Das rotinas

era a terapia, uma vez

Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas… é tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.

Ela se anima enquanto detalho o dedal, as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.

A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.

Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e falo das lembranças que guardo sem querer…

Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, o mar

Ph: Tom Chmbers

De noite, voava como se tivesse asas e dependurava no teto – colados em ideogramas – os sonhos.
Voava como se fosse peixe, desenhado para voar…
e assim, ainda voava como se o mar fosse céu.
Voava como se fosse o instrutor da hidroginástica a fazer passos ouvindo “Glóriaa…”
Como se fosse ave, flor, voava. Muitas vezes, durante o silêncio da madrugada.
Em outras, era o céu que voava dentro dela.
Como se tivesse asas e pudesse plainar, pousava
feito a borboleta na mão…

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

uma data é uma data

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia. Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.
A vida fica instável na palavra cantada. Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza… Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente. Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia

Das rotinas

o amor tem a forma da dor

Ph: Aitor Frias & Cecília jiménez

Quatro da manhã e eu varrendo folhas enquanto a loucura faz barulho na alma. A garoa densa lembra o tempo da estação e o cacto inicia seu meio de desabrochar uma flor.

O grito de uma ave noturna abala o silêncio… Um cão ladra como se dissesse um código para o outro da rua de cima que responde em ressonância ao aviso

O que o moço da reciclagem faz uma hora dessa na rua catando garrafas pets, enquanto o frio corta a pele e ele canta a canção sertaneja que me faz lembrar da última carta que minha mãe escreveu?
Sirvo um café quente para aquecer as mãos na xícara e ele narra uma saudade gritante no peito de coisas que não viveu. Recicla versos dentro de uma canção imaginada e desperta a manhã fria que se aproxima envolvido no abraço… fala da mulher azul do seu passado e seus pés de bailarina e do cheiro de árvore que sente toda madrugada nas caminhadas rotineiras:

– isso de dor de amor, moça, é como ferida na pele… Até sara, mas fica a cicatriz.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era um vez, a cor

Ph; Ziqian Liu

Entre as nuvens e as estrelas
Clareia a pele com o efeito da dor.
Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço.
Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela,
o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.
Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.
E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a vez…

Ph: Katia Chausheva

Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre. A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas. Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos. Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada. O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso. Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a noite

ph: Jeanie Tomanek

É noite já. O rádio lembra o tempo passado. E o locutor detalha a programação do dia que passou – recordo a novela antiga que minha mãe gostava – e a previsão do tempo muda constantemente e eu espero a moça do tempo anunciar a mudança da estação. Júpiter hoje esteve próximo daqui. Consegui vê-lo logo além da linha do horizonte. Contei a miudeza das coisas e falei da árvore seca, vazia também de folhas e com jeito de ave a desenhar a noite em um inverno fingido. Preciso de uma noite menos fria em que não sinta a agonia de um dia a mais que morreu. O calendário que não tenho me apressa na rotina no silêncio das horas. É preciso dizer que as lembranças são marcas na pele e os minutos inventa o sono para eu atravessar a noite mais depressa.
A insônia povoa noites vazias… e a solidão acontece a céu aberto.

Havia aquela cidade famosa onde eu desenhava nas paredes os poemas e as flores tortas que a gente ia dividir na estação e os cheiros a invadir a noite. Era sempre noite quando eu viajava. As luzes a derramar as cores pelas ruas e as pessoas estranhas a cruzarem a avenida imaginária no meu quintal. Ouvia Bruna Carlile todas as noites, a janela aberta como agora, e o cruzar os pés um sobre o outro para que a noite voasse só para eu te encontrar em mais uma carta na manhã seguinte. Começavam então, precisamente aí, as noites menos escuras e as cartas escritas em noites vazias.

(Porque elas, as tais noites vazias é a forma das menos escuras e das cartas escritas em vão… e a tal música que ecoa é essa vontade de fugir para onde todas as coisas são possíveis)

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Era uma vez, a primeira vez.

Filho,

eu já te escrevi tantas cartas e para mim será sempre como se fosse a primeira vez… você fez isso comigo desde sempre. Me fez experimentar primeira vez em tantas coisas. A primeira vez que ouvi seu coraçãozinho bater foi como se eu estivesse ouvindo meu coração bater fora do peito.

Com o tempo, filho, as datas se tornam comuns. Qual a graça de se comemorar dia das mães com o filho longe? E eu, que já nem tenho minha mãe aqui, como comemoro? Dia das mães é todo dia e dia do filho se resume em horas, porque uma mãe pensa em seu filho ou filha em todas as horas – Será que comeu? Está com frio? Gripou? Tomou chuva? Chora por amor? Está se sentindo só? – e fica registrado na memória das mães o dia em que o filho nasceu.

Foi de você que ouvi pela primeira vez a palavra mãe… e depois disso, eu me tornei a mulher mais poderosa do mundo, capaz de enfrentar qualquer coisa por você. Infelizmente, esse super poder se limita quando a gente não consegue mais impedir que outras dores te machuque. E resta apenas oferecer o colo e rezar para que tudo passe logo.

Ainda temos muitas primeiras vezes para viver… e temos ainda que repetir mil vezes outros instantes. E no dicionário de mãe, filho vem sempre em primeiro lugar e é essa palavra que me abraça quando penso em você.

Obrigada por ter me escolhido ser cuidadora de você nessa vida. Tenho muito orgulho do homem que você se transformou. E o meu melhor presente é seu sorriso. Te amo imensamente!

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, os ninhos

o menino estranho do ônibus tinha olho de humano, quase para além dos deuses
queria defender a pátria – na camiseta a frase em outro idioma que não conseguiu traduzir – falava dos coletivos que aprendeu na escola e achava estranho ninhada não ser coletivo de ninhos – tão inocente o menino – percebeu a praça vazia de árvore

cortaram os galhos de onde pendiam os ninhos dos guachos
ficou o pássaro órfão de ninho, com os galhos no bico a procurar galho seguro – contou
reescrevi o poema enquanto na árvore nua a asa vazia de ninho

fizemos uma petição em favor das sementes que virariam árvores e as asas ganhariam ninhos para gerações futuras conhecerem o poder do voo
o menino estranho do ônibus ganhou voo quando desceu no mesmo ponto que eu
tinha olhos de deuses – quase humano – o menino que sonhava recuperar ninhos

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Minha vez de saudade.

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu. Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados. Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós. Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.
Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha
Mariana Gouveia