O menino da rua de cima quis conhecer a ave de todo dia. Falou do passarinho como se fala de Deus. Nos olhos dele havia a fé. Não pude falar do dia triste de ontem, nem da incerteza de hoje… Fiquei ali, a beber a fé no olho do menino que nas tardes serenas empina pipa na minha rua. Já o espiei várias vezes pelo canto do muro, em algumas tardes… O olho fixado no céu, a mão a dominar a linha contra o vento… Ele nem sabe disso, mas foi ali que descobri que Deus brinca de passarinho no meu quintal.
Era oblíqua a lua, em seu estado vagaroso, seu olhar transversal em um céu nublado, sem nuvens, e atravessa a janela lateral da rua de cima. O búzio que me traz o sol na escuridão da noite. O vulto que vagueia nas sombras desenhadas pelas mãos. A previsão dentro das rotinas de vento e o intempestivo jeito de amar dos bichos. A gente fala das palavras de solidão e a canção busca na memória o revival dos contos lindos da infância. As coisas miúdas estampadas na parede… O segredo, um ovo feito no estuque para guardar bilhetes. A ladainha da velha da esquina a repetir o mantra. Quase era tudo, um nada no telhado e a ave gigante lembrava uma história que alguém contou e eu não vivi. A saudade ladeira abaixo empunhando os gritos. Os caminhos que levam para outros cômodos. A porta dava para além dos quintais e muros que, logo ali, davam de encontro ao riacho. A vida é esse ciclo de memórias e vivências. O amor, é esse estágio branco escondido nas asas atrás da porta e que bebe água do rio, que sempre deságua no mar.
Visitava a sala depois de olhar cada canto, aposento abandonado pela saudade… precisava aspirar ela no quintal. Olhou céu, o dia coloria as flores… dentro dela germinava asas… pariu borboleta em um idioma que não era o seu. De noite, a situação era de sonho. o céu gemia dentro dela e as estrelas agitava seu interior. Calma aparente de quem ama. Depois que amanhece, asa feita, retrato na parede e ali, todo dia, quando ainda era madrugada fazia reza para ela Ave, borboleta!
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades, Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite Scenarium Livros Artesanais
Havia jeito de asa para o lado do Sul a maré previu a fase da lua e a maresia invadiu meu quintal eu era só teu olho diante da janela a tarde tinha a brisa tinha gesto Guardei o meu amor em palavras escrevi seu endereço no voo do pássaro e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem. Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças. Era assim a vida na docilidade das coisas.
Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.
Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor. Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar. Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão. A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave. Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar. Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito. É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e dos búzios que leem minha sorte aqui… isso me leva para junto dela. Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui. A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram. Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela
Costurava a certeza das coisas dentro da memória. O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância. Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos. O cão a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal. O riso manso a festejar estripulias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.
[Os gritos vem de janelas fechadas] Há alguns pássaros que não voam… um, se isola na diferença da cor. Então, o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança – fala da história da menina muda que nunca canta mas que tem a música nos olhos. Por enquanto, para mim ela é só silêncio.
Seu nome derrete em minha boca e o pássaro chega arrastando a tarde. A vida, é lá fora – alguém dizia – a vida é. Rasguei todas as lembranças de outrora. Pintei o muro da cor azul. Havia tanto céu no seu mar que quase naveguei. A esperança mora em dias vazios e longos. A asa atravessa o vento e a mesa das rotinas trazem o horóscopo de ontem. É preciso esperar a próxima lua. É justamente nessa fase lunar que as marés favorecem o amor. Tivesse eu asas, hoje, voaria.