Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – manias literárias

o afecto dentro da palavra ‘quintal


ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas.
é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal.
Ondjaki

Bambina mia,

Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.

Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.

Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.

Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.

Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.

Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.

E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:


(…)

é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal.
tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.

Grazie mille!
bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso

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O domingo, a partir do dia dos pais.

Pai,

eu sabia que esse dia chegaria e confesso que mesmo sabendo dele não estava preparada para o primeiro dia dos pais depois do seu voo. Eu poderia contar as coisas que me aconteceram nesses dez meses de sua partida, na minha ida ao seu lugar, pai… poderia, mas ficaria triste diante de algumas coisas e sei que você não quer isso.

Estive em todos os seus lugares, pai, na minha ida onde você morava e foi estranho ver em alguns dos seus cantos preferidos as teias de aranhas se formando confirmando sua ausência… os pequenos cadeados enferrujados nos portões. O pé de canela morrendo sem ninguém ter aguado. A horta com os restos de cebolinha e coentro, quase deixando de ser horta. Entendo que as coisas do dia a dia não permite que alguém cuide. Há muito que se fazer , inclusive, limpar o lugar, deixar o espaço vazio para que a vida siga adiante.

Sei que essa data se agiganta em saudades e também sei que o locutor da rádio da cidade não vai mais ler nenhuma carta ao vivo, porque o velho moto rádio se calou. As pilhas descarregaram e não tem nem porque trocá-las.

O nosso ritual nesse dia, era a vídeo chamada para os parabéns, as declarações de amor e por fim o riso de despedida. A partir de hoje, vira história essa data… e é por isso que venho dizer do quanto me orgulho em ter sido sua filha e do quanto aprendi com você.

Sei tanto sobre a lua e suas fases, sobre blues, o sertanejo antigo tocado na velha vitrola e o jeito de semear qualquer semente. Também aprendi a arte da benzedura com você, pai… e a entender os bichos, principalmente, os que voam, porque de alguma forma, você me dedicou desde o nascimento às asas. Sou tão grata por isso!

Eu te amo para além desse mundo e de outros que possam haver.
Feliz dia dos pais!

Mariana Gouveia

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6 on 6 – à mesa…

Em minha defesa, à mesa, com meus verbos expostos, desde a fome aos cacos das xícaras que quebrei… desde o olho do cão faminto querendo migalhas…
ao sonho do livro costurado sobre a mesa.

Bambina mia,

na minha mesa espalho suas cartas e os envelopes laranjas… falar sobre o tema me traz à memória a minha mesa da infância – e já falei sobre isso – sob o pé de sete copas, mas não tenho nenhuma foto para registrar. Mas, se eu fechar os olhos ainda ouço as risadas de todos os irmãos e com alguns passando debaixo da mesa. Em dias quentes, o barulho da faca cortando as ervas em um tec tec antes do almoço. O olho de minha mãe atenta ao ritmo da faca… O controle sobre as cartas, bambina, que escrevíamos ali, na mesa de madeira, que na mudança para cá eu trouxe uma tábua, que se transformou na mesa pequena que me segue desde sempre.

Hoje, minha mesa vira simbolismo nos artesanatos que crio, na mistura do papel sobre as linhas que teço em crochê, nas entregas das encomendas restantes. A mesa cabe a bagunça que a arte abraça.

E como a docilidade atinge meus dias, degusto da fome, da vontade, da leitura e de tudo que afaga a alma.. tudo ali, na mesa que tem coisas da minha infância e coisas atuais. É o que preciso depois de dias difíceis, sem rosas murchando sobre a mesa por falta de água. É o sopro distante da serenidade dos dias onde me cabe. A autora que tão bem sabe de mim e me cede especiarias em palavras.

Sabe, bambina, é a mesa que a família se reúne para as comemorações. Se eu fosse colocar a mesa dos aniversários, dos almoços de domingos, de reuniões de batismos, etc… eu seria crucificada. O olho vermelho da irmã, o bico do sobrinho, o borrão da luz da janela apagando metade da família. Meu olho volta para a mesa do canto, onde os bibelôs – companhias das noites de insônia silenciam – ou não? Fui somente eu que ouvi piados??

O reflexo da luz da rua bate na janela da sala. sou eu quem vejo ilusão na mesa de centro? As borboletas voam na parede da sala. A minha memória guarda as imagens para os dias que não vou poder ver nem na claridade dos dias. O tempo hoje é entre aspas para além dos óculos escuros. Era de mesa que falávamos? Conto sete passos de olhos fechados da sala até a mesa da cozinha… e nove, até a mesa de canto onde os livros para ler esperam… Conto os passos até a mesa de canto do quarto e finalizo a noite, mesmo sabendo que AINDA estou aqui.. no rompante das horas, para os dias que virão.

Bambina, mas em se tratando de mesa… ah, a sua povoa meu imaginário real. Pode isso? Pode sim! Ainda tenho a memória ativa do bolo de fubá no prato, do primeiro livro meu sendo costurado – e nem era cetim ainda.. Lembro-me que mais do que a mesa sob a árvore de sete copas – que serviu de lugar para minha infância e as brincadeiras mil em volta dela – a sua mesa serviu de colo para o meu sonho… o de escrever sentimentos.

Grazie mille!
Bacio,
Mariana Gouveia

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Leve um guarda-chuva, caso chova

Ei, Teresa Maria,

O tempo muda por aqui e se eu te contasse quantas vezes a moça do tempo erra em sua previsão você ia dizer que é brincadeira. Está certo, que de vez em quando ela diz: pode chover a qualquer momento – e isso dito dessa forma me dá várias possibilidades. Mas, o fato é que, o tempo muda e um vento frio surge para os lados do Sul e eu te escrevo nesse fim de tarde, quase noite para te dizer que nada mudou. O medo ainda bate na porta, o meu pássaro de todo dia ainda vem para pousar na mão e os girassóis que plantei, devem dar flores em alguns dias.

O céu está estrelado e eu li no poema de uma moça que adoro que: ” numa noite cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira – sempre entreaberta – uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome”.

E eu não tenho nome para esse tempo de agora. Porque, às vezes, a vida mistura morte e vida, tristeza e encanto e cabe-nos gerir tudo dentro de nós… nem sempre a gente consegue, assim como a moça do tempo não consegue dizer com certeza sobre a mudança do tempo. Em caso de dúvida, leve um guarda-chuva.

Mariana Gouveia

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6 on 6 – The book is on the table

Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.

Bambina mia,

fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.

O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.

Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…

De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…

Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.

Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado.
Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?

Bacio,
Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi Roseli Pedroso

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Das cartas que recebi

Querida Mariana Gouveia,

Extasiada pelos seus clics, fui colher poesia em voo triplo e encantado: farfalha, beija-flor, flor do algodão. Colheitas que prenunciam o inverno, as festas juninas, os aniversários nossos.

Gostaria de dar contas dos dias, um semestre se foi, mas você, sabiamente, alerta: é inútil procurar o calendário. O que que tenho para hoje? Julho.

1º de julho

Mulher alada de Cuiabá, parabéns!

Seu calor imenso chega até nós pela fofura e brancura do algodão no campo e no céu. É um conjunto poético que abraça nossos sentidos e festejam as linhas soltas  que  colhi nos cadeados abertos. Carícias que a palavra provoca. O dia que amanhece nas pétalas da flor de algodão anuncia a maciez da alma.

Flor de algodão no quintal de casa flagrada por mim

Durante o dia ainda é possível captar a presença da lua minguante. Uma fatia  ainda é visível antes do ciclo lunar virar e a lua nova  invisível reinar, marcando a lunação em Câncer.   O sul sopra clima instável. Sofre com as influências lunáticas assim como nós. Netuno retrógrado vem aí. Cadê coragem?  Sob o portal de introspecção, recolhimento e proteção, criaturas como você me alentam.  Energia que brota e fortalece laços afetivos,  criando ambientes acolhedores. Sou grata pela sua companhia divina e inspiradora.

Chorei ao ler a carta ao seu pai.  Sou menina que vim da roça, lembranças vivas da brancura árdua. E as saudades presentes daqueles que amamos. Em 3 de junho último minha mãe fez 80 anos, o primeiro aniversário dela em outro plano, faz oito meses em que a linha é direta com o universo nem preciso mais de dia especial, você registrou tão bem!

Lá longe o pai na lida, na roça de algodão,  maciez branca a perder de vista. Direto do blog https://gouveiamariana.wordpress.com/author/meggouveia/

E a Terra se alimenta dessas vibrações porque  em terra fértil em se plantando dá. O fruto espalha a vontade das sementes. O trevo floresce junto com os hibiscos.  Agradeço às mentes brilhantes que me cercam: sementes que brotam ao sol, cravei no meu livro ensolarado Mulheres que voam.  Um vínculo que a Scenarium Livros Artesanais nos proporciona ao espalhar nossos sonhos.

Assim fico-estou-sou encantada pela sua magia que nos move, obrigada! Você avermelha o mundo porque é parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pelo dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca. Comovente isso.  A pele com fios e letras soltas… já sinto que a prosa vai render para outra carta.

Abraço de três voltas pelo aniversário!!!

Rozana Gastaldi Cominal

Algodão celestial que nos protege apesar dos ventos indesejados. Imagem de Mariana Gouveia

P.S.
Repito que também sou abençoada porque meu quintal  aqui em Hortolândia, interior de São Paulo, vibra com o seu. Continue voando e espalhando liberdade, Mariana querida.

Afetos · Das palavras das cartas

É preciso ter asas…

quando se ama o abismo
Nietzsche

Jean,

será que de onde você está o tempo passa tão rápido como aqui? Parece que foi ontem que eu te escrevia num dia como hoje. Como prometi, vou te escrever em todos os anos para falar da falta que você faz aqui. Em tudo.

Fico olhando seus irmãos e me pego imaginando como você estaria. Já teria filhos, já havia conseguido realizar o sonho de viajar para fora do Brasil? Nas fotografias tiradas em família, fica sempre um vácuo onde seria seu lugar.

Sempre penso em você quando ouço as canções que você mais gostava. Arrisco-me a colocar para tocar o Charlie Brown para tocar no aplicativo de música. Te sinto bem perto de mim quando faço isso.

Quando converso com sua mãe sobre você lembramos de anjos… e de asas e também de nossa última conversa. Você era o menino que gostava dos abismos, dos voos loucos e eu espero que você esteja muito bem e em paz.

Feliz aniversário!
Mariana

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6 on 6 – Sunsets

Devia espreitar a tarde onde o sol morre para nascer em algum lugar fora da minha visão.

Bambina mia,

já se tornou rotina te escrever no dia 6 e embora o foco do projeto seja as fotografias, não posso deixar de te levar pela mão e mostrar o céu do meu lugar, em sua forma mais bela que é quando as cores da tarde se juntam com as do crepúsculo em um caso de amor.

Já falamos muito sobre essas horas e também sei que são as suas horas favoritas – tanto as horas em que as manhãs chegam e te abraçam e as horas bruscas que acontecem do dia pegando a noite pela mão – e você sabe, bambina, que meu lugar é conhecido pelo calor e pelo sol abrasador, embora, nos últimos dias a tarde tenha se fechado com temperaturas mais suaves e a moça da previsão continua alertando para os perigos da baixa umidade por aqui… mas, é ali, quando a cortina vai se fechando que meu olho busca o céu.

Durante a caminhada no fim do dia é que me transformo em solar. Em cada direção que olho, o sol se reinventa tanto que busco nomes para esse instante e não encontro. Parece que sempre é verão, mesmo com o outono rondando ainda por aqui. E a natureza se enfeita com os raios solares como se estivessem se vestindo para uma festa.

E mesmo sendo outono, e ele se mostrando tão desenhado no meu quintal, eu viajo para outras estações e te mostro, com dedo apontado em riste: vês? olha o avião! Já te contei que eu percebi que mudaram a rota dos voos? Pois é! Agora eles passam em linha reta no meu lugar e cruza o quadrante do muro como se viesse trazer notícias suas. Alguns passam tão baixo que dá para ver a numeração da aeronave. E quando isso acontece canto Calcanhoto e sua versão linda da música Inverno:

No dia em que fui mais feliz,
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

Depois que a melodia acontece aqui, abro os braços, como já te contei tantas vezes e penso nos sons dos “seus” aviões que passam sob seus olhos…

Bambina, o sol daqui é um caso a parte… ele se transforma em personagem principal quase todos os dias. Você já sabe onde sento nas minhas tardes, pelas conversas que temos e sabe que meu quadrante dentro dos muros faz com que minha visão dessa hora seja limitada e atrevo-me a pegar a câmera e caminhar para além da rua de cima e ali, faço a despedida diária do astro maior que predomina aqui.

Sabe o que eu mais queria te mostrar quando viesse aqui? Esse céu de outono onde as nuvens se esparramam como se fosse me abraçar. As nuvens abraçadas pela luz parecem sorrir. É claro que tudo isso acontece sob meus olhos admirados e sabe, bambina mia, mesmo que eu veja isso todos os dias serão sempre com olhos de admiração e espanto que essas imagens farão esses efeitos em mim. Até mesmo quando não há uma única nuvem no céu, nessa hora, o espetáculo se apresentará único todos os dias. E era essas imagens que eu queria te mostrar hoje. Vens?

Bacio,
Mariana Gouveia
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Afetos · Das palavras das cartas

Das andanças, das metáforas, do amor

Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome.
Al berto

Amor,

às vezes, dentro dos meus silêncios, percebo sua espera por mim… acho até que já te falei disso e de quanto o universo me abençoou colocando você em minha vida. Você espera por mim enquanto escrevo, enquanto fotografo, enquanto cuido das tarefas da casa…

Mas, também, dentro de minhas cantorias e voz, você é chegada e colo. Por isso, te escrever no seu dia é reavivar os nossos instantes e reafirmar meu amor. O seu amor pelos animais, o olho apurado ao perceber coisas novas nos lugares para me mostrar e sua companhia sempre constante.

Quando você chega e seu sorriso abraça a casa inteira eu percebo que a felicidade existe só por você estar aqui, ao meu lado sempre. Nossas andanças nos levam sempre para o mesmo caminho, nossas palavras, nas metáforas que só nós criamos e sabemos que existe e no amor que cuidamos como uma flor rara.

Te amo sempre e muito!
Feliz aniversário!
Mariana

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

Hoje é o primeiro aniversário seu sem você por aqui. De repente, percebo que não vou poder mais enviar a carta para o locutor da rádio local ler para você nesse dia. Posso eu mesma ler em alto e bom som por aqui.

Agora, a linha é direta com o universo e nem preciso mais de dia especial. Várias vezes, me pego te perguntando sobre coisas que só você sabia me responder. E nem vou saber mais sobre a colheita do algodão. Nem de sua fala dizendo que o campo parecia um véu de noiva de tão branco.

Aqui, as coisas continuam iguais você deixou. Ainda irei juntar as memórias, as malas antigas, as fotografias e passear pelos lugares que a gente já foi juntos. Guardar o ferro de passar, o moedor de café e a xícara esmaltada que você tanto gostava.

Eu sigo firme por aqui, pai… embora cheia de saudades… que seu voo tenha alcançado a paz dentro de sua fé.

Te amo sempre!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia