Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Uma carta para Corine

Darling,

Às vezes, a noite é esse eco devastador dentro do peito. Você, por acaso, se lembraria de mim? É uma pergunta que me faço todas as noites para no minuto seguinte imaginar se outra pessoa teria cruzado o seu caminho e descoberto a joia rara que você é. Não é impossível…

Enquanto te escrevo de meus aposentos, ouço a mesma canção que toquei em sua casa. Cole Porter nunca mais foi o mesmo para mim. Cada vez que consigo um instante para me sentar ao piano… a única memória que atraca em meu corpo é a sua, ali, com as pernas cruzadas… e a abertura do vestido me fazendo sentir tal qual um adolescente — ansioso pela primeira vez. 

Enquanto o som do piano enchia a sala. Vi em seus olhos o encantamento… não sei se foi pela canção ou pelo mesmo entusiasmo que eu. Só sei que ali, pareceu que nossas almas se uniram e uma espera teve fim para que outra se iniciasse. Não é sempre assim?

Depois daquela noite, meus compromissos me levaram vida afora e o Brasil ficou distante geograficamente — mas tão perto de mim nas lembranças. Antes do embarque, quase desisti. Um homem não pode fugir a compromissos firmados, minha querida. Eu cresci com essa frase espetada em meus ouvidos, em diferentes idiomas. Fui lembrado do meu lugar no mundo, em meu país. Tudo foi traçado no exato instante em que eu fui concebido. Nada fugiu ao discurso até aqui, apenas o coração, querida, que não aceitou o enredo. 

Eu prometi que voltaria e o farei em algum momento. Ainda que seja para lhe rever uma última vez, como naquele filme em preto e branco, antigo, que tanto gostas. Será que pensa em mim quando os personagens se encontram e se apaixonam à primeira vista? 

...

Oh, my dear, o gosto do vinho em sua boca embriagou a minha alma e eu, logo eu, que sempre fui tão livre de amar, me vi — em poucos dias — enlouquecendo nas noites. Imaginando você nos braços de outros. Essa é uma das torturas que pratico todas as noites. Imaginá-la em outros braços, com movimentos de pernas, quadris. A maneira como os olhos de outro homem a devoram — silenciosos. As mãos tateiam sua pele aquecida. E o que era imaginação vira lembrança e eu bebo tudo junto como um gin tônica.

Não sei se ainda me espera! Se a sua solidão, depois que amanhece, é a mesma minha. Que face seus espelhos revelam quando você se reflete neles? Que pensamentos ocupam o seu coração antes de dormir? Será que se lembra de nós dois em cada amanhecer? O meu cheiro ainda se mistura ao seu, entre lençóis? 

Já estive em cada canto desse universo depois de tê-la e, em cada um desses lugares, vi alguém parecido com você. Cheguei a abordar uma moça pelo braço — coitada! —pensando tê-la reencontrado. Em Paris, persegui uma bela Mulher, elegantemente vestida. Tinha o seu caminhar seguro e ousado. Mas, não era você. Poderia ser, porque a gente nunca sabe quando o destino irá nos surpreender (de novo). 

Eu tentei outros amores, minha querida. Mas, ninguém conseguiu preencher certos espaços. E eu não consegui salvar nenhuma nação. Os planos foram desgastados — como você previu e eu fui murchando, desanimando um pouco mais. Tornei-me um homem diferente. Talvez esteja irreconhecível aos seus olhos, que viu o melhor de mim. Tanto vigor, paixão, planos. Hoje eu sou apenas alguém que finge, como o poeta português. Sou marido-pai, tenho uma coroa que pesa horrores e atribuições pensadas para o bem de alguns, sempre os mesmos, minha querida. Não tenho paz. O mundo está caótico e as delicadezas só me absorvem nas canções… em muitas noites, acordo em sobressalto pensando que é você para além do jardim. 

Já passei por invernos rigorosos, verões abrasadores e primaveras quentes, em manhãs quase igual a que vivemos… porém, foi em um outono recente e sem cor que decidi escrever e dizer: estou voltando. Que a vida não tem graça depois que você cruzou o meu caminho. Os dias se tornaram comuns dentro de mim e eu preciso de sua luz. Quero alcançar a Lua que dorme em seu peito. 

Será que você abriria as portas de seus salões para mim? Me reconheceria? Seria eu, declarado Rei, também em teus domínios?

Seu súdito!

Mariana Gouveia
Carta publicada no projeto Coletivo Casa de Marimbondos
Scenarium Livros Artesanais

Colheita · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Semeadura

Lhe disseram que em noite de eclipse
Semear é quase fazer amor com a semente…
Buscou no calendário pela data certa
Mas o gozo chegou antes e a semente brotou…

Muitas vezes… duvidava
da cronologia da semente.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Costuro a palavra habitar no corpo,

como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro – uma válvula – que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho.

Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina.

Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus e sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.

Mariana Gouveia

Afetos · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Eclipse solar

Ph Jade Danielle Smith

Nisia surgiu por acaso. Era a vizinha da terceira casa da rua sem asfalto onde morei
por cinco anos. Eu, com os meus dezoito anos descobrindo a sexualidade e ela, saindo de um casamento violento, sedenta por
liberdade. Embora bem mais nova, parecia
que era o contrário.

Quando vi o sorriso dela pela primeira vez
— que nem era dirigido para mim — senti
que fui fisgada.

Um aceno, as boas-vindas e quando dei
por mim, estava adentrando a casa dela,
como se fosse minha.

Ficamos amigas e ficou impossível
ver uma sem a outra.

Como eu adorava ver o riso solto que
Nísia oferecia a todos e ela adorava
as minhas tranças.

A princípio a conversa foi sobre livros
— uma paixão em comum.

Mas não era a única:
vestidos, flores e comidas.

Eu adorava vê-la atrás do balcão de sua
cozinha de piso queimado vermelho,
preparando petiscos e servindo a minha boca,
com sua gentileza rotineira.

Com ela, aprendi tudo que sei a respeito de
vinhos. Foi depois de umas taças a mais que
nos surpreendemos tão próximas uma da
outra, com as mãos buscando pele
e revolvendo toques.

Nem eu e muito menos ela tinha experimentado
o feminino. Mas era como se conhecêssemos o
corpo uma da outra e soubesse por onde
avançar e como agir.

Não houve medo ou recusa.
Nós oferecemos aos caprichos…

Nísia tornou-se minha amante, mulher,
namorada e amiga. Tudo que queríamos era
estar uma com a outra, uma na outra
pelas horas dos dias, das noites e se o tempo
parasse, melhor ainda.

E como tudo começou em um rompante…
O fim seguiu pelo mesmo caminho…
como se fosse uma rua sem saída.

Eu me lembrava dela como se tudo que
experimentamos fosse um sonho. A realidade
não cabia dentro de tudo o que vivemos
naqueles dias.

Ela surgia com seu jeito de menina e aquele
andar esguio de quem aprende a se equilibrar
em saltos, cambaleando vez ou outra. Procurava
alguma coisa no meu armário. Tinha predileção
pelo soutien vermelho, que ficava perfeito em
seu corpo moreno.

Exibia-se para o espelho e enviesava o olhar
para se certificar de que eu estava ali,
a espiá-la.

Ela me olhava com fome de uma vida inteira.

Passava o dedo em minha boca. Dava ordens.
Eu cumpria. Aqui, bem aqui! — e ali…
Eu descobri o paraíso.

Bebia no ápice, meu gozo.
Andava de um lugar para o outro e o céu e
seu eclipse solar.

Éramos diurnas, feitas de sol… e para abrasar
o calor: a água…

O sabonete passeando pela pele. Ela ficava
quieta num canto e eu a falar e falar…
da estação preferia. A Primavera era ela…
Eu era o outono. A maneira como o sol ardia
lá fora. O halo ao redor do sol e eu ao redor
dela. Não sei se era sonho… parecia que era.

Eu via a Lua dar uma mordida no sol.
O eclipse para ela era poesia e eu era um
verso em sua boca.

Mas quem escrevia era eu…
E fiz dela um parágrafo inteiro.
O conflito que o conto pede.
O fio condutor de uma trama perfeita.
Um romance com começo e meio…

Ela era a protagonista e eu, a narradora.
Tudo na Primeira Pessoa… do nosso plural.

Cenas e mais cenas onde beijos lambem bocas
e a línguas passeiam pela pele. A lua a parir
mil estrelas dentro de mim. Grávida de nós
duas e um parto da soma dos iguais.

Estava no quintal da frente a olhar para o
céu, quando ela apareceu e acenou.
Prometeu voltar… e se foi.

Antes, deitou na minha boca um beijo
de até logo. O sabor que ficou… foi de adeus.

Na minha mão direita, uma flor — coisa de
música antiga que, vez ou outra,
me surpreendo cantarolando,
como se a nossa voz se misturasse de novo e
de novo e de novo… principalmente quando
passo pela rua de terra e olho na direção da
casa onde agora, residem outras pessoas.

Parece sonho… e talvez seja!

Mas, eu ainda tenho na boca o gosto do
beijo… e na pele o jeito do toque e na vontade,
a fome-sede e as minhas mãos a temperatura

dos nossos eclipses…

Mariana Gouveia
Amora – Coletivos de Contos Lésbicos
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Marielle, presente!

Da voz de uma menina, da minha e da sua voz.

Mariele,


fiquei buscando na memória a cronologia do tempo depois de sua morte e já contamos hoje seis anos.  Você ganhou nome de rua, de alameda, de avenida, de ala, de sala e seu rosto estampa coisas mundo afora – desde painéis, camisetas, grafites e uma pergunta ecoa: quem mandou te matar?

Sabe, devo te dizer que sua voz ainda ecoa nesse Brasil de injustiças e nesses anos sem respostas. E claro que nada te trará de volta. E vi no dia 8 de março agora, uma menina com um turbante na cabeça e dizia, na praça central da minha cidade que ela era uma Mariele e com o microfone da mão, disse que te levaria junto com ela onde quer que fosse.

Aquela menina disse que sua morte não seria em vão. Que ela ainda queria viver muito para te levar por aí, dentro do peito, na voz – ainda quase de adolescente – e enquanto eu seguia rua afora fiquei pensando o quanto você alcançou mesmo depois de sua morte.

É possível que aquela menina nunca havia ouvido falar sobre você antes de te matarem…  e ela estava ali, simbolicamente como mulher se vestindo de seus feitos e gritando a impunidade para os que tiraram sua voz. Ela e tantas outras meninas-jovens-mulheres falarão por você mundo afora.

Infelizmente, Marielle, a máxima de que nossa justiça é cega se confirma com esses seis anos de perguntas sem respostas. Quem mandou te matar e porquê? A quem interessava calar sua voz de forma tão brutal? E quem ganhou com isso?

Hoje, essa data se tornou o símbolo de injustiça e é por isso que cada vez mais vamos nos juntar à voz de tantas meninas que se inspiram em você para dizer que você vive nas vozes de tantas mulheres que não te deixarão em silêncio. Falaremos por você sempre!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – escrito por uma dama

Bambina mia,

de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.

Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.

Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.

Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.

E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?

E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!

Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Participam deste ptojeto: Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Enigmas

Quem foi que descodificou o meu segredo
que era olhar-te atenta e quieta
e deixar-te escorrer nos dedos

canções a quatro mãos tocando
e o olhar inteiro derramando
você…

quem foi que te revelou o meu enigma
e trouxe até a mim e por estigma
desejo flutuantes de prazer

quem
conhece meus rumores e gemidos
palavras que diria ao teu ouvido
em laços de abraços em você
só por viver

para te ter…

se te tocar eu me derramo inteira
se me tocar sou sinfonia verdadeira
na melodia que o vento faz

então
eu quero mais é que descubra
e encontre o que guardei em minha boca rubra
que é o beijo que te dou de amor.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

*essas saudades que vais tendo, são as minhas

Querida minha,

Eu queria te contar que o quintal amanheceu cheio de flores e que o orai pro nobis floriu de novo, assim como o pé de ipê que dourou meu lugar.
Um tapete amarelo se formou no chão enquanto as vidas miúdas de revezam entre as flores.
Queria também contar que o céu está de um azul incrível e algumas nuvens curiosas se formam para além dos muros.
A vida aqui continua igual. As rotinas também. As canções mudaram em minha playlist. Ouço Gadu no repeat, músicas coreanas e canto junto com Ed Sheeran o Perfect só para reverenciar o quintal vestido de flor.
A máquina avisa que é hora de estender as roupas no varal enquanto as borboletas voam ao meu redor. Eu diria que é uma cena repetida, mas parece que é sempre a primeira vez. Estou com saudades como sempre.

Mariana Gouveia
*frase tirada do poema de  Cláudia R. Sampaio postada lá no Primeiramente

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

*Lilases

Ph; Tumblr

Na cadência dos teus abraços
Sou uma marionete dos Desejos

E me perco — mais de uma vez —
em teus Labirintos!

Uma peregrina
em tua pele branca

 A boca repete em idioma estrangeiro
quero-te… enquanto me despe.
Te encaro dentro da minha conjectura
— ilusão provocada
pela alta temperatura que vaporiza o teu corpo quando tento tocá-lo…

Mariana Gouveia
In, Liláses – o estado da pele
Scenarium Livros Artesanais


Colcha de Retalhos · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos

A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais
Você pode pedir o seu aqui