…”

e a folha que caiu tudo no dia seguinte era galho seco hoje…

A garoa dançava na luz difusa do poste e a lua era apenas um risco no céu. Enquanto todo mundo prevenia a liberdade de ontem e acreditava na injustiça de amanhã, eu apenas caminhava contra o vento e o frio.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Há dias…

em que acontecem milagres – aquele mesmo que o homem de ontem buscava e ria do destino brusco de ser leve – e que aparecia escrito no envelope pardo nas mãos.

E que depois disso contava histórias de imensidão de rios onde se perdiam nas ribanceiras onde nas margens os pássaros cantavam rotinas de florestas de histórias de ler… e as cachoeiras cantavam o chuá, chuá e as aves eram parte do cenário que ficou guardado…

Há dias em que alguém chora de dor e conjuga os verbos no passado, só para respirar o ar que falta e as canções gravam na mente o instante simplificado no refrão.
(chuá… chuá…)

Há dias em que sonhos se realizam e as testemunhas registram momentos que a memória desenhará para o resto dos dias e será contados em cada reunião que mais de um se lembrará e confirmará presença e a pergunta ecoará: você se lembra?

As gaiolas se abrirão e o que era preso voou… e as cartas eram escritas no modo antigo, e os envelopes decorados com cores que celebrava a amizade.

Os corações, nesses dias, se encherão de esperança e os corredores ganharão as cores da cura e a ave verá na poça da chuva um rio fácil de atravessar.

Haverá dias assim. Houve.

Hoje.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Conheci uma menina que andava descalça,

Ph: Howard Schatz

e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava.
Levava a correnteza no sentido dos dedos,
e fazia o vento desmaiar nas margens
onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto
– Onde oásis era miragem mesmo –
e a flor que brotava desenhava
espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia
e nas noites de insônia colecionava a saudade
subversiva de amar.
Cantava canções de mar…

Declarava poesia de rio
e repentinamente desavisava o redemoinho de vento.
Criava casulos para se renovar.
Era mão para pouso,
ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…
Sabia da necessidade de sentir,
mas mudava a metamorfose de viver.


Mariana Gouveia
Das coisas breves

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Dia do Livro.

Hoje – dizem – é o dia mundial do livro. Para mim, o livro vai além dos dias. Estou lendo pela quarta vez Vermelho por dentro, de Lunna Guedes.

É um livro que tira seu fôlego e te embriaga já nas primeiras linhas. Depois, você vai sorvendo aos poucos a escrita de Lunna.

Quando eu comecei a escrever eu só queria ser lida, contar histórias… O livro nos leva para onde a gente quiser.

Viva o livro! Viva Vermelho por dentro!

Se tiver interesse, clica aqui e se delicie com os livros da Scenarium Livros Artesanais.

ele espera pelo último minuto e, com sua voz de menino-homem, diz em seu ouvido – ‘passa o resto da sua vida comigo?’
E nada mais teve importância.
A tarde caiu e o sol adormeceu no poente.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O fio é tênue e imprevisível. 

O encantamento começa com a magia da manhã. Vasculho os instantes no quintal e a memória busca o tempo que acabou. Nada dura para sempre e nem o encantamento permanece o mesmo diante das coisas.

Havia o tempo certo para o pouso da asa e a mania de querer pousar. Toda passagem tem o exato momento para acontecer.

O fio é tênue e imprevisível e rompe quando o sentimento muda de lugar.

Cantei canções de outros tempos, podei as plantas e preservei a morada dos que moram na árvore do canto. Refiz os espaços do jardim…Refiz os espaços dentro de mim. Hora de recomeçar.

Mariana Gouveia