Afetos · Scenarium Livros Artesanais

O jardim aonde ela plantou corações.

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer. Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrossel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito. Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim… O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

Mariana Gouveia

 

 

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

As memórias são quase uma casa difícil de habitar.


Toda a vida tive esta sensação:

quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão

 e se ocupasse de mim.

Etty Hillesum

– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimenta. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.

Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.

–  Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.

–  Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.

– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar. Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.

– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.

Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.
– Mariana conta um, um conta Mariana…

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Seu tempo partido em outras infâncias.

É apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

— Henri Michaux —

A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias. Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e da pena por trás dela.
As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades.
—— ontem fez frio — anteontem choveu hoje amanheceu nublado — sonhei com você — queria ser eu a estar em suas mãos. Ele descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caiam da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia. Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro.

Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas pressentia que era um sonho tentando ser realidade… O coração acelerado, e as mãos suadas — apesar do frio. Quando cheguei à janela — sorri as minhas certezas de menina apaixonada. Lá estava ele… vestindo o sorriso que eu tinha imaginado no dia anterior — iluminando todo o rosto dele. Os olhos tão lindos, como dois faróis a iluminar a neblina, pouco antes do dia nascer, com os campos orvalhados e eu a procurar por rendas prateadas na mata. Eu quis morar uma vida inteira naquele momento. Se possível, morrer dentro dele. Mas sabe como é a eternidade? Acaba nu- me estalar de dedos.

No diário eu relatei tudo. Uma história de amor, para um dia virar livro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante. A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e levada de encontro aos lábios era um beijo carinhoso-único. No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cocegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro.

Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… Muitas palavras depois, a pequena aldeia fez festa para comemorar o primeiro amor que aconteceu bem ali, Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore. O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… O destino de uma Carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o Carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para a casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa, aprendia corte e costura, pintura artística… O primeiro amor se foi — lamentava toda vez que passava por lá, sem envelope para entregar…

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Afetos

Correr para onde, se é dentro o labirinto?

Ph: Nishe

 

“Correr para onde, se é dentro o labirinto?
[…] Talvez ela nem existisse
Talvez fosse mesmo o tempo que se avoluma inundando tudo, cobrindo, fechando
Logo mais teríamos notícias dos últimos acontecimentos
Os deuses exigem tanto e por isso decidi aquele mesmo dia, além de me amarrar ao mastro
Também cobriria de cera os ouvidos
As sereias e suas bocas pequenas abriam e fechavam
Ainda hoje não escuto nada e tudo é líquido e estrondoso
Todos os caminhos levam ao corpo.’”
Assionara Souza

 

O casarão abandonado da rua do Meio tinha essas cores pálidas de quem não vê tinta a muito tempo. As janelas largas e uma placa trazia os números 1772. Não dava para saber se era o ano das paredes feitas de adobo ou se era exatamente o que.  Como fui arrastada por ela, suas mãos me guiaram por entre as trepadeiras lilases, a curiosidade se juntou ao fascínio.

–  Nessa casa morou minha mãe, avó, bisavó e quem sabe algo que nunca sei se denomina trisavó.

–  Tem magia esse lugar – respirei enquanto ela enfiava a mão em um buraco e com jeito de quem sabia o que fazer abria a porta, que rangeu.

Havia uma cadeira velha, uma estante com livros e pó. Um espirro meu a fez me empurrar para um quarto que surgiu em minha frente entre o riso – e as covinhas se fizeram – e o pedido de desculpas. Parecia um outro lugar dentro de um lugar. Um espaço grande com cama, cadeiras, armários, cômodas e um vaso de flores miúdas a enfeitar o canto da penteadeira onde uma vitrola vermelha tocava algum disco antigo.

– Não precisa disso – falei, com os olhos a invadir o espaço – é apenas um espirro. Isso aqui é lindo! Apontei para um velho baú e como se fizesse um passe de mágica no ar ela abriu o baú e ali dentro, relicários de uma vida inteira, livros, lenços bordados, alguns sapatos antigos e envelopes de cartas e outras quinquilharias.

Parecia uma menina diante de um brinquedo. Os olhos reviravam em cada espaço e Amy tocou no celular. Era uma chamada qualquer que ela desligou de repente.

Era mesmo magia o novo e o velho ali, na minha frente. O antigo e o moderno. A cama, ao lado da janela, que levava as cortinas para o quintal cheio de folhas como se nunca tivesse sido limpo, e imaginei como um casarão abandonado guardava em seu interior aquele espaço.

–  Esse lugar é meu, mas depois da morte da minha família, fiquei sem condições de manter e estou tentando aos poucos reerguer. Já consegui ajeitar esse quarto e a cozinha. O resto, ainda leva tempo.

Aqui tem a história de cada um dos meus antepassados e me vejo em cada um deles. Encontrei livros de meu avô que fala de astrologia e em um rompante tirou a blusa branca e virou as costas onde um rastro de lua desenhava as fases de uma lua toda na pele…

– Era a capa do livro feito a mão pelo meu avo. É a minha melhor herança.

Ela desatou a discorrer sobre o que gostava e de como os efeitos das lembranças moravam dentro dela. A vida dera a ela mais do que queria e ali, era seu refúgio de alma.

Falamos de solidão, de poesia e do sistema solar. De arrepios na pele e de histórias de amor.

Não houve mais promessas de encontros melhores, mas ali, com a mão estendida para o abraço, as estações nos avisava de que a partir dali, todos os outros encontros seriam sempre melhores.

 Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sob o som de Amy

Ph: Laura Makabresku

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo. Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Templos


Em Cuiabá tem mil museus
E tanta igreja
Que por mais que a gente veja
Sobra uma pra espiar

Henrique e Claudinho

Bambina mia,

Daqui a dois dias minha cidade completa seus 307 anos… acho até que já te apresentei ela em fotos e textos várias vezes e também já te contei sobre os templos que temos aqui e os da região. Confesso que tive dificuldade em escolher qual foto usar para esse projeto. Há tantos templos que juro que pensei em mudar o rumo dessa carta. Poderia usar meu templo maior que é o meu quintal, o Pantanal, Chapada dos Guimarães e sua magia dos paredões que lembram de fato, grandes templos… mas as igrejas ganharam destaque em meu coração. Cuiabá tem tantas igrejas que sempre falta alguma para se ver. A impressão que tenho é que, mesmo morando aqui há 44 anos ainda não vi todas.


A Igreja de N.S. do Bom Despacho fica no alto de um morro no centro da cidade e já de longe é possível admirar sua bela arquitetura inspirada na Catedral de Notre Dame francesa, faz parte do lindo conjunto de igrejas históricas de Cuiabá. A lenda é que debaixo do morro que a acolhe fica uma jazida enorme de ouro. Fato nunca confirmado.

Não longe dali, no centro histórico a minha queridinha… A Igreja de São Benedito e do Rosário. Sua construção teve início em meados do século XVIII, por volta de 1730, sendo erguida por mãos negras escravizadas que, mesmo diante da opressão, encontraram no templo um espaço de esperança, devoção e preservação de suas tradições religiosas. A igreja foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, e a São Benedito, o santo negro símbolo de humildade e serviço. No dia do santo as ruas laterais se transformam em um salão de festa e devoção. Seu altar todo talhado em ouro encanta ainda mais os turistas e fiéis.

A igreja de Nossa Senhora Auxiliadora sempre me chamou a atenção por sua escadaria e sua cores noturnas. Durante muito tempo minha sala de trabalho ficava em um andar de um edifício voltado para ela e eu adorava quando o dia se encerrava e as luzes iam sendo ligadas e o sino me avisava a hora de ir embora. Era encantador ver as noivas se ajeitarem para entrar na igreja. Criada pelos salesianos tem ligação com um colégio que funciona ao lado.

Para além das ruas e igrejas de Cuiabá, precisamente na estrada para Chapada dos Guimarães, em uma das minhas viagens ao Parque Nacional da Chapada, me deparei com esse templo protestante erguido em 1958, dentro de uma fazenda, hoje patrimônio histórico tombado, se tornou uma Fundação Educacional que é jurisdicionada pelas Igrejas Presbiterianas de Cuiabá-MT, e pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Localizada dentro de uma fazenda – que pela Fundação se transformou em internato – fica majestosa ao lado dos paredões.

No coração do Pantanal mato-grossense, a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Poconé é um oásis de história e fé. Construída em 1781 com técnicas tradicionais usando óleo de babaçu na argamassa, esta joia do barroco brasileiro resistiu ao tempo e às cheias do rio Cuiabá. O interior é um espetáculo de cores: o altar-mor em estilo rococó contrasta com as paredes em azul colonial e os santos vestidos com roupas típicas pantaneiras. Durante a Festa do Rosário em outubro, a igreja vira palco da dança dos mascarados, tradição única que mistura fé e folclore. A visita combina perfeitamente com um passeio pelo centro histórico de Poconé, porta de entrada do Pantanal. Ao entardecer, quando os ipês ao redor florescem, o cenário fica ainda mais mágico. Nesse dia em que fotografei a igreja, só havia essa árvore que se chama Pingo de Ouro e seus cachos amarelos dourando a paisagem.

E as margens do Rio Cuiabá, no Distrito de Passagem da Conceição – em Várzea Grande, em um lugar bucólico que parece cena de novela está a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Confesso que só descobri esse lugar recentemente. Construída com adobe, a Capela apresenta características do final do século 19 com um estilo Colonial e molduras simples. Em 2001 foi considerada Patrimônio Histórico de Várzea Grande.

Sabe, bambina, vários templos ficaram de fora e penso que além da parte turística que envolve a natureza como Chapada dos Guimarães e o Pantanal Mato-grossense, também as igrejas em suas formas variadas e históricas também fazem parte de todo conjunto turístico de Mato Grosso. Estou te esperando aqui para te mostrar. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Antes começasse a amar o abandono

Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras

— Isabel Mendes Ferreira —

Ph: Pinterest

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias após a morte da minha mãe. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela pela casa, nas coisas. Mas a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo tinha o seu jeito, a maneira dela. E o jardim, no fundo da casa, parecia que ela havia passado por lá e plantado cada uma das flores e ervas.

Não éramos as únicas novidades da rua.

Duas casas depois da nossa Ana e Cristina se mudaram um dia depois de nós e pelo mesmo motivo. Gostei de Ana — foi amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida.

Ela era uma aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela. A casa delas era um sobrado e tinha um quarto que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, nos obrigou a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis — que um dia retratarei com mais detalhes — havia um baú enorme que também foi aberto por nós. Entre roupas, pequenos bibelôs e livros… encontramos um diário, que as meninas interessadas em tesouro não deram atenção. Dividiram os objetos encontrados entre elas.

Um sapato de verniz roxo que Ana calçou como se fosse uma princesa… E o diário foi colocado em minhas mãos pelas duas — como um presente. Foi naquele momento — com um tesouro em mãos — que desejei ser escritora para contar a história de amor que eu via acontecer bem à minha frente.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Os meus cadernos

Eu sempre adorei cadernos. Mas só fui ter acesso a eles depois dos meus doze anos. Os primeiros eram feitos de papel de pão ou de qualquer outro tipo de papel que chegava na fazenda e costurados na velha máquina Singer pela minha mãe.

Na primeira vez em que entrei em uma papelaria foi como se tivesse entrado em um mundo encantado. A papelaria/livraria/mercearia — a única na cidade — tinha uma prateleira destinada aos livros de faroeste, lápis, canetas e para os cadernos.

As capas traziam fotos de carros ou escudo de times de futebol. Meu pai tinha que comprar sete — o número dos filhos — e os escolhidos eram os mais simples.

O meu tinha na capa uma moça em uma faixa de pedestre que deixava o material escolar cair, um guarda a ajudava enquanto o carro freava. Ao fundo, uma cidade desconhecida com prédios modernos. Mas eu estava tão encantada com as folhas em branco, pronta para serem escritas que a capa era apenas um detalhe. Cada página tinha um valor estimado.

Naquela noite, o caderno-novo foi aconchego debaixo do travesseiro e nos dias seguintes os primeiros poemas – escritos nos cadernos improvisados — foram transportados para ele.

Cada vez que o meu pai ia para a cidade, gerava uma expectativa de qual seria o outro caderno que ele traria. Meus irmãos sempre pediam doces, ou outras coisas. E eu pedia outro caderno novo.

Gostava mais dos de capa dura, encapados com restos de tecidos que sobravam das costuras de minha mãe. Gostava de colar as figurinhas do Amar é… que o seu Tonico, o dono da papelaria, mandava para mim. Foi em um caderno de capa dura que iniciei meu primeiro diário… Mas isso, é uma outra história.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas

para além das variáveis do outono.

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.  Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala  pois as tuas raízes podem estragar a carpete. Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas. Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

Querida Perla,

em um dia desses, uma poeta, em conversa com uma bambina se confundiu com o dia que o calendário marca na folhinha a chegada do outono. Imagine você que a poeta sou e te explico a confusão.

O meu quintal havia amanhecido com as folhas a dançar no chão… era um balé bonito de se ver, com as folhas num vruumm, vrumm, crááás, crááás… e os galhos todos pelados, como se tivessem mesmo despidos. Era 20 de fevereiro e não fiquei atenta ao outono mesmo… só me encantei com a delícia do som das folhas a se espalharem no quintal.

Mas, conversando com nossa bambina percebi que a natureza ultrapassa as linhas invisíveis das estações. A primavera atravessa os desvios aqui em pleno verão, e os manacá da serra daí exalam suas belezas fora do tempo. Talvez, pelo meu lado poético eu diria que o tempo endoidou e o calendário já não segue mais certinho os equinócios e suas mudanças . É definido aqui, nos astros e terminologia que rege em meu lugar que o outono , o meu outono antecipou suas variáveis e o ipê desfolhou todinho… ainda em um ontem recente estava com suas flores temporãs amarelas a dourar o chão.

Então, deve ser por isso, que ao atravessar o quintal daí, onde nascem jabuticabas, pitangas, maracujás e helicônias, suculentas e flor de maio – que floresce em outros meses além do maio – que a amoreira esteja recebendo os ares do outono. Ele está bem aí, batendo a porta…

Vamos abrir a porta para ele?
Abraço carinhoso.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega