Das palavras das cartas · infinitamente

Para além dos campos de flores amarelas

Não sei, minha mãe, o que escondeste nas sílabas, 
que violenta neblina lá guardaste, 
mas não esqueço a euforia do espanto, 
essa festa distante onde chamava por ti devagar, 
sempre tão devagar. 

José Oliveira Fernandes

mãe,

como eu conto esses dias que atualmente passam tão rápidos? Mesmo que eu não queira, maio me traz o dia que seria seu aniversário. A folhinha arrancada logo cedo vem junto com as memórias desse dia em anos anteriores – tantos, que às vezes, esqueço quantos são.

Sabe, mãe, são mais dias sem você do que com você. E não podia nessa data ficar sem o parabéns para você. Sete filhos já dava uma festa ao redor da mesa, lembra? O bolo de milho, de puba e os biscoitos de polvilho, o suco de tamarindo, servidos na mesa de madeira debaixo do pé de sete copas e os campos enfeitados de flores amarelas. Eu sempre dizia que os campos se enfeitavam para você, dentro de maio, como se com isso te presenteasse com o dourado a se estender até se misturar com o verde das matas.

Acho que você se orgulharia de mim, mãe… tenho conseguido me sair bem, mesmo quando alguns dias ficam difíceis de gerir. E mesmo quando os olhos se espremem em lágrimas, logo tudo passa e sigo em frente. Ainda falo com você também, mesmo com 42 anos de ausência. É tão presente, que às vezes, parece que está logo ali, a cuidar da horta, dos bichos, das roupas na bacia.

Gostaria que você soubesse que ainda sigo alguns rituais que você nos ensinou. Também vivo fazendo artes como as que você fazia e seu neto, mãe, já é um homem lindo. A vida continua mágica, apesar de tantas coisas estranhas causadas pelo homem e nesse dia, te reverencio com as mãos justapostas e te abraço com meu coração.

Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Caixa de fotos

Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. 

Bambina mia,

pensei em não escrever a missiva costumaz nesse 6 de maio. Mas, depois, pareceu-me que faltava algo mais e lá vou eu nesse monólogo com você nessa tarde/noite de céu com nuvens que parecem bolas de algodão. Hoje, realmente pareceu outono nesse fim de tarde, revirando minhas caixas de fotografias para registrar o projeto. As lembranças transformaram minha tarde em nostalgia.

Sabe, é engraçado olhar o passado através das imagens em papel de fotos, algumas recortadas para um scrapbook que nunca terminei. Uma das únicas fotos que minha mãe tinha e meus irmãos mais novos ainda de chupeta me levou para tempos atrás. Com você, eu posso falar desse sentimento de ternura que abranda um pouco os dias difíceis. Embora você não goste muito da palavra saudade é ela que me acolhe nesse momento.

Confesso que fazia já alguns meses que eu não mexia nas fotografias, mas eu gosto desses momentos onde o instante ficou gravado como único. Ainda me recordo completamente do dia dessa foto acima. Meu pai arrancava o açafrão para temperar o frango do almoço. Era férias e eu buscava o calor do afago dele. O quintal ainda estava sendo formado. A pequena árvore era o pé de canela que ele mesmo plantara e para além de onde não saiu no ângulo, a horta.

De repente, olhando as fotografias percebo que grande parte das pessoas ali já não estão mais aqui. Só as lembranças na memória viva dentro do peito. E a sensação do amor sentido e vivido.

E quando abro a caixa dos registros do filho fico admirada pelo tanto de coisas vividas. A formatura, a crisma, as viagens feitas por ele e das histórias contadas através de cada close… Nossa, bambina, agora me pareço com a minha mãe que abria o álbum de fotografias e a caixa de monóculos cada vez que uma visita chegava em casa.

Escureceu e a noite morna se aproxima… Já é hora de juntar as lembranças, guardar as caixas e mandar as fotos via mensagem para os irmãos e o filho. Recordei de tantos instantes e você é a culpada por isso. Grazie!

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para memórias futuras…

Su, minha menina nuvem,

confesso que vou guardar essa noite, essa lua, essas nuvens em gavetas para memórias futuras. Foi ontem, tudo isso, e você deve saber o momento. Estou em um tempo passado e muitas vezes, esqueço esse fuso de uma hora a menos.

Mas, para que saiba o que senti e de tudo que meu céu, nesse quadrilátero dos muros que o rodeia tem, guardo em palavra, escritas sob um céu, de um lado, estrelado e ao centro, uma lua belíssima – cheia – e quis te mostrar.

Você sabe bem que a vida é esse afago de alma, de lembranças, de cheiros… eu moro tão longe do mar e nesse momento, nesse meu desaforo de fuso, o mar veio junto com a lua, as nuvens e uma brisa que nem tem cheiro de rio – mas de mar mesmo – ruas abaixo do meu lugar.

Sorvi o chá que fiz a pouco. Meu pé de capim limão está vibrante – culpa das chuvas dos últimos dias – o aroma das flores do alho e que nem cheiram a alho invade essa noite de lua cheia e há cheiro de bolo assado na vizinhança. A minha vizinha da direita faz delícias a essa hora da noite – culpa do trabalho – e de madrugada. Um dia, conto mais sobre isso.

Sabe, Su, há um silêncio no quintal. Até os grilos calaram… e vi, no canto do lado do sul uma luzinha de vagalume – seria impressão? – e a sombra, quase vulto, de Chiquinho dormindo no varal perto de mim…

Vejo vultos logo para além das ipomeias e sons de folhas caindo e as asas de um morcego – recém visitante por aqui – que assusta o meu amor – num vapt vupt que faz ele soltar impropérios que nem ouso repetir. Ele é geminiano e tem medo dos vampiros… vê se pode!! Fecha as portas e janelas e fica me rondando aqui fora, como se o bicho fosse me esvair em sangue… logo ele, que odeia ver o líquido vermelho jorrando – seja em filmes, novelas, e cortes… mesmo os pequenos – fica como se fosse me proteger…

Mais uma vez, rodeio o pescoço com os olhos no céu… as nuvens se dissiparam. Dizem que pode chover a qualquer momento, mas já vi a moça da previsão errar tantas vezes, que meu sopro de ar vai para essa carta para que você guarde para memórias futuras, de uma noite em que eu te vi no céu do meu lugar, brincado de lua, enquanto você se graduava em outro momento, de um céu, do seu lugar.


Beijo meu,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Doralice aos cuidados de d. Coisinha

Querida Doralice,

Hoje te escrevo – não mais escondida – e nem é para saber de você, porque sei que alma livre como a sua, onde quer que esteja… voa! Tal qual a pipa do menino da rua de cima que corre descalço, olhando para o céu, para ver onde cai. E ele é tão ágil, que ganha dos meninos mais velhos. Acredita?

Quando em um fim de tarde vejo essa cena, lembro-me de ti, nas ruas. Você flutuava! E meu olhar de admiração era porque eu queria ser igual a você. E quando atingi a idade em que podia saltar no abismo e enfrentar os olhares dos outros sem me punir, eu fui você. Demorou para ser assim, mas aconteceu e foi maravilhoso.

Você serviu de exemplo. Me lembrei de seu sorriso que mudou tudo na vida – mesmo que por pouco tempo – das mulheres do meu lugar. Ainda hoje, ouço algumas lamentarem o que poderiam ter sido, não fosse o medo.

Acredita que ainda usam a fé como pretexto de calar mulheres? Subjugam a roupa, o modo de andar… só por ser mulher??

Resolvi ser o fator da mudança da minha casa, da minha rua e, por fim, do lugar que me coubesse. Descobri que sou tão imensa que posso ocupar qualquer lugar e ser direção… de meninas, de mulheres e até de homens… para que eles saibam – ainda falta tanto – o valor da mulher. Seja ela de alma livre ou não. E quando penso nisso, reverencio o seu engenheiro que se descobriu vivo porque a conheceu. Antes, ele era uma figura em busca de si e que bom que você o ajudou a se encontrar sendo porto e barco. Lindo isso!

Confesso que abusei dos olhares dos homens, da inveja das mulheres, da admiração de algumas pessoas, das raivas de outras e aprendi a enfrentar o que era adverso. Mesmo com a minha mãe se importando com o que as outras mães falavam. Cheguei a ver o orgulho estampado nos olhos dela quando fui viver minha vida. Acho que era o que ela desejava – secretamente – fazer.

Olhando o tempo e o baú onde guardo as cartas, vejo que ainda é a dona Coisinha de tempo atrás. E duvido que isso será diferente em algum momento.

Certas coisas são para sempre, não é mesmo?

Quando eu penso em você…o vermelho carmim de suas unhas vem à cabeça. O decote generoso e o andar sensual que atiçava os olhares que te seguiam e amaldiçoavam. Sabemos que era inveja pelo que apenas os olhos podiam tocar.

Eu pintei o cabelo de vermelho, para desespero da moça que mexia a tinta no recipiente, e que cuidava dos meus cabelos longos desde a adolescência – e se você não gostar? – ela disse. Tentando me fazer mudar de ideia. Eu dei de ombros e disse, recorrendo ao seu tom de voz, pausadamente: a gente raspa. E eu achei que os olhos dela fossem saltar da cara. Por dentro, eu ria.

E por muito tempo, naquela rua, eu fui vitrine e a culparam pela menina indisciplinada que me tornei. O padre – a pedido de minha mãe, me fez contar não sei quantos mil rosários e rezar não-sei-tantas ave-marias… confesso que, mentalmente, cantava Audislave. Amém!

Você me moldou e libertou das normas da minha mãe, que desistiu de me domar. Um dia – nos atrás – eu a ouvi ela dizer que você era a culpada por minha rebeldia. Mal sabia ela que algumas pessoas já nascem livres e basta apenas que alguém nos dê um pequeno e significativo empurrão. Ninguém tem culpa quando a vida se resume a uma pessoa. Ou você é livre ou é refém. Seja de normas, regras e leis impostas por “pessoas de bem”.

No limiar da força que a liberdade nos traz, o estoque da força vem da repressão. Confesso que não temo mais o que pensam de mim e nem de como me veem.  Porque, no final das contas, o engenheiro inglês estava certo: o problema nunca esteve com você e sim nas pessoas que se acham no poder de julgar alguém.

Te abraço,
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto Coletivo O casarão
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

À Emily

Emily,

Assim como você, eu nunca recebi uma carta do mundo e já escrevi algumas vezes para ele. Devo te confessar que procuro a parte mais bonita dele. Porque as coisas aí fora estão terríveis demais. Eu já escrevi tantas cartas que não enviei, tantas que embolei e o mundo, em muitos momentos, não foi afável comigo.

Já pensei em enviar postais e falar do meu lugar, das mãos que tocariam os postais da lua. Já imaginou se envio essa lua cheia que clareia todo meu quintal, com seu lume em sua fase mais bela?

Com quais mãos ele – tão cruel em alguns dias – receberia meu afago? Emily, às vezes, penso em gritar para o carteiro e perguntar se ele mandou um bilhete, um manuscrito que só eu e ele entendemos…  mas, o moço que estende as mãos com envelopes pardos e seu uniforme amarelo me diz que tem saudades das cartas em envelopes branco e suas listras verde e amarelo – cores que me aborrecem no hoje – e eu apenas aceno com a cabeça.

Acho que pensamos as mesmas coisas – notícias simples da natureza… mas, ele entenderia o meu pé de ipê florido em uma tarde de fim de agosto, quase 40º e o sabiá laranjeira pedindo chuva? Ou da solidão que minha alma sente – quem sabe a mesma sua – em dias mornos.

Sabe, Emily, eu sempre escrevi cartas e sempre esperei respostas. Seja do mundo, ou dessa solidão desvairada. Fiquei de mãos vazias tantas vezes – assim como você – e minhas mãos de camponesa cavou silêncios… de afáveis, colho borboletas… será que a resposta virá em forma de asas? Ou eco de tambores?

Você percebeu, Emily, que sou muita perguntadora e que quando vi sua solidão imensurável, nas faltas de respostas desse mundo que se ativa cada vez que escrevemos poemas provocou em mim a mesma solidão.

Eu também sofro das noites insones e sou viciada nesse som de envelopes recém rasgados e do cheiro da cola quando selo um deles.

Eu sou a louca das cartas que nunca tem respostas… as minhas, muitas vezes, já nascem desfeitas mesmo antes que eu as escreva.

Portanto, Emily, junto minha solidão à tua… minhas palavras se esbarram na branda majestade que endereçam a verdade de quem escreve esse vazio, em forma de poema. Aqui não acontece nada… é apenas esse vácuo, de uma resposta que a gente já sabe que o mundo ficará devendo.

Com carinho,
Mariana Gouveia
Carta a publicada no Coletivo A terceira noite
Scenarium 8
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Mulher proibida

Minha querida Gilka,

Da última vez que te escrevi… a aldeia estava em fogo. Havia muito cinza e tentávamos salvar animais e as plantações. Muita coisa mudou desde então. A aldeia reagiu e hoje, tudo floresce. Até minha ligação com a aldeia mudou. Ficou restrita ao simples acompanhamento através de amigos, embora o laço seja para sempre.

Hoje, o que assola o mundo não tem cor. É um vírus – que alguns dizem ser inventado e que ignoro para não brigar com parentes via mensagens das redes sociais – você imaginaria rede sociais no seu tempo? Você seria crucificada, pode apostar!

Daqui de onde estou, me sinto privilegiada. Vejo a lua, converso com o sol, confabulo com os pássaros, traços rotas imaginárias em um corpo que nunca visitei. Danço com o vento. Leio livros de poesias…  rasgo verbos sem nexos com as joaninhas. E só descubro o mundo lá fora através das manchetes de jornais e sites que relatam sobre um vírus que faz vítimas nos cinco continentes.

Por aqui, o pé de ipê já deu duas floradas, desde a última carta e nasceu mais um tanto de flores que guardei os nomes em um pote…  para fazer a bendita plaquinha e colar depois. Mas sempre as chamo de filha… é uma coisa que vem da infância e sabe-se lá quando vou perder essa mania. Porque aqui, tudo vira filha ou filho, seja bicho, pássaro, árvore, flor ou vento… e reza.

Com a lua não… Com a lua, traço conversas rente a pele. Me descubro mulher, a mesma que devora os poemas e canta. Sou a que se envolve e grita a liberdade, mas por enquanto, dentro das paredes dos meus muros.

Beijo,
Mariana
Carta publicada no Projeto Coletivo Mulher Proibida
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Uma carta para Corine

Darling,

Às vezes, a noite é esse eco devastador dentro do peito. Você, por acaso, se lembraria de mim? É uma pergunta que me faço todas as noites para no minuto seguinte imaginar se outra pessoa teria cruzado o seu caminho e descoberto a joia rara que você é. Não é impossível…

Enquanto te escrevo de meus aposentos, ouço a mesma canção que toquei em sua casa. Cole Porter nunca mais foi o mesmo para mim. Cada vez que consigo um instante para me sentar ao piano… a única memória que atraca em meu corpo é a sua, ali, com as pernas cruzadas… e a abertura do vestido me fazendo sentir tal qual um adolescente — ansioso pela primeira vez. 

Enquanto o som do piano enchia a sala. Vi em seus olhos o encantamento… não sei se foi pela canção ou pelo mesmo entusiasmo que eu. Só sei que ali, pareceu que nossas almas se uniram e uma espera teve fim para que outra se iniciasse. Não é sempre assim?

Depois daquela noite, meus compromissos me levaram vida afora e o Brasil ficou distante geograficamente — mas tão perto de mim nas lembranças. Antes do embarque, quase desisti. Um homem não pode fugir a compromissos firmados, minha querida. Eu cresci com essa frase espetada em meus ouvidos, em diferentes idiomas. Fui lembrado do meu lugar no mundo, em meu país. Tudo foi traçado no exato instante em que eu fui concebido. Nada fugiu ao discurso até aqui, apenas o coração, querida, que não aceitou o enredo. 

Eu prometi que voltaria e o farei em algum momento. Ainda que seja para lhe rever uma última vez, como naquele filme em preto e branco, antigo, que tanto gostas. Será que pensa em mim quando os personagens se encontram e se apaixonam à primeira vista? 

...

Oh, my dear, o gosto do vinho em sua boca embriagou a minha alma e eu, logo eu, que sempre fui tão livre de amar, me vi — em poucos dias — enlouquecendo nas noites. Imaginando você nos braços de outros. Essa é uma das torturas que pratico todas as noites. Imaginá-la em outros braços, com movimentos de pernas, quadris. A maneira como os olhos de outro homem a devoram — silenciosos. As mãos tateiam sua pele aquecida. E o que era imaginação vira lembrança e eu bebo tudo junto como um gin tônica.

Não sei se ainda me espera! Se a sua solidão, depois que amanhece, é a mesma minha. Que face seus espelhos revelam quando você se reflete neles? Que pensamentos ocupam o seu coração antes de dormir? Será que se lembra de nós dois em cada amanhecer? O meu cheiro ainda se mistura ao seu, entre lençóis? 

Já estive em cada canto desse universo depois de tê-la e, em cada um desses lugares, vi alguém parecido com você. Cheguei a abordar uma moça pelo braço — coitada! —pensando tê-la reencontrado. Em Paris, persegui uma bela Mulher, elegantemente vestida. Tinha o seu caminhar seguro e ousado. Mas, não era você. Poderia ser, porque a gente nunca sabe quando o destino irá nos surpreender (de novo). 

Eu tentei outros amores, minha querida. Mas, ninguém conseguiu preencher certos espaços. E eu não consegui salvar nenhuma nação. Os planos foram desgastados — como você previu e eu fui murchando, desanimando um pouco mais. Tornei-me um homem diferente. Talvez esteja irreconhecível aos seus olhos, que viu o melhor de mim. Tanto vigor, paixão, planos. Hoje eu sou apenas alguém que finge, como o poeta português. Sou marido-pai, tenho uma coroa que pesa horrores e atribuições pensadas para o bem de alguns, sempre os mesmos, minha querida. Não tenho paz. O mundo está caótico e as delicadezas só me absorvem nas canções… em muitas noites, acordo em sobressalto pensando que é você para além do jardim. 

Já passei por invernos rigorosos, verões abrasadores e primaveras quentes, em manhãs quase igual a que vivemos… porém, foi em um outono recente e sem cor que decidi escrever e dizer: estou voltando. Que a vida não tem graça depois que você cruzou o meu caminho. Os dias se tornaram comuns dentro de mim e eu preciso de sua luz. Quero alcançar a Lua que dorme em seu peito. 

Será que você abriria as portas de seus salões para mim? Me reconheceria? Seria eu, declarado Rei, também em teus domínios?

Seu súdito!

Mariana Gouveia
Carta publicada no projeto Coletivo Casa de Marimbondos
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – The Colors of the Rain

chove mais uma vez 
a infância é um pássaro aceso nos ramos das árvores 
um território de meteoros incendiados
numa bacia de plástico com água da chuva


José Carlos Barros

Bambina mia,

mais uma vez trago notícias da chuva que, ultimamente, tem caído todas as tardes no meu lugar. Engraçado, é que nunca reparei nas cores dela e o tema desse 6 de abril me fez reparar nesses instantes aquosos e deparei com minha cidade cinza ao longe… Ela, que sempre foi conhecida como cidade verde, vista da escada que dá para o telhado se apresenta, ainda que verde – pelas copas das mangueiras dos quintais vizinhos – me trouxe as nuances dos telhados antigos e predominou o cinza, essa cor tão natural para mim.

Sabe, bambina, acho que esse ângulo é o que você mais conhece de minhas chuvas. O bebedouro do meu pássaro de todo dia e o pé de ipê ao fundo, com seus verdes em diferentes tons. É daqui que eu te mostro os raios e gravo os ecos dos trovões para te enviar.

E por falar em pássaro de todo dia, acho que ele gosta mais das chuvas do que eu… quase não consigo registrar o banho dele sob a água. Me divirto vendo ele em um bailado dançante entre o varal de roupa e seu bebedouro. O verde-musgo de suas penas molhadas se misturam com o ipê ao fundo. Isso só é possível com a chuva espaçando.

Mas, sabe, bambina? As cores me encantam quando a chuva deixa seus rastros em meu quintal, nas flores que bebem da água e se misturam com ela. É possível ver a gota “engolir” as flores e parece até que a chuva deixou diamantes no meu lugar. Seja no fim da tarde, ou no sopro novo das manhãs, a chuva nos une e sempre grito seu nome por aqui. E curiosamente, sinto que a chuva sempre me traz um pouco de mar.

Você sabe que meu lugar é a cidade do sol, mas esse outono mudou os dias por aqui. As ipomeias que duram o tempo de um dia, com a chuva, desfilam suas cores em gotas e permanecem intactas até o anoitecer. Mas você sabe também que eu adoro o cheiro da chuva, logo assim que cai, na terra seca. O petricor é o perfume da chuva – já falamos disso – e ao te escrever imagino de que cor seria esse cheiro da terra recebendo as gotas da chuva… delírio meu, bambina… releve!

Pego o guarda-chuva e mudo os insetos de lugar sempre que chove, apesar de achá-los lindos com as gotículas sobre a carapaça. Mas, como a natureza é sábia, acho que eles mesmo sabem onde buscar abrigo nos lugares que já deixo preparados para eles. E muitas vezes, nem uso o guarda-chuvas não… adoro me banhar na chuva que cai em gotas dimensionais. Isso sempre me arranca sorrisos e me deixa colorida na alma e é assim que encerro minha missiva para você, para nesse fim de tarde, onde o ontem foi um tempo entre aspas me colorir nas cores da chuva.

Amo tu imenso!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Silvana LopesObdúlio Nunes Ortega Claudia Leonardi

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – escrito por uma dama

Bambina mia,

de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.

Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.

Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.

Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.

E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?

E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!

Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Participam deste ptojeto: Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

das coisas breves · Das palavras das cartas

Renasceremos em outra cachoeira?

Ivens,

Eu o conheci através do rádio e juntos dizemos ao mesmo tempo a frase – a vida é tão curta, curta! – e rimos juntos sem conhecer direito um ao outro. Eu não sabia seu nome, mas sabia que era um dos responsáveis por cuidar da minha mãe. Já o havia visto algumas vezes no corredor do hospital e quando falei sobre isso a dureza da dor de ter perdido ela – à época – se transformou em leveza quando me contou sobre o quanto ela sentia sua poesia misturada às minhas.

Eu era uma menina de tranças, olhos sonhadores e palavras simples. Eu era a Lurdinha da Rádio A Voz do Oeste e você já era o Ivens, poeta, médico, cuidador, natureza e Cuiabano. falamos das formigas, das mangas, dos cajus e dos quintais. Das ruas e das estradinhas e de repente, você me fez igual ao olho do homem que vê a natureza tão única.

Fiz tantas perguntaiadas ao longo de outros encontros e como sempre esquecemos de registrar os momentos, mesmo depois do advento dos celulares. Entre uma exposição e outra, um lançamento e outro, uma realidade ou fantasia.

Seu riso largo abraçava antes do abraço e seu olhar nos desnudava diante de sua poesia. E lá estava eu, admirava te vendo imortal… lembro-me de que em meio ao abraço perguntei se imortal não morria e seu riso alcançou minha alma: vive para sempre em suas obras.

A cada encontro eu te perguntava e perguntava e você sempre entre risos dizia: que perguntaiada é essa? E hoje sou eu quem pergunto: quem consolará a solidão de sua ausência?

Sei que você sempre responde entre risos, mesmo que seja para além dos ventos, das asas dos pássaros e dos quintais: a poesia.

Que você seja sempre a poesia viva, moço, seu doutor! Obrigada por tanto ensinamento!

Abraço,
Mariana Gouveia