Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi.

Ph: Luciane Recieri

Mariana,

Eu passei horas buscando e descobrindo coisas a fazer nesse intervalo que, antigamente, tratavam apenas como férias.
Não sabendo lidar com tanto tempo, pintei paredes entre amarelos ocre e brancos padeiro (que não sei bem a diferença), pintei também portas e janelas, a mobília que andava cansada, além de retocar o passarinho e as letras da palavra correio, tão em desuso na era da não-escrita.
Mas não foi apenas trabalho meu ócio: tomei muitos cafés do lado de fora e fui à praia de ônibus, estendi a rede para ler ou olhar o céu, cousa que há tempos não fazia, visitei pessoas, dancei, cantei, celebrei e fiz surpresas para mim e para os outros.
É possível esticar o que faz bem e digo – sorrindo para mim – que lixar uma parede e deixá-la lisa como uma folha de caderno pode ser algo prazeroso, ressuscitar o passarinho da caixa de correio é bem maior que só retocar o fosco, replantar e plantar e ver brotar é algo vibrante!
Feito isso do meu tempo, lembrei de você dizendo que pertence aos espaços maiores dos bons capítulos da vida, pois bem, esse capítulo com o título “Férias” que os mal-amados chamam “recesso”, não foi tão longo quanto nossa humanidade necessita, mas de sentir a delícia de ter um tempo meu, das paredes, de falar com meus botões, de largar tudo e ir ao cinema, viajar de ônibus beirando o mar…
Era só pra lhe deixar tranquila ou feliz, Mari. Queria dizer que ando aprendendo a esticar os capítulos bons, mesmo que nem pareçam ser.


Com amor, Lu. 

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das tardes amarelas do meu quintal.

Bambina mia,

Agora a pouco choveu e a tarde que se desenhava nublada, de repente, amarelou. Eu já havia dito que o meu pé de ipê é brincalhão e não obedece de jeito nenhum as estações. Em pleno outono ele deu para florir de novo.

O ipê me lembrava sempre minha mãe, por causa de coisas que vivi na infância e as canções que remetia à flor ouvidas no velho motor rádio, mas agora, o ipê também me lembra você e sei que é recíproco. A gente atravessou 2024 para 2025 e de repente foi como se tivéssemos atravessado um século inteiro e o último mês pareceu uma eternidade… Falamos isso por telefone e é estranho retomar o caminho da escrita, ainda com a mobilidade reduzida, mas precisava te seguir nesse abril, para que mesmo à distância – mesmo com tantos te rodeando – você não se sinta sozinha.

Sabe, bambina, não preciso dizer do quanto quis atravessar nossos quintais e ficar em silêncio ao seu lado e nem de como nossas dores couberam uma dentro da outra… tentei te mostrar o lado de cá para te aconchegar no meu carinho do lado daí. Não consegui sair desse quadrilátero que se forma aqui, nem ver os planetas todos alinhados, mas vi um vagalume e chamei seu nome e grito ele bem alto quando trovoa por aqui.

É assim que a gente se encontra e se busca nos ritos entre nossos quintais… é assim que consigo te encontrar no meu cuore cada vez que penso em você… é assim que a gente fica esperando o amanhã,… queria estar junto, ao alcance das mãos, mas como a poetisa que vive em mim diz: e quem disse que é preciso estar juntos… para estar perto?

Bacio
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meu quintal

Bambina mia,

E chegou o último 6 on 6 do ano e o tema ganha meu coração, você sabe bem. Quintal me traz a palavra afeto e calma. Eu poderia te escrever mil cartas sobre meu quintal e retratá-lo em mil fotos também. Tenho muitos quintais dentro do meu quintal e te ofereço todos os dias um pouco deles. Há o meu quintal das borboletas, das joaninhas, das flores e suas trepadeiras exuberantes. Das aranhas fiandeiras, das rachaduras no cimento e até mesmo do muro que o cerca

Mas hoje, dou-te os meus pássaros – que você conhece tão bem – e seus voos ou pousos, porque afinal de contas o quintal é a morada e o desvio deles. É no meu quintal que meu pássaro de todo dia nasceu e escolheu morar. Chiquinho é esse habitante desse espaço cheio de flores plantadas para ele, além do seu bebedouro ficar sempre a disposição.

Sabe, bambina, algumas histórias e pássaros nos ligam… a gente já falou sobre isso e quando amanhece aqui, meu quintal recebe os pássaros famintos que vêm apenas de passagem. É como se meu lugar fosse o espaço para eles se apresentarem em cantorias e voos, além da comilança das frutas e rações que deixo para eles.

As muitas das nossas conversas acontecem no meu quintal, debaixo do pé de ipê, perto dos fios dos varais onde o bem-te-vi busca a segurança antes do voo para a árvore que abriga seu próximo ninho. Você se lembra de que eu te falei sobre o afeto dentro da palavra quintal, que li em um blog dias desses e dentro desse afeto você agora tem um quintal também e isso me enche de ternura.

E sabe o que é mais bonito em você ter um quintal para chamar de seu? É que a gente faz essa transição entre meus pássaros e os teus, minhas flores e as tuas, meus ventos e até minhas chuvas se interligam nas suas… O bem-te-vi cata aqui e em nossa conversa, o seu canta aí… e claro que entre o meu e o seu poderia ser rodeados de aspas, porque quem tem um quintal possui a liberdade plena de ver a vida ali, entre voos e uma folha caindo… a flor de maracujá se abrindo para no dia seguinte o fruto surgir.

Mais um quintal é sempre cheio de surpresas, bambina… seja nos pássaros novos que surgem, talvez trazidos por outros pássaros, ou mesmo seguindo a rota dos desvios que atravessam meu quintal, seja pelos rotineiros que trazem um galho para a feitura do ninho.

Ah, bambina, e você sabe que do meu quintal, um dos momentos mais felizes são os banhos do sabiá laranjeira que te mando em vídeo quase todas as vezes – lá vem mais um dos vídeos de Mariana… você deve pensar! Ainda há muitos pássaros para te dar, mas aqui só cabem as seis fotos… mas esses são os que te ofereço para além dos muros e de cada quadrilátero onde denomino de meu. É aqui onde me caibo nessa transição entre meu e o seu quintal para te derramar o afeto que a palavra me abraça.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas

Sábado, 30 — *o vento estava impossível e disposto a provocar tumultos.

Su, minha menina nuvem,

nossa, amanhã, já é dezembro de novo! A gente sempre repete todo ano que o ano voou… mas 2024 veio vestido de vento e causou um imenso tumulto aqui e sabe aquela frase que virou meme- que não me lembro de quem é agora – de que a poesia salva? Salva mesmo, Su…

2024 foi um estampido nos calendários, nas conversas com as pessoas e olha que a gente teve um avanço imenso com a realidade do país. Mas era tanta coisa errada de um desgoverno bandido que vai levar muito tempo para que a poesia nos salve de vez.

Sei que sou muito de acolhida, de dar colo de mãe, de unir laços, mas são poucas pessoas que alcançam minha alma de vento. Esse ano fui tolhida dessa leveza que o vento me traz e fui bombardeada pelo vento que causa tumultos para além de derrubar flores do ipê rosa da rua de cima. O universo me tomou pessoas, me deixou em suspenso feito lençol voando no varal… mas eu consegui me segurar.

Deixei de estar em tantos lugares e de ver/ler tantas coisas… logo agora que eu tinha tanto tempo o não pode me fazia querer ser a flor que voava além do muro. Sei que por aí muita coisa também mudou, embora não falamos sobre isso e sei que a coragem também entrou pela janela trazendo a maresia como puro aconchego e é assim que a gente segue… aspirando as flores, acalentando com as nuvens ou aspirando a brisa do vento.

Que a gente consiga sempre fazer poesia, Su… é isso que nos une mesmo com tantos mil quilômetros nos afastando.

beijo meu,

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 29 — *a cidade envaidece inteira com a chegada do crepúsculo.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Bambina mia,

eu vigiei o céu hoje para te oferecer o crepúsculo, nesse dia tão seu. Sei que é o instante que mais gosta e sei também que a cor te toca. Lembrei-me de outros aniversários com você. Todos eles poderiam ser emoldurados e o auguri gravado em fita cassete para ouvir no toca fitas antigo do meu irmão.

Havia uma margarida vermelha na janela e o cheiro do bolo na sua cozinha inteira. Esse dia devia ser eternizado – anotei na agenda. Depois disso, o dia virou saudade nos anos seguintes. Eu ia querer muito caber no seu abraço nesse dia… mas os dias foram se costurando em avessos nesse ano a viagem foi adiada. E como de costume, escrevo uma missiva onde junto com as palavras vai meu cuore para você.

Na parte alta do bairro, onde sempre vou para fotografar a lua em noites de lua cheia eu gritei seu nome, bem na hora em que a manhã quase deixava de ser madrugada para se tornar dia. A última estrela acabou de sumir entre as nuvens e a cidade ao longe se vestiu com as cores crepusculares.

Sabe, bambina, eu ainda me espanto com algumas coisas que nos ligam de uma maneira única que parece que tudo foi traçado antes. Não posso dizer que é o destino, nem acredito em coincidências, mas percebi que nossos caminhos foram se cruzando em esquinas dentro de um passado meu e futuro seu, em fusos que nos fazem rir… e eu adoro ouvir sua risada.

A cidade envaidece com a chegada do seu dia e dessas cores dentro das palavras que você gosta. A meteorologia determina atenção em vários alertas coloridos. Será que haverá uma tempestade em sua homenagem? Te conto em uma próxima carta. De resto, te envolvo no meu abraço carinhoso com todos os desejos de bem viver.

Amo tu imenso!
Auguri!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 25 — *Samambaias despertam em vasos que não lhes pertencem

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ana,

Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.

Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.

Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…

Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…

Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.

E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 23 — *O vento trouxe nuvens, na noite de ontem.

A espera é esse bilhete de papel na parede, o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou. O vento trouxe nuvens, na noite de ontem. A roupa no varal a dançar com o vento. Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil. A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá. A tarde amarelou depois da chuva; lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não o deixou trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada – ele contou – chovia. A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão. Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia. Por um instante, penso que a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 17 — *Os raios e trovões dialogavam com o vento como se estivessem discutindo.

Foi numa noite dessas que ouvi seu chamado.
Parecia assustador. Levantei e fui pé ante pé
para não acordar ninguém.
Apenas o cão mais novo seguiu comigo.
Você rugia como se algo estivesse em perigo.

O cão se aconchegou junto a mim enquanto as nuvens
escuras se agigantavam em cima do meu lugar.
Os raios e trovões dialogavam com você
como se estivessem discutindo.
A sua voz parecia gritar e pensei nos dias em que fico
assim, intolerante ao que me assusta.

O momento me fascinou – confesso – e abri os braço para
também fazer parte de tudo aquilo. Uma tempestade
que nem a moça da previsão do tempo conseguiu prever…
foi quando dançamos juntos eu e você,
sob a canção dos raios
e trovoadas em uma noite insana de abril.

Mariana Gouveia
Último dia, 7
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 13 — *Onde fica o lugar em que o vento faz a tal curva?

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Flor,

Ontem, antes da chuva, eu vi a poesia se compondo em galhos e brincando de vento. Ouvi o céu gritar e rugir como se dissesse ao universo sobre o poder que ele tinha.
Vi os raios iluminarem o céu e lembrei-me dos rituais de minha mãe antes da chuva. Ela cobria todos os espelhos da casa e fechava as janelas. O medo no olho, as orações nos lábios. Também era poesia isso… Vi tantas vezes a poesia nos rituais de minha mãe.
Mas, ontem, eu vi a poesia se compondo pouco antes da chuva, e quando choveu, lembrei-me de você e de como um dia você se fez poesia no meu quintal dançando na chuva. Queria que soubesse que dobrei os tsurus e guardei no pote onde guardo todos os outros que não te entreguei.
Quando a chuva parou as lembranças se foram lá para onde o vento faz a curva e sonhei com você.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais