Escrevo-te nessa hora última. Explodiu um trovão ao longe e eu sorri para todos os ontens que trago na memória. as nuvens foram se avolumando. O dia acabou pouco antes das três. A chuva caiu sonora, lavando o asfalto da Alameda, quando eu ainda estava a escolher uma lembrança para degustar – como num jogo onde se move uma peça.
Escutei dentro…o badalar do sino da Catedral – um eco dos dias vividos em pequenas aldeias. As mulheres rezavam as seis em ponto… e as contas do rosário passeavam entre os dedos enrugados das mãos.
eu silenciava a minha voz e pensava na jogada seguinte, qual peça moveria: o bispo ou apenas um dos peões.
Por dentro, repetia versos malditos riscados na parede do meu corpo e me sentia feliz por pensar no inferno de Dante.
Dos bilhetes Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte Scenarium Livros Artesanais
Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele. A folha que cai enquanto o corpo treme. É preciso sobre(viver) dentro das estações.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros Artesanais
Nisia surgiu por acaso. Era a vizinha da terceira casa da rua sem asfalto onde morei por cinco anos. Eu, com os meus dezoito anos descobrindo a sexualidade e ela, saindo de um casamento violento, sedenta por liberdade. Embora bem mais nova, parecia que era o contrário.
Quando vi o sorriso dela pela primeira vez — que nem era dirigido para mim — senti que fui fisgada.
Um aceno, as boas-vindas e quando dei por mim, estava adentrando a casa dela, como se fosse minha.
Ficamos amigas e ficou impossível ver uma sem a outra.
Como eu adorava ver o riso solto que Nísia oferecia a todos e ela adorava as minhas tranças.
A princípio a conversa foi sobre livros — uma paixão em comum.
Mas não era a única: vestidos, flores e comidas.
Eu adorava vê-la atrás do balcão de sua cozinha de piso queimado vermelho, preparando petiscos e servindo a minha boca, com sua gentileza rotineira.
Com ela, aprendi tudo que sei a respeito de vinhos. Foi depois de umas taças a mais que nos surpreendemos tão próximas uma da outra, com as mãos buscando pele e revolvendo toques.
Nem eu e muito menos ela tinha experimentado o feminino. Mas era como se conhecêssemos o corpo uma da outra e soubesse por onde avançar e como agir.
Não houve medo ou recusa. Nós oferecemos aos caprichos…
Nísia tornou-se minha amante, mulher, namorada e amiga. Tudo que queríamos era estar uma com a outra, uma na outra pelas horas dos dias, das noites e se o tempo parasse, melhor ainda.
E como tudo começou em um rompante… O fim seguiu pelo mesmo caminho… como se fosse uma rua sem saída.
Eu me lembrava dela como se tudo que experimentamos fosse um sonho. A realidade não cabia dentro de tudo o que vivemos naqueles dias.
Ela surgia com seu jeito de menina e aquele andar esguio de quem aprende a se equilibrar em saltos, cambaleando vez ou outra. Procurava alguma coisa no meu armário. Tinha predileção pelo soutien vermelho, que ficava perfeito em seu corpo moreno.
Exibia-se para o espelho e enviesava o olhar para se certificar de que eu estava ali, a espiá-la.
Ela me olhava com fome de uma vida inteira.
Passava o dedo em minha boca. Dava ordens. Eu cumpria. Aqui, bem aqui! — e ali… Eu descobri o paraíso.
Bebia no ápice, meu gozo. Andava de um lugar para o outro e o céu e seu eclipse solar.
Éramos diurnas, feitas de sol… e para abrasar o calor: a água…
O sabonete passeando pela pele. Ela ficava quieta num canto e eu a falar e falar… da estação preferia. A Primavera era ela… Eu era o outono. A maneira como o sol ardia lá fora. O halo ao redor do sol e eu ao redor dela. Não sei se era sonho… parecia que era.
Eu via a Lua dar uma mordida no sol. O eclipse para ela era poesia e eu era um verso em sua boca.
Mas quem escrevia era eu… E fiz dela um parágrafo inteiro. O conflito que o conto pede. O fio condutor de uma trama perfeita. Um romance com começo e meio…
Ela era a protagonista e eu, a narradora. Tudo na Primeira Pessoa… do nosso plural.
Cenas e mais cenas onde beijos lambem bocas e a línguas passeiam pela pele. A lua a parir mil estrelas dentro de mim. Grávida de nós duas e um parto da soma dos iguais.
Estava no quintal da frente a olhar para o céu, quando ela apareceu e acenou. Prometeu voltar… e se foi.
Antes, deitou na minha boca um beijo de até logo. O sabor que ficou… foi de adeus.
Na minha mão direita, uma flor — coisa de música antiga que, vez ou outra, me surpreendo cantarolando, como se a nossa voz se misturasse de novo e de novo e de novo… principalmente quando passo pela rua de terra e olho na direção da casa onde agora, residem outras pessoas.
Parece sonho… e talvez seja!
Mas, eu ainda tenho na boca o gosto do beijo… e na pele o jeito do toque e na vontade, a fome-sede e as minhas mãos a temperatura
de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.
Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.
Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.
Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.
E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?
E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!
Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.
Na falta de água bebe das lembranças de outrora. Lembra do dragão que comia na palma da mão dela e da menina que descobriu as asas assim que lhe deram outro coração. Pensou na noite passada e da ventania que veio do sudoeste. Riu das lembranças se apagando e desejou que os espinhos do cacto seja a maior dor depois que ela se foi… Em algumas noites, o efeito é alucinógeno para quem tem sede e não tem água para beber.
Mariana Gouveia *título retirado do poema de Rui Nunes lá no Primeiramente
Eu o conheci através do rádio e juntos dizemos ao mesmo tempo a frase – a vida é tão curta, curta! – e rimos juntos sem conhecer direito um ao outro. Eu não sabia seu nome, mas sabia que era um dos responsáveis por cuidar da minha mãe. Já o havia visto algumas vezes no corredor do hospital e quando falei sobre isso a dureza da dor de ter perdido ela – à época – se transformou em leveza quando me contou sobre o quanto ela sentia sua poesia misturada às minhas.
Eu era uma menina de tranças, olhos sonhadores e palavras simples. Eu era a Lurdinha da Rádio A Voz do Oeste e você já era o Ivens, poeta, médico, cuidador, natureza e Cuiabano. falamos das formigas, das mangas, dos cajus e dos quintais. Das ruas e das estradinhas e de repente, você me fez igual ao olho do homem que vê a natureza tão única.
Fiz tantas perguntaiadas ao longo de outros encontros e como sempre esquecemos de registrar os momentos, mesmo depois do advento dos celulares. Entre uma exposição e outra, um lançamento e outro, uma realidade ou fantasia.
Seu riso largo abraçava antes do abraço e seu olhar nos desnudava diante de sua poesia. E lá estava eu, admirava te vendo imortal… lembro-me de que em meio ao abraço perguntei se imortal não morria e seu riso alcançou minha alma: vive para sempre em suas obras.
A cada encontro eu te perguntava e perguntava e você sempre entre risos dizia: que perguntaiada é essa? E hoje sou eu quem pergunto: quem consolará a solidão de sua ausência?
Sei que você sempre responde entre risos, mesmo que seja para além dos ventos, das asas dos pássaros e dos quintais: a poesia.
Que você seja sempre a poesia viva, moço, seu doutor! Obrigada por tanto ensinamento!
Escrevi no diário de ontem sobre a dor de uma mulher. Em silêncio, estendi minha mão para amparo. Ela pediu que eu contasse sobre coisas leves, de como o quintal amanheceu ontem. Falei sobre as flores que nascem ao acaso e de como a vida miúda se encaixa na história. Ela – tão miúda diante da vida – sorriu e ajustou o ombro e colocou a armadura de quem quer viver.
Eu queria te contar que o quintal amanheceu cheio de flores e que o orai pro nobis floriu de novo, assim como o pé de ipê que dourou meu lugar. Um tapete amarelo se formou no chão enquanto as vidas miúdas de revezam entre as flores. Queria também contar que o céu está de um azul incrível e algumas nuvens curiosas se formam para além dos muros. A vida aqui continua igual. As rotinas também. As canções mudaram em minha playlist. Ouço Gadu no repeat, músicas coreanas e canto junto com Ed Sheeran o Perfect só para reverenciar o quintal vestido de flor. A máquina avisa que é hora de estender as roupas no varal enquanto as borboletas voam ao meu redor. Eu diria que é uma cena repetida, mas parece que é sempre a primeira vez. Estou com saudades como sempre.
Mariana Gouveia *frase tirada do poema de Cláudia R. Sampaio postada lá no Primeiramente
Era noite quando a solidão invadiu o quintal… O coração palpitava em qualquer canto… Na rua de cima, o moço da reciclagem soube o que era um coração sozinho depois que seu amor se foi e repetiu mil vezes a mesma canção. Às vezes, a vida tem a trilha sonora de filme.