Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado Dava pulos no peito e voava para além das árvores. Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui… De vez. Acho que para sempre. Em alguns dias, como o de hoje, ele muda o nome para paixão, só para mudar a rotina dos batimentos dentro do peito.
Qual é esse tempo flagrado no momento do agora? Ainda ontem, eram só partidas. A vida esmiuçada como se buscasse um tesouro. Depois disso, as chegadas mostraram a rota de fuga. A lenda, revivida nos cantos do quintal. Cabia a incerteza nas certezas das coisas – eu sei que é contraditório – e algumas ilusões vem de quem nunca imaginou que podia fazer e fez.
Mariana Gouveia Alguns retratos imaginados na estante.
No dia em que uma aldeia chorou as perdas, o quintal emudeceu. Já era noite quando eu cheguei e abri os braços em oferenda do meu abraço. Lembrei -me do avô, tão guerreiro – tão frágil diante da dor. Lembrei -me da fragilidade da avó – tão menina – a se oferecer em troca para que os dela não sofressem. No dia em que o quintal ficou em silêncio, até às flores e o sino dos ventos ficaram em silêncio em respeito à aldeia que chorava saudades.
Havia um tempo em que o moço da reciclagem cantava nas madrugadas serenas enquanto a lua acompanhava a roda da carrocinha. As aves ficavam mudas diante do canto que falava de amor e as borboletas apenas faziam acontecer o ritmo enquanto beijavam as flores.
Um menino disse que as vitrolas cantam canções de amor… Tipo disco de vinil, fotos analógicas… Frases sem lógica… Enquanto ali, no canto do quintal, as borboletas ganham seu prazo final…
E o menino vira riso e acha que o paraíso é onde ele marca um gol… No sonho que sonhou…
eu era essa pessoa do dedo verde, mas tive alguém muito melhor que eu nesse quesito de plantar e tudo brotar… O meu irmão que voou há um mês e meio. Ele era tão quieto, mas tão quieto que o silencio fazia mais barulho que ele e ao mesmo tempo tão barulhento que o vento ecoava sopros por ele.
Enquanto a gente falava de partida definitiva, ele falava de vida, de flores, de brotas, de rebento – fosse de capim, de flores, de samambaias ou de gente – rebento é rebento – ele dizia. É vida!
Ele parecia um duende, um dos smurfs – só não era azul – era colorido. Ele não nasceu pra semente, porque era semente, Luci. A magia dele parecia que surgia da brisa, que se elevava em vento e de repente, ele era temporal… daqueles temporais que você queria estar dentro, Luci e em alguns momentos era chuva miúda… tipo garoa, que traz calma e você se aconchega na janela e pensa em uma xícara de chocolate ou chá.
Luci, já contei que ele era meu guardião? Um guardião que tinha medo de bruxa, da minha bá, de palavras que podiam ter diferentes significados, mas ele era tão valente, que enfrentou a morte… porque ele tinha o dedo verde para tudo que é coisa.
sabe o Midas, Luci que tudo que tocava virava ouro? Pois bem, meu Manoel em tudo que tocava ficava verde. A samambaia, as flores simples do quintal, a lantana e o pé de jurubeba… esse, floriu tanto no dia que ele morreu, que fiz conserva e tudo.
O meu irmão, Luci, era igual seu avô. Bobinho em situações inusitadas e muito sábio em outras. Das sementes dele que ficaram tem a Ju e o Felipe. Uma lindeza de família, de cães e uma amada que rega cada planta do quintal que ele limpava as ervas daninhas.
Hoje, meus dedos verdes, que se esbarram na flor que nasceu da semente que ele me deu tem a delicadeza do amor e do encanto. Essas vidinhas simples que me trazem ele todos os dias, nas mudas das flores que ele plantou no quintal da casa dele.
Talvez a mágica estivesse na vida dele, Luci, que é vida e para além de todas as ervas daninhas que o levaram, ainda deixou sementes aqui que vão brotar sempre, e mantê-lo vivo.
Entre as nuvens e as estrelas… Clareia a pele com o efeito da dor. Os cabelos ralos, diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço. Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela, o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência. Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem. Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor. As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo. O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão. E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.
Mudou a rotina dos dias… abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água. A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático. Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos. Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho. Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.
A semente era preparada meses antes do começo das chuvas… o cheiro ainda permanece nas lembranças… O café coado enquanto se prepara o arroz para plantar, o rádio ligado no programa favorito, a marcação do primeiro lote… tudo gerava a gestação do que nasceria tempos depois… Elas eram escolhidas a dedo pelo pai, que sabia exatamente qual lote seria usado no ano seguinte e assim por diante. O campo do capim dourado a aguardar as novas sementes e o capim colonião que logo iria virar pasto para o gado durante o período de seca e cama para os insetos que inevitavelmente viriam para ali. A grama verde a escoar gotas e abrir caminho durante a madrugada – que era a hora exata de sair para o campo para a plantação – e logo depois e depois os brotinhos iriam começar a aparecer e dali, do alto do morro, ver a natureza cumprindo seu destino de vida.
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades, Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite Scenarium Livros Artesanais