Eu queria te contar que o quintal amanheceu cheio de flores e que o orai pro nobis floriu de novo, assim como o pé de ipê que dourou meu lugar. Um tapete amarelo se formou no chão enquanto as vidas miúdas de revezam entre as flores. Queria também contar que o céu está de um azul incrível e algumas nuvens curiosas se formam para além dos muros. A vida aqui continua igual. As rotinas também. As canções mudaram em minha playlist. Ouço Gadu no repeat, músicas coreanas e canto junto com Ed Sheeran o Perfect só para reverenciar o quintal vestido de flor. A máquina avisa que é hora de estender as roupas no varal enquanto as borboletas voam ao meu redor. Eu diria que é uma cena repetida, mas parece que é sempre a primeira vez. Estou com saudades como sempre.
Mariana Gouveia *frase tirada do poema de Cláudia R. Sampaio postada lá no Primeiramente
eu era essa pessoa do dedo verde, mas tive alguém muito melhor que eu nesse quesito de plantar e tudo brotar… O meu irmão que voou há um mês e meio. Ele era tão quieto, mas tão quieto que o silencio fazia mais barulho que ele e ao mesmo tempo tão barulhento que o vento ecoava sopros por ele.
Enquanto a gente falava de partida definitiva, ele falava de vida, de flores, de brotas, de rebento – fosse de capim, de flores, de samambaias ou de gente – rebento é rebento – ele dizia. É vida!
Ele parecia um duende, um dos smurfs – só não era azul – era colorido. Ele não nasceu pra semente, porque era semente, Luci. A magia dele parecia que surgia da brisa, que se elevava em vento e de repente, ele era temporal… daqueles temporais que você queria estar dentro, Luci e em alguns momentos era chuva miúda… tipo garoa, que traz calma e você se aconchega na janela e pensa em uma xícara de chocolate ou chá.
Luci, já contei que ele era meu guardião? Um guardião que tinha medo de bruxa, da minha bá, de palavras que podiam ter diferentes significados, mas ele era tão valente, que enfrentou a morte… porque ele tinha o dedo verde para tudo que é coisa.
sabe o Midas, Luci que tudo que tocava virava ouro? Pois bem, meu Manoel em tudo que tocava ficava verde. A samambaia, as flores simples do quintal, a lantana e o pé de jurubeba… esse, floriu tanto no dia que ele morreu, que fiz conserva e tudo.
O meu irmão, Luci, era igual seu avô. Bobinho em situações inusitadas e muito sábio em outras. Das sementes dele que ficaram tem a Ju e o Felipe. Uma lindeza de família, de cães e uma amada que rega cada planta do quintal que ele limpava as ervas daninhas.
Hoje, meus dedos verdes, que se esbarram na flor que nasceu da semente que ele me deu tem a delicadeza do amor e do encanto. Essas vidinhas simples que me trazem ele todos os dias, nas mudas das flores que ele plantou no quintal da casa dele.
Talvez a mágica estivesse na vida dele, Luci, que é vida e para além de todas as ervas daninhas que o levaram, ainda deixou sementes aqui que vão brotar sempre, e mantê-lo vivo.
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades, Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite Scenarium Livros Artesanais
Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram. Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.
Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.
E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.
A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.
Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.
Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!
Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!
Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.
Até lá! Mariana Gouveia Carta publicada no livro Feliz Ano Velho Scenarium Livros Artesanais
vim te trazer flores e falar de saudades. Antes mesmo de levantar refiz os rituais que eu fazia nesse dia, antes de ir ao seu encontro. Ouvi mis uma vez Kiss The Rain e outras canções que você gostava.
Na minha imaginação, eu fui até seu encontro e te falei da saudade que você deixou aqui. Já conversei com você infinitas vezes durante o dia e resolvi te escrever mais uma vez como nos outros anos no seu aniversário.
No fim da tarde choveu lá pelos lados de onde você morava. Lembrei-me das chuvas que tomamos juntas e do quanto rimos com as tintas do cabelo escorrendo. Já te contei que nunca mais consegui atravessar a ponte? Sempre invento uma desculpa quando por algum motivo me chamam para ir até sua cidade.
Sei que um dia isso irá acontecer, mas por enquanto, dentro desses três anos de sua partida, acredito ainda na leveza de nossa amizade e do nosso carinho. O amor ultrapassa esses limites que nós humanos traçamos e ainda reverbera sua voz aqui: o amor é essa forma de você vir me ver todos os sábados – você dizia… para mim, era apenas as delícias dos momentos que vivemos juntas.
Não sei se aí onde está se comemora aniversários, mas para mim, esse será sempre seu dia e como você sempre me cobrava o presente, te trago a flor do nira que desabrochou aqui e perfuma meu quintal.
Rasguei mais uma das cartas que escrevi. Eu queria muito te contar que o quintal hoje, parecia o borboletário que fomos juntas. Contei sete espécies delas aqui. As de costume e uma que atravessou o muro em seu desvio para outros quintais. O sol abriu nesse janeiro ligeiro – já reparou como os dias estão voando? – depois da chuva de ontem. A dalechampia criou suas folhas em formato de coração e eu ri da farfalla brincando de balanço. É assim que meu coração balança quando penso em seu nome. Era isso que eu queria te falar, mas rasguei a carta mais uma vez.
Para Mariana Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você… Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha. Lunna
Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.
Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.
Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.
Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.
Para mim, o presente é para sempre
Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.
entre aspas
E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.
fecha aspas
E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.
Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.
A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje? Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem. Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas. Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.
Já é dezembro e tirando a gente nem se tocou… e enquanto eu buscava pormenores no meu quintal alguns instantes se transformavam em eternidade, como se fosse a fotografia antiga, sacudida entre sopros. Devo confessar que eu poderia escrever-descrever tantos momentos que foram captados no piscar do olho. Lembra-se quando eu te disse: Chiquinho abre as asas bem na minha frente? Pois bem, eu consegui registrar. Foi instantâneo e não houve chance para segunda foto.
O sanhaço – pássaro que temos um quê de história – vive roubando água adocicada de Chiquinho e em nossas conversas entre o sanhaço daí e o sanhaço daqui mostrou curiosidade como se pudesse ver o que você descrevia e ele ouvia no viva-voz. Parecia que a vida inteira passou naquele instante e em um suspiro meu ele olhou e voou.
Alguns momentos desse ano, bambina, sumiram da memória. Acho que os que deviam mesmo ser esquecidos. Outros, se transformaram em lembranças guardadas, como se estivessem em uma caixa de fotografias. As imagens, contando história. O papagaio de peito amarelo se coçando no meu varal de roupas é um desses que fica. Quase um poema, na doce ternura em que se apresenta.
Sabe, bambina, a geografia do meu quintal se desenha em mapas feitos de asas… seja de borboletas, libélulas, joaninhas e pássaros. De vez em quando ou quase sempre, falamos de pássaros e suas nuances e acho que hoje, vou conseguir emoldurar em instantes nossas conversas: os cambacicas brigam no bebedouro e o instante se mostra aos meus olhos e agora aos seus.
Quase nos vejo frente a frente enquanto te explico o nome do pássaro que se choca no espelho da porta e espera no varal que eu saia da varanda para tentar de novo. – É suiriri – repito o nome para entre risos entender que você não entende dos nomes de aves, só das maritacas que em alguns dias invadem sua árvore de estimação e do sanhaço azul que fez o ninho em seu vaso de orquídea..
Bambina mia, sabe que para cada mês desse semestre que se encerra, uma asa se interpôs em nossa conversa e são esses instantes de ternura que a emoção nos liga nos instantâneos que uma descreve para outra. Chiquinho faz fita com a flor do pé e assim, o meu quintal nunca se faz solitário, porque mesmo sem nunca ter pisado por aqui sua presença está sempre marcante nesses instantes mágicos.
Hoje, caminhando rumo ao trabalho senti o cheiro de dezembro. Era como se as mangas maduras do quintal do vizinho quisessem me chamar. Senti o cheiro das damas da noites plantadas para além dos muros… Depois, ouvi canto dos pássaros – ou foi antes? – na escada que alcança as nuvens do céu o camabacica se fazer de dono do bebedouro do Chiquinho. Ali, Espreita atento, antes do voo.
Dezembro chegou antes que a gente percebesse. Antes que as músicas de Natal tocassem nas propagandas que ainda falam de Black Friday… antes que as bolinhas coloridas ficassem penduradas nas janelas, num pisca-pisca fusco. Então, é dezembro nessa estação improvisada de calor intenso.
Choveu – na tarde que se insinuou para os que reclamavam do calor absurdo dos últimos dias. Antes disso tudo, um sábio se foi. Não sei como se denomina o pai do mestre. Só sei que senti das tantas vezes que podia ter aprendido mais e só o vi para além da grade de ferro, com olho de gigante e alma de criança. O jeito inquieto de sabedoria interna… um dia, ele me convidou para entrar… eu recusei, na pressa do dia a dia. Hoje, daria tudo para voltar àquele dia. O convite para o café ficou para uma dimensão desconhecida.
Teria pego em suas mãos e apreciado seu sorriso e sorvido as histórias que ele trazia no olhar. Mas era um mês desses que nem lembro qual e hoje, fiquei pensando no olho no relógio, as horas marcando limites entre abraços e a digital no relógio do ponto.
Hoje, um sábio se foi… E quando esses sábios se vão ficam rastros, seguidores ou cópia exclusiva de quem vai seguir a rotina. De quem conhece as histórias e faz parte delas. O olho miúdo no quadrante do céu. A irmã de abraço que mais acolhe do que é acolhida. O afago da sua alma gêmea que é mais cuidadora do que é cuidada. Eu agradeço a sorte de fazer parte disso. Mesmo distante.
Hoje, mestre, eu sou apenas sopro em seu ouvido para que os ventos das serras nobrenses ecoem para você o som do agradecimento do tanto de aprendizado que você viveu através do seu sábio. E eu aprendo com você. Dia a dia.