das coisas breves · Das palavras das cartas

Então, é dezembro

a eternidade pode durar um ano
ou um instante

Mestre,

Hoje, caminhando rumo ao trabalho senti o cheiro de dezembro. Era como se as mangas maduras do quintal do vizinho quisessem me chamar. Senti o cheiro das damas da noites plantadas para além dos muros… Depois, ouvi canto dos pássaros – ou foi antes? – na escada que alcança as nuvens do céu o camabacica se fazer de dono do bebedouro do Chiquinho. Ali, Espreita atento, antes do voo.

Dezembro chegou antes que a gente percebesse. Antes que as músicas de Natal tocassem nas propagandas que ainda falam de Black Friday… antes que as bolinhas coloridas ficassem penduradas nas janelas, num pisca-pisca fusco. Então, é dezembro nessa estação improvisada de calor intenso.

Choveu – na tarde que se insinuou para os que reclamavam do calor absurdo dos últimos dias. Antes disso tudo, um sábio se foi. Não sei como se denomina o pai do mestre. Só sei que senti das tantas vezes que podia ter aprendido mais e só o vi para além da grade de ferro, com olho de gigante e alma de criança. O jeito inquieto de sabedoria interna… um dia, ele me convidou para entrar… eu recusei, na pressa do dia a dia. Hoje, daria tudo para voltar àquele dia. O convite para o café ficou para uma dimensão desconhecida.

Teria pego em suas mãos e apreciado seu sorriso e sorvido as histórias que ele trazia no olhar. Mas era um mês desses que nem lembro qual e hoje, fiquei pensando no olho no relógio, as horas marcando limites entre abraços e a digital no relógio do ponto.

Hoje, um sábio se foi… E quando esses sábios se vão ficam rastros, seguidores ou cópia exclusiva de quem vai seguir a rotina. De quem conhece as histórias e faz parte delas. O olho miúdo no quadrante do céu. A irmã de abraço que mais acolhe do que é acolhida. O afago da sua alma gêmea que é mais cuidadora do que é cuidada. Eu agradeço a sorte de fazer parte disso. Mesmo distante.

Hoje, mestre, eu sou apenas sopro em seu ouvido para que os ventos das serras nobrenses ecoem para você o som do agradecimento do tanto de aprendizado que você viveu através do seu sábio. E eu aprendo com você. Dia a dia.

Estou com vocês.
abraço meu,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

29 – …ela pensou que algumas viagens são mais partidas que as chegadas.

Bambina mia,

a lua aparece no quadrante leste do quintal e a cena que se apresenta para mim traz esse misto de sensação que você sabe bem. A emoção do seu dia Coloco tua playlist no celular e vou me envolvendo de carinho por você.

A lua está cheia e deslumbrante! Já é manhã de 29 – madrugada ainda – e assim como acontece quando chove, quando vejo a lua chamo seu nome: Lunna tu! É o nome da “sua” playlist. Sempre ouço. Acho que é uma maneira de me ligar a você, mesmo dentro dessa distância que nos separa.

Já tivemos algumas partidas e chegadas e nossa história tem algumas cenas no aeroporto e pelas ruas do seu lugar. Eu mais cheguei aí do que parti? E se eu disser que sempre que parti me deixei aí no seu abraço e do tuo bambino?

Hoje, revendo as lembranças, percebi que os anos e essas datas não cabem em nós. A gente é de antes, desse e de outros tempos e algumas coisas nos ligam para além de outras pessoas e tão somente nós sabemos.

Você, comigo, é sempre oferta.. e confesso que algumas datas me tocam mais do que outras, como hoje. Tuo dia e você já sabe dos desejos do mio cuore para o tuo.

Então, para além das palavras e meu amor todinho dedicado para você vim trazer meu abraço.

Já te disse que sou grata ao universo e todas as folhas das árvores do mundo por você em minha vida? Já te disse que para além de partidas e chegadas nossos caminhos se cruzam, de alguma maneira, em outro tempo, outra história como se fosse a mesma?

Eu te amo e eu te amo tanto! Você é um dos melhores presentes que o universo me deu.

Auguri!
Grazie Mille!!!
Bacio
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

28 – caminhar pelo mundo de braços dados com o outro, com os outros

Lisa,

eu me lembro bem quando te vi de longe, atravessar a avenida com seu riso largo… o lenço tão peculiar na cabeça e o jeito leve de andar com os outros. Podia ser qualquer um, os invisíveis da esquina, os animais de rua.. lá ia você junto, sendo caminhante e oferta de abraço. Foi paixão ao primeiro passo.

Você nunca me deixou caminhar sozinha, mesmo longe, lá estava você e seu olho de amparo. com os ditados populares na ponta da língua: quem tem amigo tem tudo e você desfiava vários fatos onde um amigo te socorreu.

A minha mãe dizia que você era uma corda, dessas que puxa a gente de qualquer lugar e levanta. E você respondia sempre com um sorriso. A gente sabe que em alguns caminhos há labirintos – e esses, a gente tem de desvendar sozinho – qualquer coisa assim, de atalhos e desvios e dentro dos seus ditados conhecidos você diria que é muito importante saber que mesmo que sentíssemos sozinhos, haverá alguém nos esperando no fim da estrada.

O dar os braços ao outro já é parte sua e dessa estrada bonita que você desenha no seu dia a dia. Não só aos comuns seus, mas aos desiguais dos outros. E hoje, quando na maioria das pessoas está frio por dentro, você é o colo quentinho que eu admiro e amo.

E eu sou muito feliz por estar com você nessa caminhada!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

27 – No balaio ancestral, carrego em meu dna minhas avós, madonas nonagenárias!

Vó Léo,

a carta seria para minhas avós, de quem carrego no dna a ancestralidade na alma – não nego – mas, resolvi te escrever para declarar meu amor por você. Quando me casei com seu neto, ganhei a avó que desejei a vida toda e não tive.

Minha nona Mariana – razão do meu nome – navega nas minhas lembranças de menina com o olho miúdo, igual ao do meu pai e nem sei até onde é fruto de memórias vividas ou se é invenção de parte de histórias que escutei. Carrego dela o nome – não mais do que isso – e nem um cheiro de bolo assando, de colo, de aconchego de vó mesmo.

Já minha avó Ana Maria – que senhora conheceu e foi amiga desde a infância – não tenho memórias de vó. Apesar de ter vivido grande parte da adolescência e vida adulta perto dela, não a tive como avó. Lembro-me bem dos cabelos longos enrolados em um coque perfeito, do vestido amarelo claro e o perfume que chegava sempre antes dela. Nunca tive dela essa coisa de abraços, de cuidados de vó e tudo bem.

Então, vó Léo, eu ganhei você e junto vieram todas as coisas de vó que eu sempre imaginei ter. Os abraços, a alegria, o afeto, os bolinhos de chuva, a comida quentinha e o chá de alecrim.

Sabe, vó Léo, ainda tenho comigo coisas suas e mesmo depois de sua partida, a sinto tão minha em tantos momentos sendo minha vó. De alma, de abraço, de laços e de muito amor.

Grata por isso!
Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

26 – Alguém falava da vida, de sopro

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
coincidentes, indestrinçaveis —- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço —- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
e feridos, só nós é que não havemos de escapar 
Rui Caieiro

Querida Renata,

Estava cuidando dos casulos no meu quintal e quando uma borboleta pousou em minha mão me lembrei de te escrever. Ultimamente, tem sido difícil, dentro do nosso tempo, conversarmos… te escrever, seria mais fácil, na docilidade dos dias.

Quando eu te vi – me apaixonei – com esse olhão que desnuda a alma – e atravessei tempos para tentar descobrir onde nos encontramos antes. Podia ser em outro século, em outras eras… podia ser apenas na cumplicidade da dor. Mas, antes das perdas em comum, nos abraçamos e sentimos essa ligação.

Eu conheci o tempo da ternura… do urgente urgentíssimo com você. Da mãe e mulher bravia – medrosa, ás vezes – que vê a bondade e gentileza nos outros. A que se mostra e se esconde.

Renata, eu queria te falar segurando suas mãos, ouvindo suas desculpas esfarrapadas quando erra. O olho grandão com medo da minha bronca. De você eu recebi o silêncio, igual ao farfalhar das asas da borboleta que pousa em meu dedo, como se quisesse a aprovação de que mesmo errando, fez a coisa certa… mas, eu sou daquelas que não acredita que os fins justificam os meios, e mesmo em seu jeito desastroso de olhar e querer me puxar pelas mãos, nesses dias, eu fui apenas monossilábica com você.

Você é a ternura que eu falo… a voz, que mesmo que não ecoe, entendeu minha dor. O abraço que mesmo não dado, foi caloroso. Você foi a cidade, a aldeia, o grito, o silêncio, o refúgio, o mapa que me encontrou e foi puro aconchego mesmo sem dizer nada.

Só queria dizer que a geografia não vai nos separar… eu, quando ver um filtro de barro, vou me lembrar de você e quando ouvir a palavra urgente, vou te buscar nas mensagens e na memória o urgentíssimo com seu sotaque e riso… e eu, que me comovo por tudo, vou lembrar, que em nossas dores, descobrimos que a vida é um sopro e que esse olhão reinventou a palavra amor dentro de mim.

Grata por isso!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

22 – levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma.

A manhã acorda dentro dos meus sintomas. Sigo rua acima e vejo bancos de praça sem ninguém, uma padaria que não abriu, o armazém abandonado da rua de cima… uma calma desconhecida de um vai e vem das meninas do clubes – que hoje não vieram – o pé de ipê que floriu temporão. E eu, que vago em madrugadas insanas nas ruas afora de mim, e parece que todos dormem, menos eu.

Me comove o gato no telhado – só a silhueta – e o cão que me segue até o ponto de ônibus. E fica ali, como se dissesse que me espera amanhã.

Penso em quando o sol nasce, logo além da janela do ônibus e entre árvores os raios me convidam para essa calmaria de dia. O calor ultrapassa recordes diariamente e eu sigo, enquanto todos seguem atentos ao que diz o horóscopo, a previsão, as melhores cenas da novela de ontem, as séries em ascensão e eu só penso na espera do doguinho que nem sei o nome, que nem me prometeu, mas sei que estará me esperando manhã.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

13 – pequenas partículas penetram em propriedades particulares

Rozana, minha flor,

sei que você não sabe, mas eu sempre tenho um pé de algodão no quintal e te confesso que ele é muito instável. Não aguenta um vento mais forte e vrauummmm… cai… com raiz e tudo e sabe porque te falei sobre isso? Por causa das partículas…

A foto que emoldura o texto eu fiz onde no mesmo galho há a flor e o capucho, e como o pé de algodão está ali por causa das folhas – que é um antibiótico poderosíssimo – eu replanto sempre que ele sucumbe. A semente, é do sítio do meu pai e assim, vou replantando memórias.

O capucho solta fiapos que se desprendem e os sabiás levam para o ninho, Rozana… eles catam tudo que é leveza pelo quintal e levam bico afora para se preparem para os tempos difíceis…

É lá, no ninho que eles aproveitam das levezas daqui e dos fiapos que caem no chão. Lembrei de te contar isso quando li seu poema…

Um beijo,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

12 – — minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia

Ph: Mathilde R. Photography

Leonor,

resgatei do baú uma carta que te escrevi anos atrás. Na carta, bem antes de eu ficar sem notícias e respostas tuas, eu dediquei meu amor a você. Era dos mais bonitos – você diria – e eu nem me toquei que ali já havia sinal de fim.

Nas letras escritas no papel decorado eu falava sobre as madrugadas mornas onde nos amamos sob a luz da lua e de como a textura de sua pele atiçava minha fome.

Leonor, você dizia que eu inventava um amor bonito e que a gente inventava o instante e o que me comove é saber que mesmo depois de tanto tempo a sensação ainda é a mesma. Você está aqui, ali, nas letras, nas lembranças e na memória.

Confesso, que fico esperando que as frases que todos falam de que o tempo cura tudo faça efeito aqui, por enquanto, te encontro em cada esquina, como dizia Cesariny e te vejo em cada uma das pessoas que passam por mim.

Quando me perguntam de você eu invento viagens, doenças de algum parente seu para justificar sua ausência e justifico para mim mesma que ainda tem muita coisa que a gente não viveu juntas e eu já tenho a lista de todas elas para te mostrar quando você voltar.

Dou-te o poder, como sempre de decidir isso.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

11 – Pretérito imperfeito oblíquo de um caos que nunca chega ao fim

Os caos se instalou por aqui hoje. Na alma, no quintal e nos arredores… ainda dorme em algum canto do muro.

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão. Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala. E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

10 – Planos e projetos que não saem do papel

Parece que as folhas que vejo pelas ruas não perdem a leveza do toque. Enquanto caminho penso em outras folhas – as que não escrevi – e nos planos e projetos que não saíram do papel. Faltam poucos dias para o início de um novo ano e mesmo não tendo feito uma lista, haviam notas mentais de coisas que foram ficando para trás. Deixaram de ter a importância devida ou outras mais urgentes, se impuseram como prioridade Os pássaros ignoram esse tempo dentro da vontade de voo e eu me encanto com o pátio rosado da universidade, com as flores do ipê temporão. Quase cheguei a catalogar cada folha dele, que se tornava miragem em outros meses que não esse. Olho para a árvore agradecida e abraço o tronco da árvore que amanhã não terá mais nenhuma flor. Todas irão se desgrudar dela e o vento levará a flor empurrando–as em direção ao muro, com seu grafite feito pelo menino que fez a minha tatuagem como se desenhasse um dos meus bordados. Ainda tenho uma bala de doce de leite na bolsa e a palavra doce me abraçará amanhã. Talvez, você volte com a saudade amarrotada, desdobrando meus envelopes rasgados feito tsurus de papel. Talvez, desses envelopes saia um coração laranja. Talvez essa seja a carta de duzentos gramas de palavras, caso a saudade aperte. Talvez o ônibus se atrase e eu possa acompanhar o movimento da flor rosada a dobrar a esquina da rua de cima. Talvez a senhorinha que me chama de anjo – a que pega o ônibus na saída do bairro – para qual eu ofereço o banco acha graça de descobrir que escrevo poemas…  ri quando me pede autógrafo em um livro meu que achou por aí. Talvez. Se eu dissesse amanhã que a previsão do tempo seria uma procissão de estudantes com cartazes de protestos e que eu me encantaria com as borboletas nas flores do ipê que dourou a rua de cima e que deixei um livro no banco do ônibus e quem achou foi justamente a senhorinha que me chama de anjo, você diria que eu pintei um dia feliz? Descobri numa outra rua que a calçada era forrada com as flores rosas, do mesmo ipê que fotografei outro dia e que perguntei infinitas vezes onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza e essas árvores que dão sonhos e histórias que nunca te contei… histórias desses corredores onde a dor é quase bonita diante da força de cada um que escreveu a frase: venci. Em letras coloridas e risos fáceis de quem perdeu o cabelo e nunca perdeu a fé. Eu diria que eu apenas tive impressões do dia seguinte. Sem planos e projetos. Apenas um dia de cada vez.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins