das coisas breves

dos dias em que o cão de alguém se vai

fico me perguntando se o céu dos cachorros tem sol – às vezes.

Pensou na trovoada de ontem. Fez a oração para o cão que partiu. A menina da esquina passará a ver com os olhos do coração. No horóscopo do dia o imprevisto pode mudar a rotina. Janeiro ecoa nos calendários das mesas. O silêncio hoje é opção de escolha. Logo ali, mora dentro do sol a esperança.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao Futuro

Ph: Pinterest

Querido Futuro,

Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram.
Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.

Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.

E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.

A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.

Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.

Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!

Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!

Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.

Até lá!
Mariana Gouveia
Carta publicada no livro Feliz Ano Velho
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para falar de saudades

Eudes,

vim te trazer flores e falar de saudades. Antes mesmo de levantar refiz os rituais que eu fazia nesse dia, antes de ir ao seu encontro. Ouvi mis uma vez Kiss The Rain e outras canções que você gostava.

Na minha imaginação, eu fui até seu encontro e te falei da saudade que você deixou aqui. Já conversei com você infinitas vezes durante o dia e resolvi te escrever mais uma vez como nos outros anos no seu aniversário.

No fim da tarde choveu lá pelos lados de onde você morava. Lembrei-me das chuvas que tomamos juntas e do quanto rimos com as tintas do cabelo escorrendo. Já te contei que nunca mais consegui atravessar a ponte? Sempre invento uma desculpa quando por algum motivo me chamam para ir até sua cidade.

Sei que um dia isso irá acontecer, mas por enquanto, dentro desses três anos de sua partida, acredito ainda na leveza de nossa amizade e do nosso carinho. O amor ultrapassa esses limites que nós humanos traçamos e ainda reverbera sua voz aqui: o amor é essa forma de você vir me ver todos os sábados – você dizia… para mim, era apenas as delícias dos momentos que vivemos juntas.

Não sei se aí onde está se comemora aniversários, mas para mim, esse será sempre seu dia e como você sempre me cobrava o presente, te trago a flor do nira que desabrochou aqui e perfuma meu quintal.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

das cartas que não enviei

Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.

Mariana Gouveia

das coisas breves

é inequívoca a data da saudade

Busquei o roteiro nas pequenas coisas e quando percebi o caminho já estava traçado. De um lado, para além dos muros os cães ladram.
Por outro, para além da paredes sem reboco a vida espreita na fragilidade do dia.
Soube histórias que ninguém me contou. Apenas ouvi, quase invasiva a fala de quem chora de saudade.

Mariana Gouveia

Alice - Uma Voz nas Pedras · Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Viagem literária

Para Mariana
Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você…
Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha.

Lunna

Bambina mia,

Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.

Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.

Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.

Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.

Para mim, o presente é para sempre

Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.

entre aspas


E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.

fecha aspas

E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.

Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.

Grazie Mille!
Amo tu, tu, tu imenso.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes –Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana

das coisas breves

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.
– passiflora – eu falei
e detalhei as cores na leveza do dia.

Não enxergo o movimento das cores…
– ela disse –
Enxerga com a alma as tonalidades da paixão de viver.

Eu peguei as mãos dela e desenhei estrelas.
Guiei-a nas linhas finas lilases, que como tentáculos, saem em círculos em volta da flor e a brancura esconde o perfume que suavemente exala.
Eu, dou riso aqui, pela simplicidade dela entender a paleta que desenho.
Ela, ri lá… por captar a essência que a paixão causa na alma

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas · infinitamente

Dos dias breves

Eudes,

A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje?
Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem.
Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas.
Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.

Te amo muito, até além.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Divã

A primeira vez em que o amarelo gerou a noite

O amarelo desbota na tarde quente. A árvore antecipa seu dourado antes do tempo. Cabia dimensões de estrelas na palma da mão. Ela quer falar sobre asas. Repete perguntas do ano passado. Distrai-se olhando pela janela. Eu falo do tempo lá fora.

Reconto as mesmas historias e ela acha graça – não se lembra do que contei – da borboleta e das rotas delas no meu quintal. O crepúsculo é logo ali e me perco no silêncio…

Aprendi a desenhar as fugas e respiro diante da tarde que se vai.
O relógio antecipa a partida e o vento carrega o amarelo para a noite.

Quem sabe, eu volte amanhã.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Momento Polaroid

Bambina mia,

Já é dezembro e tirando a gente nem se tocou… e enquanto eu buscava pormenores no meu quintal alguns instantes se transformavam em eternidade, como se fosse a fotografia antiga, sacudida entre sopros. Devo confessar que eu poderia escrever-descrever tantos momentos que foram captados no piscar do olho. Lembra-se quando eu te disse: Chiquinho abre as asas bem na minha frente? Pois bem, eu consegui registrar. Foi instantâneo e não houve chance para segunda foto.

O sanhaço – pássaro que temos um quê de história – vive roubando água adocicada de Chiquinho e em nossas conversas entre o sanhaço daí e o sanhaço daqui mostrou curiosidade como se pudesse ver o que você descrevia e ele ouvia no viva-voz. Parecia que a vida inteira passou naquele instante e em um suspiro meu ele olhou e voou.

Alguns momentos desse ano, bambina, sumiram da memória. Acho que os que deviam mesmo ser esquecidos. Outros, se transformaram em lembranças guardadas, como se estivessem em uma caixa de fotografias. As imagens, contando história. O papagaio de peito amarelo se coçando no meu varal de roupas é um desses que fica. Quase um poema, na doce ternura em que se apresenta.

Sabe, bambina, a geografia do meu quintal se desenha em mapas feitos de asas… seja de borboletas, libélulas, joaninhas e pássaros. De vez em quando ou quase sempre, falamos de pássaros e suas nuances e acho que hoje, vou conseguir emoldurar em instantes nossas conversas: os cambacicas brigam no bebedouro e o instante se mostra aos meus olhos e agora aos seus.

Quase nos vejo frente a frente enquanto te explico o nome do pássaro que se choca no espelho da porta e espera no varal que eu saia da varanda para tentar de novo. – É suiriri – repito o nome para entre risos entender que você não entende dos nomes de aves, só das maritacas que em alguns dias invadem sua árvore de estimação e do sanhaço azul que fez o ninho em seu vaso de orquídea..

Bambina mia, sabe que para cada mês desse semestre que se encerra, uma asa se interpôs em nossa conversa e são esses instantes de ternura que a emoção nos liga nos instantâneos que uma descreve para outra. Chiquinho faz fita com a flor do pé e assim, o meu quintal nunca se faz solitário, porque mesmo sem nunca ter pisado por aqui sua presença está sempre marcante nesses instantes mágicos.

Grazie Mille!
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi e Silvana