Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 11 — *O som da xícara de café sobre o pires

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bia,

a tarde corre ligeira por aqui e um vento morno briga com a estação das flores. Logo será verão e aquela história da bolha de calor por aqui, ainda não passou. Li sua carta enquanto bebia o café da tarde e buscava imagem para o texto de hoje.

As suas palavras foram como um abraço além do outro lado do mundo… parece que foi ontem que eu te alcançava na rua de cima e contávamos estrelas na calçada alta… lembra-se? Ainda me lembro de sua risada cozinha afora enquanto preparava a mesa, com a xícara transparente e seu pires no formato de coração.

A vida é engraçada, Bia… de todos os sonhos que você tinha o mais impossível aconteceu. Hoje você cruza as ruas de Tóquio e me traz lembranças de Kaori e Seiko e com isso meu coração se enche de ternura. Recebi a foto da cerejeira do lugar onde eles fizeram morada e sabe, Bia, ter você aí tão perto dela e dos seus me faz sentir a leveza da vida que sua avó viveu.

Ph: Sakura

O café esfriou, a noite chegou e eu tenho de ir ali, cuidar dos olhos. Logo a gente se fala e diante de todas essas levezas e saudades te abraço.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 09 — *Alcanço o balanço… plantado no quintal de casa.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Bambina mia,

não tenho balanço no quintal, mas já tive, assim como você, lá na infância e via o mundo do alto quando chegava minha vez, depois dos outros irmãos. Acho que para mim era diferente do que para eles. Eu voava até bater o pé no galho da mangueira e meus pensamentos voavam para além da estradinha que serpenteava o rio.

Depois disso, o balanço se transformou em memórias gostosas que sempre arranca risos em conversas com os irmãos, quando lembramos dele. Dessas memórias me lembro do cheiro da malva seca e do cheiro das flores de manga… e em nossas conversas o balanço – teu, lá da tua infância – sempre me causa ternura. Já reparou como nossas histórias se atravessam? Como agora, onde um desvio no meu quintal me leva apara o seu.

Acho isso lindo, assim como acho lindo quando nossos pensamentos se ligam à tempestades ou chuva mesmo – e garoa – e a lua e os poemas… o sabiá laranjeira, o beija-flor e até as farfallas…eu não saberia explicar e nem quero… quero apenas sentir essa conexão com todas as cores da inveja – ops – assim como o vento, as folhas, a madrugada e as canções de Léon.

Quando meu quintal invade o seu acho a mais extraordinária das aventuras. Quase sinto o cheiro da flor de maracujá, porque o canto dos pássaros consigo ouvir quando falo com você.

O ipê não comporta um balanço, senão já plantaria um só para te alcançar plena de voos, mas alegra-me saber que agora acorda com os pássaros como eu e o chá de hortelã que faz para tu e o tuo bambino também chega até aqui na doce forma de compartilhar.

Aceita um xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  08—  *Esquecida nos adjetivos que desenhei no poema do teu caderno vazio

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ana,

às vezes, só às vezes, eu esqueço do combinado e volto a pensar em você… hoje mesmo, a lua está divinamente ligada à Marte em linha reta e não teve como não ligar você e o universo pleno de memórias suas.

Já te contei que te vejo nas minhas ruas e até te chamo pelo nome para depois descobrir que era apenas alguém parecido… uso a desculpa do olho em conserto para não usar a vontade do coração. Soletro seu nome duas vezes seguidas para justificar essa ausência.

Como regular a saudade no corpo, Ana? Como esquecer dos poemas que declaramos juntas e que não coube mais na sua letra em memória de mim, feitos ainda em um testamento falso de que apenas isso finalizaria uma história dividida entre dois países, em um caderno vazio… dentro das ruas e vilas que você me levava pelas mãos mundo afora.

Em tempos de remake, a nossa história virou um livro… dos mais lindos e eu fiquei por dias na soleira da porta te esperando para te contar… mas, o silêncio, esse vazio no universo todo parece o poema do teu caderno branco e não houve ecos, mesmo que eu gritasse.

Foi assim: você nunca mais regressou e eu deixei recados escritos às pressas para caso você voltasse, mesmo sabendo que não… por isso, Ana, leva com você a canção que cantamos juntas e que esqueci a letra, leva também as manhãs mornas e deixa comigo só a lua e suas fases inconstantes, assim como essa saudade, as lembranças e a poesia.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quinta, 07 — *São vigilantes discretos, prendem os pesadelos no embornal até o nascer do sol 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Dine,

hoje lembrei-me tanto de você pequena… vasculhei as fotos e te envolvi no mais puro amor… aquele amor de uma mãe que não pariu a filha, mas sabe-a no coração.

Choveu o dia inteiro e confesso que daria tudo para tirar de você essa dor, esse medo, esse mal. Não posso, Dine… Mas dentro de nossa fé sabemos quem pode pegar tudo isso com as mãos e transformar em aprendizados e certezas. Milagre é uma palavra que existe em nosso dicionário e nós acreditamos nela. Acreditamos em Deus e em anjos.

Alguns anjos não dormem… são vigilantes discretos. Não tiram as dores, nem conseguem mudar o curso do destino… mas guardam os pesadelos noturnos em embornais para o amanhã acontecer em alento. O amanhã será sempre feito de renovação, de esperança.

Sei que essa nova caminhada será difícil… e que os caminhos serão tortuosos, mas também sei que você terá tantas pessoas te apoiando e caminhando junto com você… a gente – todos que te amam – estarão em todos os instantes te envolvendo no mais puro amor e tudo será mais fácil.

Você conhece o sinônimo da fé e do quão poderoso é o Pai. Ele não abandona os filhos e em momentos difíceis Ele nos carrega nos braços. E com fé nessas palavras, já te vejo curada e bem.

Te amo sempre!
Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quinquilharias

Quarta, 06 — *Só pensei nas delícias dos nossos dialetos.
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Bambina mia,

desde que li a palavra quinquilharias para o desafio do projeto fotográfico 6 on 6 fiquei imaginando como a palavra me alcançaria e claro que tive que aproveitar o projeto do blogvember e transformar dois em um. Então, bambina, só pensei nas delícias dos nossos dialetos intercalando entre nossos quintais. Quinquilharia é uma das palavras que mais gosto… acho lindo a sonoridade assim como acho lindo essa nega maluca e os tachinhos de cobre que eram de minha bisavó, depois de minha mãe e agora são meus. Estavam em uma caixa guardados entre outras quinquilharias e limpei para a foto. Vai me dizer que o latãozinho de leite não é lindo!!

A minha coleção de conchas, que ganhou morada em um vidro no fundo do armário também fazem parte do meu acervo de trecos e quinquilharias. E tenho certeza – ok? – de que você concorda comigo de que nossos baús, caixas, gavetas e vidros e dialetos não se maravilham em manhãs de diálogos e instantes, dentro das palavras que escolhemos e gostamos.

Mas, bambina… pasme! Na caixa de papelão com os “relicários” da família sob meus cuidados – ou quase – achei essas armações que eram de um ex cunhado… e que serão devidamente devolvidas amanhã. Foi um achado mesmo, e nem sei como vieram parar na parte obscura do baú… Essas sim, ganham a versatilidade do nome quinquilharias…

Entre as minhas lindas-tristes tralhas velhas estão algumas encomendas que as clientes nunca vieram buscar, do século passado – ohhh!!! – e parte do acervo do curso de artesanato que dei para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ganharam abrigos no canto do baú e volta e meia algum deles consegue ser adotado como presente para alguém.

Sabe, bambina, não vou negar que minha quinquilharia preferida é essa mala. Era do meu pai e para evitar brigas, antes que ele partisse me deu, porque sabia do meu amor por ela. O forro interno ainda é o tecido original. Data de antes de eu nascer… A mala deve ter carregado sonhos, as camisas de linho de meu pai, o embornal que ele levava nas viagens para a cidade para trazer pão e tantas saudades. Eu sempre a disputei entre outras quinquilharias que ele prezava como tesouros. Hoje, ela guarda memórias, que também fazem parte das minhas quinquilharias e se misturam com as suas em um dialeto só nosso.
As bonecas e principalmente, a Frida, eu que as fiz… lá em meados de alguma adolescência e ficaram guardadas como modelos. Dormiram até ontem na mala quando as acordei para a foto.

Essa bandeja simples traz o início de uma menina que sonhava em escrever e levar as palavras mundo afora. Debaixo do pé de sete copas, a menina aprendia a emoldurar palavras, tecer linhas e escrever sonhos. Talvez, o universo já havia preparado tudo para que a minha rua cruzasse com a sua e os nossos quintais se interligasse da melhor forma, dentro do cuore.

Ti voglio bene!
Amo tu!
Grazie per tutti!
Mariana Gouveia
Post parte do projeto fotográfico 6 on 6
Lunna GuedesClaudia Leonardi Obdulio Nuñes Ortega – 
Roseli Pedroso – Silvana Lopes
e BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Terça, 5 — Acordar dentro dos dias limpos pelos raios de sol

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Kha,

depois de tanto tempo, escrevo-te novamente. A gente se sabe dentro de silêncios, mas de vez em quando inventamos esses diálogos escritos em manhãs de sol ou noites estreladas. Quero dizer que estou com saudades.

O tempo aqui parece ter as mesmas asas dos teus pássaros e ontem vi um arco-íris que se formou para os lados do sul e salvei essa alegria para te contar. Mas hoje, o sol aquarelou o amanhecer em nuances que te faria dançar. Sei disso, Kha, porque li você em um verso dourado dias atrás que as aquarelas do sol dançam em seu corpo e agora quando vejo elas se formarem lembro-me de você.

Não há nada mais bonito que um sol nascendo, Kha… você afirmou isso para logo depois dizer que não havia nada mais bonito que uma noite de lua, ou nada mais bonito que o silêncio da madrugada ou a algazarra dos pássaros no amanhecer… cheguei a conclusão das belezas que te rodeiam em grau, números e gêneros de bonitezas… Descobri que é você o lugar mais bonito do dia.

Sabe, Kha, saudades são abraços, você os diz bem e essa carta serve para esse abraço além mar.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 4 — *Eu me apego aos pequenos ruídos familiares.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bença, Pai,

Hoje me peguei revirando as fotos antigas do baú. Já faz mais de um ano que você se foi e fiquei com aquelas perguntas que a gente fazia um para o outro e que a gente mesmo sabia que não tínhamos respostas… Será que hoje você teria?

Você já viu a chuva daí, pai? E um arrozal pronto para colher? O cheiro do cafezal é o mesmo que o daqui? E o vento, pai…ele surge por esses lados daí? Às vezes, me pego pensando em cada pergunta que eu faria se pudesse. Mas, acho que a primeira seria sobre as estrelas. De que tamanho são? As cadentes são mesmo por causa de crianças brincando aí, nesse céu de meu Deus?

Será que você encontrou minha mãe e a abraçou como antes você fazia quando chegava da roça? E o Manoel, pai… já o encontrou com um capim no canto da boca? Tem capim aí? É verdade que o cheiro daí lembra o campo dos girassóis?

Sabe, pai, aconteceram muitas coisas depois que você se foi. Encontrei meus irmãos e caminhei de novo pelo sítio em despedida. Bebi o leite no curral que o Tuca tirou e fotografei vários cogumelos gigantes… até um tatu apareceu e permaneceu nos arredores até o dia que vim embora. Também comi a comida feita no fogão de lenha e ouvi pela primeira vez o som dos vagalumes em uma noite escura, pai… Gravei para Lunna ver e chorei sozinha para além dos currais.

Também ouvi de novo o riacho em sua cantilena alcançando as margens… de longe, os risos das crianças de agora, brincando de esconde-esconde. São esses ruídos, pai, que renovam minhas energias em momentos de saudades e de solidão. Você sente solidão por aí? Dá pra tomar o seu café igual era aqui?

Vou guardar as coisas no baú, pai e seguir a rotina do dia… Sabe que comecei a escrever essa carta hoje cheia de perguntas, porque de repente me perguntei onde você estaria. Acho que um dia, eu descubro essas respostas.

Beijo,
sua filha
Mariana

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 3 — *Tiro cada pensamento de lugar para construir uma nova ideia.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Luci,

Você disse que “Os capítulos bons da vida são sempre os mais curtinhos…” e em parte, concordei com você. Tenho tido alguns momentos curtinhos bons. Mas, em geral, acho que pertenço a um espaço maior. Horas cheias de conversas com minha bambina, um tempo longo conversando com as plantas e sabe, Luci, isso está me salvando depois de tantas perdas. Percebi que estou parada no tempo e depois de alguns meses pude começar a escrever de novo e hoje li você, assim de relance mesmo, para caber nas ideias novas que o pensamento pediu.

Quando você falou sobre ruas estreitas e suas lâmpadas acesas, em vez de abandonos, eu vi recomeços, reencontros e te vi um pouco no deus da sua escrita – fica desenhando inseto e flor, rabiscando as paredes do céu, perdendo sua eternidade confortável com as aranhas que moram no canto da sala. Seus domingos compridos – e eternos – emendam-se às segundas-feiras e Ele não termina nada que começa, porque tudo é eterno no tempo de Deus. Pega seus livrões e escreve à mão umas coisas a acontecer. Olha pra fora e continua a ser Deus das aranhas, das flores, dos insetos… – e acho que ele existe no meu quintal, que agora ganhou uma extensão em um bairro comum de São Paulo, Luci… eu queria te contar isso.

Os pássaros azulzinhos – sanhaços – que voam aqui cabem lá no quintal da minha bambina. E não é só isso não, Luci… as farfallas – como ela diz – sobrevoam as flores do maracujás de lá e até um casulo ela fotografou. Foi quando eu pensei que os desvios do meu quintal criou essa rota para não sentir mais nenhuma solidão. Hoje, até um beija-flor apareceu. De tão feliz com isso, dancei.

Os sabiás, Luci… os daqui ganharam uma piscina feita de uma saladeira colorida que nunca usei de verdade para saladas. Você nem imagina a festa que eles fazem – e claro, que brigam também pelo espaço. E lá no outro quintal, para além dos quilômetros que nos separam, eles também se expõem em cantos e voos rasantes, entre fugas de gatos.

A vida é assim, Luci… cheia dessas delicadezas e afetos… deve ser para compensar algumas coisas que acontecem fora de nosso controle. Como agora… o sol se encosta em tons de despedida nas flores do meu lugar, mas lá, já anoiteceu. De suas palavras, veio a nova ideia e te escrevi… fiquei pensando em como você tira os acentos da melancia… eu não tiro nem as sementes. Acontece que para mim, os dias aqui sempre começam com o buongiorno dela e termina com o bacio. Te escrevi só para te dizer isso. Mas, já adianto que ela também vai ler sua carta., porque acho belo isso e como você mesma disse: A beleza é um momento de desatenção.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Páginas de livros

Bambina mia,

o calor abrasador transforma minha cidade em um lugar infernal. Como você já sabe, estou impossibilitada de escrever devido alguns procedimentos em meus olhos e já faz algum tempo que não leio nenhum livro. Portanto, as fotos aqui já foram feitas há algum tempo. E claro que eu vou usar mais as páginas dos meus livros.

Eu ainda fico boba quando vejo meus livros publicados e quando tiro uma ou mais fotos deles – e ou de alguma pagina específica – repito a pergunta de sempre: fui eu mesma que escreveu isso?

Claro que amo fotografar as páginas de outros autores… e misturo-me nos poemas como se fossem meus.

Mas devo dizer que além dos poemas, poesias, prosas o que a Scenarium nos proporciona além do livro costurado em fitas de cetim, as gravuras transformam as páginas dos livros em arte pura. Gosto muito disso!

Eu já te contei que a primeira página que li de um livro veio avulsa nos livros que a gente recebia de doações na fazenda. Ainda me lembro da história… nunca consegui encontrar o nome do livro. Um dia, conto sobre isso.

Bambina, de todas as fotos de páginas que vi por aqui e escolhi ao acaso, as que recebi de leitores, com marcações especiais me comovem. Não poderia deixar de colocá-las pelo menos duas aqui.

Você pode imaginar como mio cuore se fez feliz por causa dos cuores desenhados na fotografia da página… é ou não é uma doçura? Para uma escritora, isso vale muito mais do que qualquer prêmio. E devo isso à Scenarium e a você. Grazie por tanto!


Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Nunca mais regressaste a casa 

Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
 Eu fiquei sentado na soleira da porta à espera 
da cura. Brincava ocasionalmente com o fogo, 
porque era a tua voz que me trazia o outono, 
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica 
da extinção das espécies. 

  Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente o teu regresso. 

 José Rui Teixeira

Mãe,

mais uma vez eu conto os anos e venho dizer do tempo que voa… sabe, já faz uma vida inteira que você se foi e confesso que em dias como os atuais não me acostumei com sua ausência – nem sei se um dia vou me acostumar.

Hoje fiz os biscoitos de polvilho e ficou tão iguais aos seus que liguei para cada um dos irmãos – erámos sete, mas hoje, só temos seis vivos e um está em um lugar que não tem como ligar – que consegui para contar. Uma das minhas irmãs me disse que havia feito de chá de canela e louro e a gente riu junto chorando… você sabe como somos bobas quando falamos de você.

A outra, falou do barulho da máquina de costura e de como aquele som soava para a gente como uma canção. E um dos irmãos disse que olhou a fotografia na carteira. Pareceu, mãe, que estávamos em sintonia em seu nome, em lembranças e em amor.

E de repente, enquanto falávamos sobre tudo isso… choveu. Depois de mais de 160 dias sem chuva, choveu e ficamos ali, um junto do outro em enlace ao seu nome. A chuva do caju sobressaiu em cada conversa e contei também das sementes do meu ipê que se espalharam pelo quintal inteiro.

Acho que era só isso que queria te contar, mãe… da saudade que ainda reina por aqui, do vazio de sua presença em nossas casas e do seu regresso que nunca aconteceu.

Te amo,
Beijo meu

Mariana