Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro estações
Scenarium Livros Aretsanais

infinitamente

Acontecia o dia do amor. 

A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

O impossível é só questão de opinião

Jean,

Dia desses eu sonhei com você e acordei com o som de sua voz ainda ecoando em mim. Você cantava sua música favorita e usava a boina de crochê colorida estilo Bob Marley que fiz para você.

Lembro-me que falávamos sobre tatuagens e você queria fazer uma… seria uma letra de música? Tribal? Ou um dragão? Confesso que não me lembro e perdi os anos desde que você se foi. Já são quase duas décadas e ver você em meu sonho me levou para dentro de nossas conversas. Seu time preferido já foi campeão tantas vezes e seus amigos quase todos já casaram. Alguns, ainda perguntam de você e contam as coisas que vocês viveram juntos em um sorriso gratificante de poder ter te conhecido.

Queria te dizer que sinto saudades de você e que alguns lugares daqui me lembram você. E você sabe que sua tia nunca vai te esquecer. Hoje, seria seu aniversário e me pergunto se além da terra e da fé que a gente vive será que ainda é aniversário para além de onde você vive? Alguns diriam que é impossível, mas como sua canção preferida diz: pra quem tem pensamento forte o impossível é só questão de opinião e eu prefiro acreditar que sim, para além dos sonhos e dentro de mim.

Essa é uma daquelas cartas que eu apenas escrevo, para continuar te mantendo dentro do meu carinho. E é assim que comemoro seu dia, mesmo que seja em meu coração.

Te amo,
sua tia,
Mariana

Das rotinas

A vida é uma poesia para ser vivida.

A solidão das horas veste o verbo do dia. Um homem conta na TV como abraçar uma árvore. Se emociona quando repete os gestos feitos há muito tempo.
A vida é uma poesia para ser vivida.
A sorte aparece descrita na folha. A expectativa da viagem anotada nos mapas…
No equilíbrio cronológico do dia bebe – se o néctar das flores.
Só há um único saber entre o plantio e a colheita.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Da geografia das coisas

Escrevo o roteiro da viagem dentro da poesia e coloco nome nas coisas de amor.
A canção repete em mim o gesto. O gosto de férias aproxima e a rotina ganha anotações diárias.

Faço listas, cumpro metas… Jogo fora lembranças que só aumentam a bagagem… Preparo sementes para jogar nas estradas. Refaço planos que tinha esquecido… Hoje, já posso quase tudo dos rituais. Varrer as folhas, aspirar as flores, beijar os cães – me imunizo das vontades todas. O sorvete de pistache a me contar sabores… Quase uma rusga de felicidade.
Houve mudança no tempo. A estação dá seus sinais na frieza do dia. O vento antecipa a queda da temperatura e a febre é só um presságio na ave que beija a flor.
Guardo os mapas, recrio instantes que ainda vou viver…

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas · infinitamente

Das sílabas feitas dentro do verbo amar…

Era uma vez e muitas vezes
Um homem que amava uma mulher 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher que amava um homem 
Era uma vez muitas vezes 
Uma mulher e um homem 
Que não amavam aquele e aquela que os amava. 

Era uma vez 
Talvez uma vez apenas 
Uma mulher e um homem que se amavam. 
 Robert Desnos

Amor,

às vezes, eu preciso voltar no tempo dentro do meu amor por você. É onde nos encantamos com o que vimos para além do céu, das flores, dos bichos e nas trocas de olhares. Um sabe tanto do outro, que em muitos momentos, as palavras perdem o significado.

Em outras vezes, te nomeio guardião de mim… de tantos momentos difíceis e de sua capacidade de entender meus medos, de admirar minhas coragens, de chorar junto nas minhas dores e de ser o amigo que me ouve nos desabafos.

Comemorar seu dia é repetir gratidão ao Universo pela bênção de te ter comigo, de dividirmos juntos uma história em sílabas feitas dentro do verbo amar.

Sabe, amor, em alguns dias eu revisito os passos que me levaram até você… e o que é bom é que, dentro de tantos momentos, tenho certeza de que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo de novo, para viver a mesma história de amor com você.

Te amo infinitamente,
Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

mais uma vez eu te escrevo e percebi que faz tempo que não nos falamos. O telefone, para você, se tornou obsoleto, porque você não ouve direito. É apenas a chamada de vídeo, os gestos e o riso de sempre lembrando que ainda me reconhece.

Sabe, pai, de vez em quando eu volto ao meu tempo de menina. Isso acontece quando eu acolho os bichos em minhas mãos. Você me dava coragem para acolher os bichos de asas… e depois disso, passei a ser escolhida por eles. Eu acho que sou parte deles, pai. É quase involuntário. Abro a mão e eles vêm e pousam. Tanta gente tem medo deles… eu tenho carinho, pai e nem sei bem se a palavra é essa.

Pai, o junho começa com seu dia e as lembranças do mês dos santos me faz ter nostalgia dos dias em que a gente ficava à beira da fogueira, as simpatias feitas em nome do santo casamenteiro. Os doces, os balões e as histórias. Sabe, pai, você me deixou um legado de histórias e sempre conto elas para um ou para outro para registrar essas coisas que ficam dentro de nós para sempre.

Escuta, pai, tenho as lembranças todas penduradas no porão… as fotografias guardadas em caixas antigas, com o cheiro de antigamente. É disso que vivo e dos dias em que lembro-me de você, tão presente na minha história. Apenas sou no mundo, pai e o mundo é em mim, e o tanto que isto é, por sua causa. E hoje, dentro desses dias e dessa representação, te ofereço minha mão pedindo benção, pai e feliz aniversário!

Te amo muito!
Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, a minha história

Abri as caixas todas – as de papelão, de chapéus, (que eram de meu pai) as de camisas – misturei as histórias todas. As minhas e as que me contaram.

O tempo mudou dentro da manhã. A estação desejou caber nas flores. A dimensão do voo sabia da vontade da asa.

A liberdade rabiscada nos muros. O moço da reciclagem coube no meu abraço. O céu abrigava a pipa do menino da rua de cima. Brincava de ser capitão do ar. Rodopiava em direção às nuvens enquanto a canção no rádio falava de amor. E ninguém voava. Os voos foram cancelados em intenção da dor.

A rotina ainda não se desenhou nos meus dias com exceção das aves que vagueiam por aqui e brigam com os cães pelo alimento que sobra. É quase tudo esse silêncio da alma. A vida medida em gotas e o corredor sem cor ostenta a solidão vazia no olhar das pessoas e a vontade é esse bater de asa no peito.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não foram entregues

Ph: Pinterest

Quando alguém jogava fora as cartas de amor
a janela sorria com o vento, efeito brisa nas cortinas.

o carteiro lamentava o dia em que não entregaria ao remetente, o amor.
e eu catava as folhas rua abaixo

nunca era o endereço certo nos envelopes.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Era uma vez, e o azul a espraiar vontades 

Adivinhou a sorte de um homem tranquilo. O vento a invadir a pele e o frio inquilino entrou devagar nos quartos onde a cortina dançava. O sol a desvendar mistérios atrás das nuvens.

Limpei o sol dentro das nuvens e um carrossel era brincadeira de criança dentro de um azulejo bordado. O espelho a esconder geometricamente a figura exposta dentro da solidão.

O perfil do instante marcado na folha que balança, na flor que se abre e o azul a espraiar vontade nos dias em que o relevo marca a digital.

Havia pegadas na terra fofa e o mapa feito para as ruas do norte e o azul a espraiar vontades e o dia acabando em solidão, enquanto a noite adormece dentro da flor… e o azul…ah, azul!

Mariana Gouveia